terça-feira, 9 de maio de 2017

Epifania 2

... e tudo dá, tudo pode, porque nós temos tudo ao nosso favor: os sentimentos, a vontade, a clareza do que é a vida, os sonhos, os valores, os princípios, nós só precisamos um do outro nessa deliciosa aventura de se aprender, de por paz, de dar um ao outro o afeto e o sossego que nós precisamos. Eu queria te contar como eu tive essa epifania, o que fiz e onde fui, por onde estive e a que não me permiti, queria dizer que nesse verão que vai acabando morre no meu peito e me deixa acalorado, porque aqui fica, aqui sobrevive o amor que é feito de calor, esse amor apaixonado que eu tenho, que é tão você, que é só você, que é por você. Esse amor que me lembra das suas mãos, tão impossíveis, dos seus olhos, tão adocicados, dessa pele, que é delicada como a primeira pétala da primavera, o jeito que o teu cabelo cai quando você o prende, o teu acordar sensível, ah que medo, e dos seus gostos, dos seus jeitos, da sua voz, dessa verdade irremovível do que eu sinto, do que temos, do que podemos, do que devemos.

Eu queria criar uma nova forma de linguagem, inventar o nosso idioma, porque aí a barreira das ideias que se diluem na torrente de palavras vivas e mortas não estaria no meu caminho, aí eu poderia, enfim, te mostrar, te dizer, te fazer entender. Eu poderia versejar sem medo, compor sem receio, escrever e te falar sobre as coisas todas, sobre os dias, as noites, sobre as idas e vindas, sobre as vidas remidas, sobre as vidas abortadas, sobre as desistências e vitórias. Eu poderia, à força das nossas palavras, te explicar e mostrar do que é feito esse meu coração, esse meu jeito, essas minhas epifanias, essas minhas cismas. Você me leria, porque eu deixo, eu peço, eu quero, eu preciso da sua leitura do que eu tenho, do que eu te ofereço, do que eu te entrego. Eu poderia dar ao meu corpo e ao meu peito essa coragem, essa coragem que anda me faltando, essa de atravessar esse muro e cair, cair no lado de lá e te contar, do começo ao fim, sobre esse mistério da minha Epifania, desse meu jeito de te amar e me apaixonar por você o tempo todo, como se eu fosse um paradoxo do tempo, do eterno retorno, do amante que se apaixona, e que ama, se apaixona, ama, apaixona, amapaixona para sempre.

Eu te quero, te quero como quis naquela viagem, te espero como te esperei ansioso e impaciente por aqueles dias de agosto e setembro que me diziam que algo, algo grande, algo de importante estava para acontecer, te espero porque é hora, é hora de ir em frente, de sairmos os dois unidos desse mês de setembro, esse mês de setembro que durou quatro anos. É hora de correr a vida, é hora de fazer os planos, é hora de abrir as portas, de fechar as estradas e construir as nossas veredas porque nunca estivemos tão prontos, nunca foi melhor a hora, nunca foram mais fortes os meus sentimentos, nunca fui eu melhor pessoa que agora, essa hora preciosa. Esse tempo que, nosso, vira futuro.

O meu coração espartano, que se movia como corsa, que fugia a cada investida sua, desistiu, ele baixou as armas, esse meu coração espartano, enfim, reconheceu que não é derrota, que amor é a vitória. Vitória que você sempre teve, porque você chegou antes, você viu antes, você entendeu antes, você quis. Quando eu te vi sorrir ao meu gracejo, quando te disse que tinha me apaixonado novamente, que falei mesmo sem pensar, sem perceber, e vi no seu riso timidez, vi no riso graça. Lembro de encarar os seus olhos do outro lado da mesa, ah que demora essa comida, a que pouca coisa esse vinagrete, ah mas que delícia essa nossa companhia. Tudo me preparava, tudo ensaiava o palco, tudo colocava as peças no lugar porque dali a poucos dias, nós faríamos aquele passeio da cachoeira, e eu de lá nunca mais voltei, é como se tivesse por aquela trilha ficado a perambular, na busca desse momento fugidio, dessa minha atávica incapacidade de articular, de lhe pedir que espere, que ouça com atenção, olha que coisa maluca que me aconteceu, não dê risada, não, não é engraçado, que é bom, mas não é necessariamente engraçado. Ah, o que eu faço? O que que eu faço agora, logo agora, que descobri que eu amo, que eu amo nós dois?

Na vida simples dos seus amigos, eu arquitetei a nossa, nos vi sob o mesmo teto, dividindo contas, fazemos uma conta conjunta, eu viro o seu companheiro e tocamos a sua empresa, e nós pensando no cardápio, falando dos planos do feriado. Neles eu nos vi, caminhando os dois em compasso, um passo de cada vez, que a estrada vai ser longa, mas que bom que vai ser longa, porque se é longa, é mais tempo ao seu lado. Eu pensava, do meu jeito bobo, que as coisas estavam se encaixando: eu já tinha tempo de voo ao seu lado, eu estava melhor, mais atento, eu queria de 2017 o começo, o começo a que nos propomos. Eu sonhei em te fazer surpresas, ah essa vida que não tive, eu vivi de planejar nossos retiros, de descobrir e rir das nossas manias, eu te contava do curso de massagem que fui fazer para te agradar. Quis matricular a gente num curso de marcenaria, num de jardinagem, quis aprender da vida contigo. Eu quis ser cão de guarda dos seus cachorros quando você viajasse, eu queria te dizer que nesse ano, meu bem, nesse ano nós construímos a nossa vida e eu quero a sua mão, você toda, toda no meu futuro, nessa hipoteca nossa de planos, de sonhos, de tantos desejos e desse amor maluco. Diga a todos que eu caso. Que eu sonhei que nosso filho chamava Raul, há anos, mas morria de medo de te contar. Eu ia folhear as páginas surradas dos meus cadernos ao seu lado, eu me embrenharia nas durezas daquele seu projeto e faria aquele programa. Eu me vi naquela rotina, a doce rotina, de quem se arrisca, de quem procura, de quem divide, de quem quer mais da vida e de quem sabe com quem.

Lembro daqueles quilômetros que percorremos, das músicas, Tom Jobim, das conversas, que falta me fazem aquelas nossas conversas, que ninguém odeia o Serra com tanta paixão, das descobertas, das placas de vende-se se insinuando a cada curva, cada pedaço de chão com mato e isolamento e boas vistas se exibindo aos meus olhos, esses meus olhos que só tinham você, esses meus olhos que cantarolavam e que te procuravam, esses meus olhos que queriam falar com os seus, ontem, hoje e sempre. Que sufoco, que aperto de saudade, que aperto dessa minha loucura, mais uma, que vai comigo, eu sei que vai, como eu sempre soube que iria, como eu sempre tive medo que iria, até o fim, até para aquele para sempre em que você não vai estar porque, se hoje só te amo, aí eu me aflijo, porque logo eu me reapaixono, enquanto você me anexa e esquece. E o ciclo não acaba, porque meu coração espartano é difícil de dobrar, mas uma vez batido, ele é fiel.

Lembro daquelas estradas e da minha vontade, sempre que meus olhos encontravam você, de te abraçar porque eu não cabia em mim de alegria. Eu tinha, ali, com aquele volante nas mãos, 120 km/h, todas as respostas, porque eu venci, eu tinha achado você e você tinha me achado. Eu queria tanto ter podido baixar a poeira desse vendaval de sensações e de intensidade para chegar do seu lado e te dizer que tive uma epifania, que eu vi a gente no futuro, que eu quero e sei por onde começar e que, contigo, eu vou pra onde for, porque a minha casa, a minha morada, passa a ser onde quer que você estiver com o meu coração. E que não vou embora, mulher, deixa de coisas, deixa disso, não vai embora quem chegou onde queria, não vai embora quem se vê rodeado de caminhos que só levam ao mesmo destino, você.

E é quase carnaval, e nunca tive um carnaval contigo, que azar, que tristeza, que falta de coragem, que sem jeito. Tenho essa vontade vulcânica de andar e correr, de te encontrar, de te dizer, de te mostrar a novidade, de te falar do meu jeito, da minha vontade, de te explicar, de te instruir nesse novo idioma.

Não há palavras, e eu odeio essa expressão, mas é a que cabe, não há mesmo palavras que abracem o sentido amplo e desordenado desse caos em que estão as coisas nossas, os meus sentimentos em desordem, esperançosa desordem, como que se negando a ordenarem-se, a entrarem em arranjo disciplinado e controlado, a se abrigarem no catálogo ontológico da estante da alma, formassem todos eles uma lógica só nossa, em que só a nós cabe interpretá-los. Que meus sentimentos são todos teus, ficam todos eles pelo chão, te esperando chegar e escolher entre eles, o que vai ser seu, o que vai usar, qual deles você vai levar consigo.

Nessa bagunça íntima, tão minha, tão você, a desordem tenta ser estratégia, o meu silêncio e resiliência tentam me fazer de forte, a minha fé no que você sente vai escrevendo no caderninho desses fiados que a gente faz assim que diz que ama, que investe a paz e o que sente na outra pessoa. Na minha epifania, na mesma medida em que foi libertador entender que me apaixonei por você depois de ter te amado, a vitória maior foi perceber que esse ciclo de amores e paixões por você durariam uma vida toda, que tudo é descoberta, que tudo me encanta, que tudo me absorve nesse caleidoscópio de delícias que é a vida, que são as suas cores de aquarela nas minhas formas, que você me rouba os contornos, você me define no tempo presente, no tempo futuro, você me resgata do passado, que eu vivo agora pelo presente e quisera eu viver conjugado por você, feito verbo, em todos os tempos e em todos os espaços porque, ah, é fortuna demais essa minha de ter conhecido você nessa imensidão dessas duas metades do tecido de todas as coisas. A maior derrota dessa minha epifania foi ter sido tardia, foi não ter sido na nossa língua, foi não ter tido tempo de te arrastar para o vórtice ensandecido do amor que eu sinto.

Minha epifania me prende, também, ironia, porque na mesma medida que me liberta, ela me sequestra, ela me lembra sempre, ela faz com que eu sinta, com que eu ame, com que eu apaixone, com que eu lembre, com que eu espere, com que eu recorde, com que eu torça, com que eu busque, com que eu melhore, com que eu te perca, com que eu não me ache. Eu te amo a perder de vista.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Opportunity successfully seized

"I used to believe, although I don't now, that growing and growing up are analogous, that both are inevitable and uncontrollable processes. Now it seems to me that growing up is governed by the will, that one can choose to become an adult, but only at given moments. These moments come along fairly infrequently - during crises in relationships, for example, or when one has been given the chance to start afresh somewhere - and one can ignore them or seize them.”

Nick Hornby, em "Fever Pitch".

Só prova que eu devia ter menos reservas quanto a reler alguns livros.

E dado o tipo de literatura de Hornby ("Uma Longa Queda", alguém?), não me espantaria se ele tivesse tirado suas conclusões sobre amadurecer a partir de experiências de vida similares as que eu tive, a partir de uma percepção dessa desgraça que são os ideais inatingíveis de masculinidade e seus efeitos no longo prazo que, em sujeitos como eu, podem espocar na depressão.

Esse tipo de percepção, associada com uma visão muito clara e precisa daquilo que você quer para a sua vida, é o que fortalece nos momentos de dificuldade e na hora de fazer escolhas e de enfrentar a vida. Você passa a honrar o compromisso com você mesmo de não se deixar abater, de não cair, de não permitir que a escuridão volte a assombrar.

Eu nunca esqueci de uma palestra, anos e anos atrás, com o Flavio Gikovate. Eramos todos adolescentes na plateia e ele gastou um tempo enorme dizendo, em especial para os meninos, não amadurecerem como seus pais: à base de paulada e usando referenciais externos. Para que, ao contrário, questionassem seus valores e princípios não como forma de rebeldia, mas para descobrir se eles eram mesmo nossos. Me pergunto, hoje, se algum de nós entendeu o recado e seguiu o conselho.

Eu sei que eu não.

Eu, bobo, pensava que um dos meus maiores compromissos na eventualidade de ser pai seria o de, sempre que ouvisse uma pergunta do tipo "pai, por que o céu é azul e a grama é verde?" eu responderia da melhor forma possível, se tivesse a resposta, ou diria "eu não sei, filho, mas a gente pode procurar juntos essa resposta, o que você acha?" ou "eu não sei e ninguém sabe. Mas você pode crescer e ser a pessoa que vai descobrir essa resposta", para usar como último recurso. A ideia aqui, vejam só a sutileza do meu artifício, é manter viva a curiosidade e ensinar os pequenos o poder emancipatório da aprendizagem.

Mas, hoje, especialmente na eventualidade de ter filhos meninos, incluo um compromisso muito firme de afastá-los desses padrões de comportamento insustentáveis, dessas expectativas monstruosas sobre o que eles devem ser na vida adulta.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Tempo é amor e amor é tempo

Agora eu advogo que a maior prova de amor que se pode dar a alguém é o tempo. É o compromisso inolvidável, abnegado, sério e aberto de que o tempo, a escassez do tempo, deve nortear nossas escolhas, nossas necessidades, nossa vida porque o tempo passa, o tempo voa. O tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, como dizia o Caetano, é o que mede as coisas e não se dar conta da sua ação, seja positiva, seja negativa, em todas as coisas é ingenuidade. A maior prova de amor que você pode dar a alguém é conhecer o tempo, dizer que, hey, olha só, eu pus o tempo no bolso, ele é nosso aliado, agora vamos em frente, porque o tempo não vai nos destruir e o resto, bom, o resto a gente resolve.

E, se você quiser, você coloca o tempo no bolso e faz dele aliado. É tudo uma questão de percepções, de aberturas, de entregas e compromissos. De clareza a respeito das nossas circunstâncias e possibilidades nessa aventura tão doce que é a vida.

Em algum lugar do código matemático que explica a realidade, eu tenho plena convicção disso, se esconde uma fórmula que relaciona diretamente tempo e amor.

O tempo é a maior prova de amor que você pode dar a alguém porque a vida se faz no agora. Eu descobri que passei anos remoendo, e sofrendo, no passado e isolei completamente meu futuro numa redoma de aço, em que nada real poderia penetrar para não denegrir os sonhos, os doces sonhos, que me acostumei a ter. Mas, agora, desperto, eu desmontei essa redoma e estou submetendo os sonhos todos aos duros testes da realidade: todos vem sobrevivendo porque são as coisas que eu quero, que eu preciso, que eu almejo.

De certa forma, eu sempre levei a vida numa constante queda de braço com o tempo. Eu queria, por vezes, viver no passado. Por outras, eu andava sonhando no futuro. Mas, como forma de proteção contra os meus fantasmas, como reflexo da depressão e das minhas fraquezas, vivia pouco no presente. A percepção clara desses problemas e erros, hoje, dá paz, ilumina. Liberta.

E essas percepções não são vagas. Você pode ver como o tempo é precioso facilmente: aos 32 anos, um ano de vida equivale a 3,13% da sua vida. Aos cinco anos de idade, o mesmo ano vale 20%. Essa matemática ajuda a explicar porque, nessa altura, o tempo parece voar, andar tão rápido. Há um incrível arrazoado na Internet sobre essa escassez interminável, que quando li, me deu um sentido de urgência sobre a minha vida que eu nunca tinha experimentado e que mostra, de forma absolutamente clara, como temos pouco tempo para fazer o que precisamos, o que queremos, para dividir com quem amamos.


E todas essas coisas ajudam a explicar porque eu ando tão apressado para correr atrás do que eu sinto, do que eu desejo, do que eu preciso. De certa forma, ao brigar tanto com o tempo passado, ao amar tanto o tempo futuro e evitar tanto o presente, aprendi que há uma diferença de escala entre essas três entidades: o passado é vasto, amplo e enorme e dá uma ilusão de felicidade palpável, mas é uma felicidade que não frutifica mais, como se fosse uma estátua, ou um animal empalhado. O presente é, só isso, ele existe, mas é adimensional. O futuro, por outro lado, é estreito, apertado e, de alguma forma aconchegante porque apresenta uma felicidade, mas que não é palpável, que não é real, que esfarela na mão se você tentar tocá-la, o que você vive no futuro, se furtando do presente, são ilusões e miragens. O único lugar dos três em que você pode encontrar alguma forma de felicidade verdadeira, real, é no presente, por fugaz, pequeno e árido que seja, é nele que as coisas, de fato, acontecem, é nele que nos apaixonamos, é nele que amamos, é nele que nos construímos é nele, sempre nele, que devemos nos refugiar, por dolorido que isso possa ser.

A realização dessas coisas não vem de agora, vem de antes, mas como tudo na vida, nessa guerra eterna contra a passagem inflexível do tempo, chegou tarde. Assim como o poder da meditação na minha vida e tantas outras coisas doces, agridoces, que esse 2017, estranho, novo, forte e grande vem me trazendo.

Se não tivesse aprendido nada, poderia encerrar esse texto com um chiste, dizendo que “que pena que meu 2017 não foi em 2013, ou antes”. Mas não brigo mais com o tempo, não brigo mais com nada, chega de queda de braço, que agora não moram mais no peito todos os sonhos do mundo: agora mora um relógio cósmico que, em paz, conta os pentelhésimos de segundos dessa existência para que eu viva em plena harmonia e sincronia com as minhas circunstâncias, com o que eu quero, sinto e preciso.


O tempo, enfim, é o meu grande aliado.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Coágulo

Dava
queria
e podia
eu te mostrava
que a vida
se faz paz
que o amor pulsa
e que não há loucura
na luta
que já é vencida.

domingo, 30 de abril de 2017

Epifania

Naquele dia da cachoeira, eu tive uma epifania. Eu sempre ouvi de você a sua vontade por uma vida mais simples, o desejo de viver longe da megalópole, de construir uma família num lugar pacato e mais saudável. Mas, às vezes, eu me perguntava até onde essa vontade iria, até que ponto a cosmopolita ia abrir mão do shopping, do mercado que tem tudo, do estádio, do acesso a qualquer coisa que a cidade grande proporciona. Não julgue mal, não estou dizendo que fazia pouco dos seus sonhos, não é isso. Não era uma questão de não acreditar em você, era só um ceticismo natural de desconfiar da sua capacidade de renegar todas as vantagens da cidade grande na hora decisiva de uma escolha para mudar de vida. Porque eu, que cresci em cidadezinha, sei que é legal ter cinema, shopping, restaurantes de todos os tipos, mercados para comprar coisas diferentes de vez em quando.

Aí, naquele dia, fomos até a cachoeira com seus amigos e, na volta, nós paramos para almoçar naquele lugarzinho totalmente isolado no meio da estrada de terra, meio escondido entre as árvores. A simplicidade do lugar me pôs, imediatamente, em alerta: eu fiquei completamente sintonizado nas suas reações.

Eu conheço uma lista enorme de hipongas que fariam cara de nojinho e nunca, jamais, comeriam nada ali. Naquele momento, eu fiquei atento para avaliar o seu comportamento. E não apenas você comeu com naturalidade (a comida era ótima, o feijão cheio de caldo, tudo bem temperado, a salada fresquinha e batata frita inesquecível), como realmente curtiu o momento, a comida, o lugar, o papo, o dia. Somando isso com o restante da viagem, com a alegria que eu sentia naqueles dias, com a felicidade que a sua companhia me proporcionava, foi como se algo estourasse dentro de mim. A sensação física era de calor, como se eu tivesse tomado por algo indizível que me aquecia e me atraía até você.

Eu demorei para entender o que aconteceu comigo naquele instante e nos dias seguintes. Demorei mesmo. Eu demorei porque eu nunca, nunca, nunca, nunca tinha vivido isso. O que eu senti naquele momento, e na volta do passeio foi, pela primeira vez na minha vida, um tipo de paixão. Mas a melhor forma de paixão que existe, que é essa que brota depois que você já ama alguém, porque aí é mais que um sentimento, é uma força da natureza: é todo aquele calor gostoso de gostar de alguém, de sentir falta, de ficar pensando e pensando nessa pessoa, mas temperado com o que você já sente, com o amor que já possui, com o carinho que já tem, com a lucidez que já existe dos defeitos e potenciais. Essa foi a minha epifania, esse amor de verdade, porque o que eu sentia antes, pelas outras que vieram, sempre me pareceu incompleto, sempre soou como se faltasse algo, como se não fosse ideal. Foi algo insano, sim, porque, depois de te conhecer por tanto tempo, depois de tudo, eu me apaixonei novamente por você, eu fui conquistado, mas tudo isso já sentindo amor e eu me senti, sim, a pessoa mais feliz, importante e resolvida da face da Terra. Foi como quando a gente gosta da primeira pessoa na nossa vida e não enxerga mais nada na nossa cara, só que com o detalhe de que eu já te conhecia, já sentia amor, e lendo agora eu vejo que nada disso faz sentido, que você vai rir da minha cara, que não importa mais, mas é verdade, tudo verdade, e que bom poder dizer isso, ainda que à toa, para alguém. Foi como uma certeza, como se eu tivesse ficado totalmente convencido de que estamos condenados um ao outro.

De repente, tudo se encaixava, as promessas deixavam de parecer só promessas e a vida toda se desenrolava diante dos meus olhos.

O que eu senti foi tão forte e íntimo e eu não tive tempo para processar e, como nós dois não somos bons de se abrir e conversar sobre sentimentos com o outro (o que, se você parar para pensar, é um potencial incrível), acabei não sabendo extravasar, não soube como expressar o que eu sentia e que não cabia dentro de mim, eu não tive o sangue frio de dizer, “olha só, aconteceu isso comigo hoje! O que que eu faço? Eu quero te esmagar num abraço!”. E antes que você corra a me rotular de imaturo, você precisa levar em consideração o quanto eu considero os momentos que eu passava com você preciosos porque a nossa realidade era de duas pessoas distantes fisicamente, então eu precisava aproveitar a sua companhia como se não houvesse amanhã e aí não só eu estou sempre interessado no seu corpo como, nesse momento em específico da viagem, eu precisava demonstrar e dar vazão às manifestações físicas do meu afeto por você o tempo todo. Nessa onda de serotonina, eu passei a olhar para você de outra forma, eu não via mais você, a gostosa, a interessante, a que é boa de conversar, que se interessa por tudo, que se faz de durona, mas é delicada, que é calma e sossego, que quer tudo, mas nunca impõe, que é essa incógnita, esse mistério a resolver, a que me sufoca, que cozinha tão bem, que é a melhor companhia de viagem que eu conheci, que me motiva, que rouba minha atenção, que vive nos livros que eu leio, que não sai da cabeça, que me fez gostar de cães, a que eu queria para mãe dos meus filhos, que me fez conhecer melhor o mundo e a mim mesmo, que me curou da depressão. Não. O que eu passei a ver, dali em diante, foi a mulher que eu amo, com quem todos os planos – não mais sonhos – são possíveis porque ela vale a pena, com ela dá pra caminhar, dá pra confiar nessa pessoa, dá para ver ela como constante nessa equação da vida, tão cheia de números negativos, de variáveis. A pessoa com quem eu sei que eu posso ter coragem de contar meus segredos que ninguém mais sabe, a pessoa com quem eu quero contar até o fim da vida. Naquele dia, ao se mostrar tão você, normal e feliz, sendo simples, naquele lugar simples, sendo plena e completa, você redefiniu os meus paradigmas todos porque você rompeu todas as barreiras que eu ainda tinha. Você me reconquistou, você colocou o meu coração no bolso, você me tirou o chão e você me confrontou com a verdade de que quem constrói o nosso destino somos nós, então toca a por mãos à obra.

Como eu te amei naqueles dias, eu te amei de tremer as pernas.

Eu precisava te fazer carinho, tocar em você, porque é a única forma imediata que eu conheço de expressar afeto, de te mostrar, “hey, olha só, estou estourando de paixão e amor por você, sinta aqui na palma da minha mão, veja o quanto eu te quero, o quanto eu amo você”. Se nós dois não tivéssemos construído de forma inocente essa ilusão de que nos conhecemos tão bem, eu saberia que você não gostaria, ou você teria a porta aberta para dizer “o que foi? Por que você está assim?”. Mas nós não nos conhecemos bem, tínhamos problemas de intimidade e diálogo e isso foi porta de entrada para um monte de problemas.

Eu não quero falar no passado porque aí o texto ficaria longo, mas queria falar do futuro e do presente, queria falar desse incomodo de não entender, de se preparar para tudo e para nada. Queria, mesmo, entender. Queria me explicar, queria alcançar, queria, queria e queria.

Poderia lhe dizer que as mudanças que fiz são sólidas, que eu tenho planos, que tudo dá pé, que de mãos dadas, a gente fecha os olhos e pula nesse abismo de deliciosas aventuras e incertezas que é a vida, convictos de que caímos no macio. Que eu transfiro a faculdade para o IF daí, que a gente aluga uma casa aqui, que a gente faz, a gente se abre, a gente se entrega, a gente resolve porque agora dá, porque agora é, porque agora precisa, porque o tempo é fugaz, porque esperar não é saber, porque te quero, porque te encanto com meus planos e os uno aos seus, porque é você, só pode ser você, porque eu te amo, amo ainda de me tremerem as pernas, porque não te esqueço, porque te perdoo, porque te entendo.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

A primeira a gente nunca esquece

Há um prazer esquecido dessa coisa de morar no mesmo lugar por muitos anos, em especial aquele em que você cresceu: a cada esquina, o passado anda à espreita. É uma vantagem que, nas metrópoles, tende a acabar diluída, já que os encontros fortuitos com os vestígios do seu passado ficam restritos aos lugares, já que as pessoas se dispersam nas grandes conurbações, vão embora, ou simplesmente moravam longe o suficiente de você desde sempre para que tropeçar nelas se torne uma improbabilidade cósmica irredutível. Na cidade pequena, nunca se sabe, mas de repente, você esbarra e reencontra a primeira garota que você beijou anos e anos depois ou, então, a primeira professora. Hoje, no mercado, eu me encontrei com a Professora Cristina. A mulher que foi a “tia” do primeiro e segundo ano do primário, na portentosa Escola Estadual Nossa Senhora das Graças.

Eu nunca esqueci da Professora Cristina porque, por ter sido de fato a primeira (na minha época, a pré-escola não era obrigatória, razão pela qual não tive outra professora antes) ela construiu na minha cabeça os contornos do que devia ser uma professora, ou professor. Isso pode parecer piegas, e, acreditem, eu sei ser piegas, mas essas impressões são verdadeiras e indeléveis, sobretudo em quem aprendeu a ter tamanho carinho pela palavra escrita: se eu hoje escrevo, se eu me apaixono por personagens, por escritores, se me perco em histórias, se ensaio as minhas, se faço versos, se me entendo com a ciência, se aprendo marcenaria em um novo curso, se tenho esse, e outros blogs, enfim, se interajo com as palavras da forma que for, e com a paixão que normalmente devoto ao que eu aprecio, devo tudo à Professora Cristina.

E aí me recordo que, pouco tempo antes de morrer, prestes a lançar um livro, meu pai resolveu procurar o cidadão que tinha sido o seu primeiro professor para dedicar-lhe a obra. Estava vivo o homem, bem velhinho e, pelo que lembro, chorou de emoção e gratidão pelo gesto. Corre nas veias o carinho pelos primeiros mestres, portanto.

Eu gostaria de ter organizado melhor essas palavras para tê-las dito todas à ela no momento em que a encontrei escolhendo pacotes de macarrão. Gostaria de ter ido além da minha bem honesta demonstração de surpresa por ela lembrar de mim também, que não é pouco prodígio, a mulher tem décadas lecionando, não tem a menor obrigação de lembrar de um menininho que, em 1991, tinha seis anos e não sabia ler e escrever e, hoje, veja só, é esse sujeito barbado e apressado, vive do que escreve e escreve para viver. A obrigação de lembrar dela, portanto, é toda minha. Mas não nego que senti um carinho gentil em vê-la lembrando do meu nome e falando do meu sorriso, que eu sorria muito, que eu era quietinho, interessado, carinhoso e cheio de perguntas. E, em geral, mantenho todas essas qualidades ainda comigo e não tenho a menor intenção de perdê-las.

Agora, ao escrever, me sinto decepcionado por não ter dito um obrigado, ou ter sabido como explicar que ela é mesmo especial e que eu não esqueço, mesmo. Ficamos apenas nas platitudes do que tenho feito, de como vai meu irmão, também foi aluno dela, de como ela vai, de, poxa vida, como assim, não se aposentou ainda? Ah, mas pra falar a verdade, que bom que não, que bom porque quem sai ganhando são os alunos. Ah, que engraçado, eu lembro de ter que olhar para cima para falar com você, mas agora eu olho para baixo, a vida não é engraçada?

Cristina tem uns olhos azuis clarinhos, clarinhos, mais que os da minha mãe, e nunca esqueci aquele olhar e a voz dela na sala. O método para ensinar o alfabeto, explicando como juntar as letras para descobrir o som que elas fazem, as primeiras continhas. É tudo meio esmaecido nas memórias que eu tenho daquele tempo, e que pena, que pena mesmo, que não tenho alguma passagem mais marcante, uma historinha com começo, meio e fim para contar da professora Cristina ,porque se tem uma pessoa do meu passado florido que merece protagonizar boas histórias e lembranças, é a Professora Cristina.

Ou não. Porque a ciência já provou que, toda vez que você busca uma memória na mente, seu cérebro não recorda de nada, ele reconstrói momentos e sensações todas as vezes, mudando um pouco ali, um pouco aqui e, no final, com a passagem de anos e anos lembrando, você acaba com memórias falsas, plantadas por você mesmo, sobre o que passou. Você não passa de um iludido, ou de uma iludida, que crê cegamente em mentiras que você mesmo construiu sem perceber.

E aí me conformo porque há beleza na sabedoria dessas e de outras coisas, há paz para se extrair dessa lição e toma-la do ângulo que importa. Me sinto aliviado em notar que a Professora Cristina vai comigo no coração, e sem historinhas embrenhadas nos trópicos dessa selva de mentiras, racionalizações, bons e maus momentos que são as minhas memórias, não há nada sobre ela para acabar se estragando à luz das mentiras que a gente mesmo constrói sem querer. Professora Cristina vai viver eternamente em meio ao carinho, ao apreço, ao respeito e a enorme gratidão que eu sinto por ela ter sido a minha primeira professora.

sábado, 15 de abril de 2017

O ano da virada

O processo  de crescimento, sobretudo no caso masculino, é permeado por letargia, golpes do destino e a voz rouca de referenciais externos, que podem ser bem bizarros. Eu lembro de ter lido, e já vão alguns anos, uma frase de Nick Hornby em um de seus livros e que dizia algo no sentindo de que passamos a vida toda achando que crescer e amadurecer são processos automáticos e inevitáveis conforme o tempo passa. Um leva ao outro e você não tem poder nenhum para detê-los e controlá-los.

Aí Hornby conclui que, agora ele sabe, o processo está longe de ser assim porque, na verdade, o ato de amadurecer, de se transformar diante das situações da vida, tem mais a ver com escolhas, posturas e, sobretudo, situações. Crises diversas apresentam situações únicas para esse processo de crescimento pessoal e, por infrequentes na nossa vida, cabe a cada um de nós escolhermos se aproveitamos as aberturas do destino, ou não. Tenho impressão que a máxima se sustenta para boa parte da humanidade, embora o processo seja menos tumultuado entre as mulheres, que amadurecem antes e de forma mais saudável, o que faz de boa parte delas exímias mestras na arte da manipulação e da mágica da transferência de culpa. Descontadas, claro, as raras exceções de praxe.



"I used to believe, although I don't now, that growing and growing up are analogous, that both are inevitable and uncontrollable processes. Now it seems to me that growing up is governed by the will, that one can choose to become an adult, but only at given moments. These moments come along fairly infrequently-- during crises in relationships, for example, or when one has been given the chance to start afresh somewhere-- and one can ignore them or seize them".


Talvez eu discorde apenas do "tornar-se um adulto". Acredito que crescemos e evoluímos, de uma forma ou de outra, sempre em direção à pessoa que desejamos nos tornar, seja ela quem for, seja ela o somatório de uma porção de qualidades e potenciais, seja ela o resto de uma subtração orquestrada pelas circunstâncias da vida, que acabam nos tolhendo de algumas possibilidades, de algumas fortunas. O termo adulto, acho, acaba dando um contorno determinista a algo que é subjetivo: o perfil acabado de uma pessoa que se constrói ao longo do tempo, à luz das dificuldades da vida, fazendo as escolhas que tem de fazer para seguir em frente, mesmo durante as crises mais duras.

Crise, aliás, se não me falham os poucos conhecimentos etimológicos que eu nunca tive, tem origem na palavra grega para oportunidade. Parece bobajada de auto-ajuda, mas atravessar as portas que você pode abrir, ainda que a fórceps, em tempos de crise tende a render frutos: assim que passa o turbilhão de problemas e emoções à flor da pele, o tamanho dos dramas diminui aos seus olhos, enquanto crescem as suas perspectivas e a sua resiliência.

Há um outro caráter interessante sobre o processo de amadurecimento, ao menos na metade masculina da espécie humana, e que diz respeito aos referenciais externos: uma figura paterna, um ídolo, um livro, uma frase do Hornby que volta à memória, um amigo, um estranho, um arrazoado de Internet que mostra, na ponta do lápis, o quanto o tempo de vida que temos é escasso para dar conta dos nossos projetos, prazeres e para dividir com quem amamos, enfim, qualquer um ou algo que apareça com argumentos para colocar uma situação sobre um ângulo que você nunca explorou - porque provavelmente não sabia que ele estava lá - pode ter o mesmo efeito que você experimentaria na esteira de uma catástrofe pessoal. A partir do momento em que você enxerga a mensagem desse referencial, e se coloca nessa posição nova diante da vida, se dispõe a mudanças dramáticas de comportamento e se coloca nessa postura inflexível de quem vai chutar o balde. E é sempre bom chutar o balde.

Mas, no geral, as pessoas tendem mesmo a amadurecer na porrada, já que essa coisa do referencial externo depende de quanto você está disposto a ouvir outras pessoas, a abrir suas perspectivas. No meu caso, por exemplo, embora tenha colhido por aí a injusta fama de imaturo, as catarses foram todas na esteira de eventos decisivos nesse processo de construção da minha personalidade, todos relacionados com situações, e não referências: morte de meu pai muito cedo, desastre familiar e falhas e decepções amorosas e profissionais para as quais eu não estava preparado me fizeram muito melhor do que uma análise superficial tende a mostrar - tragédias e dores colossais não me abalam tanto: eu me compadeço do avião que cai com todo um time de futebol por pura negligência técnica, mas não posso dizer que fico de coração partido porque eu sei que perdas e mortes doem, e doem diferente para cada pessoa, para cada família e que, a seu tempo, todos teremos nossa vez com esse tipo de dor; uns antes, outros depois. O grande mal da morte é que ela é banal e não há espetáculo que mude essa realidade para quem a viu tão cedo e de jeitos tão marcantes, como foi o meu caso. Aprendi também a não esperar muito do amor e a desconfiar de quaisquer sentimentos que me fizessem enxergar o mundo cor-de-rosa - não porque os sentimentos sejam ruins em si, mas porque a realidade das coisas é sempre em tons de cinza - e ainda tenho comigo essa lição de forma eminentemente positiva.

Mas, atualmente, estou num curso novo desse processo de engrandecimento, ainda bem que ninguém precisou morrer para isso, que veio de uma mistura de porrada e referenciais, tudo num sincronismo bastante interessante e que me recoloca num caminho que eu havia deixado de trilhar já há alguns anos: o da busca.

Recentemente, por exemplo, experimentei inclusive o processo inverso ao das tragédias: felicidade como combustível para essa eterna construção do homem do amanhã. Ao me permitir amar, no ano passado, mudei algumas coisas e abandonei uma porção de lastro no processo (heranças malditas e não tão risonhas dos amores de antanho), tornando-me algo muito próximo daquilo que eu quero e preciso ser no momento: um tipo de trebuchet de razão, um aríete de decisão, uma alabarda de força e coragem, porque a vida está por aí esperando que nós a encaremos a 100%, e esperar não é saber. Nem sonhar: por anos, achei que sonhos eram inocentes e inofensivos - e, em geral, eles são - mas essas quimeras, se não controladas no reino dos sonhos, permeiam a realidade e nos colocam numa posição catatônica diante dos desafios e da exigências da vida. Você para de se arriscar, se confunde com o que é honesto esperar da realidade e deixa de buscar seus verdadeiros objetivos. Sonhar é importante, mas, como tudo na vida, precisa ser feito com parcimônia. O ponto é saber separar as coisas, sonhos de metas, e correr atrás das últimas, sem deixar de ter as primeiras.

Outro elemento no processo que me traz essa nova forma de ver a vida, nessa vontade de vencer, é um referencial externo: um aprofundado artigo de Internet mostra que o tempo de vida que temos restando é exíguo, que temos que aproveitar tudo ao máximo das nossas possibilidades. Especialmente a companhia de quem amamos e os prazeres que nos deixam felizes. Não há tempo a se perder. Essa soma de clareza proporcionada por aceitar meus sentimentos, de se permitir à felicidade, de buscar ajuda para me compreender pela ação de uma psicóloga, de me encontrar com a conta fria e indiscutível da escassez do tempo que me sobra e às injustiças gerais do fim de um relacionamento são as molas que me empurraram para esse novo estado de consciência, essa perspectiva sobre quem eu sou, sobre o que eu quero e o que eu preciso fazer.

Os prognósticos são bons, a continuar galgando os degraus dessa curva ascendente iniciada por, quem diria, o poder transformador do amor que, agora eu sei, é um tremendo agente galvanizador de mudança para o bem. O ano de 2017, o primeiro do resto da minha vida, me parece, ainda promete bastante. Descobri, um pouco surpreso, que há uma grande paz de espírito a ser encontrada no reexame das suas prioridades, na definição de metas (lição esmagadora desse jovem ano para parar de sonhar e passar a planejar) e na busca por objetivos maiores e realmente dignificantes são a minha inusitada promessa não de ano novo, mas de vida nova. Todos objetivos que enfoquem o que realmente é importante porque não há mais tempo a se perder. Cansei de reclamar, cansei de esperar, cansei de não fazer nada e dizer que nada dá certo. É o fim do derrotismo.

As mudanças são até palpáveis. Auto-estima também entra na conta porque me sinto bem comigo, tenho feito de 50 a 60 quilômetros de caminhada por semana, perdido peso, me exercitado. Eu, basicamente, me sinto o polímata que sempre esperei que seria, quando tinha lá meus 17 anos, e começavam a esbranquiçar os cabelos que nunca antes tinha pintado.

Depois de muitos anos, eu posso dizer que tenho um plano. Tenho ideias, saídas, soluções e estou inclusive preparado para as contingências da vida porque o que o homem põe, o elusivo altíssimo dispõe, a dar-se fé nos antigos ditados. Mudança de área profissional em curso, viagens, trilhas, novos rumos, cidade nova para morar, tudo são infinitas possibilidades, acenando com perspectivas do futuro que me acostumei a esperar sentado nos últimos anos. Foda-se a espera, porque agora eu vou atrás das coisas, das metas, dos objetivos, não dos sonhos.

Amadurece-se em algumas semanas, só por que é ano novo? Não. É um processo de transformação, de conquista, de afirmação, e eu venho subindo esse escada há alguns meses. O que pode acontecer, se você se der conta das coisas que está encarando, das transformações que está alimentando, é essa sensação gostosa de poder, de capacidade de orientar o próprio rumo e de acelerar um processo de crescimento que só tende a potencializar essas coisas boas na vida. Sempre subestimei a capacidade de uma mudança de ano - evento aleatório e sem sentido na grande escala das coisas cósmicas - em propiciar a mudança e abrir portas para o novo e hoje me sinto feliz em reconhecer que estava enganado. Proposições de ano novo nunca me pareceram tão atingíveis e certeiras.

Revigorado, estou decidido a fazer e não mais esperar. Como dizia a canção, "eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e não posso ficar aí parado".

domingo, 9 de abril de 2017

Saindo da forja

Eu vivi sob a ilusão de que, um belo dia, tendo conhecido a pessoa certa, tudo mais se encaixaria. O amor que você sentisse, e aquele que viesse em retorno, bastaria para que você se entendesse com essa pessoa e para que os dois construíssem o futuro que desejassem ter um com o outro. Aquela velha máxima de que basta amor para que tudo funcione e caminhe me parecia tão real como a paixão enlouquecedora do primeiro amor, aquele que, quando se desmancha pelo motivo que for, faz com que você descubra a relatividade de outra ideia universal nessa coisa do romance e da vida a dois, a de que tudo é eterno só porque você acha que tem que ser. Assim como essa primeira experiência de paixão e amor morreu de morte morrida, a impressão de que amor é tudo que precisa, enfim, não está mais entre nós. Amar é trabalho duro, mas trabalho duro que recompensa e trabalho duro no melhor sentido de trabalho: aquele que engrandece.

"I started out in search of ordinary things..."

Seria muito melhor se todos nós aprendêssemos essas coisas de formas menos dramáticas, com menos ruptura. Mas, talvez, aí as lições fossem menos duradouras e impactantes porque é na forja que se endurecem os metais, ou, nesse caso, a espinha, de sorte que, na próxima tentativa e fracasso, você verga, mas não quebra.

Eu descobri que amor, em si, não resolve nada. Que um relacionamento sadio é uma construção, exige, sim, trabalho. Mas, que se você gosta mesmo da outra pessoa, a coisa deixa de ser trabalho no sentido cansativo e vazio do termo porque se você não encontra prazer na incumbência de conhecer melhor aquela criatura, em passar tempo com ela, em conversar com ela sobre segredos, sobre o que ela fez quando tinha, sei lá, 14 anos, sobre o que ela fez hoje e ontem, enfim, desvendar a fundo seus medos, histórias, traumas, verdades e mentiras, tudo não para destruir a privacidade e o mistério, mas para se tornar íntimo, análogo, um ente desse todo que você escolhe para a sua vida, então há algo tremendamente errado. Eu sempre tive essa vontade, sim, mas nunca encontrei os meios, a abertura, o caminho para explicar que, olha só, você aí, eu preciso te entender melhor, e que você me entenda mesmo, eu preciso conversar com você sem receios, eu preciso da sua intimidade e eu quero você na minha. Que, enfim, eu quero conversar contigo, te desvendar, você deixa? Simples, não? Nunca foi porque, nesse mundo de comunicação à velocidade da luz de forma praticamente gratuita, de tantas e tantas formas de se dizer algo a alguém, o maior problema de comunicação, esse ainda insolúvel, é o de perto, é aquele com os olhos nos olhos.


A esperança é que, no futuro, seja tudo mais fácil porque eu irei às últimas consequências para que essas coisas não mais me estraguem meus amores. De alguma forma boba, eu acreditei que amor em si é a base que permite que essas coisas ocorram de forma natural, num tipo de piloto automático que não existe para nenhuma relação humana; nada é por acaso e nada se mantem aceso e saudável sem esforço, sem entrega, sem essa ciência da importância de se fazer acessível, especialmente nos momentos iniciais de qualquer romance.

"I started telling the story without knowing the end..."

Não que tenha sido sempre tudo culpa minha: todo esse exercício só é bem-sucedido quando é recíproco e, muitas vezes, não é. Precisa de uma entrega quase cega, uma reciprocidade sem filtros, uma generosidade absoluta e uma dedicação definitiva nesse adorável mistério que é aquela pessoa incrível, cheia de qualidade e defeitos, que é quem amamos e, assim como muitos têm dificuldade para perceber essa importância toda no diálogo e na intimidade, outros tantos simplesmente não valorizam essas ideias e não as reconhecem como fundamentais.

Eu aprendi, como sempre da pior maneira (mas que bom que tenha sido assim, porque aí a lição não é esquecida) que o relacionamento estável, duradouro e sem prazo de validade que a maioria de nós almejamos depende, universalmente, de um processo muito transparente e sério de comunicação, de sinergia, de entrega, de batalha diária pela sinceridade e pela intimidade. Que amor sozinho não dá voz ao que você sente, deseja, precisa, quer, não quer, ao que te diminui e engrandece na presença dessa pessoa que, também, está sempre confrontada por esses mesmos lapsos, e outros tantos vácuos, falhas e omissões – especialmente se ela estiver iludida sobre a realidade das coisas e, como você, despreparada para esse tremendo desafio de criar as bases para uma vida inteira com outra pessoa dessa forma meio infantil de querer o amor eterno sem abrir o bico.

Aí, recentemente, acabei descobrindo um filme independente adorável, exclusivo do Netflix, que dá voz a essas percepções. “Blue Jay”, que é o nome do média-metragem (ainda se usa média-metragem?), foi-me revelado porque, ao saber da morte por câncer de Robert Fisher, vocalista e líder do coletivo-banda Willard Grant Conspiracy, fui levado a uma viagem nostálgica pelo cancioneiro de WGC, que, por sua vez, me levou a desencavar “Jim Cain”, canção de Bill Callahan e que encerra “Blue Jay”.

O filme, um singelo e agridoce tratado sobre os descaminhos das pessoas que se amam e se desencontram, passa essa e muitas lições, dos problemas esmagadores da comunicação. Cada caso é um caso, mas me espanta perceber que nos meus, em todos esses voos de galinha que foram meus relacionamentos, os problemas de diálogo, de ambas as partes têm todas as facetas que você quiser encaixar: timidez, receios bobos, fraquezas, inconstâncias, falta de intimidade, meu egoísmo, insegurança, falsidade, manipulação, hipocrisia, falta de amor, racionalizações de quem não sente, rigorosamente, nada por você e por aí vai.


"With the death of the shadow came a lightness of verse..."

Não que isso queira dizer que todas as minhas experiências afetivas teriam se beneficiado unilateralmente de maior entrega e abertura, de diálogo, de mais intimidade. Algumas, simplesmente, não eram mesmo para ser. E, sinceramente, acho que nenhuma delas se sentiria empolgada em embarcar nessa jornada de conhecimento, de intimidade, comigo. Ou, talvez, elas só precisassem dessa diretiva, dessa postura da minha parte para encarar um desafio que talvez desejassem.

Não foi “Blue Jay” que me fez observar esses problemas e eu gostaria, mesmo, de poder dizer que, se tivesse visto “Blue Jay” há um ano, teria corrigido o rumo em muita coisa. Mas, eu não iria: é no calor dissoluto do crisol que você sublima essas descobertas, não vendo filmes, por bonitos que sejam, sobre as coisas que você ignora a respeito de você mesmo. É preciso um nível de sintonia e sincronismo com relação ao cinismo dos amores morridos para ver o filme e dele tirar alguma conclusão capaz de fazer você reavaliar e mudar a sua vida, o que não era o caso há um ano. Entretanto, como toda e qualquer manifestação artística de qualidade, "Blue Jay" é dessas que resumem todas essas impressões, essas sensações e valores de forma a tocar o coração e te motivarem a escrever sobre elas na vaga esperança de que, ao cristalizar em texto essas descobertas, que elas fiquem ainda mais incutidas na alma e que, quem sabe, alguém que leia sem querer isso aqui aprenda uma coisa ou outra para evitar acidentes de percurso - afinal, meu objetivo de vida é espalhar o amor pelo mundo.


"But the darkest of nights, in truth, still dazzles..."

O que eu posso dizer, e aí de coração leve e aberto, é que, agora, eu sei, eu sei. Jazem impressas no coração todas essas impressões sobre o valor da comunicação e o conhecimento íntimo de quais são as suas bases e a vontade, sincera e bastante ciente, de que, se tudo que você precisa para ser feliz é o amor, tudo o que você mais precisa para que ele floresça e viceje ao longo da vida são o diálogo, a curiosidade em relação a quem você gosta e a posição firme e sincera de quem se entrega à intimidade, à abertura, às conversas, a esse delicioso exercício de convidar alguém a te desvendar sem filtros e à tarefa de, judiciosamente, construir uma vida com a colaboração indissolúvel de outra pessoa e que tudo isso dá um trabalho dos diabos - no bom sentido.


sexta-feira, 7 de abril de 2017

Pensamento positivo

Eu sempre desdenhei da ideia de pensamento positivo porque estava em descompasso com a verdade das coisas e de percepção embotada por uma doença. Mas hoje sei valorizar essa capacidade, a capacidade de olhar o lado bom das coisas e de encarar as dificuldades e durezas da vida de uma forma sadia: não é abstrair-se de senti-las pelo que elas são, mas de escolher a forma pela qual você vai permitir que elas impactem no seu dia. E eu aprendi a usar essa coisa de pensar positivo para não deixar que nada me desvie do que eu quero, do que estou fazendo, do que eu sei e preciso.

É um ensinamento bem zen, um dos poucos que absorvi, porque eu não tenho mais idade para ser hippie, quando me interessei por um outro recurso das filosofias orientais. Ao lado da meditação, esse talento de contar até 10, usar empatia e deixar que tudo exploda à sua volta é incrível.

O que eu ainda não aceito muito bem ou, na verdade, desconfio, é da ideia de pensar que tudo tem que dar certo porque sim. O mundo é cruel, a vida é dura, a existência é algo assustadoramente injusto e não há razão nenhuma para otimismo: as guerras continuam, o planeta se degrada, as pessoas se odeiam, crianças morrem de fome, há doenças incuráveis destruindo a vida de tantos e tantos, o poder e o dinheiro não apenas corrompem, como seguem aqueles preceitos físicos das coisas que se aglutinam sobre a água em pequenas porções, inacessíveis a todos. E no fim de tudo, os seus dramas pessoais se acumulam e fazem as grandes mazelas da humanidade parecerem minúsculas em comparação: é conta para pagar, o futuro para resolver e as incógnitas impressas no sangue tépido do coração que ama e pulsa em compasso de espera, sem o sincronismo daquela doce verdade científica da pulsação de dois amantes que entra em harmonia. Não há como escapar da dureza de todas essas coisas e apenas olhar para elas com olhos inocentes e umedecidos esperando que elas darão certo por algum fatalismo reverso é infantilidade.

Mas cada uma das mazelas que se abatem sobre você podem, e devem, ser absorvidas e encaradas de forma positiva no sentido de que é a maneira pela qual você escolhe encará-las que vai lhe dar os melhores subsídios para superar os problemas. Eu tenho escolhido paz e aceitação e qualquer outra resposta que me permita ter equilíbrio diante de humilhação, indiferença, agravos, obtusidade e o que mais aparecer por aí. Eu mato de peito, respiro, sorrio, e de coração leve, resolvo o que eu faço em seguida. Eu tenho me sentido mais leve, mais em paz por conta dessa nova forma de lidar com o mundo. Eu nunca fui assim. Nunca.

O pensamento positivo em relação ao futuro é enganoso e pode levar a amargas decepções. Mas pensar positivo sobre o que te atinge, seja isso algo originário de pessoas, de coisas, do banco, do trabalho, dos colegas, da família, enfim, ajuda, muito, a evitar cair em depressão, a policiar pensamentos negativos, a tristeza que pode aproveitar qualquer brecha para te puxar para aquele niilismo destrutivo e imbecil. E é incrível como uma mente sã, disposta a se libertar, dá esse chão firme para que você se sinta em paz, resiliente e num equilíbrio em que tudo começa a se encaixar: meditação, o cuidado com a forma pela qual você reage, a capacidade de entender como sua mente funciona, os pensamentos ruins esperando na esquina, tudo, fica mais na mão, mais fácil de entender, de seguir. Aí, até as músicas que falam de redenção e vitória dominam a playlist e o videogame, essa deliciosa válvula de escape dos problemas da vida, fica ali, empoeirando, enquanto você faz seus planos, resolve problemas e gasta tempo aprendendo a programar em C# por um curso à distância da Microsoft: algo para que você jamais pensou ter a menor disciplina.

O ano de 2017 está longe da metade. Mas eu já fiz muito por ele, aprendi, parei, reexaminei, busquei ajuda e me proibi de antigos vícios.

sexta-feira, 31 de março de 2017

Eterno estudante da vida

Coisas que fogem dos padrões ou, vá lá, dos preconceitos com que eu meço o meu mundo me incomodam e me desviam as ideias (o que, claro, é uma definição válida de preconceito, porque se não incomodasse, não seria preconceito).

Ponto, abre parêntesis; eu tenho preconceitos, mas como diria o Louis CK, único comediante em pé que vale a pena, são leves e, a essa altura da vida, é bem provável que eu não mude mais, fecha parêntesis.

Enfim, quando eu me confronto com algo que rompe meus padrões, eu fico fora de prumo porque, cartesiano, não posso explicar valores incongruentes retornando um absoluto, como por exemplo anos de um desempenho horrível em matemática, mesmo achando a ciência e as razões dos números algo fascinante, e, hoje, nadando de braçada, colecionando notas altas e sendo inclusive convidado a oferecer ajuda aos colegas em maiores dificuldades. E há outros casos dessas incongruências ocupando o meu juízo atualmente, eu sou cheio de pensar o mundo. Mas, retornando da digressão, o que explica o sucesso, anos e anos afastado das contas?

Nesse exercício de tentar explicar tudo, venho buscando as razões últimas de cada uma das coisas presentes na minha vida. Para explicar o recém (re)descoberto talento para a matemática e o raciocínio lógico, tenho encontrado respostas: o professor, matemático e phD na área, é excelente porque alia um conhecimento absurdo da matemática com satisfação por dar aula e didática, três grandes qualidades que nem sempre habitam o mesmo professor, em especial os universitários, normalmente de mal com a vida por terem sido expelidos de um mercado de trabalho exíguo e cruel.

Outra explicação igualmente válida é que a matemática que se ensina para aprender engenharia de software está longe das assombrosas dificuldades do cálculo diferencial e integral, esse sim um colosso matemático capaz de fazer empalidecer os melhores alunos do ensino médio quando, de cabeça raspada, aparecem nos primeiros anos dos cursos de engenharia clássica. A Álgebra de Boole, embora rivalize em abstração com o cálculo hardcore de Leibniz e Newton, não goza do mesmo nível de dificuldade. Em geral, dá para dizer que com um bom conhecimento de fundamentos de matemática e um pouquinho de raciocínio, qualquer um aprende esse conteúdo com alguma facilidade.

O engraçado nessas explicações é a minha resistência em dar o mérito a... mim mesmo. Fácil ou difícil, com bom professor ou não, sou eu quem aprende bem, que tem estudado, que vem sentindo alegria com as descobertas. Um dos exercícios de construção de auto-estima e confiança que desenvolvi, com o auxílio de uma querida psicóloga, tem muito a ver com essa quebra de resistência e se dar ao direito do auto-elogio, ainda que em foro íntimo, ou nas páginas de um blogue que ninguém vai ler mais. Porque parece que é mais fácil eu justificar que o professor é brilhante, ainda que isso não seja verdade para outros colegas, e que o conteúdo é fácil, ainda que não seja também para boa parte da minha turma. Tudo vale nesse esforço doente de se puxar para baixo, até mesmo abstrair que, de 30 alunos, uns 20 tiram notas baixíssimas e que muitos deles não conseguem entender rigorosamente nada do que o matemático fala naquela sala de aula.

Eu lembro de um tempo em que essa propensão a se reconhecer como bom em alguma coisa não era nada difícil. Eu sabia onde estavam as minhas qualidades e não tinha problema em reconhecê-las e, verdade seja dita, até de expô-las às outras pessoas. Parei com isso porque fui chamado de arrogante. E acabei, como muita coisa na vida, exagerando a mão e perdendo contato com essa forma de perceber conquistas e vitórias: sim, o mundo externo é parte decisiva de tudo, tudo pode ser relativizado à luz das circunstâncias, mas não há mal algum em ver que você, sim, você mesmo, é agente decisivo das suas vitórias. Então comemore esse 10 em matemática, cara. Porque, tirando o vestibular para engenharia (eu gabaritei a prova de matemática) quando eu ainda era virgem, é o primeiro da minha vida na disciplina.

Então aceitamos que eu, além do bom professor e da relativa leveza do conteúdo, sou responsável pelo meu sucesso na disciplina. Mas, o que explica essa minha capacidade?

Uma porção de coisas. Eu abracei o meu ingresso nesse curso porque estou convicto de que meu futuro profissional e material reside nessa área. Além disso, aprovado no processo seletivo com nota excelente, sem ter estudado nada, me senti vitorioso e realizado num momento delicado da vida, de incertezas. Decidi fazer dessa faculdade o primeiro passo para a construção, dedicada, apaixonada, séria e consciente, da vida que eu quero dar, da vida que eu quero ter.

E essa forma de ver as coisas ajuda a explicar porque, antes de me apavorar com os prognósticos de um curso de exatas, eu resolvi receber todas as novidades de coração aberto: nada me espanta, tudo me deixa curioso e a afinidade natural com o assunto acaba me instigando. Por isso que antes de me preocupar por ter tido alguma dificuldade em entender Diagramas de Venn, eu respiro fundo, estudo, analiso exercícios e dou uma pesquisada e aplico o mesmo comportamento para outras disciplinas. Aí, as notas são boas em tudo, não apenas em matemática. Eu refaço exercícios e estudo por conta, até expandindo o conteúdo que integra a ementa da disciplina, e faço cada uma dessas coisas com interesse absolutamente natural, com curiosidade, com vontade: antes de ser um encargo, uma tarefa, é uma coisa que eu tenho vontade de fazer. Nada me cansa, nada me parece pesar na rotina, como se fossem obrigações, é tudo leve, natural e até divertido.

E eu vejo isso como uma manifestação de maturidade. Toda essa capacidade e interesse por aprender eu sempre tive, mas raramente tirei proveito deles na minha vida acadêmica, ou de estudante. Antes, além de grandes doses de preguiça, me parecia, a perspectiva de precisar estudar para aprender atestava um tipo de fraqueza, de incapacidade da minha parte de aprender em sala de aula. Se eu precisasse estudar, então, estava sendo fraco e ineficiente, logo eu, acostumado a fazer tudo relacionado com estudo sem o menor esforço e dedicação: me bastava ouvir o que o professor falava em sala de aula para ir razoavelmente bem nas provas. Agora, eu enxergo que há prazer em aprender, em aperfeiçoar, em ser bom nas coisas, em melhorar. Que estudar não é feio, não faz de você um chato, que há prazer nesse exercício.

São lições que eu quero levar para toda as faces da minha vida. De agora em diante, o verso "ainda sou estudante da vida que eu quero dar" fará, sempre, um sentido todo novo na minha existência.

domingo, 12 de março de 2017

Os Beatles tinham razão

Existe um estudo, que está sendo conduzido por quase oitenta anos, com jovens das áreas de Harvard e Boston que, bem, hoje nem são mais tão jovens assim. A ideia da pesquisa é traçar definições do que é felicidade, determinar quais são os ingredientes decisivos para que qualquer um, independente de origens, defeitos, qualidades e aptidões, alcance uma vida plena, que ao fim das contas, sem cinismo algum, o próprio sujeito, ou um observador externo, possa dizer que foi, sim, uma vida feliz. Com um objetivo tão elusivo e um escopo tão abrangente, não por acaso, a pesquisa vem sendo conhecida como o "The Grant Study", ou "O Grande Estudo", em tradução libérrima, feita em inglês de anedota.

Geroge Vaillant comandou esse trabalho por mais de três décadas, de 1972 a 2004, e está em posição privilegiada para dizer o que esse colossal esforço de pesquisa tem a dizer sobre o que é e como se alcançar a felicidade. Segundo Vaillant, a conclusão que ele tira do seu envolvimento com o estudo nesses mais de 30 anos pode ser resumida em cinco palavras: "Hapiness is love. Full stop", ou "Felicidade é amor. Ponto final", ainda em inglês de anedota. Há também outra declaração, menos festejada de Vaillant, que diz: "Hapiness is only the cart. Love is the horse", ou "Felicidade é apenas a carruagem. Amor é o cavalo". No resumo, você não vai a lugar nenhum sem amor, seu idiota.

Isso tudo não apenas redime os Beatles, que tinham razão o tempo todo, como valida uma impressão antiga: se tivessem vindo perguntar para este que vos escreve, os pesquisadores poderiam ter poupado algumas décadas de trabalho, porque eu já sabia, eu sempre soube, que no fundo, o que importa mesmo na vida é o amor: não é o dinheiro, o emprego, o futuro, a cor das coisas, a falta de cor das coisas, o destino, os desencontros, as decepções, os remorsos, as alegrias, o tempo, os sonhos, os projetos, as ambições, as desistências, as coisas boas e ruins, nada disso é, tudo isso apenas está, é transitório e passageiro, a única coisa certa, a única coisa que fica, a única verdade, o fluído que circula em meio a todas essas coisas boas e ruins da vida é o amor, porque ele trás o que é bom e cura o que é ruim.

O amor é importante, porra.

Mangas, cachorros e lições

Numa das minhas andanças recentes, cortei um pedaço de mata porque o dia já ia avançado e eu precisava de civilização, de café e, mais importante de tudo, de uma estrada, porque a bateria do celular ia se acabar e eu, explorador de apartamento, não tinha bússola e dependia do GPS para não errar o rumo e acabar andando muito mais que o necessário. Esmagava a relva, essa coisa indizível que são anos e anos de folhas em decomposição, resto de vida, troncos de árvore que se esfacelam ao toque da mão, matéria, lama, terra, pedra, sedimentos, ninhos, cascas, o testemunho indisputável da segunda lei da termodinâmica, aquela da entropia, que explica porque crescemos, porque morremos, porque nada volta a ser como era, porque, dando tempo necessário, tudo mais se confunde num emaranhado de coisas desfeitas, de mistura, de energia transformada, de matéria decrépita, de fracassos e vitórias, porque a ciência da física também sabe ser poética, é tudo uma questão de saber como lê-la. E seguia, inabalável e inexorável, como um transatlântico sem freio, sem controle, indo de encontro ao cais, que todo cais é uma saudade de pedra, arrebentar-se na amurada, subir a terra, trilhar no meio de todos esses sedimentos o meu caminho, com essa quilha de aço, que é firme, que é sobre o que se lança e se constrói todo navio que, altaneiro e ambicioso como eu, tenciona, um dia, singrar as águas desse e de todos os outros oceanos, que são muitos, que são grandes, que nos levam, há vezes em que nos trazem, que nos buscam. E que, não cuidando, nos afogam. Como votava a todos os diabos a perspectiva de precisar tentar, eu disse tentar, me orientar com ajuda da posição do sol e outras aleatoriedades cósmicas, porque se navio sou, sou de eras mais recentes, todo dependente da cobertura dos insuspeitos satélites, esses que lá dos céus, enfim, nos dizem de onde viemos, para onde vamos e quando por lá chegaremos, está visto aí que o elusivo deus existia, era tudo uma questão de, de fato, inventá-lo e de enfim manda-lo à órbita, porque não há espaço na superfície desse mundo para mais um deus, tanto mais um que seja de verdade. No meio dessas e de outras considerações, estava claro que era preciso estabelecer alguma forma de contato com outras pessoas, e quem sabe, eu disse quem sabe, garantir uma xícara de café. Não que a situação fosse assim tão desesperada, o interior do Paraná é densamente povoado, não estou no Saara, que se estivesse, a verdade é que o café tenderia a ser desse tipo árabe, que afiançam os entendidos, é mais saboroso. Mas no Saara é difícil dar com os beduínos e deles arrancar algum café, então nos contentemos com o café inferior, mas mais certeiro, que se encontra nas casas do Paraná. Acima de tudo, mais do que a necessidade de rumo e de café, aborrecia-me a ideia de ter de acampar naquele dia, cansado e despojado que ia dos instrumentos e acepipes necessários, e, pior de tudo, sem café, com o cantil seco de água como, aliás, também ia a garganta. Decidido, portanto, mudei o rumo e fui em direção a uma clareira que tinha avistado uma hora antes, que lá do cume me parecia tão perdida no meio da mata e que, como se verá adiante, julguei corretamente como local de algum traço civilizatório que persiste em meio às bracatingas e araucárias.

Fui parar num campo, que fazia parte de uma pequena propriedade que, depois fiquei sabendo, fora um dia uma fazenda enorme, dissolvida ao longo das décadas e das gerações. À distância, ficava uma casinha que me parecia tão familiar e que já vira dias melhores, familiar pelo estilo da construção, não que tenha eu por ela passado antes, mas é o caso de ver algo que já vimos antes, é bater os olhos sobre curvas, paisagens, sobre estradas e monumentos, aquela sensação de que quem já viu uma coisa, já viu todas, porque não há muita margem de manobra pela qual a capacidade humana de edificar possa surpreender, as casas variam em tamanho, idade, acabamento e cores, mas no geral, são feitas das mesmas coisas que sempre foram feitas, têm as mesmas janelas, as portas, os vidros, os móveis e as pessoas, justiça seja feita, também não variam tanto assim. Uma casa, por exótica que seja, é análoga direta à sua próxima e é por isso que faz sentido chamar a ambas de casas, porque se fossem extremamente diferentes entre si, teríamos de encontrar outros nomes para dar conta de todas. A casinha em questão não fazia jus ao diminutivo, porque o ângulo pelo qual a desvendei pela mata a desfavorecia, fazia parecer menor, porque me mostrava apelas a perna menor do “L” que a sua forma tomaria, se vista do céu pelas divindades que operam os GPSs. Pela localização em terra rica de colonos poloneses e ucranianos, pelos traços ornamentais recorrentes dos trabalhos em madeira de procedência das escolas estéticas dessas duas pátrias eslavas, já calculava que o sangue que moldara aquela morada tinha muito em comum comigo, com o que pulsa, quente e vivo, pelas minhas e veias, com o que besunta as minhas engrenagens, empurra a massa violenta das minhas vontades, esse que me inspira. A casa já vira momentos mais gloriosos, o descuido e os anos de vida se denunciavam com facilidade no desgaste amargo da precariedade das coisas submetidas à marcha irredutível e obcecada do tempo, tudo isso se fazia cada vez mais evidente pelo recibo dessas coisas impresso na madeira, que eu divisava com cada vez maior riqueza de detalhes conforme avançava a marcha. Os detalhes, as feridas, as cicatrizes, os talhos e rachaduras, casca morrida da vida passada dessa casa dá o que pensar e me permite arriscar dizer que está em pé há mais de 80 anos, vê-se claramente nos adereços à borda das calhas o corte eslavo nos lambrequins, que também não proíbem a morada de ter sido erguida por italianos, povo que também deu esse tipo de acabamento às suas moradas brasileiras, mas rareiam as colônias italianas por esses lados e o coração, esse meu coração de sístoles e diástoles contatas à cavalos-vapor, que empurra o óleo vermelho viscoso da minha vontade, que enxerga tudo a seu jeito, já decidiu que a casa é eslava, que é ucraniana, gosta de pirogue, de charuto e que lembra com carinho de quando, em meio às suas paredes, falavam ucraniano, quando alguém ali lia o jornal da colônia, todo escrito no alfabeto cirílico, aquele normalmente associado aos russos, mas também usado por outras nacionalidades eslavas, e que tem por curiosidade maior o fato de ter 33 letras. Aos disparates do coração, vem em socorro a mente, que chama a atenção para a armação das janelas, que é decididamente antiga, mas nada ali garante a origem da morada, a pintura lascada deixa enxergar outras cores, outras épocas, o encardido de onde a madeira era branca, nas janelas e molduras das portas, denuncia o pouco cuidado com que a casinha, decididamente de sangue e motivos eslavos que cantam mais fundo nesse meu coração que comunga do sangue desses ortodoxos em favor das cantigas italianas, vem recebendo pela melhor parte da sua vida.

Mas não fora para julgar a qualidade da morada, tampouco o desvelo dos seus moradores, que me dirigia à porta francamente aberta naquele fim de tarde. Havia fumaça na chaminé, com certeza um fogão à lenha reina soberano na cozinha, deixando água e bule aquecidos para o café da tarde. Eu já projetava que me ofereceriam um café porque estava morrendo de vontade de um e, de fato, bastou que escalasse os dois degraus de cimento que endereçam o visitante à soleira da porta dos fundos, que escancarada leva à cozinha, dissesse o gentil e solene “ô de casa”, que herdei das vezes em que fazia passeios semelhantes com meu pai e que ele sempre usava para abordar lares de pessoas simples e desconhecidas, para sentir o cheiro inconfundível do café fresco. O uso da frase, aliás dita e não respondida, a não ser pelos latidos e corrida preocupante de seu emissor ao meu encontro, carreira que me pôs em situação de alerta, se dilataram as pupilas e se inundou o coração de adrenalina, me vi ferozmente estático naquela soleira, enquanto a reminiscência de meu pai me trouxe imediatamente a recordação de outra caminhada, dessa vez não assolada por sede de café, mas por fome de proporções etíopes, adjetivo dito aqui sem a tenção de dizer que cheguei à beira de morrer de fome um dia, e que também não denuncia qualquer forma de desrespeito do autor para com as penúrias encaradas por esse, e tantos outros, povo africano, que fome é doída, e, embora me compadeça da miséria que suportam os etíopes, empresto de seu suplício apenas um adjetivo, não um juízo de valor. Na caminhada da fome de proporções bíblicas, que se é para ofender alguém, que seja o deus que se esqueceu de existir, abrindo espaço para as divindades satélite, caminhamos meu pai e eu aos estertores do que nós conhecíamos por fome, e que fomos nos contentar em comer uns pães duros, sobrados numa choupana, provavelmente esteio de pescadores sazonais à beira das lagoas que o Iguaçu que, nas estações favoráveis do ano, enche generoso para deleite da pesca preguiçosa, que junta peixes com as mãos nos acúmulos de água formado pelos transbordes do rio nessas épocas. Pães ressecados e seguramente insalubres que, no entanto, devoramos os dois com os narizes, a dentadas vigorosas que, imagino, dariam cabo de pedaços de madeira na falta daqueles pães velhos e petrificados, tamanha era a fome. Bons maus tempos que, me apercebo agora, estou reeditando solitariamente. O cão, que dá testemunho do velho dito de que, quem ladra, não morde, apenas se avizinhou, ressabiado e alerta, das minhas pernas, cheirou, mediu, calculou e se conformou com a minha invasão.

Na morada, me encontrei com Miguel e Rosa, casal que soma 45 anos de união e que nunca, em toda vida, encontrou razão para sair do município, algo que não chega a propriamente me surpreender. Talvez exceto pela saúde, porque é comum que a gente que vive isolada no interior recorra às cidades maiores para tratar-se, sobretudo na terceira idade, de sorte que me admira o casal não ter seguido a moda. Aposentados sob as bem folgadas leis que regem o negócio da aposentadoria rural, que no entanto não se verificam em forma proporcional no que tange à quantidade de dinheiro legada a quem assim se desobriga do trabalho remunerado, o casal vive do que planta, das galinhas que rareiam no galinheiro, de um ou outro porco comprado de vez em quando para engorda e abate, outra deliciosa referência que me lembra a minha avó, que falava ucraniano comigo, e que eu ia correndo visitar umas quatro vezes por dia, até que um dia ela teve um derrame, faleceu, e a infância nunca foi a mesma, porque a vó Ana era doce, a vó Ana era incrível, a vó Ana era uma força da natureza. A compra e abate dos porcos é uma oportunidade que ocorre normalmente atrelada a datas santas, quando convidam os filhos e netos todos para tomarem parte da festança. Do contrário, vão todos comungar das penitências e folgas nas deliciosas festas de igreja, que descontados os aborrecidos e inúteis ritos religiosos, todos dedicados ao elusivo altíssimo, que nunca, ao contrário dos santos dos GPS, disse uma palavra sobre para onde vou, são uma das grandes delícias ignoradas do interior paranaense.

Miguel quis saber quem eu era, o nome da minha família, o que fazia da vida e porque fora parar ali, parecia tão cansado, se tinha andado muito e, enfim, por que o tinha feito, sendo que a chave do carro, dependurada numa das alcinhas que suportam o sinto da bermuda, denunciavam que eu tinha meios de locomoção mais ágeis, confortáveis e menos cansativos que as minhas pernas para ir chegar até lá. Dei a todas as perguntas respostas sinceras e corretas, mas, em proteção a interesses meus, me vi forçado a omitir minhas razões para o passeio. Miguel não pareceu ter-se apercebido da estratégia e me deu a impressão de ser um daqueles sujeitos em quem se confia instintivamente e que simplesmente esperam o melhor dos outros, mesmo se eles forem estranhos, se dispuserem a andar quilômetros no meio do mato, mesmo que possuam automóveis a seus serviços.

O café não veio, mas eu não me importei, porque me engajei numa conversa interessante com o morador, de fácil conversa. De pele escurecida de sol, olhos castanhos, nenhum sinal de calvície e grande profusão de rugas, Miguel era magro e me explicava que trabalha bastante ainda, seja na propriedade, seja na de vizinhos e na de um dos filhos, que mora mais adiante, coisa de 12 quilômetros, seguindo a estradinha no sentido da serra, que ele garante, em tempo limpo, que não é o caso desse dia cinza, se avizinha vasta e calma, no horizonte, quase a abraçar a casa, porque os morros aqui fazem curvas. Falamos muito sobre a região, sobre os vizinhos, sobre as paisagens, os rios, cachoeiras e cavernas da área que, ainda bem, ninguém conhece. Miguel tentava torcer a conversa para o campo, as lavouras, a produtividade, as dificuldades, problemas de mão-de-obra, da vadiagem da juventude, que nas contas dele, não quer mais suar debaixo de sol e com enxada às mãos. Não pude, entretanto, amadurecer esses tópicos porque não conheço rigorosamente nada da vida do campo. Quando o assunto era as belezas da região, tive cuidado de não deixar transparecer meu entusiasmo porque minhas peregrinações por esses rincões têm como objetivo sondar a área, ensaio comprar uma propriedade por ali e gosto de conhecer tudo no entorno. Não quis que Miguel soubesse porque me preocupo que as minhas inclinações, sendo conhecidas pelos proprietários, acabarem influenciando os preços. De mais a mais, é inevitável, que nas minhas caminhadas acabe invadindo inadvertidamente uma porção de propriedades e não quero que circule por aí a informação de que um moço da cidade, que o cabelo não é mais grisalho, anda por aí.

A conversa ia tão boa e Miguel é um senhor de tão fácil diálogo que não dei por mim, e o tempo, esse que sempre passa por não saber fazer outra coisa, fez chegar a noite. A troca de horário, apenas há poucas horas, havia me pego desprevenido e, no meio do escuro, não poderia regressar ao mirante. Sem precisar dizer um ai, pedir nada e tocar no assunto, a dona Rosa me fez lembrar que há quartos de sobra na casa, que ao contrário do que o ângulo em que vira o casarão pela primeira vez quando da minha chegada, é grande e que todos os três quartos que, hoje, sobejam foram dos filhos do casal em algum momento. Ainda antes de Miguel e Rosa comprarem a área quando recém-casados, a casa já estava em pé porque fora morada de uma fazenda, antes bem maior, mas que foi sendo engolida pela necessidade de gerações e gerações de descendentes de seus fundadores em repartir heranças, apaziguar brigas de famílias e dar ao termo êxodo rural o sentido que tem.

Gastamos as poucas horas da noite em que o casal idoso se dispõe a ficar em pé conversando mais, dessa vez sobre o passado. Rosa, percebi cedo, não tinha muito assunto para dividir comigo, embora eu tenha lhe perguntado sobre a comida da janta, um caldo de mandioca realmente saboroso, ensejo de dividir seus truques de cozinha e de tempero que, aparentemente, lhe deram enorme prazer. Mais tarde, na sala de estar, repleta de imagens de santos, um pequeno armário à janela e uma mesinha em que repousa um televisor de 20 polegadas que deve contar seguramente mais de 25 anos, as conversas foram amainadas porque a rotina televisiva do casal estava em plena marcha: Silvio Santos, aquele Fantástico genérico da Record e as intermináveis novenas, rezas e similares da Rede Vida que o deus inexistente gosta de se fazer lembrado e, aparentemente, me castiga porque descobri da sua farsa, e atinei com seus verdadeiros adversários, os GPS, a divindade feminina, que ao meu ouvido, diz para onde devo ir, quanto tempo vou levar para chegar, como devo proceder para chegar ao meu destino da forma mais rápida. Ao sinal de que iam os meus anfitriões dormir, não eram ainda onze horas, pedi licença para me retirar, tomei um banho e fui descansar no quarto que me fora designado.

Dormi um pouco mal, não nego de forma alguma, eu tenho certa dificuldade em me acostumar com lugares estranhos para dormir e sofro miseravelmente para descansar no calor. E por ter dormido mal, acabei levantando cedo demais, não era 5h30 da manhã, quando abri a porta do quarto, depois de um bom tempo acordado olhando para o escuro, cheguei à sala coberta de imagens de santos. Deixei, aos pés de nossa senhora porque a jovem fé do GPS e do santo sacro satélite ainda é imberbe demais para recrutar suas santidades, cinquenta reais como forma minha de dizer que apreciara a gentileza da acolhida, da sopa à noite, da conversa, da singeleza e gentil hospitalidade de quem não espera o mal nas pessoas. Não escondo que ir embora assim é incompatível com a acolhida, mas confesso que, completamente desperto e sem sono, me entediava profundamente e me angustiava esperar o casal se levantar para poder ir embora. Em direção à porta, me dei conta de que teria de destrancá-la e que não poderia trancá-la novamente do lado de fora, o que me fez hesitar: o cão que vira ontem, embora animado a latir a plenos pulmões, e a correr ao meu encontro de forma agressiva, não me parecia guarda suficiente para guarnecer a segurança do casal, já que depois da desabalada carreira, chegou-se aos meus pés, e antes de rosnar e interrogar de forma agressiva minhas intenções, simplesmente abanou o rabo e me pareceu, como outros cães que conheci, me olhar como quem sugere para irmos brincar de eu atirar coisas para que ele fosse busca-las: o bicho era pacífico, curioso, brincalhão e cheio de energia e nada na sua expressão me impunha o respeito que se deve ter para com um guarda - mas, quem sou eu para julgar as disposições do bicho, que pode apenas ter se afeiçoado à minha pessoa, que talvez toda essa simpatia esconda um aspirante à lobo, sanguinário, violento e vingativo, sedento de sangue e de presas afiadas a ameaçar intrusos? Estou longe de ser especialista em cães, à verdade, na vida, conheci três, mas gosto de pensar que com esses me entendi, que uma delas até me chamava para ir latir no gradio de outra casa e de outra vida, ou ao menos era assim que eu lhe interpretava, porque ela vinha me buscar, ia até a beira da grade, latia, e em seguida, me olhava como quem convida - nunca tive a coragem, ou a atenção, de lhe fazer essa vontade. No fim desse raciocínio, estava eu em pé diante da porta que, percebi, não apenas estava destrancada, como entreaberta. Ou o povo da roça, de fato, madruga de verdade, ou o casal se esqueceu de fechá-la. A porta aberta me deu o ensejo de fuga porque poderia fechá-la e arquitetar um plano: antes de sair e trancar a porta, abriria uma janela porque não só flagrara a inexistência de deus, como provaria a ele que sou ainda melhor, que vou abrir uma porta e uma janela. De fora, com a porta trancada, poderia colocar a chave tranquilamente sobre um balcão que repousa perto da janela e abriga a imagem da santa, guardiã dos cinquenta reais. Com a chave devolvida, é possível fechar, do lado de fora, janela e venezianas.

Pelo sim, pelo não, o descuido ou vestígio de que a segunda-feira nasce mais cedo no interior, foi a porta aberta que acabou me encorajando a sair e dar continuidade à minha fuga vespertina. Na saída, o dia já fazia alguma luz, e eu podia enxergar a estradinha por onde cortaria caminho, porque para andar pelo mato teria que esperar mais uma hora, e aí o casal estaria de fato acordado, e eu não gosto de despedidas, e não queria vê-los constrangidos, recusando o dinheiro que sei que será bem gasto e que, presumo, faria falta. A estradinha era, então, o melhor rumo para tomar em direção ao mirante onde deixara o carro, estacionado protegido no abrigo amplo e generoso do posto de gasolina, que vinha se tornando esteio das minhas andanças. Rematado leitor de thrillers de espionagem, sabia muito bem que minha frequência na região acabaria levantando suspeitas e, sem recurso, precisei abrir o jogo com o dono do estabelecimento: sou da cidade, gosto de mato, lembro de visitar a região tantas e tantas vezes quando era criança, penso em comprar uma propriedade por esses lados, talvez em breve, e estou investigando o lugar para saber se vem a calhar que o faça, quem sabe o senhor não teria algum endereço para me recomendar? Não no momento? Mas não tem problema, peço-lhe que seja discreto, no entanto, não quero influenciar a cotação do alqueire. E fique descansado, que quando for fazer uso do posto para guardar o carro, terei sempre o cuidado de avisá-lo e, escusado dizê-lo, pagá-lo pelo incomodo. Como se vê, quando fico com preguiça de carregar mochila, barraca e outros apetrechos que tais pelas minhas andanças, as excursões ficam bem mais caras: há o custo que me imponho pelo abrigo e o da segurança do carro.

Mas antes de chegar ao posto, uns 10 quilômetros de caminhada me esperavam. E antes de todos eles, vinham todos os metros que me separavam da propriedade e da estradinha. Livre da soleira da porta, e fazendo força para erguer a porta que, oprimida pela construção em madeira que vai vergando e sofrendo a ação do próprio peso e arranha o assoalho num urro medonho toda vez que gira nos engonços, me assaltou a preocupação da fome no percurso. Tomava todas as precauções para não denunciar minha fuga quando me peguei sobressaltado: e o cachorro?

Iria dar escândalo? Rosnar, me atacar, morder minhas canelas? Me fazer correr?

Como que para responder ao meu susto, o bicho que, dizem, pode farejar o medo, se achegou perto e começou a me cheirar, curioso e entretido. Não latiu, não rosnou, não lambeu, apenas ficou ao meu lado, olhando instigado e interessado. Para selar a paz promissora dessa abordagem discreta, lhe acariciei a cabeça e senti o calor oleoso da sua pelagem cinzenta. Estávamos os dois em paz e nosso contrato selado: não vamos acordar ninguém, que ainda é cedo demais e hoje é segunda-feira. Deixemos que durmam aqueles dois.

O cachorro, que não tive oportunidade de conhecer por nome até o momento, foi me seguindo conforme eu caminhava. Não sei se seu interesse era me escoltar ou, talvez, certificar-se de que eu estava mesmo indo embora, que não provocaria nenhum dano na casa. No percurso pelo carreiro que levava à porteira, guarnecida de um mata-burro, engenho definitivamente brasileiro e que eu não via há mais de 20 anos, me deparei com uma frondosa e carregada mangueira.

Dez quilômetros de caminhada se avizinhavam e minha garrafinha de água ia cheia, mas teria fome, e munido de canivete, decidi-me a furtar uma manga, que Miguel e Rosa me perdoariam a folga, tanto mais porque 50 reais davam-me o direito de abusar assim da boa vontade dos meus anfitriões, que a árvore vai carregada dessas frutas, é impossível que os dois velhinhos tenham apetite para tanta manga, ainda que vivam de geleias, sucos e tortas feitas da fruta, vai sobrar muita manga a apodrecer no chão. E na hipótese improvável de que colham a fruta e façam dela comércio, e digo improvável porque aí dificilmente o incomodo de trepar na árvore nessa idade se justifica, é só uma mangueira, e uma só mangueira vai gerar faturamento baixo demais para pagar o esforço e o risco, que quedas na terceira idade abreviam a vida do acidentado; mas, em todo caso, admitindo que Miguel guarde agilidade e firmeza de sobra para escalar a árvore e capturar as frutas para vende-las, podemos ficar tranquilos, para isso me sobejam os cinquenta reais confiados à guarda sagrada da nossa senhora ainda há pouco, que pagam bem essa minha fome futura de manga e, de certa forma, espero, indenizam a falta de educação e a tamanha liberalidade com que me decidi ao crime de tirar proveito daquilo que não pedira a ninguém. No fundo, nós somos capazes de justificar e racionalizar tudo, até mesmo o furto de uma manga.

Encontrei uma taquara feita para apoiar o varal e, munido dela, comecei a escalar a árvore para buscar a manga que sorveria no percurso em direção ao posto de gasolina. No lusco-fusco da manhã que chega com preguiça, subir aquela árvore foi algo trabalhoso, tanto mais que precisava levar comigo a vara e encontrar onde apoia-la sempre que galgava outro galho, ia em busca de patamar mais elevado, tentando no escuro quase total criado pela cobertura de folhas e galhos, divisar onde estavam as melhores mangas. Aos pés da árvore, intrigado, meu companheiro canino se deitara e, de vez em quando, dirigia olhares interessados para onde eu estava.

Enquanto escalava o melhor que podia as nodosas e umedecidas galhadas da árvore, o dia foi se amanhecendo. Não percebi os humores da casa que ganhava vida, da fumaça que se animara em escapar novamente pela chaminé, nos ruídos da madeira que estala sob o peso da morada que desperta para mais um dia. Só me denunciara o avanço da manhã a descoberta de que meu cúmplice canino fora, a trote acelerado, abanar o rabo com sofreguidão à porta da cozinha da casa, porque ouvem todo um universo de sons, vozes e ânimos os cães, fora para a porta onde certamente se planta todos os dias para esperar o primeiro contato com o casal com que divide seus dias. Feijão, faltou dizer que era Feijão o nome do cachorro, que embora cinza na idade adulta, nascera preto e com uma massa de pelos brancos na barriga, igualzinho ao grão, ia bater ponto à porta toda manhã porque era nesse horário que ganhava o primeiro carinho e a primeira refeição. Miúdos de galinha e restos da ceia eram o seu desjejum e, de súbito, minhas aventuras sobre a árvore lhe desinteressavam olimpicamente. Aos cães, nada mais interessa que a comida.

Enfim, eu chegara a um galho torcido na horizontal, a meia altura da árvore, onde podia me sentar com segurança, enquanto manejava a vara feito lança para alcançar a manga perfeita que, agora, na luz do amanhecer, seria fácil de interrogar aos galhos da mangueira. Embora a risco de ser surpreendido pelo casal a qualquer instante, decidi arcar com a vergonha de ter de me explicar por ser fujão e ladrão de frutas, porque me desanimava ser flagrado em processo de descida da árvore, me acabrunhava ter de me explicar e ainda dizer que desistira. Se vou precisar pedir desculpas e sustentar o olhar decepcionado dessa boa gente, que ao menos seja com uma manga nas mãos, que de fracassos eu ando farto, então para salvar esse de um falhanço total e esmagador, é preciso ir encarar a vergonha munido da manga. Justificamos e racionalizamos tudo, até mesmo os agravos. Com afinco, afastei folhas, olhei em todas as direções, mexi com as frutas interessantes e fui elegendo, uma a uma as minhas opções. Um quarto de hora depois, com o meticuloso exame realizado, me vi descoberto por Miguel, que acordara e terminara seu café, e dando por minha falta, viera, na companhia de Feijão, descobrir o que eu estava fazendo.

Miguel desejou-me bom dia, e se ficou incomodado com a minha indelicada tentativa de fuga na madrugada, dela não fez menção. Também não pareceu aborrecido com a liberdade que eu assumira de ir saquear sua mangueira e, com legítimo tom de curiosidade e surpresa na voz, veio, enfim, a questionar enquanto eu me contorcia e me desdobrava para me manter em pé, firme, e com força e mira suficientes para endereçar a ponta da vara onde queria, tudo parecia mais fácil antes de subir na árvore, agora me parecia que estava a um escorregão da queda, com risco potencializado por essa lança, que teria facilidade em me atravessar o abdômen, que forma estúpida de morrer, longe de tudo e de todos, roubando manga, aos 32 anos de idade: “mas o que o moço está fazendo aí em cima, a perigo de cair no chão, de se escorregar enquanto se equilibra e segura essa vara?” Expliquei que tinha me preparado para ir embora, mas que vi tantas mangas na árvore que decidira tomar uma para a caminhada.

- Sim, isso eu entendi, mas por quê?

- Para o caso de ter fome e são tantas, e tão maduras, na árvore.

- Mas... moço, elas caem sozinhas.

Ao chão, bastava olhar para o outro lado, o rosa das frutas ao pé das raízes da mangueira pontilhava as nesgas de grama e a terra.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Rádio: Jimmy Cliff - I can see clearly now

Poucas vezes na vida, uma música foi tão apropriada, tão correta, tão precisa em descrever um momento na vida:

"I can see clearly now that the rain is gone
I can see all obstacles in my way
Gone are the dark clouds that had me blind

It's gonna be a bright
bright sunshine day.
It's gonna be a bright
bright sunshine day.

Oh yes, I can make it now the pain is gone.
All of the bad feelings have disappeared.
Here is the rainbow I've been praying for.
It's gonna be a bright
bright sunshine day.

(ooh...) Look all around, there's nothing but blue skies.
Look straight ahead, there's nothing but blue skies.

I can see clearly now the rain is gone.
I can see all obstacles in my way.
Here's the rainbow I've been praying for.
It's gonna be a bright
bright sunshine day.
It's gonna be a bright
bright sunshine day.

Real, real, real, real bright, bright sunshine day.
Yeah, hey, it's gonna be a bright, bright sunshine day".



quarta-feira, 1 de março de 2017

Pavão retórico

-Ah, você é formado? Em quê?

- Comunicação, Jornalismo, mas já tem algum tempo.

- Poxa vida, e está fazendo o que aqui?

Há algum tempo, embora respondesse com educação, não evitaria pensar comigo algo nas linhas de “aprendendo a desmafagafar mafagafinhos! O que você acha?”, talvez com alguns palavrões, a depender do humor do momento, e com um juízo extremamente desfavorável a respeito da minha interlocutora, que traçaria dela a caricatura acabada de pessoa desinteressante e de acanhados predicados mentais porque caíra no desazo de me abordar de forma tão pouco inspirada. Acabaria julgando mal a ela porque ela fez a pergunta clichê que todos fazem e respondeu com o mesmo espanto bobo que todos respondem, como se fosse incompreensível que alguém decidisse fazer outra coisa da vida, ir matar o tédio, chutar o balde, reinventar e revolucionar, quem sabe mudar de profissão, saciar uma curiosidade. Cansa. Mas eu não me incomodei, como não venho me incomodando mais com tanta coisa inútil, e simplesmente respondi que, a vida toda, tive uma grande facilidade com matemática (desde que com professores interessados em explicar a lógica das coisas, e não regurgitar regras de como resolver exercícios, tudo sem conexão com o contexto e as razões ocultas dessas coisas maravilhosas que são os números) e física, que ciência e tecnologia são temas que me instigam e pelos quais nutro, desde sempre, um profundo interesse sincero e que nada mais legal que ir em busca de aprender coisas novas, de mudar a vida da gente, porque é mudando o que não funciona que você segue em frente. O que não significa que não continuo lendo romances, poesias e ficção-científica, livros de História, biografias, que não me assombro toda vez que me encontro com um novo escritor de talento que não conhecia, que não continuo escrevendo e tendo interesses nas grandes questões da sociedade, da história, da política e da existência, essas que afligem o homem moderno e pavimentam o couro do brasileiro, em específico. Que, enfim, ser de humanas não impede ninguém de ser de exatas. E poderia também ter dito que estou farto de viver em caixinhas, coberto de rótulos auto-impostos e, em especial, daqueles injustamente colados pelos outros em mim. Diria à ela que afinidade com um não impõe, necessariamente, aversão ao outro. Que antes dessa conversa, estava lendo um livro em inglês, no Kindle, sobre a Batalha do Marne, em 1914; você sabia que Gallieni, o general encarregado de defender Paris, mandou para o front um batalhão inteiro usando todos os táxis da cidade? Que se tivessem perdido a batalha, teriam perdido para o Império Alemão a Primeira Guerra em questão de um mês? Não é fascinante? Em que mundo estaríamos hoje se fosse o outro lado o vencedor dessa batalha? E que esse impresso, ali em cima da mochila, todo respingado de cerveja (tomara), é de cálculo, e que, sinceramente, muitas vezes é mais fácil de entendê-lo explicando lógica e álgebra do que os compêndios de teoria da comunicação e de sociologia, tão herméticos e irrelevantes que, um dia, eu tentei ler? Não devo ter sido tão apaixonado no meu discurso, a gente aprende a parar de ser tão apaixonado na vida sempre da maneira mais dolorida, mas no meio das turvas memórias que sobreviveram à inundação de aldeídos que sucedeu às liberalidades da noite, encontro algo que me faz lembrar de ter deixado escapar um "há espaço de sobra para os dois no meu coração", porque eu tenho esse mal costume, é pior que doença, males do romantismo de meia pataca que acabou-se embutido em todas as minhas revoltas, vitórias e nos meus grandes momentos.


Mas há pessoas, e que bom que elas existem, que se sensibilizam com inadvertidas referências ao coração. Há gente sensível e que, de verdade, parece se encantar quando encontra alguém que compartilha desse defeito, ou qualidade, porque até isso é relativo nessa vida de incertezas e surpresas. E aí ela respondeu.

- Nossa, gosta de humanas e exatas! Que coisa rara, você é a união do útil ao agradável!


E assim eu ganhei a minha noite. Raro, eu sempre soube que eu sou. Mas união do útil ao agradável foi uma novidade para o catálogo, essa coisa de ser admirado como essa mistura incompreensível de mundos e formas de pensar tão distantes. Me senti feliz em não tê-la julgado mal pela sucessão de perguntas clichês e me vi disposto a descortinar a minha vida toda para ela simplesmente para ver se eu colheria mais alguns elogios no processo.

Eu viro um pavão retórico com uma enorme facilidade.