Bad trip de adolescência e, não mais que de repente, eis que estava eu, fardado como escoteiro, e logo depois, como chefe de tropa. Da tropa Leão. Eu era o fodão da tropa Leão que, no grupo de escoteiros da minha cidade, era a mais nova. Isso explica porque pegaram o novato mais rodado do momento, eu, para chefe daquela bagaça. A tropa Leão dos escoteiros está para a organização do escotismo, na minha cidade e naquele momento, assim como o exército mexicano está para a Segunda Guerra: foram lá, tomaram parte em momentos importantes, mas não fizeram porra nenhuma que quaisquer outros não tivessem feito. Lembrei disso numa conversa de MSN ontem, onde uma recém conhecida dizia que sua mãe não a deixara ser escoteira quando criança, e isso me fez lembrar que ninguém me impediu nessa sandice e pensei "rapaz, isso rende um bom post pro blogue". Ecce text.
O fato de ser a tropa mais nova significava que éramos uma constelação de novatos sem noção. Os caras não sabiam armar barracas, se orientar com a bússola, fazer os nós mirabolantes e que, por algum motivo, não esqueci até hoje e que impressionavam a minha primeira namorada. O sujeito que tomava conta da ata da tropa, onde se registrava todas as nossas atividades, escrevia mal, a letra era ilegível - e naquele tempo, 1996, computadores não eram um eletrodoméstico. E as atas eram um trabalho bastante ingrato, que eu odiava e que tinha sido minha função na tropa em que eu adentrara nos escoteiros, que tinha nome de árvore, Ipê, Pinheiro ou Bracatinga, eu não me lembro. Eu sabia um pouco mais que meus comandados, e isso me fazia o fodão da tropa, mas mesmo assim, quando tinha que competir com as outras três da cidade a gente fazia feio. Naquela época eu ainda me debatia contra aquilo que mais tarde vim a saber ser meu destino. Naquela época eu achava que se eu me esforçasse muito não estaria entre os losers. Foi muito depois desse período que me caiu a ficha. E como era difícil ter consciência disso naquele tempo, eu me frustrava. Sério, a gente era ruim. Doía de ver. Eu, como de costume, desde muito cedo estava sempre no lado que perde.
Lembro que entrei para os escoteiros por uma série de motivos. Eu achava legal, e para uma criança é mesmo: acampar, aprender a conviver em grupo, a disciplina que tem um quê de organização militar é interessante, porque está nas mãos de crianças. Você aprende coisas legais como usar bússolas, desenhar mapas, mensurar distâncias pelo tempo despendido na caminhada e de bater os olhos. Seguir e delegar ordens. Andar no meio da mata no escuro, sem luz nenhuma e sem cair. A pescar sem vara. A comer as coisas que existem nas matas, larvas nojentas inclusive. Armar barraca...
Além disso tudo, no caminho de casa, saindo do clube onde eu iniciava minha carreira de nadador, passava pelo parque onde os escoteiros tinham sede e se reuniam semanalmente aos sábados para suas atividades. Lembro que os via com as fardas, com as divisas costuradas e isso me chamava atenção. Resolvi, pois, que era hora de ser escoteiro. É bastante triste admitir isso, em face da largamente narrada preferência feminina em dados contextos por homens fardados, mas grande parte da minha decisão de ser escoteiro nasceu de admirar, aliás, admirar não, e sim, ver, ver é bem melhor que admirar, os garotos fardados praticando suas atividades.
Apesar de todo o glamur, minha carreira de escoteiro acabou sendo curta. Encheu o saco porque, longe de sermos um grupo grande, não tínhamos muitas atividades. E era entediante ter que se reunir para comemorar aniversários, cantar o hino nacional, hastear a bandeira - aprendi e me tornei um exímio dobrador de bandeira nacional, que, saibam, é uma arte difícil e que dispõe de todo um procedimento específico que não pode ser quebrado, sob pena de que o infrator... bem... se você embrulhar a bandeira toda e enfiar na cueca, limpar o rabo com ela, usar como saco para ir na feira, ou como trouxa para limpar o óleo que pinga do carter do seu fuscão 69 nada vai acontecer com você. Mas em teoria devia, porque o aterrorizante olhar do barrigudo que coordenava os escoteiros na minha cidade, o fodão de todos é chamado de líder sênior, o que equivale a um general-de-campo, ou a um marechal, dependendo da cultura militar seguida, consternava-me. E lembro que ainda naquela época eu pensava se ele tinha vida, mulher, filhos, se morava com os pais, ou tinha sido criado pela avó, se havia uma vida problemática por trás daquela proeminente e rotunda barriga, rematada pelos olhos castanhos fuzilantes que supervisionavam o cerimonial de hasteamento, dobragem da bandeira e execução do Hino Nacional, olhar que indicava que a menor dobrada errada, ou friso no pendão verde e amarelo, seria paga com a vida. Por isso eu era bom de dobrar bandeira. Morria de medo daquele gordo.
O escotismo me encheu o saco porque o dinamismo que eu esperava dos escoteiros eu não encontrei. E acabei largando mão. Acho que muito disso foi contribuição também do belo punhado de desastrados, incompetentes, inexperientes, nerds e imberbes sujeitos que compunham minha tropa e que cabia a mim coordenar - e cujos nomes eu não lembro de nenhum. É aquela coisa, ir para a guerra na juventude pode sempre ser dramático, mas sempre será uma oportunidade de fazer grandes coisas e amadurecer. Não há nada bonito numa guerra, mas na vida individual de quem vai parar nelas, sim. O companheirismo, o sacrifício por causas ignóbeis. Nunca é uma vida sem eventos e episódios marcantes. Agora, ir para a guerra com posto de comando entre seus iguais, sabendo que eles farão tudo errado e a culpa será sua é algo bastante desagradável.
E eu era uma criança. Desistir de coisas é uma especialidade de criança, embora tenha gente que nunca abandone essa competência e a leve às raias de arte na idade adulta. Quando nascemos, e tenho certeza que já escrevi isso aqui neste blogue, nascemos plenos de potencial. Na maternidade, todos ali são gênios, artistas, prêmios Nobel, grandes atletas. Mas isso não porque não sabemos o que seremos quando maiores, mas sim porque, e isso é inegável, somos criaturas pequenas, que choram, gritam e defecam, mas que a despeito disso, ou justamente por isso, somos todos só potencial. Conforme vamos crescendo, vamos desistindo de coisas e nos agarramos com o que sobra. Eu desisti de ser piloto de Fórmula 1, da natação, de ser padre, do escotismo, da engenharia, da minha banda, por exemplo. E extra-oficialmente, vai saber, talvez de tocar saxofone, de ser um astronauta, de descobrir a cura do câncer, de inventar o teletransporte ou a máquina do tempo. E há pela frente uma infinidade de coisas para desistir, como um grande amor, amizades, escolhas profissionais, ter ou não filhos, casar ou não, etc. Conclusão que abre espaço aqui para uma tentativa de prosa-poética-filosófica: viver é desistir de coisas.
Desisti de ser escoteiro porque queria aventuras. Não me deram aventuras. Me deram responsabilidades que, e hoje sou capaz de analisar isso, 13 anos depois, foram maiores que meus ombros mirrados e esguios, e este foi o cerne da minha deserção. Eu não queria mandar em ninguém, eu queria acampar, conhecer coisas novas, me divertir, ter um legítimo canivete suíço e saber usar cada uma de suas mil e uma utilidades. Uma pena, porque no fundo eu gostava de ser escoteiro. Era divertido, e eu não me envergonhava por dizer que era um. Há todo um preconceito contra o escotismo e a noção de que ele faz lavagem cerebral nas crianças, que ele passa rudimentos de disciplina militar para quem ainda não desistiu o suficiente na vida para precisar se enquadrar numa hierarquia. Nada disso. Ser escoteiro é legal. A única coisa que me dava ataques galopantes de vergonha pública era quando em desfiles de datas como 7 de setembro, ou em eventos públicos, íamos lá fardados e, alinhados, executávamos a Palma Escoteira, que é uma salva de palmas ritmada e serve como saudação. Bizarramente, o ritmo era ensinado com um "abacaxi-xi-xi, abacaxi, abacaxi, abaca-xi-xi-xi". Ou coisa parecida. E eu achava ridículo a não mais poder. Me dava engulho. Tinha a sensação de que todo mundo olhava para a gente sorrindo e batendo palmas com ritmo e diziam: "porra, mas que ridículo".
Se um dia tiver filhos e eles quiserem ser escoteiros, vou gostar que sejam. Espero de coração que até lá o escotismo esteja entre nós, decepcionando crianças, servindo de escola a bons princípios e pleno na sua cruzada rumo ao lugar nenhum. Sim, porque ele não leva a nada, mais ou menos como Greenpeace, os vegetarianos ou os políticos. Embora conheça a história do escotismo, isso eu assumo, nunca entendi muito bem pra que serve. Mas que é legal, é. Ou era.

1 comentários:
Cara, nesse texto você parece o narrador de "Anos Incríveis", o Arnold calejado.
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