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sábado, 27 de janeiro de 2018
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
Alexandre Dumas, Alexandre Dumas e Alexandre Dumas
Ponto, parágrafo. “O Visconde de Bragelone” consta de seis volumes de umas 500 páginas cada, narrando a corte de Luís XIV, o rei-sol e que viraria a medida de todas as coisas quando o assunto é absolutismo e monarquia. Por conta da larga catandura de cada um dos volumes, trata-se de uma coleção pouco editada no Brasil e que eu comprei, em 2003, pela soma de R$ 380, via Internet, de um sebo baiano. Não havia Estante Virtual na época, nem rede social nenhuma. Foi uma aventura, a primeira compra via Internet, de livros raros a uma pequena fortuna, economizada com sofreguidão, numa transação de risco toda feita por e-mail. Fecha parágrafo.
A leitura apaixonada e interessada de cada um dos muitos livros de Dumas, e de boa parte de seus contemporâneos (fui de Arthur Conan Doyle e Dickens a Julio Verne, passando por Eça de Queirós, Tolstói, Vitor Hugo e odiando Balzac durante todo o percurso) acabou me despertando uma enorme curiosidade em torno da figura histórica de Dumas.
E aí tropecei em “O Rei de Paris”, incrível biografia do escritor, realizada por um estudioso dos anos 1920 e que tinha certas veleidades estéticas: o livro é composto como uma narrativa típica de Alexandre Dumas, o que torna a relação com o personagem-escritor ainda mais apaixonante: Dumas era bonachão, deliciosamente irresponsável, inteligente, preguiçoso, absurdamente vaidoso, generoso às raias da ingenuidade, mulherengo e glutão – basicamente a manifestação real de Porthos, um dos três (quatro) mosqueteiros e a respeito do qual, diz a biografia, Alexandre Dumas chorou copiosamente na tarde em que escreveu a cena daquela que seria a morte de Porthos no penúltimo volume de “O Visconde de Bragelone”. Spoiler? Apenas se você fosse mesmo ler "Os Três Mosqueteiros" (umas 500 páginas), mais outras tantas de "Vinte Anos Depois" e enfim "O Visconde de Bragelone".
Há algumas passagens de “O Rei de Paris” que também ficaram embutidas no juízo. Lembro, por exemplo, de, lendo as primeiras páginas do livro, me dar conta de que Dumas era mulato, dos bem escuros, e vivia na Paris do século 19. Fazia parte da alta sociedade e, em que pese filtros de outro tempo, não parece que tenha vivido qualquer tipo de preconceito em virtude da cor. Ou, talvez no que seria mais preciso dizer, não sobreviveram a ele registros e episódios narrados a respeito de discriminação que possa (provavelmente deve) ter sofrido por ser da cor que era.
E isso talvez tenha explicação no fato de que Dumas era filho de outro Alexandre Dumas, esse por sua vez filho de nobre de segundo escalão com escrava, e completamente negro. Conhecido como General Dumas, Thomas-Alexandre Dumas despontou nos tempos de Revolução Francesa no período de convulsões sociais que levou à reconstrução da França como república (e depois império). Foi herói nacional até que caiu no desazo de criticar Napoleão, o que lhe lançou numa espiral de desgraça, pobreza e ocaso.
Jamais me interessei enormemente pelas aventuras de Dumas avô. Avô porque Dumas pai, esse de “Os Três Mosqueteiros”, teve ainda outro Alexandre, que viria a ser escritor também, mas assolado pelos contrastes com o pai irresponsável, acabaria de obra menos relevante que o colosso literário que o pôs no mundo. Dumas filho teria como grande livro “A Dama das Camélias”, e na verdade fora muito mais prolífico enquanto dramaturgo do que na qualidade de autor dos folhetins, essa mercantilização primeira da literatura, impressa nas tipografias do tempo e que dão o tom de tudo aquilo que Dumas (o pai) viria a escrever, sujeito sagaz que enchia páginas e mais páginas com digressões porque era pago pela quantidade de linhas escritas que entregava. "A Dama das Camélias", de Dumas filho, inclusive é uma peça autobiográfica, conforme se descobre com contornos dramáticos em “O Rei de Paris”, e que no palco narra a paixão de um homem por uma prostituta.
Mas, dizia eu, antes da longa digressão, quem me dera ser pago por linhas escritas - ou ainda, quem me dera ser pago -, o Thomas-Alexandre, o Dumas avô, nunca se transformou em objeto das minhas obsessões porque, talvez, nunca tenha deixado livro nenhum escrito, de sorte que não pude com ele compartilhar aventuras, dramas e histórias como pude com seu filho e neto.
Não deixou escritos e também não foi interesse de outros para que tivesse ganho sua biografia até recentemente. O ocaso de Thomas-Alexandre nos meus pensamentos só foi sanado por conta de, em férias, estar eu jogando videogame até tropeçar com Thomas-Alexandre Dumas numa dessas esquinas virtuais desse escapismo irresistível que são os games atuais. Ainda capitão do exército francês, já amigo de Napoleão, Dumas avô me pede para resgatar uma série de cartas de sua mãe e irmã que, negras, ainda vivem como escravas nas Antilhas.
Não vem ao caso o jogo e os detalhes.
Vem ao caso que esse episódio me chamou a atenção para Dumas avô, até então figura histórica ignorada nos meus conceitos e preconceitos sobre a matéria. E fui pesquisar para descobrir que, de fato, Thomas-Alexandre Dumas foi trazido como homem livre para a França apenas depois que seu pai, marquês, tê-lo vendido como escravo para então poder comprar-lhe novamente e, assim, torna-lo homem livre – favor que não teve o bom coração, coragem ou capacidade financeira suficientes para prestar à mãe e irmã daquele que viria a ser o comandante em chefe dos exércitos franceses nos alpes nas campanhas que resultaram diretamente da sanha da guilhotina em ir derrubar a cabeça de Luís XVI; ou na invasão do Egito, à frente de um exército de 50 mil homens. Outra corrente também diz que o marquês penhorou o filho para pagar umas dívidas, depois o comprou novamente para libertá-lo. A coisa toda é muito confusa e dá uma desculpa maravilhosa para que eu me embrenhe num manancial inexplorado, largo e profundo, de questiúnculas biográficas a respeito das circunstâncias que tornaram Thomas-Alexandre Dumas, negro e escravo, um francês livre.
Em todo caso, Dumas avô, homem negro, foi recebido pela sociedade parisiense e teve acesso à educação privilegiada e formação de gentleman, de nobre, com aulas de etiqueta e tudo mais. Além de todas as portas abertas para que pudesse servir ao exército como oficial.
E, com efeito, Dumas viria a se tornar o primeiro negro em basicamente tudo no exército francês, além de até hoje ser o descendente africano com maior patente em forças armadas europeias. Nunca, em mais de 200 anos, alguém com suas origens chegaria tão longe em qualquer das forças do continente - e consideremos que oportunidades não faltaram: das guerras napoleônicas, passando pelos tumultos da Europa Central, a Criméia, unificação alemã e consequente escaramuça da Guerra Franco-Prussiana, tumultos nos balcãs, Primeira e Segunda Guerra... enfim.
É pena que, em todo caso, ofuscado pela grandeza do filho que viria a escrever mais de 700 peças, ensaios, contos e romances, que seria o autor do livro mais adaptado da história para cinema e televisão, tenha o Dumas avô tido vida tão atribulada, caindo em desgraça diante de Napoleão ao ponto de perder vencimentos e viver de favor até morrer jovem e amargurado, deixando filho e mulher sem nada.
Triste que também tenha uma posteridade tão anônima ao ponto de que mesmo quem seja apaixonado, e eternamente grato aos serviços prestados por milhares de páginas escritas por seu filho (há tantas cenas que não esqueço, textos engraçados, descrições apaixonantes e frases retumbantes como 'Descobrira, muito cedo, que a vida sem dinheiro em Paris era uma vida estúpida', ou "são as mulheres que nos inspiram às grandes coisas que elas mesmas nos impedem de realizar" e tantas mais), desconheça a vida singular de quem teria tudo para ser um anônimo em virtude de preconceito e raça, mas que com ajuda das circunstâncias e de um período histórico único, em que o Iluminismo realmente proporcionou igualdade, tenha chegado onde chegou. Me deixa contente, no entanto, ter descoberto que alguém se deu conta da injustiça e foi lá escrever uma tamanhuda biografia para Alexandre Dumas, devidamente em processo de apreciação no Kindle, essa biblioteca portátil que me faz mastigar livros numa velocidade desesperada.
E nesse pequeno exercício de férias vão também se encaixando outras coisas e se formando paralelos. Dumas pai escreveria boa parte dos livros que escreveu com temáticas heroicas e belicosas em virtude da vontade que tinha de servir ao exército com o mesmo brilho guerreiro do pai: Alexandre Dumas pai tinha obsessão com a figura paterna e desejava ser personagem das mesmas glórias. Dumas pai escreveria “O Conde de Monte Cristo” narrando a história de injustiça, e de deliciosa vingança, de um homem proscrito por crime que não cometera, no mesmo diapasão do que ocorrera com Dumas avô, condenado publicamente ao opróbrio por se manifestar contrário às aventuras de Napoleão ao custo do sangue do soldado desconhecido francês.
No fim, Alexandre Dumas filho (neto, na verdade) também escreveria como forma de diálogo com as memórias que tinha do pai complexo, desatento, distante em boa parte de sua vida. Uma figura de conflito, um pai afetuoso, mas irresponsável. Toda a genealogia dos Dumas é, na verdade, um longo diálogo resolvendo o eterno conflito de quem somos e quem são nossos pais.
E aí fico eu mais análogo ao trio, vivendo nessa perplexidade de quem busca entender para viver e viver de entender. Basicamente, portanto, esse blog é uma forma de que eu resolva meus vácuos paternos e deixe minhas sementes para que aquelas lacunas que eu vier a deixar sejam as mais estreitas possíveis, caso venha a ter filhos interessados em cobrir esses espaços durante as suas caminhadas.
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quarta-feira, 17 de janeiro de 2018
Jamie Lidell - Compass
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terça-feira, 2 de janeiro de 2018
Filmes, lacunas e respostas
Teve uma porção de coisas que me pegaram no texto, como a obsessão em se dizer forte na esteira da perda, mostrar que a morte não abala, que você é grande, adulto, muito macho, que não treme e está pronto para arcar com as responsabilidades que você inventa e acha que virão. Essa forma de reagir às tragédias, porque depois dessa me vieram outras, me machucou de formas que eu só pude entender depois de anos, deitado num divã e abrindo a minha vida a estranhos. E tudo começou no jeito atrapalhado com que eu fui reagir à perda do meu pai.
João, o autor desse texto, passou por isso também mas foi outra passagem sobre a sua relação com a perda que me resgatou. Em certa altura do registro, ele conta que percebeu que não tinha muito do seu pai consigo, eram algumas lembranças e um certo vácuo difícil de ser sanado e suprido dos mistérios deixados por quem simplesmente pára de existir de uma hora para ou outra e, ao fazê-lo, rende nós todos confusos com perguntas para as quais não vão aparecer respostas: como você era como adolescente? Quem foi a sua primeira namorada? O que você queria mesmo ser quando crescer? O que você gostava de fazer quando era criança? Como ia na escola? Como eram os seus professores? Como foi a primeira viagem para Curitiba? Como você conheceu a minha mãe? Pai, me conta, a vida fica fácil? Pai, o que te fez mais feliz nesses anos todos? E mais triste? Quais eram seus sonhos? Pai, me explica, por que você gosta tanto desse filme? Pai, quem é seu escritor preferido? Você acha que há vida no universo? Pai, você foi do PDS, que era partido da ditadura, poxa pai, você apoiava? Por que você gosta de bang-bang?
Eram, são e serão sempre tantas e tantas perguntas.
João conta que encontrou a trilha sonora de Blade Runner entre as coisas de seu pai e se imbuiu numa missão para entender o que esse filme tinha de importante, por que seu pai gostava dele, de que forma a adaptação cinematográfica da obra de Philip K. Dick explicaria alguma dessas lacunas que ficam da morte de quem amamos. Blade Runner virou uma ponte para estabelecer um vínculo entre pai e filho, suprir uma lacuna, responder algo e permitir que uma parte de quem era o pai de João se manifestasse no filho.
Eu me encontrei com algo assim no dia em que me dei à tarefa de ver todos os grandes westerns da história do cinema a troco de um interesse que, só fui admitir um tempo depois, tinha origem nessa fascinação que o gênero provocava em meu pai. Fascinação mesmo. Meu pai não dava muita bola para cinema, ele assistia TV para ver futebol, para ver F1 se algum brasileiro tivesse prognóstico de vitória, para ver novela e Jornal Nacional, além do programa do Jô, que me rende tantas boas recordações de começos de madrugada discutindo política e cultura. A única coisa relacionada a entretenimento audiovisual capaz de motivá-lo a transparecer alguma empolgação perceptível eram os westerns. E quando digo que me dei à tarefa de ver todos os westerns, eu não estou sendo deliberadamente exagerado, eu estou dizendo todos, todos os westerns que alguém um dia colocou em listagens de 100 maiores do gênero, eu assisti: dos spaghetti dos anos 1960 aos preto e branco com John Wayne. Assistir a essa massa toda de longas era a forma que encontrei de cobrir todas as bases, porque eu não sabia se meu pai gostava do western mais tradicional, dos spaghetti italianos dos anos 1960 e 1970, da fase áurea, mais antiga do gênero, ou da sua decadência revisionista que, não obstante, ainda foi render coisas maiúsculas na forma de "Os Imperdoáveis", por exemplo. Meu objetivo era compreender porque aquelas histórias de homens brutos em um contexto de atraso e rebeldia interessavam ao garoto nascido no interior do Paraná, filho de guarda-linha da RFFSA. Afinal, por que os bang-bangs e não, sei lá, filmes de pirata, outro gênero caído em ocaso, ou suspenses, ficção-científica, terror, filme policial ou de espião?
Não lembro direito em qual altura dessa epopeia que me consumiu uns 18 meses, os filmes eram difíceis de achar e a Internet não era tão rápida, me percebi interessado emocionalmente pelos westerns. De repente, aquelas histórias tinham aos meus olhos uma fascinação enorme nascida dos conflitos e das poderosas jornadas de superação e redenção que temperam a vida dos caubóis e homens que protagonizam a integridade desses filmes, suas buscas em meio a um mundo inóspito e hostil, seus combates morais, seus dilemas de luta anti-heroica que podem fazer do xerife um crápula e do bandido de bandana na cara e revólver nas mãos o herói de um povo ou de uma revolução. Da superação de condições injustas, da luta pelo amanhã melhor, a redenção saboreada nos pratos frios das vinganças ferozes, do amor improvável no meio do caos embrutecido, tudo em meio a duelos, saloons, enforcamentos, roubos de diligências e gado e muita, muita violência e injustiça. Sem perceber, virei fã de westerns e embora não tenha como responder precisamente o que interessava ao meu pai nessas produções todas, posso ao menos olhar para eles com o mesmo interesse apaixonado de fã e calcular que o que meu pai poderia buscar neles eram essas grandes narrativas de superação, do homem que sozinho dobra e põe no bolso as circunstâncias de uma realidade assaz injusta e cruel. Porque a vida de meu pai pode ser em grande parte sintetizada por essa árdua luta por um amanhã melhor, pelas puxadas de tapete que levou da vida e de ditos amigos, pelo que pode, no maior esforço possível, construir a pleno sacrifício e entrega sem, e aí mora a grande injustiça, ter podido aproveitar um pouco dos frutos da sua cruzada, tal qual um John Marston contemporâneo. Ou talvez tudo seja uma doce ilusão, criada pela minha mente ansiosa de respostas e sentido porque o nosso trabalho enquanto filhos é olhar para nossos pais como heróis, se não invencíveis, ao menos irredimíveis, absolutos: nesse western spaghetti épico da vida, meu pai era o mocinho.
Essa tentativa de diálogo com a memória de quem foi meu pai e das coisas que eu sabia sobre ele renderam uma série de dividendos que são parte do que eu sou hoje: eu conheci o Sérgio Leone, encontrei-me com o filme preferido da minha vida (“Era uma vez a Revolução”, ou “Giù la Testa!”), Ennio Morricone inundou minha existência sem episódios com a trilha sonora da contemplação, da vitória, da emoção, do amor e do triunfo que impregnam as parcerias do compositor com as criações de Leone. “Titoli” é ainda, e sempre será, meu toque de telefone. Eu constantemente ouço “I Figli Morti” e sou transportado para as emoções que o filme me provocou, além de tomado de tantas outras quando ouço "The Man With the Harmonica" e "Ecstasy of Gold", e por aí à fora. No mesmo arco de tempo, lançariam “Red Dead Redemption”, jogo de vídeo-game que fez mais para me aproximar dessa caricatura de quem foi meu pai, da versão bang-bang, do que os anos em que passei me perguntando sobre o que deixei para depois, o que perdemos e essas lacunas teimosas da relação entre pai e filhos que, aos olhos de nós que viramos órfãos antes de resolver essas questões, parecem definitivas. Red Dead Redemption me faria me imaginar mostrando o jogo ao meu pai e a considerar se, ao controlar as ações de John Marston, protagonista do jogo, eu não estaria, de certa forma, vivendo as fantasias que ele alimentara lendo revistas em quadrinhos do Tex e indo aos cinemas ver os bang-bangs. Os filmes ajudaram muito, despertaram o gosto, o jogo me daria a ligação definitiva com essa compreensão da atração que westerns em geral motivam nas pessoas e em meu pai.
Dessa forma, o “meu” Blade Runner na relação com meu pai se manifesta num caleidoscópio de cenas e situações, em geral protagonizadas por Clint Eastwood, ou então por James Coburn e aquela voz de barítono, temperados com Red Dead Redemption e uma trilha incidental comandada pelo toque marcial de “Triggernometry”. Entre essa colagem de momentos que me apresentam a Pedro, meu pai, não há nada mais definitivo do que a sensação de presença que “Pat Garrett and Billy the Kid” me provocaram, porque meu pai falava desse filme, a história é real, existiu efetivamente um xerife com esse nome e que matou com tiro nas costas Billy the Kid, que fora seu amigo e era bandido. O cenário de desolação do oeste norte-americano em processo de colonização me faz pensar na cidade pequena em que ele cresceu, dos campos e prados abertos sobre os planaltos, onde abundava espaço, cavalos e as distrações de guri que cresce em comunhão com a natureza. De repente, vê-lo xerife de cidade do interior, à cavalo e com espora na botina, aplicando o jeitão soturno do Coburn aos seus trejeitos me parece a coisa mais natural do mundo. Em algum momento, “Pat Garrett and Billy the Kid”, de Sam Peckinpah e com Bob Dylan no elenco e trilha sonora, renderizaram uma nova imagem do meu pai, de herói do oeste, de herói confrontado com os demônios e das contradições inerentes ao ofício de quem se vê obrigado a caçar um amigo, ou do herói com família para sustentar, baixo salário e traições da vida, tudo em plena harmonia com a imagem do meu pai de bombacha, chapéu e lenço, escrevendo furiosamente poesias e ganhando troféus de declamação nos rodeios tradicionalistas do interior do Paraná.
E aí fazem sentido outras coisas, porque meu pai em alguma altura da vida comprou cavalos, arrendou um pedaço de terra e pôs ali algumas reses de gado cujo único propósito em vida eram o de servir de distração para meu avô, Adelino, com quem, e só agora eu percebo, meu pai talvez tivesse a mesma coleção de impressões e dúvidas para resolver e sua forma de aproximar-se do meu avô, que morreria ainda antes de eu nascer, fora ir com ele “fazer à tropa”, andar à cavalo e atender do gado. Não sei se às outras pessoas é dada a capacidade dessas grandes epifanias em vida, mas eu tenho dessas coisas e lembro do choro que veio ao ver aquele filme e ir encaixando essas coisas e, desse quebra-cabeças inconcluso, que eu nunca vou terminar, ir surgindo os contornos de alguém tão complexo, interessante e incrível, esse cara que era meu pai, de quem eu não pude perguntar muitas coisas e com quem não vou poder andar à cavalo e ir brincar de tropeiro para me aproximar. Pode, sim, ser que todas as ilusões do mundo tenham se tornado navalhas a rasgar a minha mente, pendurando qual armadilhas esses quadros nessa parede da minha memória, mas Coburn como Pat Garrett nesse filme de 1973 É meu pai. Aquele lugar são os campos do interior e aquelas cenas mostram uma versão heroica de Pedro, professor, mestre, formado em economia, história e contabilidade. Pai de três. Poeta, escritor diletante, articulista de jornal. Ex-vereador, amante do futebol, fora inclusive goleiro do glorioso Renascença. O homem que incomodou a Força Bélica de Porto Amazonas, simpático, bom cozinheiro. Melhor churrasqueiro do mundo. Amante das tradições gaúchas, que ninguém é perfeito. Tinha enorme vontade de publicar um livro. Cardiopata que não soube cortar o cigarro à tempo, fraqueza que lhe custaria a vida. Morto no auge da carreira e da vida pessoal. Não arredava pé do portão, todas as noites, até que eu chegasse de viagem da aula do cursinho que fizera em outra cidade. Herói derrotado pela doença, meses de UTI e, desde uns anos para cá, redimido na encenação da jornada de um parente distante norte-americano em longa praticamente esquecido de 1973.
A sensação que eu tive com aquele filme em especial era de estar assistindo-o ao seu lado, e de no processo entender algo imaterial sobre quem meu pai foi, perceber que talvez quase 40 anos antes ele estava sentado numa sala de cinema, vendo esse mesmo filme porque era bang-bang e porque o personagem principal tinha com ele a singular coincidência do sobrenome. Que a semelhança com os trejeitos do personagem não fosse em absoluto incidental, que talvez de forma inconsciente meu pai projetou algo do filme em seu jeito de ser, ou que talvez ele sempre tenha sido desse jeito e quem está traçando paralelos entre personagem e figura paterna seja eu, hoje, que sozinho ainda tento de vez em quando colar os retalhos das minhas memórias com as minhas especulações de forma a desvendar quem foi, mesmo, o meu pai.
Eu vi "Pat Garrett and Billy the Kid" há uns seis anos e gostaria de abraçar o autor do texto porque ao lê-lo me lembrei de todo esse projeto de investigação e de definição da identidade dessa pessoa tão importante, dessa lacuna e incógnita na minha vida, num processo que acaba também definindo as silhuetas dessa figura que sou eu, das sensações que tive na experiência toda que, agora, postas sob análise com uma perspectiva mais crítica que colhe o benefício da passagem do tempo, me parece ainda mais marcante e definitiva na construção de quem eu sou e do que eu poderei oferecer quando e se couber aos meus ombros a responsabilidade de também ser pai.
Meu pai faleceu há 15 anos. Daqui a pouco, vai fazer mais tempo que estou vivo sem ele do que estive com ele por perto. De ter visto "Pat Garrett and Billy the Kid", faz uns seis. Está na hora de rever porque eu morro de saudades do meu pai.
às 16:15 0 comentários Marcadores: Cartas aos meus filhos, Memórias
terça-feira, 12 de dezembro de 2017
Gira il mondo
Nada disso conta porque nomes de carros hoje são uma pequena curiosidade. De lá para cá, girou muito il mondo no spazio sem fim e hoje eu, que até ando bastante à pé, não reparo nos nomes dos carros porque eles não reservam mais mistério nenhum. Vai ver que viver é isso, uma constante eliminação dos mistérios: um dia, andar é um mistério. Se assomar às proporções gigantescas dos nossos pais, quando nos agarramos às suas pernas, é outro. Em algum momento, o escuro, depois os ruídos da casa à noite, então são os nossos avós, o primeiro contato com outra criança. Depois são os nomes que departamentos de marketing, investindo milhões, escolhem para automóveis. Precisam ser modernos, desafiadores, interessantes, emocionantes, nome de carro tem que ser, no fim das contas, um motivo para que você o compre.
Outros mistérios chegam com o tempo, para uns eles aparecem antes, para outros depois, mas no geral, a escala segue uma mesma programação, determinada por condicionantes sociais, temporais, antropológicos, porque todos nós vemos o mistério da primeira paixão, da escolha de uma carreira, dos talentos que desistimos de ter, daqueles que cultivamos, das coisas que acreditamos, das que vamos perdendo no meio do spazio sem fim por onde desfila, inconsequente, em sucessivas elipses sem destino, esse globo, que nem é globo, taí outro mistério, andaram mentindo pra gente esses anos todos, o planeta não é redondo, é meio achatado nos polos e barrigudo pelo equador.
E tem sempre um mistério, uma crescente complexidade nas coisas que, de forma bem contraditória, se não mesmo misteriosa, nas ciências da computação se chama de abstração: medida do quão distante da linguagem de máquina, medida em pulsos binários, está cada informação. O mistério, hoje, é então muito mais abstrato que o nome Spazio, impresso em acrílico brilhante, colado ao aço bege de um hatch italiano dos anos 1980, mas nesse caso não quer dizer que abstrato seja simples porque o mistério, hoje, é o maior de todos até aqui.
Meu grande mistério não é único, capaz de você vê-lo ecoando no coração e cérebro de 11 em cada 10 pessoas da minha idade, já foi cantado em prosa e verso, meu mistério anda na filosofia e na literatura há séculos, e não há redução melhor para ele do que a frase: “nossa maior tragédia é não saber direito o que fazer da vida”.
Porque eu sei que eu não sei, e saber que não sabe, mais do que ironia socrática, é uma decisão, uma escolha emancipatória que lhe coloca no centro de controle ilusório da sua própria vida, esse que nós achamos que nos dá vezes de pilotos do destino que nos carrega para cá e para lá. Mas eu nunca soube. Hoje eu até desconfio, tenho bons planos, ando de boa vontade e cheio dos otimismos todos que, à força de doença, andei conservando ao longo da vida: minha energia e estoque de pensamento positivo impressiona, andei economizando muito, hoje eu invisto com vigor, que o saldo é largo o suficiente para que eu me recupere mesmo dos piores negócios. Mas parece que falta algo, falta uma resposta, falta preencher uma incógnita ou constante, falta fechar essa equação porque o cálculo, toda vez, retorna valores inconstantes e que não se verificam na frieza da realidade dos fatos. Meu mistério, esse de não saber direito para onde ir, é agravado por não saber direito como as coisas hão de terminar.
Gira il mondo no spazio sem fine, já passou um ano de mistérios, um ano inteiro de saudade, um ano inteiro de vontade, um ano inteiro de incógnita, de dúvida, de perdão e tristeza inocente, um ano inteiro desse vazio que você tenta tapar à força de todas as coisas boas que consegue encontrar, dessa transmutação em buraco negro que engole alegria, sorriso, boa vontade e as pequenas vitórias de quem vai se reinventar para não deixar que a sombra do que foi, da lágrima e das dores, venham aqui se fazer convidadas, tomar lugar na sala, venham me calar e me afogar em tristeza, dores e remorsos.
Não que seja difícil, mas também não é fácil. Apenas é: não há escolha, o único caminho é apertar o punho, fechar os olhos e esperar tudo passar. E espera. Porque tudo volta, quando você menos espera, e para falar a verdade, menos quer, volta. E dói. E aí você se fecha, e reconstrói, e vence, e engole mais alguma coisa boa, e volta. E aí você tem força, não sabe direito de onde, mas tem. E passa, e aí você pacifica, porque as coisas são o que são, você é quem você é, o passado é o passado, o presente você tem a ilusão de que escolhe, e o futuro é onde moram os teus sonhos e os novos mistérios.
Gira il mondo. Vai continuar girando, não importa o que façamos, indiferente. Como, aliás, e como corta perceber isso, você precisa aprender mais a ser em 2018.
às 11:39 0 comentários Marcadores: Memórias
domingo, 10 de dezembro de 2017
The Platters - The Great Pretender
às 10:02 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
terça-feira, 5 de dezembro de 2017
Mais uma estrelinha
E não é um caderno qualquer, é um caderno de capa dura, de quadrinhos porque eu não sei fazer conta em caderno diferente, é o meu caderno de matemática, que quase venceu todo o ano letivo, que está para terminar por esses dias. Ele se esgotou porque os esforços do professor foram bastante intensos, prolixo, mas também concorreram para o esgotamento o fato de que eu, cioso e interessado, simplesmente refiz à exaustão boa parte dos exercícios para me manter nas pontas dos casos na iminência das provas à tal ponto que, em todo esse ano, meu conceito mais baixo em matemática foi um B.
O que, em si, é outro ineditismo: esse encontro de um sujeito que sempre achou matemática interessante com a própria que, elusiva, era muito mais fonte de sombria e sorumbática preocupação do que de alegria nos tempos da adolescência. Quem diria. Mas brincar com os números e afiar o raciocínio abriu a porta para um exercício de otimismo: afugentei o medo, expurguei traumas passados e me permiti a pensar positivo sobre o pavor de ter dificuldades em matemática. Pus o cálculo no bolso, saí contente da experiência e encantado com a capacidade do pensamento positivo em facilitar os fardos da vida aos quais nos damos.
Eu poderia prolongar esse texto extraindo sentido do episódio do caderno encerrado, quem sabe comparar as duas realidades da minha vida de contraste porque, da mesma forma que eu me orgulho desse caderno, caprichosamente recheado de cálculos e fonte de dedicação e esforço, me orgulho de um outro que cá tenho comigo, que comprei em 1997 e que me serviu, respectivamente, na oitava série do ensino fundamental, nos três anos do médio, no cursinho, no ano de engenharia e nos quatro anos de jornalismo, tudo isso com uma porção considerável de páginas em branco. De um lado, dedicação; do outro a mais completa e bem acabada indolência. Infelizmente, dele arranquei páginas um tempo atrás, mas até então você podia começar a folheá-lo em Biologia, aí passaria por Cálculo Vetorial e Geometria Analítica, chegaria em Física do ensino médio, depois tinha algo de Teorias da Comunicação e assim por diante. Era o meu caos, era a minha indolência, era uma caricatura de quem eu era.
Mas não farei nada disso porque o triunfo não precisa de crônica e de análise: simplesmente é. Direi apenas que vou guardar esses dois cadernos, que me orgulho bastante de ambos, que um dia vou gostar de mostrar para alguém, quem sabe para as crianças. Que esse novo, de matemática, está tão bonito e vistoso que fico contente de tê-lo realizado e que, de todas as minhas pequenas vitórias e grandes mudanças, ter preenchido com sofreguidão essas páginas é uma das minhas mais alegres, e bobas, realizações do ano. Mereço, pois, uma estrelinha na testa.
às 17:00 0 comentários Marcadores: Memórias
domingo, 3 de dezembro de 2017
Em dia
O ano parece ter passado tão rápido. Pode ser impressão, quem sabe motivada pela agenda movimentada de passeios, de novas rotinas, de aulas, de mais trabalho, de cursos, oficinas, de ir e voltar, de viagens. Mas também de calma, reflexão e meditação.
Independente do motivo, o que conta e toca a dizer é que o ano foi mesmo corrido. Voou.
Antigamente, isso me preocuparia um pouco. Perceber que o tempo passa, rápido e imperdoável, tende a lembrar a gente dos desperdícios, da quantidade de tempo que gastamos com coisas que não rendem frutos, com o fato de que o tempo, que só passa, é finito e que a sua primeira e maior obrigação na vida é certificar-se de que não o desperdiça.
Mas ando em paz até mesmo com essa percepção porque nada do que eu faço hoje é desperdício. É tudo caminhada, percurso, descoberta e propósito em direção a um futuro sempre melhor. Eu tenho um plano.
Eu nunca fui dado a resoluções de ano novo. Nunca. Mas, ao entrar 2017, me dei algumas tarefas e metas, me permiti traçar uma porção de planos para todas as contingências possíveis e imagináveis então e, hoje, no finzinho de 2017, posso dizer com plena satisfação que tudo a que me propus, eu fiz. Que tudo que estava diretamente ao meu alcance foi realizado e de cada uma das minhas buscas e decisões vieram outras caminhadas, conclusões, experiências extraordinárias e lições importantes sobre quem eu sou e o mundo à minha volta.
E nesses depósitos e saques, nesses juros que são o tempo cobrando pela vida que nós achamos que fazemos, acho que finalmente entendo porque 2017 foi assim, estranho, mas ainda assim um ano legal: é a primeira vez, em tanto tempo, que termino um ano sem dever nada à mim mesmo. Estou em dia. Os empréstimos que fiz estão pagos, não devo mais nada a esse cara do futuro que andava meio cansado de, impotente, ver-me dando cabeçadas pelo caminho, me amedrontando com minha própria sombra, sem destino e propósito, desperdiçando oportunidades, tempo, amor, inteligência e energia.
É bom estar em paz consigo mesmo, quer no passado, quer no presente, quer no futuro.
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terça-feira, 28 de novembro de 2017
Nostalgias do futuro
Viver tem sido sonhar com o dia em que, meio velho, você pega no telefone, se eles ainda existirem, e liga para os filhos no meio do dia, sem a menor razão específica, para dizer que morre de saudades do tempo em que eles lhe sorriam com as bocas cheias de janelinhas; tudo isso enquanto sabe da improbabilidade geral dessas coisas e fica aí, cismando consigo mesmo, que já seria um bom começo adotar um desses.
E, no fim das contas, não fazer nada disso porque encarar a vida, sorrir, simplificar e adicionar leveza são todas as coisas que você pode fazer enquanto se ilude a respeito de ter algum controle do que faz, sente, deseja e, no fim das contas, realmente obtém das buscas e lutas nossas de todos os dias.
A vida é um troço engraçado.
às 18:53 0 comentários Marcadores: Cartas aos meus filhos
domingo, 19 de novembro de 2017
Radiohead - Man of War
Trata-se de uma faixa refugo do OK Computer, lançada só agora, 20 anos depois. E que coloca as coisas em perspectiva de um disco tão importante diante do fato de que essa música, um rejeito, é uma das minhas preferidas.
Eu considero a crítica musical uma das coisas mais insuportáveis da crítica cultural. Em geral, textos sobre músicas, álbuns e artistas são cheios de pedantismo insuportável e eu me pelo de pudores e censuras para nunca, jamais, posar como conhecedor, como crítico, para sair por aí resenhando músicas, álbuns e artistas, quer voluntariamente ou não. Como dizia o Raul, eu acho toda essa gente um saco.
Toda essa resistência está relacionada com o ambiente tóxico e ególatra de artistas e críticos, que se engajam num relacionamento promíscuo de grupos que deviam manter um distanciamento sadio em virtude do que produzem.
Mas acabei gostando tanto da canção que me permiti ler resenhas sobre. Tive engulhos em apenas dois parágrafos da crítica laudatória da Rolling Stones, suficientes para me recordar do porquê de achar o jornalismo cultural, em especial aquele que se debruça sobre música, uma das coisas mais insuportáveis do mundo pós-moderno. Eu ando velho, não me critiquem, me deixem pregar ao deserto, que aqui é quentinho e eu, para falar a verdade, nasci cagando para a claque.
Entretanto, vou reconhecer que a jornada foi útil porque me deixou descobrir que "Man of War" esteve a ponto de ser o tema de Spectre. Algo que faz todo sentido: a música tem uma batida bem James Bond, que eu não teria percebido por minha conta. A título de curiosidade, os produtores do filme, embora tenham gostado da peça, desistiram dela em virtude do fato de que a música não seria original para o filme, algo que tornaria a disputa por um Oscar impossível para Spectre.
Drift all you like
From ocean to ocean
Search the whole world
But drunken confessions
And hijacked affairs
Will just make you more alone
às 11:36 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
segunda-feira, 13 de novembro de 2017
Guillaume le Gentil
O problema é que Vênus atravessa o nosso caminho de tal forma que possamos vê-lo eclipsando porção insignificante do sol em períodos de oito anos a cada século. O último trânsito ocorreu na janela em 2012, precedido por um igual em 2004, e novo episódio do tipo só no século que vem: 2117 e 2225.
Fica aí, aliás, mais uma ideia de romance histórico: as dezenas de expedições que, em 1760, correram o mundo em busca dos pontos ideais de observação. O Capitão Cook, por exemplo, encarregado pela coroa britânica de ir ver Vênus passar a partir do Taiti na janela de 1769, tropeçou na então desconhecida Austrália no caminho de volta. Na Sibéria, derretiam-se as neves e conta-se que os astrônomos europeus embebedaram os mujiques para que esses não negassem fogo na hora de atravessar, de trenó, as tênues camadas de gelo de lagos congelados.
Nenhuma dessas histórias é tão interessante quanto a de Gentil.
Le Gentil foi designado pela academia de ciências da França para ir até a Índia, onde o reino tinha então colônia, e de lá fazer suas aferições. Equipado com telescópios, lunetas e cronômetros, o astrônomo embarcou mais de um ano antes da data, realizando viagem contornando a África e aportando em Madagascar. Ainda nessa perna da jornada, seria atacado pela marinha britânica em virtude da Guerra dos Sete Anos. Na ilha, procuraria um navio que tomasse o rumo da Índia.
No percurso dessa escaramuça a que se deu o nome de Guerra dos Sete Anos (e que rendeu a Dumas romances deliciosos), os ingleses tomaram da França o pedaço de terra na Índia que vinha a ser destino de Le Gentil. Em virtude disso, no meio do caminho até esse ponto, o francês foi convidado a fazer a volta e desistir de desembarcar.
Teve de observar o trânsito de Vênus no meio do Índico. Como, em geral, barcos balançam ao sabor das ondas, as medições e registros feitos por Le Gentil não tinham precisão e utilidade nenhuma, servindo apenas de curiosidade inofensiva. Além disso, para serem consideradas no esforço mundial, as informações precisavam vir acompanhadas de precisas coordenadas geográficas a respeito de onde foram tomadas, algo que a navegação rudimentar do tempo, sem o abraço redentor dos GPS e Glonass, impedia.
Apesar do insucesso, Le Gentil não se abateu. De volta à África, decidiu esperar onde estava os oito anos para o próximo trânsito do século, em 1769, abrindo mão de regressar à França, onde tinha vida como catedrático e naturalista, termo com que se classificavam no atacado todos os cientistas do tempo, além de família, interesses e amantes. Mas, com o mundo pacificado em virtude da guerra que acabaria dia ou outro, imaginava, teria outra chance de colher as informações em nova tentativa, dessa vez na ilha de Manila.
Passaram os anos, Le Gentil fez-se novamente ao mar, mas o governador espanhol à cargo da ilha escolhida como ponto não achou muita graça na ideia e, sob recomendação dos franceses, Le Gentil resolveu ir embora porque, além de hostilizado, considerava que Manila poderia não oferecer boas condições climáticas para acompanhar a passagem venusiana sobre o disco solar. Para não perder o fenômeno astronômico que consumiria 11 anos de sua vida, dirigiu-se então, mais uma vez, para a Índia. Fora, inclusive, de bom ânimo com o prognóstico de tempo bom durante o período para poder acompanhar o evento com boa visibilidade.
Fez um mês de tempo bom e céu limpo, algo que aliado ao fato de estar em solo ostensivamente francês, pôs o astrônomo no melhor dos ânimos. Até que não fez mais. Em Pondicherry, local da observação de Gentil, no dia, no exato dia em que Vênus desfila perante o Sol, e segundo memórias de Gentil e do governador da colônia, nos minutos exatos que antecediam o trânsito, fechou-se o tempo e um céu de chumbo encobriu completamente a visão da passagem do planeta. Le Gentil, naquele momento, tinha devotado uma década de sua vida para não conseguir acompanhar um evento que, somando as duas datas separadas por oito anos, dura seis horas. Algum tempo depois, o francês ficaria sabendo que seus colegas postados em Manila, ao contrário do que Gentil havia presumido, observaram todo o trânsito em perfeitas condições atmosféricas.
Registra-se que, em seu diário, o francês anotou que se atirou de cabeça à cama, e anotou: "tal é a sorte dos astrônomos!".
Guillaume le Gentil, com toda a razão, enlouqueceu.
Passou uns meses se aborrecendo enormemente com a crueldade da vida, morando em plagas distantes da Índia, até que resolveu voltar para a França. Contraiu disenteria, sobreviveu a tempestades e naufrágios, cruzou um mar infestado de corsários em pé de guerra (Espanha, França e Inglaterra entrariam em campo dali a uns meses para decidir quem se classificaria para as Guerras Napoleônicas décadas mais tarde). Chegou a Paris para descobrir que fora dado como morto, que sua mulher tinha achado outro, que não tinha mais propriedades. Passou anos em tribunais e recorreu ao poder do rei para que intercedesse em seu favor.
Morreria uns 20 anos mais tarde, bem a tempo de evitar a roda de guilhotina que com certeza engoliria sua cabeçona azarada e adornada por aquela cabeleira inexplicável, típica da aristocracia francesa daquele entardecer de velha ordem.
Esse é um resumo da sua aventura, presente nas suas deliciosas memórias “A Voyage in the Indian Ocean”, livro que é assaz raro, infelizmente, e que me deixa com aquela sede de leitura e curiosidade assanhada, algo que está para mim como a pachorra abnegada estava para Gentil. O livro, no entanto, é mais que um relato dos azares todos porque, pelo que se pesquisa, vai ainda mais longe, fala do interesse que Gentil desenvolveu pela cultura africana, pelo seu esforço de mapear a ilha de Madagascar e uma série de outros projetos que ocuparam-no ao longo dos anos em que esperou as órbitas de Terra, Vênus e Sol se realinharem.
A anedota sobre o azar esmagador de Gentil é engraçada, curiosa, foi o que eternizou seu nome, provoca riso e vai trazer lições de vida, se você estiver procurando por elas, mas o que mais me instigou a ler esse livro impossível e em conhecer a vida de Guillaume Le Gentil foi em me encontrar com esse modelo de homem, no sentido do coletivo da raça, que sabe de tudo: que se orienta pelas estrelas, que domina aritmética, astronomia, tem noções de navegação, de marinharia, de caça e de cozinha. De cartografia. História. Capaz de desenhos lindos de paisagens e de ruínas que fora visitando no meio do caminho. Que ergue uma casa no meio do mato. Para quem nada é tão desafiador e insolúvel e todas as coisas se medem pelo compasso aberto da razão. Que triunfa sobre a natureza e sobre si: o perfeito renaissance man.
Mais do que um grande azarado, do que um estoico na melhor acepção dessa virtude, Le Gentil foi um desses renaissance man, o polímata, o tipo de homem que eu sempre quis ser.
Ah sim. Os dados colhidos pelos colegas mais afortunados de Le Gentil, em observações espalhadas pelo mundo todo naquele intervalo de oito anos, foram aplicados a métodos matemáticos presumidos século antes por Halley (aquele mesmo, do cometa) e que mostraram que estamos a 148 milhões de quilômetros do sol. Um erro de menos de 1% do valor real, que só seria aferido séculos mais tarde com o auxílio da tecnologia.
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quarta-feira, 8 de novembro de 2017
1998
Eu nunca tive uma ideia muito clara das dificuldades que afligiram meus pais ao longo da minha criação. E elas existiram, mas nós, ocupados em crescer, não temos a perspectiva do todo, de forma que eu sempre tive uma vaga ideia dos apertos, mas nada muito tangível. Até que hoje eu tive uma ideia da dimensão de alguns sacrifícios a partir de um comentário bobo de minha mãe.
Não recordo sobre o que falávamos, mas ela lembrou que, em 1998, eu tinha enfiado na cabeça que queria o novo livro do Jô Soares. Eu, naquela época (como agora) devorava livros em velocidades assombrosas. E, retrato de um tempo sem internet e de adolescência, tinha em Jô Soares meu parâmetro de escritor. Melhorei.
Em todo caso, o livro custava 49 reais, o que na época era proporcionalmente muito mais dinheiro do que são 49 reais hoje. Insisti, insisti, insisti no livro. Nunca tinha ganho um livro de presente, eu queria um livro de presente de aniversário, não um videogame.
Nesse comentário, minha mãe recordou a história, dizendo que era um sacrifício comprar aquele presente, porque era caro demais, porque naquela época nós tínhamos condições limitadas, porque outras coisas eram prioritárias. Eu só fui entender e dar-me conta anos mais tarde, porque eu não me importava (e não me importo agora), mas eu passei grande parte da vida escolar com apenas um conjunto de uniforme.
Nesse quadro, sair comprando livros recém lançados de famosos não é uma alocação sabia de recursos escassos.
Em todo caso, ganhei o livro.
Recordando essa passagem, minha mãe lembra o quanto eu fiquei contente com o presente. Pensou, inclusive, que estaria livre de precisar gastar tanto com meus caprichos por um tempo. Três dias depois minha voracidade por leitura poria tudo abaixo: eu já tinha lido o livro inteiro. Mas, para nossa sorte, a produtividade de Jô Soares como escritor decaiu vertiginosamente e eu acabei não mais pedindo livros de presente.
Segundo minha mãe, aliás, foi a última coisa que eu pedi: o livro.
O tenho, aliás, até hoje, e sempre que olhava para a sua lombada na estante me recordava da origem: presente, aniversário, 1998. Reli-o algumas vezes, é até engraçado e a história, se levada como entretenimento sem compromisso, não é ruim.
Mas o que fica da anedota toda não é a graça do romance sobre o homem que teria matado Getúlio Vargas. O que fica, de hoje em diante, é essa janela aberta para a gratidão, o entendimento e o valor que damos ao carinho, dedicação, sacrifício e esforço dos nossos pais.
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terça-feira, 31 de outubro de 2017
Peso
É semana de finados. No cemitério da cidade há quem me espere e eu digo que não sou muito afeito do lugar. A algum desavisado vai parecer terror da morte, algum medo, quem sabe a justificável dor das lembranças que eu trago comigo de situações que não deviam nunca sair das páginas dos livros para vir empeçonhar a existência das pessoas, ainda que o provérbio de que o elusivo deus nunca dá cruz maior do que a largura das suas costas, ao menos no meu caso, tenha sido sucessivamente verificado com sucesso. Mas deve haver exceções. Em todo caso, não é nada disso porque eu não tenho pavor, medo ou repugnância de cemitério. Eu não gosto desse cemitério, desse. Porque ele me recorda o choro da minha mãe e as coisas que ela dizia e fazia quando morrera a minha avó.
Nada de louco, nada de absurdo, nada de errado, frise-se. Eu só era um menino muito impressionável. E impressionado fiquei.
E, de lá para cá, passei a não gostar e a evitar sempre que possível andar não por cemitérios, no geral, mas por um específico, esse mesmo, esse das minhas memórias, que em típica irresponsabilidade urbanística foram construir em cima de um morro. Ainda que, verdade seja dita, o que não é morro nessa cidade?
E, afinal, por que me desculpo tanto? Há quem goste de cemitérios?
No meu caso, a razão, aparentemente bem explicada e conhecida da sensação, tem toda pinta de ser velha conhecida.
Não é verdade. Fui dar-me com essas explicações bem recentemente, nesses momentos de introspecção que a meditação rende.
Mas eu precisei vencer a repulsa de cemitério porque é semana dos mortos e, embora eu tenha convicção de que eles só existem na minha memória, que a morte é o frio fim de tudo que a entropia antecipa e endereça, resolvi ir prestar meus respeitos para quem já foi. Em especial, meu pai e irmão. Décadas antes, dois tios meus, morreram bebês, foram sepultados no lugar. E eu, que vergonha, não consigo, por mais que faça força, lembrar dos nomes.
Não levei flores, acho que elas devem ser dadas aos vivos, também não fiz orações porque eu não rezo, eu não creio. Mas me aproximei reverente e com peso daquela capela, daquela velha e conhecida capela, daquele ponto final inescapável onde, parece, tudo acaba e se torna pó e irrelevância na escala do tempo.
A sensação de peso me recordou algo que meu pai dizia sobre mortes e cortejos, sobre a sensação de que o caixão ficava mais pesado tanto quanto mais próximo o cortejo chegava do túmulo. A recordação dessa frase me fugira da mente por todos esse anos de sorte que eu lembro muito bem de quando a ouvira pelas duas últimas vezes na minha cabeça, martelando qual verdugo no meu coração de garoto: quando coubera à mim carregá-lo até aquela mesma capela.
Sim, pesa.
Eu cheguei de bermuda e chinelos, com uma escada debaixo do braço. No outro, carregava um balde, nele ia dentro a brocha, um pano, adaptador para o esguicho, extensão para a tomada. Noutra viagem, fui ao estacionamento e busquei uma lata de produto químico e o esguicho desses que vaporizam a água e ajudam uma barbaridade em qualquer tipo de serviço mais pesado em que precise-se de água como solvente.
Minha forma de prestar carinho, recordar, de respeitar, foi subir àquela laje. Fiz uma limpeza daquele pequeno teto que nunca fora feita, está em pé essa construção desde 2002, e nunca, depois que o pedreiro desceu e desfez o andaime, subiu alguém aqui. Eu tenho um sexto sentido para perceber essas efemérides, é quase como outro super poder, faltando ainda descobrir uma forma de, com ele, se encapar e esconder atrás de outra máscara, porque umas já carregamos todos, e sair por aí combatendo o crime.
Fiz a limpeza, removi o musgo, a casca, a vida morta que se agarra nesse concreto. Uma década e meia de acúmulo, de tanta coisa que aconteceu e não houve, que houve e não aconteceu. Esfreguei, escorri litros d’água, garanti que as calhas estivessem brilhando, que a água nunca fluiu desse telhado tão bem quanto agora.
No processo, revelei o que eu temia, descuidada, a laje já tinha focos de infiltração e eu, contente pela minha capacidade de estimar o estrago da entropia, essa anti-heroína da minha vida, desci. Abri a lata de impermeabilizante, fiz a mistura conforme me orientara um pedreiro. Sofri com a escada mal apoiada, os quilos de peso no braço, a dificuldade para fazer tudo sozinho. Mas subi.
Passei aquele impermeabilizante e, avaliando o que eu fazia, garantir boas condições àquela laje a quem não existe, quase que mumificando essa estrutura para que a água não traga oxidação ao ferro que mantém tudo em pé, tive esses meus ataques de niilismo, essa desgraça do existencialismo, esse mal doído de ter lido tanto e de poder ver as coisas por tantos ângulos, tantas formas, e poder tirar tantas conclusões quanto possível, normalmente nenhuma delas útil e redentora porque a sina de perceber essas coisas é atinar sempre com o inescapável nada e a nulidade esmagadora de todas as coisas.
Não é fácil ser eu mesmo.
Parei de questionar o que fazia me recordando do propósito legítimo: demonstrar respeito em foro íntimo, daí a ter escolhido vir tão antes dos finados, não quero ser vitrine, exemplo, nem tenho vaidade para que digam “oh, que dedicado”. Fazer algo de útil, de importante, no silêncio e na discrição de quem se basta com o registro na memória de ter feito e esse texto, quase que anônimo, perdido nesse turbilhão de desatinos e bobagens que tenho escrito.
Mas não pude desarmar a bomba, porque para cada uma das carradas de arrazoados que eu tiro do bolso para explicar como movem-se os planetas, como funciona o computador, porque os juros derretem nossa economia, como o avião pode voar, da importância do estoicismo, da dificuldade de quebrar vícios de comportamento e de formas de levar a vida depois de anos doente, de que é, sim, inútil vir aqui atender a essa laje, mas não deixa de ser importante, algo meu, algo para preservar, enfim, no meio de tudo isso, estoura a bomba, e a bomba é o coração. As saudades, a falta, a distância, as minhas lembranças, o que eu queria ter dito e feito e tudo vai e volta, tudo gira nesse espaço sem fim e propósito, e eu, que sou sempre eu, claro, fui misturar ao impermeabilizante o sal tépido, puro e grande não só do meu suor, como das minhas lágrimas.
Eu sei que o caminho da minha vida vai longe, que não é cedo que eu vou me deitar por lá, mas agora há um pouco de mim naquela morada, porque ficaram, e é poético que tenham sido elas, as minhas lágrimas embutidas no espaço que guarda os restos de irmão, pai e tios. Morremos todos um pouquinho por dia e que bom que nesse eu soube escolher uma morridinha digna e da qual eu me orgulho.
Daqui 15 anos eu entro novamente nesse cemitério e subo de novo naquela laje.
às 13:23 0 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 16 de outubro de 2017
domingo, 15 de outubro de 2017
Da porra
A obra está parada, a coisa toda foi para a justiça, mas isso não me impede. Acima da lage, onde se forma o telhado, há uma cobertura de chapas de compensado que, mais ou menos incorretamente instaladas, expõe algumas bordas recortadas à ação do tempo. Tempo que, como se sabe, passa. Ele não faz outra coisa, e ao passar, dá o ensejo das chuvas, que se lograrem o êxito de alcançar essas aberturas, vão infiltrar nas camadas da madeira prensada e, com o tempo, farão com que apodreçam e, em apodrecendo, compromete-se de uma só vez toda a vida útil do telhado que, propriamente instalado, deve sobreviver até 40 anos, suportando inclusive borrascas de alguma magnitude no processo.
Aí eu subo na lage, munido de uma lata de tinta à óleo que comprei, pincel e água-rás, armo a escada e esquadrinho cada centímetro quadrado da cobertura em busca dessas aberturas. E as cubro com a tinta a óleo, que as veda e protege, e assim gasto toda uma tarde em meio à delícia do trabalho, da dedicação, do interesse e da responsabilidade de fazer algo simplesmente porque deve, porque precisa, porque é seu, porque a vida também é as responsabilidades que escolhemos.
E aí termino, trabalho bem feito, tenho convicção de que segui todas as instruções reservadas no manual baixado da Internet, que agora sim, esse telhado vai longe, é capaz de sobreviver a nós todos.
E aí me aborreço porque acaba a aventura. Não há mais telhado para corrigir e que pena que, no meio dos erros que são agora seara da justiça, das incorreções e coisas por fazer dessa obra, eu não saiba mais achar nada para me distrair.
Desço do telhado, guardo as coisas. Lamento que tenha sobrado assim tanta tinta, a lata era das pequenas, mas metade ainda fica nessa lata que, à falta de ter mais o que pintar, vai acabar estragando com o tempo. Peguei certa aversão aos desperdícios.
E pintor de meia tigela, me encontro também de certa forma revestido desse vermelho escuro que só larga o abraço do meu couro à força de se esfregar bastante, ou de se aplicar a água-rás, esse líquido de cheiro forte, que eu gosto, mas que resseca a pele e que a faz arder depois de algumas esfregadas. Pelo menos, com o frasco de água-rás não se dá o mesmo que com a tinta, uso até a última gota: considero até que precisava de mais algum do líquido porque, francamente, eu sou desastrado demais para manejar pincéis.
Eu sou, na verdade, desastrado com todas as coisas.
E eu desço dessa escada, me preparo para fechar a construção toda, atar pelo nó do cadeado as correntes, fechar os portões, recolher todo o material que fica, o que vai comigo. Noto a camiseta manchada, que previdente eu fora em ter escolhido uma roupa velha, que agora respingada desse outro vermelho sangue não fara falta que fique à serviço de limpar os chãos, de virar retalho, de ir para no lixo.
Mas só horas mais tarde, no calor do conforto da companhia de quem nos quer, que eu de fato ganhara o dia. Uma tia muito querida, sabendo do porque eu estava de braços esfolados, e ouvindo da minha rotina, que envolve tantas devoções; sabendo dos meus poemas e dos meus pratos, foi me rasgar um elogio que me encheu o peito. Ouvi dela um “mas que homão da porra!”.
Venho me dando bem com elogios. No começo da faculdade, a professora de inglês veio, com o adorável filho ao colo, querer saber porque eu desejava eliminar a matéria. Na conversa, descobrimos que tínhamos compartilhado as mesmas salas de aulas numa outra universidade. Ao saber que eu era jornalista, mas gostava de ciência e de matemática, ela me classificou de união do útil ao agradável, o que me deixou sinceramente comovido. Ainda que, na verdade, mais do que bom domínio do idioma, me decidira a eliminar a disciplina porque me folgaria as noites para as viagens que achava que faria quase semanalmente a uma paulicéia e também porque a professora, em que pese a gentileza e o bom papo, tinha boa parte dos vícios dos maus professores que me levaram a destruir qualquer nesga de seriedade durante a minha primeira formação. Que bom ter eliminado a disciplina, portanto, porque dela fiquei apenas com boas recordações e com a dívida desse elogio tão gentil.
É bom espraiar o penacho preguiçoso dessa minha cauda de pavão que, por tanto tempo, escondi envergonhado de não sei bem o quê. E no fim, eu sou mesmo união de útil ao agradável e, bem sinceramente, um tremendo homão da porra.
às 08:46 0 comentários Marcadores: Memórias
