"When you've got to feel that in your bones".
sexta-feira, 1 de janeiro de 2010
Rádio: Radiohead - Bones
às 14:33 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
Blasfemias 1
"... nada disso, não se trata de ateísmo, agnosticismo, má vontade, blasfêmia, magia negra, satanismo, provocação. Nada. Nada mais que meu deboche. Se eu tolero o seu direito de dizer que terei uma morte horrenda, em dor e miséria, permita que eu diga que isso é besteira, e que o sujeito que me impõe esse destino não só desdiz do meu alardeado livre-arbítrio, como também é muitíssimo rancoroso. Insisto, não é maldade, é exercício. Vem-me a mente que muito do que se diz, se prega, se escreve, se interpreta e se expande na nossa sociedade, na nossa cultura, é, na melhor das hipóteses, besteira. E não me venha de hipocrisia, porque diferente de você, eu li na fonte. Você ouviu as versões adaptadas e interpretadas com matizes friamente calculados. Vem-me essa vontade de dizer que é besteira desde a falta de respostas para as várias contradições de texto que encontrei e para as quais nunca atinei solução que desse jeito, por meus esforços e mesmo pela boca dos outros. Uma vez perguntei porque o filho imaculado precisava de batismo, se não tinha pecado original, posto que era rebento de uma virgem, e vinha sem pecado ao mundo. A única resposta foi: mistérios. Mas se é tudo mistério, pra quê livro? O livro não era para trazer o caminho da verdade (é a etimologia da palavra), mas só instila dúvida, contradição e realismo fantástico? Você diz para que eu meça as palavras, fala em castigo, me incute ao temor de algo que, a rigor, nem você sabe onde está, de onde vem, se existe mesmo, ou para onde vai. E outra, se me castiga, não é piedoso, bom, justo. Provavelmente eu sou mais justo que quem me amaldiçoa, porque eu cansei de ser zoado na adolescência e não roguei praga nenhuma, não causei dor, pranto e mágoa, embora possa ter me convulsionado em momentos de ódio e raiva, destilando meu veneno em momentos particulares de auto-comiseração de adolescente, mas sou humano, me dou ao direito de errar, cresci e cresço com isso. Você usou o exemplo do engenheiro do Titanic, que teria dito que nem que quisesse lhe afundavam o navio, e não deu outra, porque na viagem inaugural deu-se o desastre. Mas e aí? O livre-arbítrio não permite uma pretensãozinha? No bojo do Titanic não iam fiéis de nenhuma basfêmia, inocentes tolhidos da vida de maneira agonizante num oceano congelante? Crianças? Talvez um cidadão que impedisse a guerra de poucos anos mais tarde? No meio dessa gente talvez tenha se perdido a linhagem do sujeito que curaria o câncer! Quem vai saber? Convem, então, ceifar indistintamente a vida de 1500 pessoas inocentes e preservar o herege, que blasfemou acerca da segurança de seu navio? É desse tipo de misericórdia que eu abro mão regendo as veredas do mundo e que você não vê, não calcula e, pior, defende. Isso, entretanto, não desqualifica a noção de misericórdia, mas desqualifica a sua noção de deus, e por conseguinte, esse seu horror nas minhas piadas, nas minhas ponderações. Porque seu deus não é bom, não é justo, é simplesmente forte - e tua fé se constrói em medo. Se eu não posso criticar, não é uma doutrina, uma filosofia, um modelo que sirva para mim. Se não posso botar defeito, encontrar e apontar falhas, um dia esse feixe quebra, um dia essa ponte desansa, e afogamos todos como o homem descrito por Hesse. Não me entra na cabeça, no coração, que alguém seja pai, crie, dê-me condições de pensar e não queira que eu pense, que eu discuta, que eu cresça, que eu conheça, e que desafiando, eu progrida. Esse não é pai, é padrasto. É pastor, sempre a nortear o rumo do rebanho, impedindo que este o trilhe por si, e quem precisa de pastor é ovelha. Não sou ovelha, sou homem".
Blasfemai, meus queridos, blasfemai!
Evangelhos de Tertuliano.
às 07:42 0 comentários Marcadores: Evangelhos
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Vai-te a merda, ô 2009
Na vaga tentativa de arriscar uma prosa-poética direi que este post, o que encerra o ano de 2009, foi redigido a custa de suor, decepções, alegrias, descobertas, vitórias, derrotas, surpresas, e muita vida por todo o ano. E é verdade - ainda que seja mentira, porque se querem saber mesmo, escrevo isso dentro de um ônibus, em algum lugar entre o Paraná e São Paulo, no dia 20 de dezembro, e só lhes garanto que será postado na hora oportuna porque programarei assim - e a esta hora, se tudo correr como o previsto, estarei mais que bêbado, trêbado. Traçando as pernas, tropeçano pelas areias da Ilha do Mel, chutando a bunda de 2009, dando-lhe sucessivos ponta-pés nos fundilhos e recebendo, mais bêbado que qualquer um, bêbado a não mais poder, 2010, que nos foderá de jeito e de diversos jeitos, mas que será bem-vindo, porque é o que vem, é o que temos, não dá para saudar outro que não 2010, 2011 fica para depois, e 2009 já era. O que conta é que daqui um minuto 2009 cai de podre, velho e caquético, carcomido e desolado porque chegou sua hora. Nos chega 2010. Vamos, assim, abrir a segunda década do século XXI. Ê!.
Em 2009 descobri uma porção de coisas. Que empregos vão e vem. Submeti a mais testes a teoria que virou lei, sobretudo depois de tanto empirismo, que dita que a minha profissão, de jornalista, é um mato sem cachorro, num mercado de trabalho mate ou morra - mas de toda forma, vou navegando bem entre os escolhos e os recifes, norteado por uma sorte maior que tudo e todos. Em 2009 também, mais uma vez, percebi a nulidade de estabelecer planos para um novo ano: não consegui cumprir absolutamente nada - e não foi exatamente culpa minha na maior parte dos casos. Em 2009 coisas que podiam dar errado não fizeram por menos: foram lá e deram muito errado. Em contrapartida, coisas que eu nem sabia que podiam dar certo, apareceram, e deram certo.
Em 2009 morri, como diz a canção. Frustrei expectativas, tive expectativas frustradas, voltei a consumir música em proporções industriais e, sobretudo na última metade do ano, comecei a negligenciar minhas leituras, o que sempre me entristece para comigo mesmo - me fazendo sentir-me em dívida com alguma coisa. E cinema, néscio vos, diria eu cofiando minhas hirsutas barbas, porque perdi completamente o hábito e acho que não há mais o que dê jeito. Em 2009 comecei a perder o interesse em lustrar minhas prosas, cansei do pedantismo. Em contrapartida, me descobri poeta. Dos ruins, mas poeta. Nem todos podem ser Paulo Leminski e eu me conformo com as minhas rimas fracas e poesias esdrúxulas, debruçadas sobre emoções primárias e sentimentos pueris. Afinal, eu sou feito de clichês e isso não é assim um demérito tão grande.
Ao longo do ano, tive pontos altos. De cabeça lembro agora de uns momentos que posso lhes contar e que guardarei com carinho na mente - e que estão nos arquivos deste blogue. Fui ao show do Radiohead em São Paulo. Aluguei um carro e fui com amigos ao DemoSul em Londrina, e de quebra tirei foto com o Rogério Skylab. No jogo entre São Paulo e Vitória no Morumbi, puxei mais de 50 mil almas mo coro de "ÔôôÔôÔ o campeão voltou!", saí do estádio e comi dois X-pernil sem pagar. Fui ao show do Mark Lanegan, arrumei ingresso autografado e roubei um copo lindo e afrescalhado da casa de shows - já devidamente esfrangalhado por mãos desastradas. Testemunhei o apagão de novembro na capital paulista, enquanto ouvia Nevilton tocando na laje à luz de velas. E há muito mais debaixo do tapete que não posso revelar, porque é pessoal.
Nem tudo foram flores. A rigor, pouca coisa foi flor nesse ano, talvez mesmo porra nenhuma. Comecei o ano com um ótimo emprego, termino-o na base de frilas e procurando algo novo. Comecei o ano com sonhos, terminei com metas. Comecei o ano sorumbático e recalibrando minhas velhas prevenções acerca de passionalidade, terminei o ano recordando as antigas prevenções e acrescendo-as muitas outras. E ainda assim 2009 vai deixar saudades, porque 2009 foi único. Ainda que ruim em algumas coisas, bom em poucas, meia-boca na maior parte delas, 2009 não será repetido, foi esse, não terá outro, é o que deu para fazer, e que diabo, eu faria tudo de novo. E com gosto.
Que venha 2010!
"Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro".
às 23:59 1 comentários Marcadores: Memórias
A volta do Homem de Preto
Tive hoje uma surpresa. Das boas. Anunciaram que será lançado em fevereiro um álbum póstumo de Johnny Cash, apenas com material inédito, nada de compilações caça-níqueis dos mesmos hits de sempre. Ao que consta, o material que constará em "American VI: Ain't no Grave", retomando a série iniciada com "American Recordings", álbum premiadíssimo de 1994, meio rock, meio folk, meio country, meio gospel, e que trouxe Cash de volta às luzes da ribalta. O sexto "American" será de gravações de 2003, das mesmas sessões em que Johnny gravou o material do "American V: A Hundred Highways", produzido por Rick Rubin, lançado postumamente em 2006.
Chegou a vazar um set list das músicas no site da Amazon. Contudo, o site oficial de Johnny Cash disse, "moçada, pega leve, não é bem assim, se eu fosse vocês não fiar-me-ia tão abnegadamente a esta lista, não é por aí". A Amazon removeu o conteúdo de seu site. Pronto, informei.
De oficial, mesmo, o lançamente previsto para 23 de fevereiro, o nome do disco, e a expectativa de fãs do mundo inteiro, como este Tertuliano, que desde já espera a coçar-se por ouvir as novas canções do eterno Cash.
às 19:10 0 comentários Marcadores: Atualidades, Cultura
quarta-feira, 30 de dezembro de 2009
Há algo estranho no ar
São Paulo vazia é tão estranha...
às 20:58 1 comentários Marcadores: Atualidades, Cultura, Memórias
Vontade de falar, gritar
Tantas coisas para dizer, tantas coisas para perdoar. Tanta coisa pra contar, tanta coisa pra sentir, tanta coisa pra esquecer. Tanto sentimento pra extravazar, tantas viagens para fazer, tanta alegria pra gritar. Tanta lágrima pra escorrer, tanta falta de mãos para secá-las. Tanta falta de abraço, tanta saudade de pedra, de aço. Tanto amor pra lembrar, pra correr atrás, para esquecer, para recordar. Tanto verso pra fazer, tanto poema pra apagar. Tantos minutos de viagem logo mais, São Paulo-casa, casa-São Paulo, tanta coisa, tanto tempo, tanta vontade, tanta coragem, tudo, tudo, tudo de uma vez só. Quem dera gritar!.
domingo, 27 de dezembro de 2009
sábado, 26 de dezembro de 2009
Universo é démodé
Estava eu nas intermináveis conversas de família por ocasião do Natal quando o assunto descambou, em função de caipirinhas e caipironas ingeridas aos borbotões, na origem do Universo. Pelo-me de medo de tocar em qualquer assunto que remotamente ataque as sólidas e sisudas tradições católicas da família, questionador e porra-louca que sou.
Envergonho-me a não mais poder que tenha quem, no seio da minha família, sustente que o mundo veio da inspiração indecifrável, insolúvel, até aqui tudo bem, e idiota de um criador onisciente e infinito. Os mais esclarecidos, sim, dizem algo sobre o Big-bang. É uma melhora, sem dúvida, mas estão também redondamente enganados, a dar-se fé nas teorias mais recentes, o big-bang foi um estalinho, um pipoco, um flato de menores consequências na longa caminhada disso tudo que nos obsseca interminávelmente: o nada.
Porque dizer que o mundo e tudo em volta nasceu da vontade de uma divindade é uma muleta fabulosa - no sentido de fábula - que servia bem na aurora dos tempos e na infância do nosso pensamento, onde não tinham florescido nem o método científico e nem a ciência em si, abstração que nos viria ao mundo muito depois dos hebreus condensarem centenas de mitos pagãos - é, pagãos são sempre os outros - no livro que apelidaram de Gênesis, começando com a criação do universo em seis dias e encerrando com a misericordiosa aniquilação da vida na Terra pelo Deus bonzinho que fodeu com tudo porque é misericordioso a não mais poder, e se arrependeu, embora seja alardeado senhor de todas as respostas e de todas as perguntas, de nos criar, humanos, e tudo o mais. Resolveu nos aniquilar misericordiosamente abaixo de 40 dias e 40 noites de chuvas incessantes, que inundaram tudo.
E também porque dizer que viemos de uma explosão bizarramente devastadora é muito bonitinho e explica o universo antes dito em constante expansão. Mas não explica o que vinha antes. E a isso os irrequietos econtraram teoria que desse jeito, esses bravos cientistas, compilando suas abstrações em tratados, regrados e plenos de método, e faltos de certeza. Deficiência esta que, aliás, os põe em perigosa paridade com os textos religiosos, cheios de ignorâncias, fraquezas e achismos e, mais uma vez, nenhuma certeza.
A teoria que explica o que vinha antes não é tão simpática como a do Big-bang, caros. Não há como lhe pôr nome em onomatopeia, como o do famoso relógio londrino, que desponta numa torre e juram os ingleses, nunca atrasa. Diz a teoria, que é uma fusão de outras duas menos votadas, que o universo, para ser verificável matematicamente, teria de ser composto por 11 dimensões e que é a coexistência dessas numerosas dimensões nos colocou aqui. Sempre me pego, distraído, pensando o que nos reservariam as sete que desconheço.
O evento que deu origem ao nosso universo seria o choque de duas dessas dimensões, unindo-as em uma coisa só. Destarte - saudade de usar essa palavra - o Big-bang não deixou de acontecer. A diferença é que ele foi um evento muito menor que nossa empáfia sempre nos levou a crer, sendo, na verdade, um esbarrão de duas dimensões perdidas na vastidão interminável e inolvidável do nosso multiverso. Universo é démodé, portanto, senhores, porque a verdade é que estamos todos perdidos girando a buzilhões de quilômetros numa coisa monstruosamente maior e infinita - pense nisso: o universo, infinito, dentro do multiverso, infinito - chamada de multiverso, uma coleção de universozinhos.
A lamentar-se o fato de ninguém ter entendido muito bem a preroração onde resgatei bagatelas do tempo em que me interessava por espaço, física e o grande "por quê?" - mas lúcido, percebi que não seria eu que encontraria a resposta, e abandonei a questão, engavetando os rudimentos teóricos no fundo da memória, para quando fosse o caso de puxá-los, como um dossiê, em conversas de bares, cantadas em estudantes de Física, ou discussões ignóbeis com a família. Meus grandes por quês hoje são a que horas sai o ônibus e se por lá, onde quer que seja, teremos cerveja e mulheres.
Na conversa de Natal, enfim, faria bem melhor eu se tivesse concordado que em um dia Deus criou tudo. Evitaria tanto latim gasto e olhares de reprovação dos bastiões da fé da minha família. Justo no Natal.
às 22:36 1 comentários Marcadores: Atualidades, Memórias
terça-feira, 22 de dezembro de 2009
Rádio: Cássia Eller - Por Enquanto
Comecei a gostar dessa música porque ela fala em voltar para casa, e eu vivo voltando para a casa, é um hábito de quase uma década. Hoje já gosto porque ela me diz mais que voltar para a casa:
às 19:13 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
O dia em que cresci
Incidentalmente, enquanto fazia meus traslados e intermináveis conexões, para despencar de São Paulo para casa da família, testemunhei um episódio na vida de duas pessoas pelo qual eu já passei três vezes, em idades e condições diferentes, mas que me marcaram da mesma maneira que, suponho, deve ter marcado as pessoas.
A troco de calibrar o suspense e caprichar em recursos narrativos nunca dantes experimentados, irei, a princípio, traçar em poucas penadas, a figura das personagens para as quais deitaremos agora os curiosos olhos e a paciente imaginação: imagine um senhor dos seus 50 anos, roliço, pele bastante corada como a de gente que trabalha ao sol, embora eu possa dizer que desconfio que o vermelho que lhe tingia as expressões não vinha das inclemências do sol, mas de alguma condição genética ou, espero que não, mas não recuso a possibilidade, que fosse do consumo do alcool. Era calvo. Daquelas calvícies que começam na parte dianteira do crânio e daí se espalham, como as clareiras pela Amazônia. Ressalto que não afianço a origem do tom rubro da sua pele ao sol. Tenho razões para atribuir a outro fator o vermelhão e essas razões serão descobertas conforme este texto for amadurecendo.
De outro lado, a personagem número dois, era um menino. Arrisco-lhe 12 anos. Posso estar estupidamente enganado, visto que tanto quanto mais nova ou mais velha a pessoa, mais difícil de lhe atestar a idade ao olhar. Aceitemos, pois, que a criança tem 12 anos, tendo em vista que pode ter 15. Ou 8. Quem sabe? Ela. Mas não perguntei. De resto, o menino tinha olhos castanhos, sorria como toda a criança e lembro de que seus cabelos eram encaracolados, quase pichaim, como pouco se vê. Era esguio, leve. E falava sem moderar o tom, quase aos gritos, mas não dava por isso. Aprendemos a engolir as palavras e moderar os tons só com a idade. A tão festejada inocência infantil é, no fim das contas, resumível a falar aos berros.
Continua...
às 18:45 0 comentários Marcadores: O dia em que cresci
Acaba, anos 1980, acaba!
A-ha anuncia que volta ao Brasil, um ano depois, para mais uma turnê. E essa é a última do grupo.
Uhuuu! Menos uma banda dos anos 1980!
às 15:56 0 comentários Marcadores: Momento tuíter
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Rádio: Placebo - Song to Say Goodbye
Adoro essa canção. O clip é sensacional. Infelizmente não posso embutir no post a versão de 4 minutos, por conta das políticas da EMI. Mas posso postar a versão extendida, com 8 minutos, que também é muito boa, afinal de contas. Caso queira ver e ouvir a versão menor, clique aqui.
"Now I'm breaking down your door, to try and save your swollen face"...
às 08:36 1 comentários Marcadores: Rádio blogue
domingo, 20 de dezembro de 2009
O mal que o racismo causa
Foi como levar um soco no estômago. Ao ver o vídeo que segue, curto e breve, destruidor e avassalador como um tsunami de retórica sobre o ódio, o racismo, o fracasso da nossa civilização, me senti mal, agredido, ofendido. Nosso mundo é uma merda, nossa civilização fede, nossos valores são ridículos. Triste, muito triste:
às 12:16 1 comentários Marcadores: Atualidades, Memórias
Revolução
Chega de verso rejeitado
Vamos todos nos unir;
chegaremos em bandos
e antes de você sentir
unidos te venceremos!
onde quer que estiveres
estupraremos seu gado
e espantaremos suas mulheres.
sábado, 19 de dezembro de 2009
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Sem título 1
Tudo me convém
mas nada me apetece.
Sou um verso de desdém,
e uma literatura que esmorece.
Nada me distingue.
Tudo me enfastia
sou de inverno, e quero calor.
Sou feito de hipocrisia.
Nasci imbuído de todos dos destemperos
de egoísmo fiz meus exageros
Morri indômito na minha esperança
fui cômico e por toda vida uma criança.
No fim de tudo, nada de cores,
sigo desdenhando do mundo,
sobrevivendo de horrores
dou de ombros, e rego do meu lado,
solitário, no escuro
as flores mortas do passado.
Epitáfio belchioriano
Aqui jaz o verso
aqui a letra se desfaz
onde a música não toca
me bate o remorso
do dia que me sai torto e disperso
e o poema pelo qual tanto me esforço.
Jaz-me em mim todas as coisas
tudo que foi fugidio
a manhã sorridente, o vento e o tempo.
Aqui jaz tudo que não fui capaz.
É o féretro de um jovem rapaz
que se deu à ingrata tarefa
de amar e mudar as coisas
especialmente o que lhe interessava mais.
Escatologias
Hoje serei escatológico
vou ingerir prosa
digerir mágoas
peidar poemas
que fedem ressentimentos.
Aí caguei versos
arrotei músicas
Até dediquei uma gloriosa
pisei em excrementos
e escarrei as rimas
que esporrei numa
poesia preguiçosa.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
Aforismos - Darwinismo de boteco
O louva-a-deus, aquele bicho verde, possuidor de um nome tão simbólico, vinculado ao formato de sua anatomia, que nos recorda um fiel ajoelhado louvando uma divindade, pequeno, frágil e esguio, qual um graveto verde caído de uma árvore qualquer numa ventania inclemente, na sua modalidade masculina, é incapaz de copular enquanto possui a cabeça conectada ao corpo. Diante dessa impraticabilidade absolutamente negativa a qualquer ambição da espécie de evolução, ou modesto perpetuamento - o que mais lhe cabe, tendo em vista a pequena margem de manobra que detém na dura e inclinada escada da cadeia alimentar - as fêmeas dos louva-a-deus, pois, não têm outro recurso que não seja arrancar as cabeças dos distintos machos para, assim, copular.
Diante de mais essa constatação irrefutável das injustiças naturais, não há nada mais que dizer que, louva-a-deus são, em última análise, a metáfora mais bem acabada da vida natural dividida em gêneros que suportamos nós, os homens, e da qual refestelam-se às largas elas, as mulheres. No mundo que conhecemos, elas arrancam cabeças, matam os machos, jantam os tarântulos, executam o zangão. E nós, homens, somos pavimentados naquilo que convencionei chamar em foro íntimo: a asfaltização dos homens pelas mulheres. Não há nada mais indômito que um rolo compressor.
Não me surpreende, pois, o nome do bicho. Só louvando, e muito, para tolerar a vida assim (aliás, é simbólico também que ao que mais louva, mais desgraças e injustiças se abatém. Deus e natureza são duas instituições para lá de injustas e desequilibradas, a dar-se fé que Deus exista mesmo, coisa cada vez mais difícil de sustentar nos tempos que correm). O louva-a-deus não discute as relações, ele dá a vida por elas. O louva-a-deus, se amasse, seria apenas objeto do desfrute da sua fêmea. Aos louva-a-deus não cabem, em hipótese nenhuma, analogias de sexo forte, de dominação ou de bravura. O louva-a-deus é mais próximo ao homem do que o golfinho, que é a única criatura, exceto nós, que faz sexo por prazer. O louva-a-deus seria poeta se escrevesse, filósofo se pensasse, luminar se fosse meio vagalume. O louva-a-deus é o exemplo sintético mais bem acabado da injustiça e da entropia das relações.
O louva-a-deus, antes de tudo, de inseto, de fiel abnegado, é o mártir de toda uma classe.
às 22:25 1 comentários Marcadores: Aforismos
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
20.000 léguas
Navegamos juntos as vagas do oceano
nosso oceano foi pequeno
nossos mares eram um riacho
nas calmarias de nossas águas
vicejaram as lembranças
e o nosso relaxo.
Nossas tormentas eram calmas
nossas águas eram plácidas
a felicidade e a constância
vinham dar em nossas margens.
Nunca fomos oceano
não chegamos perto de rio
a riacho nos faltou pouco
fomos lagoa de outras paragens
com uma canoa a fazer água.
Fomos coisa de louco.
Terminamos em cascata
as lágrimas correram
transbordamos pelos olhos
tudo que calamos na calma
algo boba, algo incoerente
na calma tão nossa, inocente
do nosso amor feito em água
do tamanho do oceano
tênue como o córrego
calmo como a lagoa.
Hoje somos várzeas e bueiros
em nós não flutua mais canoa
somos o fim de tudo
somos as águas canalizadas
somos o desequilibrio
de uma história banalizada.
Somos o sol que estiou a lagoa...
e os fins derradeiros
por onde a água escoa.

