Numa das minhas andanças recentes, cortei um pedaço de mata porque o dia já ia avançado e eu precisava de civilização, de café e, mais importante de tudo, de uma estrada, porque a bateria do celular ia se acabar e eu, explorador de apartamento, não tinha bússola e dependia do GPS para não errar o rumo e acabar andando muito mais que o necessário. Esmagava a relva, essa coisa indizível que são anos e anos de folhas em decomposição, resto de vida, troncos de árvore que se esfacelam ao toque da mão, matéria, lama, terra, pedra, sedimentos, ninhos, cascas, o testemunho indisputável da segunda lei da termodinâmica, aquela da entropia, que explica porque crescemos, porque morremos, porque nada volta a ser como era, porque, dando tempo necessário, tudo mais se confunde num emaranhado de coisas desfeitas, de mistura, de energia transformada, de matéria decrépita, de fracassos e vitórias, porque a ciência da física também sabe ser poética, é tudo uma questão de saber como lê-la. E seguia, inabalável e inexorável, como um transatlântico sem freio, sem controle, indo de encontro ao cais, que todo cais é uma saudade de pedra, arrebentar-se na amurada, subir a terra, trilhar no meio de todos esses sedimentos o meu caminho, com essa quilha de aço, que é firme, que é sobre o que se lança e se constrói todo navio que, altaneiro e ambicioso como eu, tenciona, um dia, singrar as águas desse e de todos os outros oceanos, que são muitos, que são grandes, que nos levam, há vezes em que nos trazem, que nos buscam. E que, não cuidando, nos afogam. Como votava a todos os diabos a perspectiva de precisar tentar, eu disse tentar, me orientar com ajuda da posição do sol e outras aleatoriedades cósmicas, porque se navio sou, sou de eras mais recentes, todo dependente da cobertura dos insuspeitos satélites, esses que lá dos céus, enfim, nos dizem de onde viemos, para onde vamos e quando por lá chegaremos, está visto aí que o elusivo deus existia, era tudo uma questão de, de fato, inventá-lo e de enfim manda-lo à órbita, porque não há espaço na superfície desse mundo para mais um deus, tanto mais um que seja de verdade. No meio dessas e de outras considerações, estava claro que era preciso estabelecer alguma forma de contato com outras pessoas, e quem sabe, eu disse quem sabe, garantir uma xícara de café. Não que a situação fosse assim tão desesperada, o interior do Paraná é densamente povoado, não estou no Saara, que se estivesse, a verdade é que o café tenderia a ser desse tipo árabe, que afiançam os entendidos, é mais saboroso. Mas no Saara é difícil dar com os beduínos e deles arrancar algum café, então nos contentemos com o café inferior, mas mais certeiro, que se encontra nas casas do Paraná. Acima de tudo, mais do que a necessidade de rumo e de café, aborrecia-me a ideia de ter de acampar naquele dia, cansado e despojado que ia dos instrumentos e acepipes necessários, e, pior de tudo, sem café, com o cantil seco de água como, aliás, também ia a garganta. Decidido, portanto, mudei o rumo e fui em direção a uma clareira que tinha avistado uma hora antes, que lá do cume me parecia tão perdida no meio da mata e que, como se verá adiante, julguei corretamente como local de algum traço civilizatório que persiste em meio às bracatingas e araucárias.
Fui parar num campo, que fazia parte de uma pequena propriedade que, depois fiquei sabendo, fora um dia uma fazenda enorme, dissolvida ao longo das décadas e das gerações. À distância, ficava uma casinha que me parecia tão familiar e que já vira dias melhores, familiar pelo estilo da construção, não que tenha eu por ela passado antes, mas é o caso de ver algo que já vimos antes, é bater os olhos sobre curvas, paisagens, sobre estradas e monumentos, aquela sensação de que quem já viu uma coisa, já viu todas, porque não há muita margem de manobra pela qual a capacidade humana de edificar possa surpreender, as casas variam em tamanho, idade, acabamento e cores, mas no geral, são feitas das mesmas coisas que sempre foram feitas, têm as mesmas janelas, as portas, os vidros, os móveis e as pessoas, justiça seja feita, também não variam tanto assim. Uma casa, por exótica que seja, é análoga direta à sua próxima e é por isso que faz sentido chamar a ambas de casas, porque se fossem extremamente diferentes entre si, teríamos de encontrar outros nomes para dar conta de todas. A casinha em questão não fazia jus ao diminutivo, porque o ângulo pelo qual a desvendei pela mata a desfavorecia, fazia parecer menor, porque me mostrava apelas a perna menor do “L” que a sua forma tomaria, se vista do céu pelas divindades que operam os GPSs. Pela localização em terra rica de colonos poloneses e ucranianos, pelos traços ornamentais recorrentes dos trabalhos em madeira de procedência das escolas estéticas dessas duas pátrias eslavas, já calculava que o sangue que moldara aquela morada tinha muito em comum comigo, com o que pulsa, quente e vivo, pelas minhas e veias, com o que besunta as minhas engrenagens, empurra a massa violenta das minhas vontades, esse que me inspira. A casa já vira momentos mais gloriosos, o descuido e os anos de vida se denunciavam com facilidade no desgaste amargo da precariedade das coisas submetidas à marcha irredutível e obcecada do tempo, tudo isso se fazia cada vez mais evidente pelo recibo dessas coisas impresso na madeira, que eu divisava com cada vez maior riqueza de detalhes conforme avançava a marcha. Os detalhes, as feridas, as cicatrizes, os talhos e rachaduras, casca morrida da vida passada dessa casa dá o que pensar e me permite arriscar dizer que está em pé há mais de 80 anos, vê-se claramente nos adereços à borda das calhas o corte eslavo nos lambrequins, que também não proíbem a morada de ter sido erguida por italianos, povo que também deu esse tipo de acabamento às suas moradas brasileiras, mas rareiam as colônias italianas por esses lados e o coração, esse meu coração de sístoles e diástoles contatas à cavalos-vapor, que empurra o óleo vermelho viscoso da minha vontade, que enxerga tudo a seu jeito, já decidiu que a casa é eslava, que é ucraniana, gosta de pirogue, de charuto e que lembra com carinho de quando, em meio às suas paredes, falavam ucraniano, quando alguém ali lia o jornal da colônia, todo escrito no alfabeto cirílico, aquele normalmente associado aos russos, mas também usado por outras nacionalidades eslavas, e que tem por curiosidade maior o fato de ter 33 letras. Aos disparates do coração, vem em socorro a mente, que chama a atenção para a armação das janelas, que é decididamente antiga, mas nada ali garante a origem da morada, a pintura lascada deixa enxergar outras cores, outras épocas, o encardido de onde a madeira era branca, nas janelas e molduras das portas, denuncia o pouco cuidado com que a casinha, decididamente de sangue e motivos eslavos que cantam mais fundo nesse meu coração que comunga do sangue desses ortodoxos em favor das cantigas italianas, vem recebendo pela melhor parte da sua vida.
Mas não fora para julgar a qualidade da morada, tampouco o desvelo dos seus moradores, que me dirigia à porta francamente aberta naquele fim de tarde. Havia fumaça na chaminé, com certeza um fogão à lenha reina soberano na cozinha, deixando água e bule aquecidos para o café da tarde. Eu já projetava que me ofereceriam um café porque estava morrendo de vontade de um e, de fato, bastou que escalasse os dois degraus de cimento que endereçam o visitante à soleira da porta dos fundos, que escancarada leva à cozinha, dissesse o gentil e solene “ô de casa”, que herdei das vezes em que fazia passeios semelhantes com meu pai e que ele sempre usava para abordar lares de pessoas simples e desconhecidas, para sentir o cheiro inconfundível do café fresco. O uso da frase, aliás dita e não respondida, a não ser pelos latidos e corrida preocupante de seu emissor ao meu encontro, carreira que me pôs em situação de alerta, se dilataram as pupilas e se inundou o coração de adrenalina, me vi ferozmente estático naquela soleira, enquanto a reminiscência de meu pai me trouxe imediatamente a recordação de outra caminhada, dessa vez não assolada por sede de café, mas por fome de proporções etíopes, adjetivo dito aqui sem a tenção de dizer que cheguei à beira de morrer de fome um dia, e que também não denuncia qualquer forma de desrespeito do autor para com as penúrias encaradas por esse, e tantos outros, povo africano, que fome é doída, e, embora me compadeça da miséria que suportam os etíopes, empresto de seu suplício apenas um adjetivo, não um juízo de valor. Na caminhada da fome de proporções bíblicas, que se é para ofender alguém, que seja o deus que se esqueceu de existir, abrindo espaço para as divindades satélite, caminhamos meu pai e eu aos estertores do que nós conhecíamos por fome, e que fomos nos contentar em comer uns pães duros, sobrados numa choupana, provavelmente esteio de pescadores sazonais à beira das lagoas que o Iguaçu que, nas estações favoráveis do ano, enche generoso para deleite da pesca preguiçosa, que junta peixes com as mãos nos acúmulos de água formado pelos transbordes do rio nessas épocas. Pães ressecados e seguramente insalubres que, no entanto, devoramos os dois com os narizes, a dentadas vigorosas que, imagino, dariam cabo de pedaços de madeira na falta daqueles pães velhos e petrificados, tamanha era a fome. Bons maus tempos que, me apercebo agora, estou reeditando solitariamente. O cão, que dá testemunho do velho dito de que, quem ladra, não morde, apenas se avizinhou, ressabiado e alerta, das minhas pernas, cheirou, mediu, calculou e se conformou com a minha invasão.
Na morada, me encontrei com Miguel e Rosa, casal que soma 45 anos de união e que nunca, em toda vida, encontrou razão para sair do município, algo que não chega a propriamente me surpreender. Talvez exceto pela saúde, porque é comum que a gente que vive isolada no interior recorra às cidades maiores para tratar-se, sobretudo na terceira idade, de sorte que me admira o casal não ter seguido a moda. Aposentados sob as bem folgadas leis que regem o negócio da aposentadoria rural, que no entanto não se verificam em forma proporcional no que tange à quantidade de dinheiro legada a quem assim se desobriga do trabalho remunerado, o casal vive do que planta, das galinhas que rareiam no galinheiro, de um ou outro porco comprado de vez em quando para engorda e abate, outra deliciosa referência que me lembra a minha avó, que falava ucraniano comigo, e que eu ia correndo visitar umas quatro vezes por dia, até que um dia ela teve um derrame, faleceu, e a infância nunca foi a mesma, porque a vó Ana era doce, a vó Ana era incrível, a vó Ana era uma força da natureza. A compra e abate dos porcos é uma oportunidade que ocorre normalmente atrelada a datas santas, quando convidam os filhos e netos todos para tomarem parte da festança. Do contrário, vão todos comungar das penitências e folgas nas deliciosas festas de igreja, que descontados os aborrecidos e inúteis ritos religiosos, todos dedicados ao elusivo altíssimo, que nunca, ao contrário dos santos dos GPS, disse uma palavra sobre para onde vou, são uma das grandes delícias ignoradas do interior paranaense.
Miguel quis saber quem eu era, o nome da minha família, o que fazia da vida e porque fora parar ali, parecia tão cansado, se tinha andado muito e, enfim, por que o tinha feito, sendo que a chave do carro, dependurada numa das alcinhas que suportam o sinto da bermuda, denunciavam que eu tinha meios de locomoção mais ágeis, confortáveis e menos cansativos que as minhas pernas para ir chegar até lá. Dei a todas as perguntas respostas sinceras e corretas, mas, em proteção a interesses meus, me vi forçado a omitir minhas razões para o passeio. Miguel não pareceu ter-se apercebido da estratégia e me deu a impressão de ser um daqueles sujeitos em quem se confia instintivamente e que simplesmente esperam o melhor dos outros, mesmo se eles forem estranhos, se dispuserem a andar quilômetros no meio do mato, mesmo que possuam automóveis a seus serviços.
O café não veio, mas eu não me importei, porque me engajei numa conversa interessante com o morador, de fácil conversa. De pele escurecida de sol, olhos castanhos, nenhum sinal de calvície e grande profusão de rugas, Miguel era magro e me explicava que trabalha bastante ainda, seja na propriedade, seja na de vizinhos e na de um dos filhos, que mora mais adiante, coisa de 12 quilômetros, seguindo a estradinha no sentido da serra, que ele garante, em tempo limpo, que não é o caso desse dia cinza, se avizinha vasta e calma, no horizonte, quase a abraçar a casa, porque os morros aqui fazem curvas. Falamos muito sobre a região, sobre os vizinhos, sobre as paisagens, os rios, cachoeiras e cavernas da área que, ainda bem, ninguém conhece. Miguel tentava torcer a conversa para o campo, as lavouras, a produtividade, as dificuldades, problemas de mão-de-obra, da vadiagem da juventude, que nas contas dele, não quer mais suar debaixo de sol e com enxada às mãos. Não pude, entretanto, amadurecer esses tópicos porque não conheço rigorosamente nada da vida do campo. Quando o assunto era as belezas da região, tive cuidado de não deixar transparecer meu entusiasmo porque minhas peregrinações por esses rincões têm como objetivo sondar a área, ensaio comprar uma propriedade por ali e gosto de conhecer tudo no entorno. Não quis que Miguel soubesse porque me preocupo que as minhas inclinações, sendo conhecidas pelos proprietários, acabarem influenciando os preços. De mais a mais, é inevitável, que nas minhas caminhadas acabe invadindo inadvertidamente uma porção de propriedades e não quero que circule por aí a informação de que um moço da cidade, que o cabelo não é mais grisalho, anda por aí.
A conversa ia tão boa e Miguel é um senhor de tão fácil diálogo que não dei por mim, e o tempo, esse que sempre passa por não saber fazer outra coisa, fez chegar a noite. A troca de horário, apenas há poucas horas, havia me pego desprevenido e, no meio do escuro, não poderia regressar ao mirante. Sem precisar dizer um ai, pedir nada e tocar no assunto, a dona Rosa me fez lembrar que há quartos de sobra na casa, que ao contrário do que o ângulo em que vira o casarão pela primeira vez quando da minha chegada, é grande e que todos os três quartos que, hoje, sobejam foram dos filhos do casal em algum momento. Ainda antes de Miguel e Rosa comprarem a área quando recém-casados, a casa já estava em pé porque fora morada de uma fazenda, antes bem maior, mas que foi sendo engolida pela necessidade de gerações e gerações de descendentes de seus fundadores em repartir heranças, apaziguar brigas de famílias e dar ao termo êxodo rural o sentido que tem.
Gastamos as poucas horas da noite em que o casal idoso se dispõe a ficar em pé conversando mais, dessa vez sobre o passado. Rosa, percebi cedo, não tinha muito assunto para dividir comigo, embora eu tenha lhe perguntado sobre a comida da janta, um caldo de mandioca realmente saboroso, ensejo de dividir seus truques de cozinha e de tempero que, aparentemente, lhe deram enorme prazer. Mais tarde, na sala de estar, repleta de imagens de santos, um pequeno armário à janela e uma mesinha em que repousa um televisor de 20 polegadas que deve contar seguramente mais de 25 anos, as conversas foram amainadas porque a rotina televisiva do casal estava em plena marcha: Silvio Santos, aquele Fantástico genérico da Record e as intermináveis novenas, rezas e similares da Rede Vida que o deus inexistente gosta de se fazer lembrado e, aparentemente, me castiga porque descobri da sua farsa, e atinei com seus verdadeiros adversários, os GPS, a divindade feminina, que ao meu ouvido, diz para onde devo ir, quanto tempo vou levar para chegar, como devo proceder para chegar ao meu destino da forma mais rápida. Ao sinal de que iam os meus anfitriões dormir, não eram ainda onze horas, pedi licença para me retirar, tomei um banho e fui descansar no quarto que me fora designado.
Dormi um pouco mal, não nego de forma alguma, eu tenho certa dificuldade em me acostumar com lugares estranhos para dormir e sofro miseravelmente para descansar no calor. E por ter dormido mal, acabei levantando cedo demais, não era 5h30 da manhã, quando abri a porta do quarto, depois de um bom tempo acordado olhando para o escuro, cheguei à sala coberta de imagens de santos. Deixei, aos pés de nossa senhora porque a jovem fé do GPS e do santo sacro satélite ainda é imberbe demais para recrutar suas santidades, cinquenta reais como forma minha de dizer que apreciara a gentileza da acolhida, da sopa à noite, da conversa, da singeleza e gentil hospitalidade de quem não espera o mal nas pessoas. Não escondo que ir embora assim é incompatível com a acolhida, mas confesso que, completamente desperto e sem sono, me entediava profundamente e me angustiava esperar o casal se levantar para poder ir embora. Em direção à porta, me dei conta de que teria de destrancá-la e que não poderia trancá-la novamente do lado de fora, o que me fez hesitar: o cão que vira ontem, embora animado a latir a plenos pulmões, e a correr ao meu encontro de forma agressiva, não me parecia guarda suficiente para guarnecer a segurança do casal, já que depois da desabalada carreira, chegou-se aos meus pés, e antes de rosnar e interrogar de forma agressiva minhas intenções, simplesmente abanou o rabo e me pareceu, como outros cães que conheci, me olhar como quem sugere para irmos brincar de eu atirar coisas para que ele fosse busca-las: o bicho era pacífico, curioso, brincalhão e cheio de energia e nada na sua expressão me impunha o respeito que se deve ter para com um guarda - mas, quem sou eu para julgar as disposições do bicho, que pode apenas ter se afeiçoado à minha pessoa, que talvez toda essa simpatia esconda um aspirante à lobo, sanguinário, violento e vingativo, sedento de sangue e de presas afiadas a ameaçar intrusos? Estou longe de ser especialista em cães, à verdade, na vida, conheci três, mas gosto de pensar que com esses me entendi, que uma delas até me chamava para ir latir no gradio de outra casa e de outra vida, ou ao menos era assim que eu lhe interpretava, porque ela vinha me buscar, ia até a beira da grade, latia, e em seguida, me olhava como quem convida - nunca tive a coragem, ou a atenção, de lhe fazer essa vontade. No fim desse raciocínio, estava eu em pé diante da porta que, percebi, não apenas estava destrancada, como entreaberta. Ou o povo da roça, de fato, madruga de verdade, ou o casal se esqueceu de fechá-la. A porta aberta me deu o ensejo de fuga porque poderia fechá-la e arquitetar um plano: antes de sair e trancar a porta, abriria uma janela porque não só flagrara a inexistência de deus, como provaria a ele que sou ainda melhor, que vou abrir uma porta e uma janela. De fora, com a porta trancada, poderia colocar a chave tranquilamente sobre um balcão que repousa perto da janela e abriga a imagem da santa, guardiã dos cinquenta reais. Com a chave devolvida, é possível fechar, do lado de fora, janela e venezianas.
Pelo sim, pelo não, o descuido ou vestígio de que a segunda-feira nasce mais cedo no interior, foi a porta aberta que acabou me encorajando a sair e dar continuidade à minha fuga vespertina. Na saída, o dia já fazia alguma luz, e eu podia enxergar a estradinha por onde cortaria caminho, porque para andar pelo mato teria que esperar mais uma hora, e aí o casal estaria de fato acordado, e eu não gosto de despedidas, e não queria vê-los constrangidos, recusando o dinheiro que sei que será bem gasto e que, presumo, faria falta. A estradinha era, então, o melhor rumo para tomar em direção ao mirante onde deixara o carro, estacionado protegido no abrigo amplo e generoso do posto de gasolina, que vinha se tornando esteio das minhas andanças. Rematado leitor de thrillers de espionagem, sabia muito bem que minha frequência na região acabaria levantando suspeitas e, sem recurso, precisei abrir o jogo com o dono do estabelecimento: sou da cidade, gosto de mato, lembro de visitar a região tantas e tantas vezes quando era criança, penso em comprar uma propriedade por esses lados, talvez em breve, e estou investigando o lugar para saber se vem a calhar que o faça, quem sabe o senhor não teria algum endereço para me recomendar? Não no momento? Mas não tem problema, peço-lhe que seja discreto, no entanto, não quero influenciar a cotação do alqueire. E fique descansado, que quando for fazer uso do posto para guardar o carro, terei sempre o cuidado de avisá-lo e, escusado dizê-lo, pagá-lo pelo incomodo. Como se vê, quando fico com preguiça de carregar mochila, barraca e outros apetrechos que tais pelas minhas andanças, as excursões ficam bem mais caras: há o custo que me imponho pelo abrigo e o da segurança do carro.
Mas antes de chegar ao posto, uns 10 quilômetros de caminhada me esperavam. E antes de todos eles, vinham todos os metros que me separavam da propriedade e da estradinha. Livre da soleira da porta, e fazendo força para erguer a porta que, oprimida pela construção em madeira que vai vergando e sofrendo a ação do próprio peso e arranha o assoalho num urro medonho toda vez que gira nos engonços, me assaltou a preocupação da fome no percurso. Tomava todas as precauções para não denunciar minha fuga quando me peguei sobressaltado: e o cachorro?
Iria dar escândalo? Rosnar, me atacar, morder minhas canelas? Me fazer correr?
Como que para responder ao meu susto, o bicho que, dizem, pode farejar o medo, se achegou perto e começou a me cheirar, curioso e entretido. Não latiu, não rosnou, não lambeu, apenas ficou ao meu lado, olhando instigado e interessado. Para selar a paz promissora dessa abordagem discreta, lhe acariciei a cabeça e senti o calor oleoso da sua pelagem cinzenta. Estávamos os dois em paz e nosso contrato selado: não vamos acordar ninguém, que ainda é cedo demais e hoje é segunda-feira. Deixemos que durmam aqueles dois.
O cachorro, que não tive oportunidade de conhecer por nome até o momento, foi me seguindo conforme eu caminhava. Não sei se seu interesse era me escoltar ou, talvez, certificar-se de que eu estava mesmo indo embora, que não provocaria nenhum dano na casa. No percurso pelo carreiro que levava à porteira, guarnecida de um mata-burro, engenho definitivamente brasileiro e que eu não via há mais de 20 anos, me deparei com uma frondosa e carregada mangueira.
Dez quilômetros de caminhada se avizinhavam e minha garrafinha de água ia cheia, mas teria fome, e munido de canivete, decidi-me a furtar uma manga, que Miguel e Rosa me perdoariam a folga, tanto mais porque 50 reais davam-me o direito de abusar assim da boa vontade dos meus anfitriões, que a árvore vai carregada dessas frutas, é impossível que os dois velhinhos tenham apetite para tanta manga, ainda que vivam de geleias, sucos e tortas feitas da fruta, vai sobrar muita manga a apodrecer no chão. E na hipótese improvável de que colham a fruta e façam dela comércio, e digo improvável porque aí dificilmente o incomodo de trepar na árvore nessa idade se justifica, é só uma mangueira, e uma só mangueira vai gerar faturamento baixo demais para pagar o esforço e o risco, que quedas na terceira idade abreviam a vida do acidentado; mas, em todo caso, admitindo que Miguel guarde agilidade e firmeza de sobra para escalar a árvore e capturar as frutas para vende-las, podemos ficar tranquilos, para isso me sobejam os cinquenta reais confiados à guarda sagrada da nossa senhora ainda há pouco, que pagam bem essa minha fome futura de manga e, de certa forma, espero, indenizam a falta de educação e a tamanha liberalidade com que me decidi ao crime de tirar proveito daquilo que não pedira a ninguém. No fundo, nós somos capazes de justificar e racionalizar tudo, até mesmo o furto de uma manga.
Encontrei uma taquara feita para apoiar o varal e, munido dela, comecei a escalar a árvore para buscar a manga que sorveria no percurso em direção ao posto de gasolina. No lusco-fusco da manhã que chega com preguiça, subir aquela árvore foi algo trabalhoso, tanto mais que precisava levar comigo a vara e encontrar onde apoia-la sempre que galgava outro galho, ia em busca de patamar mais elevado, tentando no escuro quase total criado pela cobertura de folhas e galhos, divisar onde estavam as melhores mangas. Aos pés da árvore, intrigado, meu companheiro canino se deitara e, de vez em quando, dirigia olhares interessados para onde eu estava.
Enquanto escalava o melhor que podia as nodosas e umedecidas galhadas da árvore, o dia foi se amanhecendo. Não percebi os humores da casa que ganhava vida, da fumaça que se animara em escapar novamente pela chaminé, nos ruídos da madeira que estala sob o peso da morada que desperta para mais um dia. Só me denunciara o avanço da manhã a descoberta de que meu cúmplice canino fora, a trote acelerado, abanar o rabo com sofreguidão à porta da cozinha da casa, porque ouvem todo um universo de sons, vozes e ânimos os cães, fora para a porta onde certamente se planta todos os dias para esperar o primeiro contato com o casal com que divide seus dias. Feijão, faltou dizer que era Feijão o nome do cachorro, que embora cinza na idade adulta, nascera preto e com uma massa de pelos brancos na barriga, igualzinho ao grão, ia bater ponto à porta toda manhã porque era nesse horário que ganhava o primeiro carinho e a primeira refeição. Miúdos de galinha e restos da ceia eram o seu desjejum e, de súbito, minhas aventuras sobre a árvore lhe desinteressavam olimpicamente. Aos cães, nada mais interessa que a comida.
Enfim, eu chegara a um galho torcido na horizontal, a meia altura da árvore, onde podia me sentar com segurança, enquanto manejava a vara feito lança para alcançar a manga perfeita que, agora, na luz do amanhecer, seria fácil de interrogar aos galhos da mangueira. Embora a risco de ser surpreendido pelo casal a qualquer instante, decidi arcar com a vergonha de ter de me explicar por ser fujão e ladrão de frutas, porque me desanimava ser flagrado em processo de descida da árvore, me acabrunhava ter de me explicar e ainda dizer que desistira. Se vou precisar pedir desculpas e sustentar o olhar decepcionado dessa boa gente, que ao menos seja com uma manga nas mãos, que de fracassos eu ando farto, então para salvar esse de um falhanço total e esmagador, é preciso ir encarar a vergonha munido da manga. Justificamos e racionalizamos tudo, até mesmo os agravos. Com afinco, afastei folhas, olhei em todas as direções, mexi com as frutas interessantes e fui elegendo, uma a uma as minhas opções. Um quarto de hora depois, com o meticuloso exame realizado, me vi descoberto por Miguel, que acordara e terminara seu café, e dando por minha falta, viera, na companhia de Feijão, descobrir o que eu estava fazendo.
Miguel desejou-me bom dia, e se ficou incomodado com a minha indelicada tentativa de fuga na madrugada, dela não fez menção. Também não pareceu aborrecido com a liberdade que eu assumira de ir saquear sua mangueira e, com legítimo tom de curiosidade e surpresa na voz, veio, enfim, a questionar enquanto eu me contorcia e me desdobrava para me manter em pé, firme, e com força e mira suficientes para endereçar a ponta da vara onde queria, tudo parecia mais fácil antes de subir na árvore, agora me parecia que estava a um escorregão da queda, com risco potencializado por essa lança, que teria facilidade em me atravessar o abdômen, que forma estúpida de morrer, longe de tudo e de todos, roubando manga, aos 32 anos de idade: “mas o que o moço está fazendo aí em cima, a perigo de cair no chão, de se escorregar enquanto se equilibra e segura essa vara?” Expliquei que tinha me preparado para ir embora, mas que vi tantas mangas na árvore que decidira tomar uma para a caminhada.
- Sim, isso eu entendi, mas por quê?
- Para o caso de ter fome e são tantas, e tão maduras, na árvore.
- Mas... moço, elas caem sozinhas.
Ao chão, bastava olhar para o outro lado, o rosa das frutas ao pé das raízes da mangueira pontilhava as nesgas de grama e a terra.
domingo, 12 de março de 2017
Mangas, cachorros e lições
às 00:30 0 comentários Marcadores: Contos, Memórias, O dia em que cresci
segunda-feira, 6 de março de 2017
Rádio: Jimmy Cliff - I can see clearly now
Poucas vezes na vida, uma música foi tão apropriada, tão correta, tão precisa em descrever um momento na vida:
"I can see clearly now that the rain is gone
I can see all obstacles in my way
Gone are the dark clouds that had me blind
It's gonna be a bright
bright sunshine day.
It's gonna be a bright
bright sunshine day.
Oh yes, I can make it now the pain is gone.
All of the bad feelings have disappeared.
Here is the rainbow I've been praying for.
It's gonna be a bright
bright sunshine day.
(ooh...) Look all around, there's nothing but blue skies.
Look straight ahead, there's nothing but blue skies.
I can see clearly now the rain is gone.
I can see all obstacles in my way.
Here's the rainbow I've been praying for.
It's gonna be a bright
bright sunshine day.
It's gonna be a bright
bright sunshine day.
Real, real, real, real bright, bright sunshine day.
Yeah, hey, it's gonna be a bright, bright sunshine day".
às 09:25 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
quarta-feira, 1 de março de 2017
Pavão retórico
-Ah, você é formado? Em quê?
- Comunicação, Jornalismo, mas já tem algum tempo.
- Poxa vida, e está fazendo o que aqui?
Há algum tempo, embora respondesse com educação, não evitaria pensar comigo algo nas linhas de “aprendendo a desmafagafar mafagafinhos! O que você acha?”, talvez com alguns palavrões, a depender do humor do momento, e com um juízo extremamente desfavorável a respeito da minha interlocutora, que traçaria dela a caricatura acabada de pessoa desinteressante e de acanhados predicados mentais porque caíra no desazo de me abordar de forma tão pouco inspirada. Acabaria julgando mal a ela porque ela fez a pergunta clichê que todos fazem e respondeu com o mesmo espanto bobo que todos respondem, como se fosse incompreensível que alguém decidisse fazer outra coisa da vida, ir matar o tédio, chutar o balde, reinventar e revolucionar, quem sabe mudar de profissão, saciar uma curiosidade. Cansa. Mas eu não me incomodei, como não venho me incomodando mais com tanta coisa inútil, e simplesmente respondi que, a vida toda, tive uma grande facilidade com matemática (desde que com professores interessados em explicar a lógica das coisas, e não regurgitar regras de como resolver exercícios, tudo sem conexão com o contexto e as razões ocultas dessas coisas maravilhosas que são os números) e física, que ciência e tecnologia são temas que me instigam e pelos quais nutro, desde sempre, um profundo interesse sincero e que nada mais legal que ir em busca de aprender coisas novas, de mudar a vida da gente, porque é mudando o que não funciona que você segue em frente. O que não significa que não continuo lendo romances, poesias e ficção-científica, livros de História, biografias, que não me assombro toda vez que me encontro com um novo escritor de talento que não conhecia, que não continuo escrevendo e tendo interesses nas grandes questões da sociedade, da história, da política e da existência, essas que afligem o homem moderno e pavimentam o couro do brasileiro, em específico. Que, enfim, ser de humanas não impede ninguém de ser de exatas. E poderia também ter dito que estou farto de viver em caixinhas, coberto de rótulos auto-impostos e, em especial, daqueles injustamente colados pelos outros em mim. Diria à ela que afinidade com um não impõe, necessariamente, aversão ao outro. Que antes dessa conversa, estava lendo um livro em inglês, no Kindle, sobre a Batalha do Marne, em 1914; você sabia que Gallieni, o general encarregado de defender Paris, mandou para o front um batalhão inteiro usando todos os táxis da cidade? Que se tivessem perdido a batalha, teriam perdido para o Império Alemão a Primeira Guerra em questão de um mês? Não é fascinante? Em que mundo estaríamos hoje se fosse o outro lado o vencedor dessa batalha? E que esse impresso, ali em cima da mochila, todo respingado de cerveja (tomara), é de cálculo, e que, sinceramente, muitas vezes é mais fácil de entendê-lo explicando lógica e álgebra do que os compêndios de teoria da comunicação e de sociologia, tão herméticos e irrelevantes que, um dia, eu tentei ler? Não devo ter sido tão apaixonado no meu discurso, a gente aprende a parar de ser tão apaixonado na vida sempre da maneira mais dolorida, mas no meio das turvas memórias que sobreviveram à inundação de aldeídos que sucedeu às liberalidades da noite, encontro algo que me faz lembrar de ter deixado escapar um "há espaço de sobra para os dois no meu coração", porque eu tenho esse mal costume, é pior que doença, males do romantismo de meia pataca que acabou-se embutido em todas as minhas revoltas, vitórias e nos meus grandes momentos.
Mas há pessoas, e que bom que elas existem, que se sensibilizam com inadvertidas referências ao coração. Há gente sensível e que, de verdade, parece se encantar quando encontra alguém que compartilha desse defeito, ou qualidade, porque até isso é relativo nessa vida de incertezas e surpresas. E aí ela respondeu.
- Nossa, gosta de humanas e exatas! Que coisa rara, você é a união do útil ao agradável!
E assim eu ganhei a minha noite. Raro, eu sempre soube que eu sou. Mas união do útil ao agradável foi uma novidade para o catálogo, essa coisa de ser admirado como essa mistura incompreensível de mundos e formas de pensar tão distantes. Me senti feliz em não tê-la julgado mal pela sucessão de perguntas clichês e me vi disposto a descortinar a minha vida toda para ela simplesmente para ver se eu colheria mais alguns elogios no processo.
Eu viro um pavão retórico com uma enorme facilidade.
às 11:31 0 comentários Marcadores: Memórias
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017
Alvorada
Os acordes leves dessa música me fizeram dormir sonos já dormidos e acordar manhãs nunca vividas. Porque eu, hoje, me amanheço. Mais que isso, aliás: hoje, eu me deixo amanhecer.
Eu sinto que preciso escrever. E também que eu preciso encontrar um método de estudo para sorver todo o conhecimento possível das linguagens de programação em questão de dias, como se o repousar a cabeça sobre a porção de livros sobre o tema que acabei comprando (numa orgia que muito dará que pensar ao Tertuliano do futuro, quando se confrontar com as faturas do cartão de crédito), fosse instalar um processo de osmose, em que a substância sai do meio mais concentrado em direção ao menos, e migrariam assim naturalmente para a minha mente todos os conhecimentos necessários, porque assim aprenderia tudo mais rápido, eu que morro de pressa, e tenho tanto mais pressa quanto mais feliz me sinto. Sobre o exercício da escrita, a impressão é de que a minha criatividade está ali na esquina, me esperando, batendo o pé e com pressa, como quem diz “puta que pariu, cadê esse cara que não vem de uma vez?” E tudo isso não mais me confunde e assombra, apenas me diverte, porque é engraçado.
A respeito de escrever, poderia parecer que os três ou quatros romances que eu venho adiando na vida poderiam simplesmente acontecer se eu resolvesse escrevê-los. Aí eu abro um documento antigo, releio, examino, e tento expandir. Mas aí a criatividade dilui, a autocrítica pega pesado, o que você tinha para escrever, e que soava tão bonito, retumbante e definitivo na cabeça, fica tacanho na frieza das páginas do Word, que dirá nas de papel. E aí os livros ficam esperando e a criatividade, coitada, passa mais uma noite sozinha, ao relento, te esperando na esquina, acenando em desespero para a senhora dignidade, que desiste e vai embora todas as noites, que essa não espera ninguém, sempre com ameaças de nunca mais voltar.
Mas isso não é uma crônica de derrota porque não há osmose entre conhecimento e cérebros, mas há como se dedicar e acelerar o processo de aprendizado por coisas que você gosta e te despertam interesse inesgotável: tudo questão dessa coisa misteriosa, que eu nunca tive, e que damos o nome de foco. Sobre escrever, o desencontro diário (noturno?) com a criatividade também não é derrota: trata-se de uma garota muito exigente e não adianta levá-la para sair visitando sempre os mesmos lugares, comendo nos mesmos restaurantes e contando as mesmas histórias. No fim das contas, eu sempre soube que escrever seria algo monstruosamente difícil e eu aceito que cada um desses passos em falso, cada uma dessas páginas que não vingam, dessas histórias inconsequentes e desses livros abortados são uma escada, uma caminhada, um processo de talha que vai limpando o diamante bruto das minhas aspirações. Um dia, quem sabe, eu escrevo os livros todos. Ou não, porque é difícil mesmo, e o melhor que eu posso fazer é seguir tentando, ciente de que a arte da literatura pode ser sempre uma paixão meramente contemplativa na minha vida. Há opróbrios bem piores.
E tanto não falamos aqui de falhas e derrotas que posso dizer que as coisas me parecem todas novas. As ruas têm mais cor, o dia mais atividades, a vida mais responsabilidades, o futuro se desdobra numa vastidão de caminhos, de impulsos, de possibilidades, de rumos para tomar. Aprender coisas novas dá sentido, encontrar uma vocação nova reforça a autoestima, se sentir desejado e querido te mostra o quanto você é importante. Destruir em provas de lógica e álgebra, anos e anos distante da matemática, me fazem lembrar o quanto eu sou fodão. Lembro de quando professores, na frente de todos da classe, elogiavam os trabalhos que eu não fizera porque eu sou bem foda quando estou confiante, quando me encontro instigado pelas coisas, pelas descobertas, pelas novidades. Eu sou tarado por aprender coisas novas e um dos meus maiores erros foi ter esquecido disso, ter me afastado dessa cabeça de criança que não deixa pedra sem levantar para ver o que vai lá embaixo. No fim, tudo vai se somando numa expressão que aponta uma curva ascendente no plano cartesiano: é uma retomada, uma redescoberta, o equilíbrio de volta. Todas essas coisas, as experiências delas e o processo de medi-las e reconhecê-las nos meus dias, que também redundam nessa coisa de querer aprender mais, seja na sala de aula, no computador ou no exame íntimo dos seus sentimentos e experiências pessoais, preenchem a minha vida e me fazem feliz.
Quando olho para trás, me assusto com o que eu fui. Com o quanto estive doente e ignorante sobre meus problemas e minhas soluções. Mas olhar para trás e ver sombras é importante e enriquecedor: só projeta sombra o que é iluminado, o que padece em contraste entre escuridão e luz, e é assim que eu sinto o meu caminho, hoje: iluminado e ensombrecido, porque eu sigo em direção a horizontes onde o sol explode em luz, nos quais ele nunca se põe e sempre me espera, caloroso e acolhedor.
A vida está perfeita, então? Nada é perfeito, nada é para ser perfeito. Mas ela vai muito bem sim, obrigado. Há problemas gigantes para resolver, mas eu tenho planos para todos eles, opções, saídas e soluções práticas: manda pra cá, que eu mato de peito. Eu sou um reatorzinho de razão, expelindo respostas para todas as questões da vida. Não tenho absolutamente nada do que reclamar: a saúde mental vai bem, a do corpo está sempre em dia, me sinto de bem com a vida e comigo, orgulhoso e feliz com os meus novos caminhos. Só falta encontrar quem queira, de fato, caminhar por eles ao meu lado.
Sim, tinha que ter um problema, não é? Essa é a vida: nada é para ser perfeito.
às 16:46 0 comentários Marcadores: Memórias
sábado, 18 de fevereiro de 2017
Das escolhas
"Escolha é o ato de hesitação que nós fazemos antes de tomar uma decisão”.
Essa, e outras, frases vem me ocupando a mente nesses últimos tempos de reconstrução, de reavaliação, de mudança. Essa, em específico, faz parte de uma palestra de Alan Watts, um escritor e filósofo que morreu há quarenta anos, mas que sabia uma ou outra coisa sobre a vida, sobre crescer, sobre encarar as durezas de existir. Na palestra em que fala sobre escolhas, e as consequências delas na nossa vida, ele insiste em que nós precisamos ser como nuvens e como ondas, que sempre são perfeitas, e que não se importam com o seu destino: apenas o aceitam.
Isso, veja bem, não significa que devemos escolher de forma temerária. Que podemos viver em total desconsideração com os impactos das nossas escolhas, mas que devemos aceitar os resultados com igual valentia: trata-se de saber que o ônus de uma péssima escolha é tão importante, lá na frente, como o benefício de uma aposta certeira. A única certeza é que você não tem como saber de tudo com antecedência.
E eu concordo com Watts. Porque já discordei dramaticamente.
Passei muitos anos acreditando que nós somos reféns de nossas escolhas e que, caso elas não deem resultados positivos, devemos viver em eterna penitência por esses erros de cálculo, essas más decisões, esses tropeços que nos afastaram dos resultados e sonhos que tínhamos quando as fizemos. Não acho que a minha forma de encarar fosse de todo ruim, afinal viver com consciência de onde você errou é sempre uma lição proveitosa, tanto mais se ajudar a prevenir os mesmos agravos no futuro, mas, sem dúvida, fechar-se ao novo, que sempre vem, aos riscos e deixar esse medo de escolher e pular no abismo das coisas novas que envolvem cada grande decisão das nossas vidas é uma forma muito econômica, mas certeira, de perder tempo com bobagem.
Um exemplo: eu abandonei o curso de engenharia. E, na época, o fiz por uma porção de ótimas razões, que iam da tristeza e falta de preparo por conta da morte de meu pai, às próprias inclinações que sempre tive, o interesse pela palavra escrita e pela literatura, por exemplo. Mas, ao longo dos anos, me assombraram os efeitos dessa escolha porque a vida que não tive, ao ter interrompido aquela história, sempre me parecia que poderia ser melhor do que a que tive.
Mas essa não é a questão. Não pode ser porque eu não sei, não tenho como saber. E, de resto, ainda que tivesse como saber com precisão o que seria de mim tendo continuado com aquele curso, não posso deixar de dizer que, hoje, me parece que naquela estrada eu não leria os mesmos livros que li, não conheceria as mesmas músicas, não iria aos mesmos lugares, não teria os mesmos sorrisos e lágrimas, as lições seriam outras e é possível que eu passasse um bom tempo pensando comigo que o melhor teria sido ter largado engenharia para fazer jornalismo. Talvez tivesse me saído até bem pior, eu não sei! Não conheceria e não teria os mesmos amigos, não amaria as mesmas pessoas, o que em si só já é um custo oneroso demais por pagar por uma hipotética chance de voltar no tempo e mudar o rumo.
No resumo, tanto uma escolha como a outra, não importa, as duas estão certas: dão resultados diferentes, levam a histórias distintas, resultam em outras pessoas e em outras narrativas. Mas não há certo e errado, há apenas vida, consequências e a nossa obrigação com nós mesmos de tirar o melhor proveito de tudo e receber o que a vida dá, de bom e de ruim, com resiliência.
É bom redescobrir, depois da cura, que você pode viver sem medo, que era bom nessa coisa de resiliência e que, se nunca fora um otimista, ao menos tinha o excelente hábito de rir das desgraças. Escolhas não são espadas de damôcles a pairar sobre as nossas cabeças, prontinhas para nos fazer em dois ao menor erro. Escolhas são a forma da vida ir adiante, quer ela vá tranquila, quer ela vá agitada e atribulada: cabe a nós decidir da melhor forma possível, com coragem, mas com a conformidade de saber intimamente que não temos como conhecer todos os ângulos de uma escolha, que decisões não são ruins e boas, apenas são.
às 20:05 0 comentários Marcadores: Cartas aos meus filhos, Memórias
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017
Simplify and add lightness
E nada disso importa. Porque Colin Champman, ao menos nos meus olhos, é também um grande filósofo e sua avaliação sobre como extrair a maior quantidade possível de desempenho de um automóvel, sem gastar os tubos no processo, é um lema para a vida toda.
Chapman criou a Lotus Cars e seus carrinhos esportivos com um conceito muito simples. Incapacitado de investir quantias enormes de dinheiro em desenvolvimento tecnológico de motores enormes e potentes, Chapman decidiu fazer dos seus carros mais espertos e rápidos por meio da diminuição do peso. Levinhos e compactos, os Lotus podiam ter motores bem menores e andar muito, a ponto de peitar Porsches e tantos outros menos votados num tempo em que toda a gente se picava de entender e gostar de carros, em especial os mais rápidos.
Em geral, quem tem motorzão faz muito barulho, é rápido de reta e está compensando o tamanho reduzido de certo apêndice anatômico. Quem é leve, no entanto, é rápido na pista toda e tende a terminar na frente, tudo sem escândalo, o que tende a confirmar a ideia de que o sujeito é bem provido do supra mencionado apêndice anatômico. Além disso, carros simples, em geral, são mais duráveis: têm muito menos coisas para quebrar, para dar errado.
A essa filosofia de desenvolvimento, de leveza em contraste ao exagero, Chapman deu o nome de "Simplify and add lightness", ou, numa tradução, livre, direta e descompromissada, feita no meu inglês de anedota, "simplifique e adicione leveza".
Esse valor intrínseco dos Lotus, que sobrevive até hoje, embora as criações da marca estejam longe de despertar o mesmo interesse de décadas atrás, quem diria, é em si uma lição de vida. Vamos mais longe, e até mais rápido, se nos dispusermos a caminhar mais leves, a esgrimir contra as curvas do destino sem carga, sem essas toneladas de coisas que você acaba, mesmo que sem querer, carregando no dia a dia, essa quantidade absurda de memórias, nostalgias, tristezas e derrotas que não simplificam nada, e só adicionam peso, fazem de você lento, preguiçoso, pouco combativo.
Quem carrega mais coisas, não diga, fica pesado e anda devagar demais.
Não que a vida seja uma corrida, que você precise necessariamente de pressa, que a busca pelas coisas que você julga importante e considera necessárias para o seu futuro esteja relacionada com a necessidade de ser rápido. Mas a questão é que quem é leve, quem pode viajar mais rápido se assim desejar, terá sempre mais desenvoltura para se desviar a tempo de obstáculos, de imprevistos, terá mais margem de manobra para reagir ao que a vida, trigueira e sempre disposta a surpreender, estará colocando no meio do seu caminho. Quem pode andar mais rápido também tem mais recursos na hora de se levantar de um tombo e retomar o rumo.
A ideia de simplificar as coisas é uma fórmula certeira para construir bons carros de corrida, ótimos carros esportivos, e para enfrentar a vida de forma mais eficiente, mais madura, mais equilibrada. Simplificar, nos carros, é fazê-los eficientes e comprometidos com o ato de levar pessoas do ponto A e B, e só: sem ar condicionado, revestimento de luxo, aquecimento nos bancos, câmeras e tudo mais. Quanto menos coisas agregadas para dar problema, mais confiável é o automóvel, mais propenso a levar você longe sem dar defeitos ele será.
Na vida, simplificar é abrir mão dessa obsessão de ter controle de tudo. É encarar as coisas pelo que elas são realmente, seja ver o amor que você sente por alguém ser banalizado por uma série de decisões e atitudes idiotas de parte a parte, seja perceber que você criou todas as condições necessárias para passar anos doente. Simplicidade, na vida, é uma postura resiliente diante da vida, é dar às coisas os nomes que elas têm. É se libertar das culpas que você assumiu corretamente, mas de forma bastante infantil decidiu cultivar como um relicário de derrota, merda e atraso que só te fez mal. Simplificar, na vida, é esperar o que ela tem para você e encarar cada uma dessas surpresas com galhardia: porque muitas delas serão desafiadoras, outras tantas ruins, mas muitas também serão boas. É não carregar nada que pese, porque peso representa ficar devagar, letárgico, passivo. Simplificar é planejar e ir atrás, mas aceitar que a vida dispõe de nós e que nada é para ser perfeito e infalível.
Eu passei boa parte da vida "complicating things and adding weight to everything". Deixei de enxergar todas as coisas pelo que elas são realmente. Me fechei para felicidade em coisas simples, para alegria. Me escondi, por medos e outros tantos fantasmas, das escolhas difíceis que a vida espera que a gente faça para seguir em frente. De alguma forma, doente, encarei como naturais a tristeza, a derrota, o fracasso e uma abordagem letárgica em relação à vida, de não assumir riscos e esperar que tudo se resolvesse por si só, num tipo de otimismo absurdo: aquele de quem não faz rigorosamente nada para corrigir problemas e buscar soluções para a própria vida, esperando que um fatalismo irredutível se encarregasse de ajeitar as coisas. Eu andava pesado e devagar, e sem agilidade, fui me perdendo do contato com as coisas realmente importantes, aquelas que eu realmente preciso, aquelas que me definem, que fazem de mim o que eu sou, para o bem e para o mal.
Mas, a vida que nos conduz a caminhos ruins é a mesma que, em condições ideais de temperatura e pressão, te resgata. É na queda que você para, senta na estrada, olha a sua volta, e examina tudo em perspectiva. Vê que a dificuldade em levantar para seguir em frente está unicamente em você, que mais leve, você fica de pé rapidamente e começa a caminhar, se não correr, novamente em pouco tempo. Simplicidade e leveza, portanto, te fazem análogo aos carrinhos pequenos e frágeis da Lotus, que esguios e espertos, iam mais longe e mais rápido que os pesadões, que os lentos, que os assombrados, que os complicados. Simplicidade e leveza é a minha resposta para tudo, para a vida, para o futuro.
Simplificar e adicionar leveza é viver a vida de uma forma equilibrada. É reagir menos, aceitar mais. É agir mais, mas lamentar-se menos.
às 10:54 0 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017
Vida põe e dispõe
E eu que fui encontrar a felicidade em algoritmos e na Álgebra de Boole?
Nada como a matemática para nos lembrar de que há como extrair ordem do caos. Que tudo que se subtrai também se soma, se multiplica, se potencializa. Viva a frieza retumbante dos números, essas certezas ontológicas, sempre disponíveis para nos lembrar a ordem de tudo, a relação de causas e efeitos, a ditadura da exatidão, do ato de dar às coisas os nomes que elas têm.
É algo a se examinar: eu nasci para humanas, mas sou feliz mesmo é com as exatas.
Eu posso me encantar com a caudalosa prosa penserosa de um Adorno, ficar indignado pelas elucubrações das ciências sociais sobre o nosso tempo, sou um apaixonado pela História, posso me ver cercado por todos os lados pelo "O Ser e o Nada" do Sartre, compungido pelo mundo em desespero antecipado por Nietszche, tudo com um monte de palavra bonita, correndo de um lado para o outro sem saber direito o que fazer e acudir, direitinho como eu, que picado pela fome de bola, pela paixão pelo futebol fui, sucessivamente, lateral direito; meia direita, porque eu corria uma barbaridade o jogo todo, sempre perdido, atrás da bola e sem saber o que fazer com ela. Ciente das severas limitações técnicas, acabei, antes de pendurar as chuteiras, me conformando com o cargo de volante do Clube Atlético União Olímpico.
Mas felicidade mesmo está na ordem inexorável dos números, nas verdades incontornáveis das leis físicas, das regras algébricas, das ligações químicas, da entropia, da termodinâmica, da gravitação universal, da eletricidade, da ótica, da geometria euclidiana, da lógica irredutível dos circuitos eletrônicos, dos mistérios dos números primos, de Fibonacci, do raciocínio, do triunfo da razão sobre o mundo natural, da absoluta falta de ambiguidade. A exatidão fria dos números, das leis, das regras, do que funciona e se sabe, se mede e se verifica. É o que consola, dá ordem e sentido ao caos, me alivia.
Há uma larga literatura a respeito da ideia de felicidade, das suas manifestações nas vidas das pessoas, do que precisa e não precisa ter para atingi-la. Eu, exercitando um pouco os bíceps do cinismo, poderia dizer que, a rigor, não sei muito bem do que se trata e que, talvez, felicidade em si não exista, e o que existam, já dizia a canção, são apenas momentos felizes.
Não que isso venha bem ao caso porque a grande sabedoria, quer a felicidade exista, quer não, é saber abraçá-la generosamente quando ela se manifesta, na forma que for, ao custo que for. Para dar testemunho dessa necessidade, eu vou nadando de braçada nas águas calmas dessa quadra em que a vida se endireita, em que vou me reencontrando fazendo contas, escrevendo algoritmos, desvendando linguagens e dando vazão a essa, há tanto tempo, suprimida parcela lógica, racional e técnica da minha personalidade.
Felicidade, ao menos nesse momento, não é tão somente se encontrar com essas percepções, e com tantas outras de igual proporção e relevância, mas se dar conta de que as vitórias, as boas notícias e essa sensação gostosa de estar em paz são todas elas oriundas do seu esforço, e não do acaso, que são frutas colhidas maduras das sementinhas que você plantou quando se deixou acordar, se libertar, quando abriu os olhos. Virou a mesa e, enfim, pôs todas as coisas em perspectiva.
E é sempre inevitável se confrontar com quantas e quantas vezes você se armou para dar esse bote, e não deu. Ficou esperando as coisas darem certo por si mesmas, como se a vida fosse se ajeitar em passes de mágica, por pura compaixão. Ou quando esqueceu-se das datas para se inscrever, quando achou que a grana era pouca e as dificuldades enormes. Quando ficou com medo de arriscar outras parcelas da sua vida fazendo uma escolha dessas. Lembra daquela feita em que quase, quase mesmo, foi atrás, mas ficou parado, embasbacado com esse embotamento do espírito, essa coisa amortecida de não ir, não buscar, de querer e não fazer, de poder e não ir que, em última análise, é o que você pode chamar de depressão.
Eu não vou desfiar esse novelo do que é felicidade num post de blogue, que desse tipo de pretensão já estou curado há anos e anos, mas posso dizer uma ou outra coisa sobre como é bom se resgatar e perceber-se bem, feliz. Posso dizer que felicidade não é apenas buscar as mudanças, as coisas que você precisa, que te dão sentido e prioridades. Felicidade é abraçar o que a vida dá e correr atrás das que você quer, custem elas o que custarem, deem elas certo ou não porque a raridade da vida está nessa escassez de tempo e em fazer jus a esse suprimento finito de tempo nos esforçando, suando a camisa, indo em buscas. Correndo os riscos da decepção e da derrota, nos encontramos com o que somos, com o que realmente queremos e com o que realmente importa. É no viver de peito aberto e sem medo que você redescobre porque se lembra que você era curioso, sempre teve essa mente lógica de cientista, gosta de laboratório, nunca teve medo de contas, que há um conforto na solidez fria da matemática, no caos louco das equações, das fórmulas que, se por um lado não dão resposta às grandes questões da sua vida, do universo e tudo mais, ao menos dão aquele conforto gostoso de te lembrar mais sobre quem você é: uma criatura curiosa como uma velha, com uma enorme facilidade e boa vontade para aprender coisas novas.
O novo sempre vem. E sempre veio, inclusive nos tempos em que, ensombrecido, perdi tempo com tanta coisa inútil, com tanta obsessão por perfeição que acabei sem essa acuidade que todos nós temos antes das decepções da vida adulta, essa lâmina afiada que a gente é para cortar a existência com desenvoltura de bisturis. Eu gostaria de dizer para quem interessar possa que há uma receita para curar esse embotamento e se afiar novamente, mas não vou tão longe: milênios de religiões, filosofias, misticismo, ciência, pensamento, poesia, literatura, música e tudo mais ainda não encontraram essa resposta, essa receita, esse, olha só, algoritmo universal para colocar todos no caminho da felicidade.
O pouco que eu sei sobre o assunto diz respeito à minha experiência, ao meu algoritmo: coragem, ouvir, receber da vida, ir atrás, calar e nunca, sob hipótese alguma, me dar ao direito de me lamentar pelo que não veio, não deu, não foi, é diferente do que esperava. Porque eu sou muito bom nisso, nessa coisa de tristeza, e a luta contra os humores da bile negra, ao contrário do que calculavam os ingênuos esculápios gregos, tem pouco a ver com dietas e condições físicas, mas muito com descoberta, vontade e decisão. Vencer a bile negra envolve força de vontade, bom ânimo e coragem. E isso eu tenho de sobra.
às 22:52 0 comentários Marcadores: Memórias
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017
Manual da nova alvenaria
A minha vida é construção
e a minha grande obra
é levantar novas paredes
derrubar os muros
e ir embora
me esquecendo do que poderia
construindo pelas madrugadas
iluminando rumos escuros
e me reformando à marteladas,
eu sou fruto da nova alvenaria.
Minha construção é me abrir em novas estradas
chegadas e partidas
tudo em vidas remidas
e de parede em parede
me erguer em cidades novas de descoberta
nesse novo arranha-céu de vida liberta
Sou pedreiro, engenheiro, tijolo de mim
me reconstruo numa obra que não tem fim.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017
Vitórias
O ano de 2017 começou meio torto, mas vamos agora abrindo o seu segundo mês e as boas notícias não param de chegar. A novidade, agora, é que uma das minhas poesias virou single, foi regravada (já havia uma versão de quatro anos atrás), e passa a integrar o cancioneiro de Carlos Gadelha, sujeito talentoso e que encontrou músicas nos meus versos que, a exemplo dos anos, são sempre bem tortinhos.
"Cicatriz" vai ter lançamento em disco, registro, tudo nos conformes e isso me enche de alegria porque sei do quanto, por exemplo, meu pai se sentiria feliz com a notícia (ele sim poeta de alta qualidade, de poemas lindos e profundos, que um incêndio removeu da existência sem a menor cerimônia). Eu fico honrado porque orgulhoso, porque sei que alguém vai ouvir, vai sentir, vai encontrar alguma verdade oculta, vai entender algo com essa música e só isso já é razão de grande alegria. A ideia última de escrever e versejar é sempre eternizar-se e eu fico, assim, um passinho mais perto dessa vida imorredoura de quem deixa marcas por aí.
E outras dessas marcas virão pela frente, a dar-se fé no talento do músico e na minha capacidade tirana de filtrar meus poemas para separar os bem ruins dos passáveis.
Eu nunca imaginei que viraria um compositor porque não entendo nada de música, característica que sempre tive em alta estima, mesmo vivendo num tempo em que todos se picam de serem entendidos do assunto.
Vitórias e boas notícias acontecem não apenas quando nos abrimos à elas, mas quando efetivamente às buscamos. E o ano tem só um mês de idade!
Cicatriz
Quando eu penso em você, pesa-me no peito
algo que faz com que meus olhos risquem minhas veredas
corram o espaço atrás de outras estrelas,
e voltem a cismar porque nada há que dê jeito
e transforme a incerteza das minhas alamedas
em rumos novos, plenos de certezas,
onde se consumam em pavimento todas as mentiras,
endireitem-se as curvas do destino, e tudo seja perfeito:
Não vivo mais pela beleza. Troco perfeição por verso concreto,
Me renego e me bato por este meu coração abjeto.
Ondeio como seus cabelos lisos ao vento, a ignorar as minhas revoluções
De resto, está tudo dito, esqueço do nosso adeus em seu gesto,
corro com meus olhos pelos meus versos de singeleza,
procuro nas entrelinhas qualquer coisa nova, onde possa expiar toda a minha tristeza.
Ou coisa parecida.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2017
Rádio: Johnny Cash - Four Strong Winds
"... Yet I wish you'd change your mind, if I asked you one more time
But we've been through this one hundred times, or more"...
às 13:21 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
Eis o homem
Há pessoas na nossa vida, você provavelmente conhece alguém, que parecem ter tudo, sempre, na mão: elas são centradas, otimistas, tudo dá certo, sempre parecem se sair muito bem de qualquer problema. As coisas que mais te assombram e confundem, como amor, relacionamento, futuro, dinheiro e família, elas resolveram há décadas com naturalidade, tirando de letra. São rolos compressores de afirmação e sucesso e, em quem se tropeça buscando esse nível de acerto, são motivos de inveja.
Claro, nem tudo é simples. A maioria dessas pessoas sofreu, chorou, quebrou a cara, se decepcionou, errou, voltou atrás, pediu desculpas, foi injustiçada, praticou injustiças, quebrou corações e teve o seu partido diversas vezes. Algumas, apesar das aparências, são infelizes e tão confusas e problemáticas quanto o seu próximo. Mas a gente gosta de olhar sempre para os resultados e abstrair as dificuldades que não enxergamos de longe, daí a impressão de que elas são invencíveis.
Mas, querendo ou não, justamente por esses resultados alvissareiros, essas são as pessoas que devem ter algum truque secreto na manga, certo? Alguma milenar prática oriental que as faz sempre saber o que fazer, não importa o tamanho do problema. Elas assumem, aos seus olhos, esses contornos de oráculo mágico idealizado de sucesso a quem você sempre admira, se perguntando se um dia teria como beber dessa sabedoria e tirar dali as informações necessárias para ser você também um caso de sucesso de provocar inveja em todos.
Aí você se encontra numa encruzilhada da vida, não sabe direito que caminho tomar, e resolve consultar essas pessoas-oráculos. Expor um pouco das suas dificuldades para vislumbrar o que essa gente mágica faria no seu lugar, o que escolheriam, como enfrentariam uma situação ruim, o que não fariam e etc.
E aí você fala com essas pessoas e, na verdade, percebe que nem sempre elas têm todas as respostas, que tudo o que você projeta nelas é só mais uma forma louca que a sua mente tem de reforçar os seus sonhos do que é felicidade para você. Mas, ainda que as conversas não sejam tão positivas como você presumia antes, se depara com uma porção de percepções e descobertas que, se por um lado te engrandecem, por outro, te diminuem. É difícil, por vezes, se ajustar com essa coisa sem nome que somos, que fica exposta quando nos examinamos, mostrando num mesmo enquadramento nossos maiores defeitos e nossas maiores qualidades:
O fato de você ser romântico e não ter medo dos seus sentimentos. A sua timidez. A insegurança que nunca existiu e apenas escondia problemas mais sérios. O medo de errar. O seu zelo sobre-humano a respeito dos seus valores. A vontade de proteger a todos à sua volta, bizarramente até de você mesmo. A sua ânsia para ocultar (puta que pariu! Agora você sabe!) a depressão masculina que te estragou anos de vida sem diagnóstico, a bonita história de combate inadvertido à depressão por meio do amor, a fraqueza da irascibilidade, o fato de que você não tem nada de perfeccionista, mas sim de um tirano crítico de si mesmo desde os 7 anos de idade; a confusão entre sonhos e metas, a falta de decisão. O fato de considerar o amor como precioso demais. Até que ponto seus erros são imaturidade, até que ponto eram vergonha de estar deprimido. A tendência a não enxergar falhas onde elas existem. O fato de que você caiu de pé mesmo quando vítima de situações impossíveis na adolescência e acabou se esquecendo de como é forte, corajoso, raçudo, um vitorioso adormecido, resiliente. O medo de fracassar. A pressão a que você mesmo se coloca, àquela que transfere aos outros. A injustiça de que foi vítima. A dor das mágoas que provocou e as dores das que carrega calado. A bonita visão que você tem das pessoas que ama. A visão sombria que você tem de rejeição, essa postura apática, oriunda da depressão, que fez você criar uma visão platônica da vida que, sem que você percebesse, foi consumindo as coisas boas que você tinha sempre com você. O medo de se conformar. A dificuldade de entender a solidão. O seu senso de justiça, a generosidade. Ficar apavorado ao ouvir a palavra depressão. Ficar feliz ao entender. O individualismo que você nem sabia que tinha e que é um enorme problema, o egoísmo, a raiva como seu jeito de batalhar o mundo, não as pessoas. A crise dos princípios. A grande dificuldade em se abrir sobre coisas que você reconhece em você com as outras pessoas, a dificuldade de dissociar valores e ideais de pessoas. O fato de você ter vergonha de admitir seus erros. O grande descompasso entre seus desejos e atitudes. Você se pacifica com a auto-estima que sempre teve, mas que achava feio admitir; se olha no espelho diferente, valoriza a inteligência, a cultura, a boa vontade, o entusiasmo pelas novidades, a vontade de aprender, a facilidade enorme de aprender coisas novas, a versatilidade, a resiliência, a humildade. Precisa reconhecer que se ama, mesmo. A empatia. A vontade renovada de se entregar por amor sem medo; o risco de fazê-lo com quem não estará disposto a entendê-lo. A vontade de mudar, o susto, o medo de não ser capaz, de recair no lado sombrio da existência. A percepção clara de que a recaída estará sempre à espreita. A percepção de que o seu caso é banal, que você cresceu como milhões de outros caras, dividido entre expectativas da sociedade e modelos inatingíveis - e nada saudáveis - de comportamento e a realidade de uma vida que foge do controle e para qual poucos saem de casa preparados de verdade, tanto mais aqueles que se perdem em responsabilidades enormes em tenra idade. A doce descoberta de que você é racional e é capaz de se orientar nesse emaranhado de novas e velhas percepções sem se machucar mais. A paz de ter se entendio. A tristeza de ter demorado. O conformismo de ter custado tanto. A vontade de chutar o balde para recuperar alguma ilusão de controle sobre a própria vida afetiva. Enfim, todas essas e outras coisas que você sempre soube sobre si mesmo, mas nunca achou que fossem importantes, as que nunca soube, as que preferia não ter descoberto, as que te deixaram feliz e forte por ter achado e reencontrado. A ânsia de voltar no tempo com tudo isso nas mãos. Tudo num golpe de retórica, de lições, de atraso, de demora, de tempo perdido que deixam você meio sem ação por dias. “É de enlouquecer, mesmo, relaxa”, ouvi de uma psicóloga conhecida da família. É olhar para esse caleidoscópio de qualidades e defeitos, de traumas e vitórias, e sentir-se intimamente apresentado a si mesmo: ecce homo.
É um pouco desesperador se dar conta dessas coisas - e não só pelo atraso em percebê-las - mas pela sensação desagradável do quanto não temos controle sobre nossas vidas, de até que ponto estamos todos iludidos a respeito do que somos, do que queremos, do que fazemos e dos porquês. Catarses nos fazem amadurecer e são eventos positivos na vida, mas também lembram aquela doce máxima que afiança que ignorância é felicidade.
Aí você sai desse estado catatônico em que a vida, você achava, tinha te jogado há anos e anos e percebe que tudo foram problemas que você e outras pessoas criaram sem querer. Que os estragos estão feitos, que o tempo não volta e que seu único consolo é escrever à sangue todas essas lições para não esquecê-las, para ser uma pessoa melhor, para virar o homem do amanhã, para não se permitir mais errar desse jeito no futuro. E seguir em frente.
É sempre um processo de alguma coragem, é saudável, e ajuda muito a nos recolocar em equilíbrio e recalibrar nossas prioridades: de onde você menos espera, começam a brotar sorrisos, planos, ideias, vontades renovadas porque você se percebe empoderado, revigorado, com as mãos nas rédeas do próprio futuro e, de repente, mudar de área profissional passa a ser trivial, a vaga na universidade está a uma matrícula de distância, mudar de cidade não assusta e os sonhos começam a virar metas, objetivos, algo que você pode ver, ainda que de longe, como possível, como realizável. De repente, não se sente mais no limbo, isolado e desprezado: se vê como forte, amado, desejado, corajoso e renovado.
A vida é um troço curioso.
De triste só fica mesmo a sensação de tempo perdido com burrice, com covardias, esse atávico senso de desperdício de energia em coisas infrutíferas e em se dar conta de que as coisas que você aprendeu a aceitar e encarar como normais estão bem longe de o serem, que tristeza não é bonito em si, niilismo é legal nos livros, que não adianta ter o amor como extremamente precioso se você, ciente dos riscos, não o colocar para crescer, que seus mecanismos de defesa estão todos ultrapassados e que, na verdade, para crescer e ser o polímata que você esperava ser aos 17 anos é preciso, antes e acima de tudo, passar a encarar a vida com outros olhos. É ficar impaciente, querer correr os caminhos do mundo para realizar coisas, para mudar, para viver, ser feliz, conquistar, amar, vencer, ser; porque algo me diz que tudo vai dar certo, de uma forma ou de outra. É viver assumindo os riscos e sem mecanismos de defesa porque viver dói e se furtar a sentir essas dores é morrer um pouco a cada dia.
E que doa essa vida, porque eu aguento. Agora eu sei. Não importa o quanto doa, amanhã sempre nasce outro dia.
às 10:35 0 comentários Marcadores: Memórias, O dia em que cresci
Aos meus filhos
Meus filhos;
Eu não sei quanta paciência vocês terão para ler esses textos - se forem um pouco como eu, imagino que a curiosidade será suficiente para que não apenas os leiam com interesse, mas os conservem com bastante paixão. Eu sempre me apeguei bastante a qualquer coisa antiga relacionada com a história da minha família e estimo que aprendam a ter o mesmo hábito. Desde origem dos sobrenomes a velhos álbuns e documentos, tudo relacionado aos estranho que vieram antes, e resultaram em quem eu sou, em quem vocês são, sempre me provocaram profunda fascinação.
Na verdade, há uma certa sensação de fuga da premissa depois de tantos anos com essa ideia de registro da minha vida para vocês mais ou menos norteando meus esforços nesse blog, já não sei até que ponto muitas das coisas escritas aqui não se confundem na memória. Há impressões falsas, textos que eu, hoje, jamais escreveria, opiniões que podem ter mudado. Enfim, coisas de que me arrependo, que não aconteceram exatamente como estão escritas e, que mesmo que tivessem, é tudo tão baço e obscurecido pelos anos que fica muito difícil de eu mesmo ser capaz de ler minhas histórias e encontrar exatamente o sentido delas.
Não se trata, portanto, de um diário remotamente preciso desse pai que vos escreve. E antes que pensem que eu fui ficando maluco conforme o tempo passou, eu me defendo dizendo que essa é a vida: é comum que quando olhamos para trás nos deparemos com um estranho, que sorri ou chora, e que de forma absolutamente surpreendente, reconhecemos como nossos eus de outrora.
Embora a precisão desse blog possa ser largamente relativizada, a manutenção do espaço e dos registros não são esforços menos saudáveis porque, e tenho certeza que já o escrevi em algumas postagens antigas, tive essa ideia ao lembrar que meu pai faleceu sem que eu viesse a realmente conhecê-lo. Não sei, por exemplo, que jovem ele foi, com o que sonhava, o que fazia aos 25 anos de idade, como encarou ter 30, começar a ficar careca tão cedo, sua postura sobre a ditadura, as namoradas, por que entrou para a política, por que largou quando parecia que poderia ter sucesso, por que fora estudar economia e história ao mesmo tempo e não, sei lá, engenharia.
Todas perguntas que, talvez, vocês tenham tido a vontade de me fazer e, se mergulharem nesses posts todos, talvez encontrem algo que responda à sua curiosidade. Algo que, se ocorrer, me verei um sujeito feliz porque nada escrito foi em vão.
Além de responder às perguntas que vocês possam ter a respeito de quem eu fui e sou (espero estar vivo quando vocês lerem esse e outros textos), imagino que meus textos também tenham caráter educativo, que possam guiá-los por problemas, que possam fazer com que vocês enxerguem que a vida pode ser realmente dura, mas que há um amanhã para cada dia horrível, que eu tive momentos ruins e momentos bons e é o esforço de cada um de nós para termos mais momentos bons que ruins que define a vida e dá sentido à busca pela felicidade (que, vou avisando, não existe em si: o que podemos conquistar são momentos felizes permeados de realização, de sonhos, vitórias e das pessoas que mais amamos).
Quem sabe uma ou outra passagem sobre minhas desilusões, minhas vitórias (porque não se iludam, aprendemos um bocado com elas), minhas glórias e falhas, enfim, o que eu fiz e deixei de fazer possam guiar vocês em momentos atribulados, em fases de dúvidas, de dificuldades, em que pode parecer que estarão sozinhos, contra tudo, a carregar o mundo nas costas - igualzinho eu me senti quando morreu meu pai e os blogs, por sorte nossa, praticamente não existiam para que eu viesse neles escrever minhas dores. Por mais que eu queira que vocês aprendam as durezas dessa coisa de viver, acho que já me sinto pai mesmo sem saber por quantos anos mais terei de esperá-los, prefiro protegê-los do quanto a morte de seu avô me escureceu a existência por um tempo. Passou, mas doeu bastante.
Espero que minhas músicas sejam interessantes, que os meus poemas, embora sofríveis, criem em vocês o amor por essa forma de arte tão pouco valorizada, que meus escritores favoritos tenham coisas para dizer a vocês ao longo da vida e que sirvam de porta para que vocês encontrem as suas músicas, as suas formas de arte, os seus livros - e tenham sempre o carinho de me explicar porque cada uma dessas coisas os encanta. Escrevo porque quero que vocês lembrem que aos 20 poucos anos de idade eu já os imaginava e desejava na minha vida.
Agora, na iminência de publicar essa carta, me vejo preocupado, ao relê-la, e perceber que ela não soa bonitinha como as crônicas que você lê de gente tão talentosa, que ao escrever para os filhos que crescem no quarto ao lado, enchem o texto de doçuras e de formas leves de ensinar a vida, de falar do passado. Crianças (adolescentes?), eu não sei escrever desse jeito. Ou talvez não o saiba porque esse é um talento que a gente descobre quando nos nascem os filhos, quando nos sentimos cheio desse propósito bonito que é a paternidade. Me perguntem depois, ou sigam lendo para saber se eu soube ficar mais lírico ao longo dos anos ao escrever para vocês.
Eu deixo esse post aqui, que caso eu mantenha o ritmo de umas 10 postagens por ano, será soterrado por outras bobagens, poesias, platitudes e remorsos, como registro, no entanto, do momento em que vocês deixaram de ser uma ideia e uma vontade para o meu futuro para serem um projeto, um compromisso. Eu sinto que vocês não estão mais tão longe da minha vida, não só porque eu os quero e amo muito desde sempre, mas porque querer é poder e estou sentindo essa saudade do que ainda não tive me doendo no peito. Meus amores, eu sinto falta de vocês sem tê-los ainda conhecido e para remediar essa forma mais cruel de saudade só indo mesmo encontrá-los.
Sinto que nos encontraremos em breve, mas que vai demorar um bocado para que vocês aprendam a ler e tenham qualquer crise que os levem a questionar o velho sem graça, grisalho e decididamente calvo, que tenta dialogar com vocês, o que os levaria a ler esse e outros textos esparramados por aqui. Falta tempo não só porque vocês precisam, antes, crescer um pouco mas porque há uma série de obstáculos. Eu, segundo as probabilidades, não encontrei ainda a mãe de vocês, preciso resolver uns problemas práticos, como achar onde vocês vão crescer e meu novo rumo profissional, mas vai tudo à caminho porque, meus amores, eu tenho planos.
Lhes escrevo essa carta em específico porque encontrei antigas fotos e recortes do seu avô há uns dias. Nenhuma daquelas reminiscências eram endereçadas à mim, mas me fizeram feliz. Espero que essa carta tenha para vocês o mesmo efeito aconchegante que aquelas relíquias tiveram comigo, que vocês sintam o calor do meu abraço, a minha voz, o meu jeito de olhar e o amor que eu já desenvolvo por vocês tocando cada pedacinho dos seus corpos e essências, quer eu esteja por perto ou não porque essa vida é bandida e não me arrisco a ir tão longe nas minhas previsões.
E se não estiver, espero ter sido um bom pai, espero que entendam minhas falhas, valorizem meus acertos, reconheçam meu esforço, que não me esqueçam. Deixo-vos, também, alguns bons conselhos: tenham sempre coragem, e se ela faltar, leiam esse parágrafo para lembrar de criá-la e tê-la sempre à mão, quaisquer que sejam as circunstâncias da vida. Façam dessas frases amuleto, usem-no ao redor do pescoço para não esquecer de vibrar, mesmo perante os riscos. Não se esqueçam de ter medo, porque não é feio duvidar e fragilidade não é opróbrio, mas enfrentem as dificuldades com coragem e procurem apoio naqueles que os amam. Vocês têm a obrigação de serem corajosos por duas razões. Em primeiro lugar, são meus filhos e em segundo porque o mundo vai exigir isso de vocês 100 vezes por dia. Não se furtem às oportunidades que a vida dá, experimentem os caminhos, cuidem do corpo e da mente, corram os caminhos do mundo, sangrem, ajudem, peçam ajuda, amem. No mais, tirem o melhor proveito de tudo, procurem viver alegremente, tenham prioridades na vida e, por favor, vivam bem e por muito tempo.
Com amor, do pai.
às 07:20 0 comentários Marcadores: Cartas aos meus filhos, Memórias
segunda-feira, 16 de janeiro de 2017
Esses sonhos de menina
"É que talvez você não tenha se dado conta, mas esses seus sonhos de futuro, vida a dois e tudo mais, querendo ou não, são uma pressão enorme para qualquer pessoa. Mesmo que ela pense como você e queira a mesma coisa, de um jeito ou de outro, acho que você transfere uma cobrança enorme para que tudo dê certo, para que funcione, para que o futuro se confirme, para que você não se decepcione com algo que saia do planejado, que não seja como você imagina que deva ser numa fantasia idealizada na sua cabeça. É uma forma de defesa, porque você não quer abrir mão de coisas que você sabe que são importantes para definir a qualidade da sua vida no futuro. É uma pressão dos diabos para que ela seja sempre perfeita e as coisas também sejam sempre perfeitas. Não é pouca coisa".
"E se for isso mesmo, explica muita coisa, né? Porque sempre que você vê algo que comprometa essa pressão pela perfeição, mesmo as coisas mais simples e banais, você tem duas alternativas: transferir cobranças injustas e ficar com cara de imbecil por se comportar como uma criança, exigindo perfeição onde isso não existe, ou engolir a sua frustração, algo que pode levar a irritação, raiva momentânea, explosões. Ou pode se acumular em anos e anos de covardia e de falta de diálogo, levando a crises de meia idade, implante de cabelo e casos com adolescentes daqui uns anos".
"Mas não se assuste. Não é o primeiro caso. Nem o último. Aliás, fique tranquilo porque poderia ser bem pior: o fato de você estourar desse jeito mostra que você, no fundo, reconhece que as suas pressões são injustas e que não se sente em posição de impô-las a ninguém, que o mundo e a vida não são para serem perfeitos. Ter essa percepção é mais que meio caminho andado para parar de ser idiota, a outra metade do caminho você começa agora, descobrindo o teu problema".
"A sua solução é simples. Passe a encarar a vida com realismo e sem fatores deterministas. Faça os seus sonhos, inclusive esses de menina, virarem metas, porque metas a gente atinge, sonhos a gente apenas fica desejando, desejando, desejando. Meta: morar no lugar X. Sonho: ganhar na loteria, viu a diferença? Assuma o controle da sua vida, das coisas que almeja pelas razões que forem e deixe as hipóteses que te fariam feliz, mas fogem do seu controle, nas mãos do destino. Confundir metas com sonhos é uma puta cagada porque quando se sonha, sonha, sonha e não conquista, no fim, você fica com cara de imbecil, culpando tudo e a todos, menos você mesmo que é, via de regra, o grande culpado por ter visto a vida passar e não ter feito porra nenhuma pra aproveitá-la e fazer dela algo que preste".
Lucidez. Vem tarde, na carona de um aguaceiro dos diabos, lá no topo da serra. Mas vem.
às 18:30 0 comentários Marcadores: Memórias, O dia em que cresci
domingo, 15 de janeiro de 2017
Subidas e descidas
Hoje eu me dei o dia de folga. Peguei o carro e percorri uns 70 quilômetros que me levam até a cadeia montanhosa mais próxima, que nós outros chamamos de Serra da Esperança. Não se trata de paragens extremamente conhecidas, não só porque quem já viu uma serra já viu a da Esperança, mas principalmente porque suas escarpas não remontam as assombrosas alturas, precipícios e quedas que as mais agraciadas demonstrações do relevo terrestre oferecem. A rigor, a Serra da Esperança é das de meia-pataca.
Mas é o que temos, menos de uma hora, você está se confrontando com a natureza. Com essa calma que parece agraciar as regiões serranas do país, onde as grandes conurbações urbanas não podem acontecer. Onde o relevo preserva a mata, o campo, a vida tranquila, o silêncio, o tempo que passa mais devagar, como se fosse ali um outro cosmos, como se ali valessem outras leis físicas para o tempo e para a entropia de todas as coisas.
Na serra, deixei o carro em um lugar bastante escondido, recomendei-o a atenção do proprietário do terreno e lhe fiz o mais do que justo agrado de pagar-lhe pelo incomodo com bom dinheiro, prometendo igual quantia quando desfizesse minhas andanças e cismas e decidisse ir embora.
Ao sujeito, tenho certeza, toda essa sofreguidão para se embrenhar no mato, vencer os morros e chegar no topo de alguns deles parece ocupação vã, tolice do moço da cidade que, sem nada melhor para fazer, vem se aborrecer no meio do mato. É a velha história da casa de ferreiro e espeto de pau: ele deve apreciar os confortos da cidade a que eu desdenho enormemente, na mesma proporção em que eu me apaixono pela vida calma a que ele tem direito, rodeado por uma paisagem de doce desolação verde e sossego.
Me desfiz das roupas de cidade. Coturno para andar no mato fechado, peguei o facão afiado. A mochila com cantil e frutas, a barraca desarmada. Dei a volta pela estrada de chão fazendo meus cálculos de que, provavelmente, poderia almoçar umas maçãs no topo do primeiro morro, caso fizesse tempo bom e o caminho não estivesse por demais impraticável, que esses diabos de morrinhos sem graça da serra tem um vezo para ficarem encharcados que é de dar com a cabeça nas paredes.
E assim foi. Para subir uns 800 metros levei cinco horas e meia. Escorreguei, rasguei a camiseta, me arranhei numa árvore, morri de medo de cair com a barriga no facão e morrer idiotamente, perdido no mato. Recomendei a todos os demônios e infernos de que fui capaz de lembrar o desazo de ter ido subir o morro, dei razão ao desprezo do homem que guardava o carro. Suei, quis desistir, pensei que não valia nada a pena, que na última vez que fiz algo do tipo era bem mais jovem, escoteiro, tudo numa trilha bem mantida.
Foi o caos.
Mas eu persisti. De alguma forma, subir aquele morro era uma questão de vida ou morte. Estavam em jogo, nessa atividade, todos os caminhos do meu destino, o futuro que se fixa na sua frente em uma estrada sólida, a vida que você precisa resolver. Tudo dependia desse esforço, desse rito de passagem, dessa prova intima de que, querendo, você vai longe. Que a gente se bate, mas vence. Que a vida é bandida, a tristeza ameaça, a dor inevitável, o sofrimento opcional. E que a gente vence, porque no cume, nada disso importa.
Cinco horas e meia de tombos, pragas, ameaças, desdem intimo, dúvidas, medo, vontade de desistir, mas de persistência, de vontade, de raça, de coragem, de sorrir na cara do perigo, de seguir em frente, apesar das circunstâncias, e eu venci, finalmente, a mata e a subida: estava no cucuruto do morro, como diria o meu pai.
De lá, descortinou-se a bonita vista da qual eu devo ter tirado umas 50 fotos. Emoldurava o horizonte uma cortina de água escura de fazer a alma vergar em sinal de respeito à majestade da natureza. A chuva negra, talvez há uns 10 quilômetros de onde eu a via, tomava todo o horizonte distante e dava ao verde, ao recortado das propriedades, o serpentear das estradas e as reentrâncias dos rios uma imagem de propósito, de plenitude: era como se o mundo todo se debruçasse para que eu visse: planalto, planície, vento, água, chuva, raios, trovões, marcas da ação do homem, tudo cabia naquele recorte que meus olhos alcançavam.
A chuva, e isso era facilmente observável, estava a caminho e me atingiria, tornando o caminho de volta muito pior do que fora na vinda. Mas não tive medo. Sentei-me, me aconcheguei com as minhas coisas em volta, e me ocupei de meditar. De não pensar em nada, de apenas apreciar o momento, de me sentir feliz e orgulhoso de ter chegado, de me sentir receptivo à essa sensação de solitude que só quem já acampou completamente sozinho e isolado sente, essa de ver o mundo de um ângulo privilegiado, longe de amores, paixões, problemas, dificuldades, ódios, mágoas, de tudo e todos, se sentindo como que inexoravelmente sozinho no mundo: só eu vi aquela paisagem, aquela chuva, aquelas nuvens daquele jeito. Vão passar milhões de anos, e ninguém poderá dizer que as viu como eu vi. Naquele instante, só existia uma pessoa em todo o mundo.
Almocei as minhas maçãs, que estavam todas batidas pelos acidentes do percurso. Limpei o melhor que pude o espaço que escolhera para a barraca, removi galhos, folhas secas e mortas, arranquei um pé de qualquer coisa que não sei do que se tratava e fiquei feliz de encontrar um pedaço de rocha em que pude apoiar a cabeça à noite, no maior conforto, usando a roupa suada como travesseiro. Não dormia tão bem e tão mal há um bom tempo.
Mas antes de pensar em dormir, me vi acometido da face ruim da solitude, essa que nos deixa entediados. A euforia de ter chegado, de ter visto uma paisagem única e uma apresentação exclusiva da natureza tinha, enfim, passado e perdido o efeito. Me percebi desejando companhia, me vi pensando em como seria divertido ter compartilhado a aventura, estar agora comentando a beleza, mas também o pavor que causa essa chuva monstruosa que se move tão rápida, tão inevitável, tão displicente ao meu encontro.
E aí você se encontra com aquelas coisas todas das quais vem tentando fugir. Dos problemas e das soluções, do fato de que não há o que se fazer, dessa dor esquisita que é se afastar, se proibir, se isolar, que é amar em silêncio, que é viver nesse limbo em que nada que você faz parece fazer sentido, em que tudo é inconsequente e inútil.
Amar é muitas coisas, você ouvirá milhões de definições diferentes, dependendo do estágio em que alguém está na paixão e no amor por alguém, mas talvez não exista uma mais certeira, mais universal, mais comum - e comum porque é sentida por qualquer um que ama - do que essa mistura de saudade do futuro que você espera com essa coisa de querer compartilhar seus melhores e piores momentos com alguém que você quer demais.
E foi embalado nesses pensamentos e nas minhas filosofias vãs sobre como definir amor e nas limitações da língua portuguesa, essa que se sente tão especial pelo charme do termo "saudade", mas que não foi capaz de criar verbo que desse tino dessa coisa, dessa falta, dessa ausência, dessa loucura que é amar e não poder, que vi a chuva chegar, avassaladora.
Gosto de banho de chuva e não me preocupei em me esconder na barraca. Tirei a roupa e fiquei nu, recebi a cortina de água de braços abertos e me vi sorrindo, imaginando um satélite que conseguisse vislumbrar, mesmo com as nuvens no caminho, meu corpo nu no topo da montanha, recebendo a chuva como se o abraço gelado dela me levasse para lá, onde eu agora queria estar.
Venho revisitando uma porção de convicções nos últimos tempos, mas tem uma que eu nunca confronto e que é a ideia de que não devo forçar minha mente a nada. Não acredito, por exemplo, em jogos mentais para esquecer, acho errado me forçar a odiar, cultivo minhas memórias com zelo e me intrigo com quem vai no caminho contrário, tão feliz em jogar no lixo suas experiência, relativizar seu passado, odiar por mecanismo de defesa, por imaturidade. Esquecer, nunca. O que passou, o que ficou retido nas prateleiras empoeiradas da memória é o que nos define, o que diz quem somos. E eu tenho um amor desmedido pelas minhas lembranças e, portanto, pelo que eu sou.
E todas essas disposições de espírito, essa calma, essa complacência à que a natureza conduz, me deram paz. Foi vitória ter subido, foi inesquecível ter visto a paisagem, foi libertador tomar aquele banho de chuva, foi rejuvenescedor ficar em paz com meus sentimentos e me apaixonar, mais uma vez, pela doçura das minhas memórias.
No dia seguinte, pela manhãzinha, o garoto que subiu a montanha percebeu, surpreso, que era o homem que descia, leve, uma pequena colina.
às 20:37 0 comentários Marcadores: Memórias, O dia em que cresci
sábado, 14 de janeiro de 2017
Lições
Quando era jovem, eu namorei uma garota que adorava, mas no fim, não éramos as pessoas certas um para o outro. Antes de chegar a essa conclusão, no entanto, essa pessoa, ainda que involuntariamente, me ensinou a lição mais importante de todas as da minha vida amorosa, a que eu sempre tento carregar comigo, mas que sozinha, sem outros conhecimentos do ofício, não dá em nada.
Lembro que já namorávamos por um tempo. Um dia, comentei numa postagem de Orkut, sobre uma outra garota da qual não lembro o contexto, mas era uma celebridade tipo B e a conversa se dava num fórum de amigos. Os mais suscetíveis de vocês, por favor, se contenham, porque o comentário foi machista e usava um bordão de um antigo programa “humorístico”: arruma um jeito de ela dar pra nóis.
Totalmente desnecessário, infantil, mas eu era pouco mais que adolescente na época. Estava numa rodinha com amigos, ainda que virtual. E o comentário entrava no tom de deboche próprio da fauna ali reunida e do grupo em si. Era apenas besteira, nada mais.
A garota ficou sabendo porque seus sabujos farejaram o sangue e ela veio na minha jugular para tirar satisfações. Ainda que vendo exageros na reação, na hora, me preocupei unicamente em me desculpar, desculpar e desculpar, enquanto ela insistia em me por contra a parede, como sacana e fator de profunda vergonha pessoal na vida dela. Insisti em transpirar sinceridade nesse momento, cometendo o erro muito comum de quem é jovem e confunde sinceridade com honestidade.
A lição que aprendi no episódio, especialmente em virtude da conclusão que viria depois da nossa incompatibilidade, é a de que pedir desculpas é fundamental quando você erra, mas para por aí. Quando somos inseguros em relação a quem amamos, acabamos entrando num parafuso de pedir desculpas indefinidamente, muitas vezes até pelo que somos e pelo que não fizemos – algo muito comum na juventude masculina e, acho, que também entre as mulheres. Desculpas, sobretudo se sinceras, são importantes e fazem parte de uma relação equilibrada com as pessoas que nos cercam, mas chega um ponto em que a repetição delas, especialmente se estivermos falando de uma ofensa menor como a que cometi, começam a soar como desespero.
Se tivesse sido honesto, e não apenas obsessivamente sincero, teria me desculpado, sim. Mas a partir da insistência na cobrança, poria a honestidade para funcionar, e diria que, embora respeitando o direito dela se sentir ofendida, precisava chamar a atenção para que o comentário fora nada mais que uma brincadeira em meio aos meus amigos. Que se o tom de deboche desse tipo de situação a deixava desconfortável, o problema tinha muito mais a ver com a insegurança dela em relação à sua imagem e em relação ao meu comportamento. Pronto, uma saída de homem: pedido de desculpas sincero porque não tinha intenção de aborrecer à pessoa a quem amava, mas, em face a insistência no assunto, faz questão de mostrar a futilidade da querela e em se mostrar equilibrado sobre o problema.
E ser honesto com quem você ama envolve uma coragem dos diabos, intimidade e linhas de diálogo extremamente abertas. Precisa coragem para admitir os seus defeitos, mas muito mais para contar algo ruim que você fez na vida, precisa de coragem colocar as necessidades do outro antes das suas, tem que ter coragem para, nesse mundo doido, assumir que quer viver a vida com uma única pessoa e com ela ter filhos e embarcar em todos os tipos de devaneios da vida a dois. Se você não tiver coragem no amor, você não o busca e não botará fé nele e em suas perspectivas de sobrevida, você não estará de olhos abertos para reconhecer suas falhas e, o mais grave, o lapso que existe entre a realidade das coisas e da vida e as fantasias que você constrói: é preciso coragem para sintonizar essas discrepâncias e, sair do outro lado, em paz, sabendo que você ainda ama a pessoa que não era exatamente como você projetou, aceitando essas diferenças como fatores de uma vida entre adultos, não pontos de conflito que você precisa fazer vergar. Coragem é fundamental. O lado bom é que eu venho construindo isso aos poucos, e se você tiver sorte mesmo, pode aumentar seu estoque de cojones com a colaboração da sua companhia. O lado ruim é que parece nunca ser suficiente: a gente sempre tem colhões de menos do que as situações que surgem parecem exigir.
Apesar da lição sobre não carregar nas desculpas ter ficado comigo, fiquei muito tempo sem saber direito a hora da sinceridade e da honestidade, provocando algumas situações indesejáveis de estresse emocional nas pessoas que vieram depois e das quais me envergonho (das situações, não pessoas), em um claro reflexo dessa falta de coragem. Fico feliz em, hoje, mais maduro, ter consciência disso e saber que essa dinâmica do “sempre pedir desculpas, mas nunca pelo que você não fez” é um conhecimento bem assentado por aqui.
Outra lição, e essa bem mais recente e sem relação com a garota de anos atrás, embora esteja ligada com essa coisa de desculpas e honestidade, tem a ver com o fato de que não adianta desculpar-se, honesta e sinceramente, quando você faz bobagem e magoa a quem ama. Aliás, adianta no sentido de que é o mínimo que você deve fazer, mas não vai muito mais longe do que isso. Você pode argumentar, mostrar que não teve, mesmo, intenção e que suas reações foram frutos de circunstâncias de momento, mas nada disso faz muita diferença porque o estrago emocional já está feito e, no fim das contas, a gente não tem o menor direito de dizer o que pode e não pode magoar o outro. Não legislamos sobre como nossas atitudes serão encaradas por quem está ao nosso redor, mesmo que a sua intenção seja absolutamente transparente: a de não arredar o pé da vida de quem você escolhe para viver contigo o resto dos seus dias. A conclusão, é que, não diga!, melhor que pedir desculpas, e precisar se equilibrar entre ser sincero e honesto, é nunca magoar a quem você ama!
Minha genialidade é realmente assustadora. Se você fizer silêncio, pode escutar as engrenagens do meu enorme cérebro emocional girando e produzindo essas verdadeiras luzes do conhecimento ocidental.
Amar é um cão dos diabos, dizia o poeta. É trabalho, mesmo se você tiver sorte de achar alguém realmente especial. Envolve concentração em detalhes, coragem (que você pode construir se tiver diálogo com a outra pessoa) e um zelo enorme para que linhas de diálogo sejam amplas para que todos os sentidos de qualquer atitude e declaração possam ser compreendidos por quem você gosta. Esse parágrafo todo parece senso comum, todas as pessoas dirão que comunicação é fundamental, previne todo tipo de problema e que a grande maioria dos casais se separa porque falta papo, abertura. Mas é sempre bom escrever isso e ter esse valor em mente porque a gente, em geral, só lembra dele quando é tarde, bem tarde.
às 18:25 0 comentários Marcadores: Memórias, O dia em que cresci
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
quinta-feira, 22 de dezembro de 2016
Verdes mares
Mas a saudade que mais dói
Não é nenhuma dessas
Dos tempos passados e futuros
Não
A que dói é outra
É a ausência dos verdes mares dos teus olhos nos meus
As tuas formas nas minhas mãos
O seu calor no meu beijo
A doçura da sua voz na minha manhã
O toque cálido das suas mãos nas minhas.
Quisera eu navegar pra sempre,
surpreendido e sempre desnorteado,
sem compasso, mapa e rumo
nos verdes mares do teu olhar.
E viver no tempo sem tempo
de coração em vela desfraldada
onde as tempestades
dessa nossa sina magoada
e as saudades do passado
já não podem me alcançar.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2016
Morreu de Benedetti
Reuniram-se todos à volta do féretro
Lá de dentro, encolhido no meio dos lírios
dos panos e das hortênsias
eu retornei os olhares
De um jeito bobo, meio atrapalhado
e sorrindo
como quem quer dizer que foi sem querer
pedia desculpas franzindo a rigidez da morte
Os de fora, sem me notar
Comentavam
De que veio ele a falecer?
Tiro ou facada?
Foi gripe forte?
Um acidente? Morte matada?
Pois não soubes?
Não
Morreu de tanto ler Benedetti.
terça-feira, 20 de dezembro de 2016
Praias
Te deixo de frente ao mar
Porque se vou embora
Que seja pelas costas
Não quero ver o seu olhar
E me perder nas lágrimas
E nas dores dos remorsos
Que vão tentar me fazer ficar
Levo comigo essas minhas melancolias
essa vida de atrasos e demora
Meus poemas enferrujados,
feito essas lágrimas agridoces
que temperam os meus dias
enquanto eu vou-me embora.
Mas eu me desengano logo
Porque você vai comigo sempre
nos meus rumos desarranjados
é você que me guia e me acompanha
é como tentar ir embora de si mesmo:
eu não posso me abandonar
assim como não posso expurgar a minha sombra
e por isso nem te deixar
de frente, olhando para o mar.
as palavras não foram todas ditas
mas eu as atravesso pela garganta
sinto suas mágoas nas minhas veias
e vou andando, olhando para trás
pé ante pé, pelas areias.
Fico, em vão, te esperando
como se você cansasse do barulho do mar
e fosse olhar para trás
e voltar logo
e é na hora mais doce dessa ilusão
que eu vejo que quando o mar te alcança
sou eu que me afogo.

