sábado, 17 de outubro de 2009

O dia em que cresci

Nada destruia mais uma boa reputação do que uma lista de 10 mais. Na verdade, poucos na minha escola sobreviviam a uma listagem dessas. Era sob todos os aspectos aterrorizante a ideia de que todas as garotas que você tentava impressionar exaustivamente poderiam se reunir e, juntas, construírem um rol de características que variavam do mais bonito ao mais feio, do mais charmoso ao mais chato, do mais inteligente ao mais burro, tudo isso, numa listagem que correria os corredores da escola, que se estamparia nas faces dos rankeados (ranqueados?), destruindo reputações, imagens, estereótipos. E construindo outras reputações, outras imagens, outros estereótipos.

O que é flagrante na incapacidade individual e coletiva que temos de nos confrontar com mudanças que nos são impostas. Sobretudo com mundanças naquilo que dizem/pensam de você. Não há nada mais preocupante, sobretudo na lógica de tráfico de influências na qual se fundamenta todo o funcionamento da sociedade escolar, do que descobrir que o que pensam de você não condiz em nada com aquilo que você é. Ou quer que os outros achem que é, o que vem a dar na mesma. Durante boa parte da juventude e princípio da vida adulta não somos pessoas. Somos rótulos. Andamos em bando para que sejamos rotulados. Na verdade, a imaturidade das nossas inconstâncias e pequenas covardias é ridícula. O grande problema é que nessa fase da vida você é aquilo que os outros dizem que é. Ou, corrigindo, o problema é que você acredita que é aquilo que os outros escolhem, decidem que você é.

Mas o fato é que somos todos idiotas, uns mais outros menos, por apoquentar-se tanto com o que pensam e dizem de nós. Só que hoje, depois de crescido, é fácil dizer isso. Difícil era encarar o limiar da loucura nos dias que antecediam a divulgação da tal lista. Era um processo de balão de ensaio extremamente elaborado: poucas semanas antes vazavam deliberadamente o boato que determinada facção elaboraria seu ranking anual. A partir daí todos nós que éramos rótulos ficávamos vazios em busca de informações, saber quais eram as tendências, as cotações. A quem caberia, enfim, o posto de O Indigitado.

Eu não tenho uma lembrança muito firme de todos os rankings que encarei - lembro, isso sim, da tensão envolvida na época em que eles surgiam. O que denota o que todos que me leem já mais ou menos sabem: eu não fazia muito sucesso. Lembro, contudo, esparsamente de alguns. Num deles me classificaram como "o mais engraçado", epíteto este que nunca entendi em virtude do fato de que minhas gracinhas estavam na época muito a frente da vã filosofia do colegial, de modo que poucas eram as ocasiões que arrancava risos. Considerei, não nego, durante um bom tempo que o "engraçado" se referisse, então, não a rir com ele, mas a rir dele. Desnecessário é dizer que a hipótese foi convenientemente varrida para debaixo do tapete da sala onde guardo minhas apoteoses invertidas: as mais espetaculares derrotas e fracassos de Tertuliano.

Mas, via de regra, e mantendo aqui a lisura, integridade e idoneidade que sempre marcam os meus relatos autobiográficos, é que eu conquistava o título de "o mais inteligente". Na época, feio, tímido e esdrúxulo me contentava enormemente com a graça concedida. É aquela coisa de se convencer que, afinal, nem todos podem ser escolhidos como o mais bonito, então é melhor ser o inteligente - sem ser cdf, que era, naqueles tempos um tipo de nerd, só que com outro nome - do que ser o feio. E eu nunca fui o feio, mas isso classifico que não foi bondade ou necessariamente a profusão de corações abalados pelos meus predicados visuais. Foi, tenho certeza, por minoria de votos que nunca ganhei, indisputávelmente, a pecha de o mais feio.

Recordo também da maneira madura, crescida, civilizada com que nós, os indigitados do ranking feminino, reagíamos. Invariavelmente nos reuníamos, e dotados de todo senso crítico, constituíamos nosso escrutínio e nossos rankings. Normalmente um que rebatia o feminino nas mesmas categorias e outro com preocupações todas nossas, a saber: pernas mais torneadas, nádegas mais polpudas, seios mais bonitos (categoria esta que detinha, na época em que brotam nas meninas os seios, o distinto e respeitoso nome de "garota peitinho", mantivemos a tradição, por mais que no ensino médio, em face a generosa proporção em que alguns seios cresceram, não fizesse mais sentido o "peitinho"), corpo mais belo no conjunto da obra, a dupla explosiva "feia-de-rosto-bonita-de-corpo e feia-de-corpo-e-bonita-de-rosto". Existiam mais categorias de análogo jaez que em honra a dignidade jornalística e a minha pinta de bom moço tensiono manter ocultas.

Mas a coisa realmente bizarra desse complexo de pavão, projetar uma coisa que não se é apenas para impressionar os outros, preferencialmente as garotas, é que eu não lembro muito bem das listas. Nem de quem colhia nela os melhores rótulos. Eu não sou capaz de mencionar cinco garotas que eu tentava impressionar para, ano após ano, galgar postos mais dignos na sociedade do colégio. Assim como não faço a menor ideia de quem tenha sido escolhida o melhor par de seios no triênio que compôs meu ensino médio. Ou em quem votei para melhores pernas. Eu lembro turvamente da mais gostosa do colégio e algumas burrices que fiz em virtude disso e que renderão outros "O dia em que cresci", mas essa lembrança eu tenho pelas burrices e pela gostosa, não pelos rankings. Eu esqueci de tudo. Das listas, das meninas e dos caras que eu invejava.

E só hoje, ainda tímido, feio e esdrúxulo me dou conta de como perdi tempo tentando impressionar aquelas vadias, que sob condições normais de temperatura e pressão jamais olhariam pra minha cara, quiçá dariam. De como me senti pequeno ao não ser o fodão da escola e não poder fazer nada sobre isso. De quanto eu poderia ter aproveitado mais a vida naqueles tempos se não me preocupasse com essas coisas. Talvez a garota mal cotada que eu não prestava atenção fosse uma pessoa incrível. Tudo são escolhas.

E sabe o que é mais ridículo? Diariamente tropeço com gente que ainda faz o mesmo. Com gente que se incomoda verdadeiramente com o que a miopia coletiva enxerga. E o pior de tudo, eu também, vez ou outra, tento impressionar alguém.

Só que eu tenho em mim todas as contradições do mundo. E ninguém me desarma: eu tenho sempre a desculpa de ser cínico. E, venho observando ao longo dos anos, o cinismo, longe de ser defeito, ultimamente é virtude.

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