Uma caminhada pela Avenida Paulista, saindo da Consolação, altura da esquina com a Rua Augusta e subindo, ou descendo, aquela que é a via mais simbólica de toda a cidade que encerra em seu seio mais de 10 milhões de almas é algo que sempre me impressiona.
Não saberia dizer a que devo a sensação. Diversos são os fatores que concorrem para isso. Sou apenas um rapaz latino americano, vindo do interior, sem parentes importantes. É evidente, portanto, que uma caminhada no centro financeiro daquele que é o país mais importante do continente, na cidade que é a terceira maior do mundo, acabe sempre me impressionando. O volume de pessoas, de carros. Os sons, o cheiro.
A Avenida Paulista passa despercebida para quem é paulistano de origem ou reside aqui há muito tempo. Não é meu caso. O fausto dos prédios que emolduram a rua, criando a sensação de um corredor polonês de perder de vista dá uma sensação de tamanho muito maior do que sugerem os pouco mais de 2 quilômetros do percurso. As vias largas e quadruplicadas, sempre com um fluxo interminável de automóveis confere uma noção de que não caminhamos simplesmente numa rua importante. Tem-se, de alguma forma, a ideia de que ali pulsa uma artéria.
Começando o percurso, em frente ao banco Safra, temos já o primeiro episódio do passeio. Os bancos estão em greve. E há uma aglomeração de engravatados neste ponto da avenida que renderia uma foto muito interessante. Gente de gravata na rua. E aos montes. O perfil do grevista é sempre o de camisetas com frases feitas, gritos de ordem e ideias malfeitas. Provavelmente, dado o caráter sócio-economico do Brasil, somos o único país onde grevistas podem fazer greve de terno e gravata.
A avenida Paulista sempre esteve ligada a dois traços fundamentais da história de São Paulo enquanto cidade e estado. Poder e dinheiro. A avenida nasceu na esteira das grandes somas que os barões do café conseguiam explorando o fruto do cafeeiro. As principais mansões cafeeiras foram construídas ali. Restam poucas, duas, na verdade. Carecendo de mais cuidados, como tudo que é antigo em São Paulo, elas contam nas suas fachadas corroídas e garatujas desgastadas pelo tempo e descaso, o tempo em que na avenida desfilavam coches, cavalos e gente sem pressa.
Um ponto interessante a respeito das mansões da Paulista é a história daquela que foi erguida pela família Matarazzo. O Conde Francisco Matarazzo é um marco na história brasileira porque imigrou da Itália e veio fazer fortuna aqui, tornando-se um dos principais industriais latino-americanos do seu tempo. Foi na Avenida Paulista que a família ergueu um palacete que, sozinho, ocupava uma quadra. Cogitou-se tombar a mansão histórica como patrimônio cultural em 1989. Pressões imobiliárias de grande proporções, contudo, deitaram o sonho e a História abaixo: em 1996 a mansão foi demolida, dando espaço a um estacionamento pavimentado, que existe até hoje. Restam os muros originais com alguns detalhes preservados praticamente ao acaso.
Lembro do episódio do derrubamento da mansão há 13 anos. De ler nos jornais. Nunca, mesmo naquele tempo, imaginaria que pisaria nas calçadas já naquele tempo largas que apareciam nas fotografias, e mesmo lembrar da história que fez com que aquele terreno fosse um estacionamento. Eu não conheço tão particularmente a história de outros tantos edifícios da avenida e que, dado as instituições que abrigam e a arquitetura arrojada de alguns deles, bem que mereciam o esforço.
Recentemente o terreno foi vendido a construtoras que anunciam que irão ali erguer qualquer arranhaceu, ou arranhacéu, dependendo do conpêndio ortográfico que mais lhe aprouva, distinto leitor. O terreno foi negociado por 125 milhões de reais e dá uma noção de porque, afinal, a mansão cedeu passo a um estacionamento há 13 anos.
Mas muito antes de alcançar o lugar onde um dia se concentrava o poder financeiro e político do maior industrial do país numa época dourada, vale resgatar o fio deste texto. Foi dito que a Paulista sempre esteve vinculada ao poder político e economico. A diferença é que antes este poder advinha da economia real, da bolsa do café, que ficava em Santos e regulava o preço das sacas que corriam o mundo. Hoje o dinheiro e o poder ainda estão na Avenida Paulista, a questão é que os dividendos veem hoje das ações, das especulações, das estripulias financeiras levadas a cabo por operadores de mercado. Em outra porção, há também muito do setor de serviços sediado no corredor da Avenida.
Reflexo do poder financeiro é a quantidade de bancos na Avenida. Há o edifício do Banco Safra. Há três agências do Bradesco, três do Banco Itaú. Duas do HSBC, três do Banco do Brasil, duas da Caixa Economica Federal, duas do Unibanco, duas agências do Santander. O Banco de La Nación Argentina possui sua sede brasileira na Paulista, assim como o Citibank possui dois edifícios, um em cada lado da Avenida. Além disso há sedes de serviços especiais dos bancos, como o Itaú Personalitée, que aproveita o espaço de uma das antigas mansões, o Itaú cultural e outras iniciativas semelhantes de bancos que tais. Tudo isso em pouco mais de 2 quilômetros de rua.
Há shoppings na Avenida Paulista. Dois deles praticamente um em frente ao outro, contando com salas de cinema, cafés, lojas. A Avenida Paulista é impressionante porque é uma cidade dentro de outra. Dentro dela, ou no seu entorno, adotando um raio de duas quadras em qualquer direção, é possível encontrar tudo que uma cidade possui. De hospitais a hotéis.
Seguindo o passeio, desviando do oceano de gente, como se fossem escolhos, recifes deste outro Atlântico, vamos vencendo as vagas e chegamos a outro banco, onde duas pessoas discutem se a greve, enfim, tem mérito e qual é este. Não muito depois, às portas da estação Trianon-Masp da linha 2, verde, do metrô, há 6 músicos tocando saxofone. Do outro lado da rua, um menino sofre com as inclemências de um sol à pino tentando vender guarda-chuvas. A menor ameaça de policiais, ele desaparece. Comércio informal em áreas privilegiadas da cidade é perseguido ostensivamente. Na 25 de Março, viva as hipocrisias, corre solto.
Outro ponto físico interessante da Paulista é a sua dimensão subterrânea e aérea. Pelos subsolo correm os trilhos da linha verde, com as estações Consolação, Trianon-Masp e Brigadeiro. Nos horários de pico descarregam e carregam trabalhadores de todas as graduações em turbas compactas e difusas. No metrô o almofadinha engravatado e o zelador do edifício mais importante convivem confinados nos esguios vagões das composições elétricas.
Outra dimensão que não pode ser esquecida é a aérea. São Paulo dispõe, por força do trânsito caótico, a segunda maior frota de helicópteros do mundo, ficando atrás apenas das equipagens que atendem Nova Iorque. CEO's descem e sobem ignorando as inclemências do trânsito, as calçadas, durante todo o dia. É como se a Avenida fosse mais que uma rua, via, que uma condensadora de dinheiro e poder. É como se fosse o destino, a referência. Os helicópteros vem e saem o dia todo, incessantemente. Alguns metros abaixo do asfalto os trens se revezam nos dois sentidos das linhas a cada 90 segundos, carregando no bojo pessoas e mais pessoas. Acima, no nível das calçadas, além dos transeuntes e dos carros pela rua, uma onda interminável, quase como uma fila, de ônibus descem e sobem incessantemente as ruas.
Um marco bastante conhecido da avenida é o MASP. O Museu de Arte de São Paulo, que atrai exposições importantes o ano todo. Que no espaço sob a área principal do prédio, chamado de vão-livre, pessoas que consomem e convivem com a arte. Manifestantes, agitadores políticos, militantes de movimentos sociais, gente, gente, gente. O vão-livre é um ponto de encontro de todo esse pessoal.
Exatamente do outro lado da avenida existe o Parque Trianon. Um pequeno espaço de área verde dedicado pelas senhoras das adjascências para a prática de caminhadas. Dada a alta concentração de renda dos bairros que são divididos pela Paulista, Jardins e Boa Vista, considera-se que são vizinhas da Avenida e devem ter testemunhado boa porção de sua história. É, também, nesta altura que acontece a chegada da Corrida de São Silvestre, realizada sempre na tarde do último dia do ano.
Passado o museu me deparei com algo que, provavelmente, dá sentido a todo este texto. Me senti o serendipitoso Gay Talese. Me deparei com um pequeno contigente de funcionários da prefeitura, armados de cinzéis com cabos compridos raspando o pavimento das calçadas para remover chicletes cospidos em tempos imemoriais por ali. Nunca tinha visto nada assim. Aproveitei a parada, fui até uma das muitas bancas de revistas que abundam em todo o percurso, e comprei um suco.
Continua (revisões e enxertos a serem feitos)...

1 comentários:
Continua isso, caramba!
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