domingo, 30 de julho de 2017

A outra morte de Tertuliano Máximo Afonso

É morto Tertuliano Máximo Afonso. O que, aliás, não chega a ser uma grande surpresa para quem teve a oportunidade de ler o romance de onde aquele homem duplicado espocou nessa realidade mentirosa, para vir aqui ser outra cópia, neste caso de outro sujeito, confundido e ensimesmado, que achou na fragilidade do professor de história de nome estranho e de conflitos profundos uma cópia sua. Foi pelas minhas mãos que Tertuliano Máximo Afonso ganhou segunda vida, foi pelas minhas também que se findou a sua história.

Rei morto, rei posto.


Tertuliano Máximo Afonso foi uma ótima desculpa para manter meu nome oculto num tempo em que eu levava tudo muito a sério, especialmente esse blogue e os exercícios criativos, exagerados, literários, jornalísticos, poéticos, de ficção e verdade, de desavergonhadas mentiras que ele abriga. Não me levo mais tão a sério, o que é uma delícia, me dá a chance de rir da minha seriedade de antanho e de me compadecer da ingenuidade e simplicidade do espírito inocente que, sem enxergar muito da vida, foi se comparar ao personagem do Saramago e dele emprestar nome à guisa de pseudônimo misterioso.


Num tempo em que toda gente se picava de intelectual e de profunda, ter um blog era cartão de visitas indispensável para arrancar suspiros das garotas e fazer inveja aos seus pares. Não bastava ser bonito, sorrir, ser gentil e passar o ar de tímido, misterioso. O blog era indispensável naquele tempo. E se o blogue ainda viesse acompanhado com um confuso e complicado pseudônimo, melhor ainda. Daí nasceu emprestado Tertuliano.


Parei com tanta bobagem.


Mas a necessidade de me esconder, de ocultar o meu verdadeiro nome, permanece porque eu adoro um bom mistério. Então, agora toca a escolher outra figura remota da literatura, uma que se adéque de forma mais apropriada ao sujeito que sou hoje, tão distante das querelas de identidade, timidez e pura loucura que atormentavam nosso falecido Tertuliano. Reli O Homem Duplicado há algum tempo e ainda tenho comigo a sensação de pasmo estranhamento que tive ao ver que, no fundo, Tertuliano Máximo Afonso é um tremendo babaca e que eu, se um dia fui mesmo tão parecido com ele, devo ficar muito contente em não mais sê-lo e em me reconhecer tão diferente do personagem.


Agora, portanto, escolho Liévin. De Anna Karenina, clássico da lavra de Leon Tolstói. Liévin, no livro, disso me recordo muito bem, tinha 32 anos, que são os que eu também conto no presente instante. Liévin tinha espírito irrequieto e, das muitas sensações que ainda tenho de um romance lido há oito anos, fica a lembrança de que Liévin era um homem simples, devotado a crescer, a buscar, a construir, tudo isso resguardando um sentido profundo de seus valores, de seus compromissos, de sua essência. Liévin, como eu, buscava desvendar os caminhos para a vida mais plena, para a vida feliz, para a construção de sentido num mundo muitas vezes hostil e indiferente. Liévin se esforçava nessas buscas, na construção de sentido, de importância, em desvendar o que a vida importa e significa.


Liévin sou eu. Liévin é o que eu sou hoje, é o que eu quero ser amanhã: cada vez melhor, um homem devotado à ideia de crescer, de evoluir e de sair em busca da vida, da felicidade, do amor e do sentido de todas as coisas.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Difícil

A lista de coisas difíceis na vida é enorme. É horrível encarar a morte de alguém próximo, é profundamente complexo o processo de luto, é absolutamente violento questionar os seus valores, reexaminar a vida, por em marcha um novo modelo de como aceitar o que a existência dá a cada dia. Empregar as lições que você coleta na sua rotina também é para poucos. É incrivelmente desafiador a tarefa de construir sentido em coisas que, numa primeira análise, são vagas e até mesmo negativas. Mas a gente consegue, a gente sua sangue, você luta, você bate na mesa, respira fundo, infla o peito e vai, faz, vence e sorri.

E tudo isso é muito bonito. Mas, PQP, aprender Mandarim beira o impossível.

Mas, para falar a verdade, eu ando interessado no difícil. Vida fácil não é vida ganha, vida sem fazer força é letargia e letargia, bem o sei, é doença.

De volta à programação normal

Devagar, sondo o entorno, espio, não faço o menor ruído, espero. Nada. Aparentemente, estamos seguros, sem mais aparições. Então, desbloqueio o blog e sigamos de volta à programação normal: sentimentos, coração aberto, otimismo e esperança pela vida, ah há vida!, que aqui, no fundo desse coração espartano feito de camuflagem, nada morre, tudo floresce, tudo evolui e tudo sorri.

E amor. Porque amor, no fundo, sempre foi o meu assunto preferido.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Para quem ainda se bate

Paz é a situação em que você está na vida. Desde que você não oponha resistência à ela.

domingo, 23 de julho de 2017

Diálogos e crianças

Na rodoviária, um pai entretinha o melhor que podia o curioso deslumbramento do garotinho que, olhando a todo movimento, disparava suas perguntas. E eu, sentado ao lado e na minha espera e cismas, resolvi distrair a mente do que tinha comigo e prestar atenção no diálogo.

O garoto, então, esgrimiu um “pai, por que o ônibus faz barulho?”. Confesso que não prestei muita atenção no esforço que o cidadão faria para responder e comecei a reagir como se fosse meu filho, e eu o desafiado a respondê-lo. No começo, fiquei feliz com a primeira pergunta, que é de coisas técnicas, e eu sou bom nessas coisas, posso dizer com facilidade porque um ônibus faz barulho: faz barulho porque tem lá dentro um motor e um motor é uma máquina que transforma um tipo de energia, nesse caso óleo diesel combustível, em outros: som, movimento e calor.


Mas responder uma criança assim não é batalha ganha. Não porque você levanta outras questões (eu adoraria, daí em diante, ir de item a item dando as definições), mas porque a resposta acaba alheia demais ao que, eu acho, um guri vá entender. E, depois, se o guri fosse esperto, poderia desarmar todo esse raciocínio com “mas então porque um ônibus elétrico não faz barulho?”.


E aí me encontrei com a dureza desse desafio de paternidade, que está no diálogo, na forma pela qual estabelecemos as pontes pelas quais trocamos ideias e sentimentos, ou mesmo definições de mecânica, física e química.


Não sei se minha resposta seria adequada para um filho meu. Não sei, também, se quando ele nascer, eu não vá virar uma outra chavinha cá comigo e ganhar todo um novo vernáculo dedicado a como construir conversas com essa criaturinha de sorte que minhas definições e respostas sobre a vida, o universo e tudo mais façam-lhe qualquer sentido.


O que eu sei, crianças, é que espero ter sempre paciência e a calma para responder, para pensar, para dar a vocês somente o melhor de mim. Seja na hora do carinho, da brincadeira, da bronca, do afeto e da hora de dizer porque ônibus fazem barulho.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Zen estoico de menos dois

Eu ando pelo meu caminho
De longe, avisto um buraco
E nele eu caio sozinho
No escuro, me vejo perdido, em desespero

sinto a alma caída
E sem esperança.
Mas não é culpa minha
eu só fui ingênuo, feito criança
Levo anos para encontrar uma saída.

Eu ando pelo meu caminho
E, lá adiante, há um buraco no meu rumo
Eu disfarço, minto, finjo que não vejo
E eu caio no buraco novamente
O que me dá o ensejo
de viver meu delírio e desespero,
em que grito, não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha, felizmente
Me consumo em mais uma eternidade de tempo para de lá escapar.

E eu ando pelo meu caminho.
Mas, lá na frente, há um buraco enorme
Dessa vez eu não o omito da minha consciência.

e meu olhar vigilante já não dorme
Mas, novamente, eu caio no escuro, no abandono, no erro
Já virou um hábito
Mas é no escuro, no amplo e irremediável escuro

que se abrem esses meus olhos,
e é aí que eu enxergo:
sinceramente
Sei onde estou
e sei que cá estou por culpa minha.
Levanto, saio imediatamente.

Ando pelo meu caminho.
Vai lá na frente uma depressão que esconde um buraco
E eu dou a volta.

Sigo caminhando e sorrindo,

mas agora eu invento o novo
eu abro nova vereda
e faço do outro o meu novo caminho.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Balanços e óbitos

Aí eu faço balanços. E me lembro que eu não sou de jogar fora, que eu sou uma ótima pessoa, que eu realmente me esforcei e que, antes de apontar o dedo na direção dela, abaixei a cabeça e fui cuidar da vida, estudar o futuro e me corrigir, na ingênua expectativa de que ela faria o mesmo. Que exilado e rejeitado conjuguei tudo em função de nós, mesmo lendo os sinais todos que me alertavam do fim, não arredei pé e fiz questão em deixar o coração aberto e os sentimentos todos puros. Que, mesmo desconfiado e ciente do que aconteceria, fiz sucessivos votos de confiança e a esperei de forma justa, ainda que engolindo em seco alguns sapos (quantas pessoas teriam essa postura?). Lembro que sou gentil, romântico e carinhoso, que sou fiel como um cão, que em nada nesses anos todos fui inflexível: nenhuma das minhas restrições, que foram de encontro ao comportamento dela e não foram combatidas de forma honesta e racional, sobreviveram. Eu comecei a adorar cachorros, por exemplo, a tolerar hábitos, encarar com normalidade morar em São Paulo e a não ligar para coisas que sempre achei que me incomodariam; ela ser desorganizada virou até um charme porque me dava espaço para eu contribuir, para eu organizar, para eu mostrar afeto e eu adorava mostrar afeto por ela. Meu esforço e convite a abertura, aceitação e tolerância, além de franco crescimento pessoal e evolução são o maior testemunho do meu compromisso, do meu esforço, da minha disposição de caminhar e de ir em frente - pena que nada disso é suficiente quando o amor da outra pessoa acaba. Isso tudo, pelo menos, redunda em um saldo positivo no fim desse exercício de futilidade (o que não vai a lugar nenhum eu considero fútil): saí dessa história muito melhor pessoa do que entrei.

Mas eu recordo que começamos muito, muito bem e que, de minha parte, estávamos muito, muito bem (é um crime soçobrar às paixões que me despertaram no peito naqueles últimos dias e não ter o privilégio de vivê-las). Acabar tudo assim, naquele auge que antecipa grandeza (porque tínhamos tanto para crescer), é o que machuca mais. Eu fui muito feliz ao lado daquela mulher e estava 100% convicto e investido na ideia de que manteríamos e construiríamos em cima dessa felicidade. Valorizava nossas ambições parecidas, o valor que damos às mesmas coisas, o firme conceito de fidelidade, o companheirismo, o apego à família, a ciência de que a vida pode, e deve, ser mais doce e tranquila. A ideia de morar, viver, de por metas no meio do caminho e estratégias para persegui-las a dois me parecia tão próxima, tão imediata que passei a ver a ideia de morar com ela, de trabalhar, de dar os passos e tomar as decisões que precisavam ser dados e tomadas como inevitável para esse ano: era tudo tão presente, tão possível, tão delicioso, tão excitante. Pena que ela foi tão infeliz ao meu lado, quisera eu ter percebido antes o desgaste.

O que leva à pergunta: o que faltou? Amor? Não de minha parte. Afeto? Não. Princípios e objetivos parecidos? Também não. Valores? Não. Compromisso? Sim, mas não também. Porque não foi falta de compromisso, ou ainda, não foi falta de valorizar a importância do laço, mas foi falta de, de fato, unir as pontas soltas. Faltou, e aí é só opinião e meu ponto de vista, mais abertura de parte a parte, mais diálogo (especialmente do meu lado) e maior clareza sobre como lidar com um compromisso (também culpa minha). Do lado dela, só posso especular, mas estimo que os sentimentos ali já tinham esfriado há um bom tempo.

No começo, criamos um cabo de guerra inocente. Eu testava todos os limites, ela se fazia/era forte e os expandia cada vez mais. As brincadeiras foram saindo do controle e viraram crueldades. Eu era alimentado pela sede dela em provar-se forte e digna das minhas exigências ridículas. Eu achava que, no fim, ela gostava de ser testada, porque ela dizia que era "bruta" e que eu estava aprendendo sobre ela. Não é bem assim: ela sofria, eu não aprendia nada e, anos depois, descobri que ela, de bruta, não tem muita coisa: é toda delicada e sensível. Nada disso, veja bem, é ruim. O ruim foi nunca ter conversado sobre isso, ou eu ter sido mais maduro e percebido melhor as coisas, os limites.

Nós nunca conversamos, na verdade, sobre nada sério e de forma séria - o que é culpa minha, o meu grande ônus, o meu grande defeito nessa história: eu reagi mais às circunstâncias em vez de ser mais pró-ativo, de me antecipar melhor, de me abrir, de me entregar antes e mais. Foi uma escolha, mal calculada e infeliz. Não fiz por mal, de forma alguma, e não me torturo por essas coisas, mas foi um grande erro. Eu demorei para perceber isso e essa é uma grande, enorme culpa minha, essa inaptidão de colocar as coisas em ordem, de falar, de perguntar, de ouvir, de trocar ideias. De vestir a camisa mais cedo, de encampar as ideias que precisavam ser tidas e praticadas para orientar o nosso caminho. Faltou matar no peito antes, chamar, dizer: vamos.

De resto, houve a depressão que me impediu de me entregar antes ao que sentia. Sem isso, essa entrega, torna-se inviável se abrir, se doar como eu devia ter feito. É uma sensação engraçada essa, de assumir responsabilidades por coisas que, no fim, nem eram exatamente culpa sua, mas de uma forma ou de outra, estavam na sua mão para corrigir.

Mas... não me arrependo de nada. Nesse último ano, eu estava acordando, pronto para a vida, completamente disposto e entregue àquela mulher, cheio de amor, de carinho, de interesse: se ela argumentasse qualquer coisa, eu ouviria e iria em busca do que quer que seja porque estava devotado a essa ideia de nós. E nada dá maior testemunho dessa força de vontade do que a minha revolução, do que a minha fiel espera, do que a solidez dos meus compromissos. Nesse último ano, a imagem de eu e ela, contra tudo e contra todos, conspirando uma vida a dois, nossa, enorme e inteira era algo natural, certeiro, algo que eu queria construir, missão para qual estava me preparando, evoluindo.

Mas, se eu por um lado sempre errei no diálogo, ela também escolheu guardar cargas e rancores diversos para um ponto de ruptura, nós dois fomos omissos por inocência e, no fim, ela decidiu ir embora porque cansou, o que é legítimo e previsível. Eu não a julgo e censuro por ter cansado, por ter ido. Entretanto, me entristece que tenha cansado sem que tenhamos conversado antes, sem que tenhamos tido a maturidade, a abertura, a preocupação de zelar por nossa união mais cedo. É triste que tenhamos nos omitido.

O peso desses desencontros que explica porque, desde que brigamos, não houve mais nós: cansada, ela se omitiu de qualquer diagnóstico e solução para corrigir uma situação trivial de casal que se desentende. No fundo, o que eu fiz de errado nessa história foi ter-lhe dado de bandeja a desculpa para ir embora na forma de uma briga que, a rigor, teve erros de parte a parte, mas dos quais só eu fui penitente. Desde ali, estava dada a letra da metade de um amor morto. Porque aqui, vive.

E eu também acho extremamente revelador o cansaço dela a meu respeito em contraste com meu estado de paixão desvairada no fim do ano, a minha carência dela, a minha sede daquela companhia, daquela mulher, a minha vontade de tocá-la, de abraçá-la, de falar com aquela criatura por meio do meu toque, da minha voz e do meu olhar; minha voz pedindo atenção e o silêncio de quem, se não compreendia o pedido, também não perguntava nada mais para entendê-lo. Infelizmente, a mulher que eu mais amei e que semeou tanta coisa boa na minha vida, já estava esgotada de nós há muito tempo e o que eu fiz de ruim, na verdade, foi ter lhe dado a desculpa para o fim. Tenho impressão que se não brigássemos, nuns meses ela viria com o fatal "estou confusa/temos que conversar" e aí daria tudo na mesma.

Acabou, infelizmente, porque ela cansou e os rancores todos nunca foram tratados. Eu devia tê-la acalmado, tido a clareza de fazê-la me entender melhor, de estabelecer formas de diálogo mais profundas e íntimas de sorte que ela percebesse melhor as coisas que se passavam comigo, de ter dito o que eu via no futuro imediato, de quão sério eu estava sendo, construir essas pontes de conversa mais amplas para ter dito ainda antes daquela viagem que eu estava me acertando intimamente para que 2017 fosse nosso grande ano de mudanças, de evoluções. Mas para ter abordado essas questões todas, eu precisaria da estrutura emocional que eu tenho hoje e que me era inacessível naquela altura porque eu sequer reconheceria que havia um problema, há toda uma letargia associada a esse piloto automático de um relacionamento que me parecia tão natural, tão condenado a funcionar, tão firme e pronto para o amanhã e a eternidade. É um paradoxo irredutível: para consertar os erros, eu teria que ser o homem que sou hoje, ciente deles e dos problemas, e das ferramentas disponíveis; conhecimentos todos que só nasceram em mim depois de profunda, sincera e ponderada análise a respeito da crise criada pela ausência dessas percepções todas. É tão triste se despedir desse amor com a lucidez de que os erros foram tão pueris, os problemas tão fáceis de ser arrumados, os sentimentos tão intensos, os objetivos tão parecidos, os inícios de convivência tão doces e promissores, a verdade das minhas entregas tão honesta. É a maior desgraça nessa história: ao menos de minha parte, era tudo tão possível, verdadeiro e tão apaixonante.

Mas, claro, tudo isso é só o meu ponto de vista. Provavelmente, estou sendo injusto numa porção de coisas, se não mesmo completamente incorreto (e eu sei, sim, que em diversas ocasiões fui injusto, duro e abjeto no trato com ela, especialmente naquele começo de testes e crueldades, que cavei uma das covas em que ela nos sepultou e nunca, nas minhas ponderações, me omiti dessa penitência). Mas, opiniões, afinal. Entretanto, o que fica dessa história, além de uma porção de lições importantes e que carrego comigo, é um amor enorme e muita gratidão. Eu a respeito e amo, mesmo, apesar de tudo, e ainda sinto só coisas boas por ela porque, ao menos no que se refere à mim, acabamos naquilo que eu reconheço como um dos momentos mais felizes da minha vida que só não brilha completamente redentor sobre a minha cabeça porque há uma mancha e essa mancha é o buraco que ficou quando me arrancaram o coração do peito. É frustrante porque eu estava absolutamente pronto para a vida ao lado dela, estava completamente apaixonado por aquela criatura e sorvendo as delícias das memórias que me vinham dos excelentes momentos que tivemos juntos em 2016 e das coisas que eu planejava e via no amanhã. É uma grande perda, uma grande pena porque - mais uma vez, é um ponto de vista pessoal - tudo saiu do controle no auge, no melhor momento, na fase que antecipava os passos decisivos em direção ao futuro.

Se eu não me sentisse assim, talvez esse texto nem existisse e tudo estivesse bem resolvido há meses. Mas é o ônus de amar, muito, uma pessoa que não existe mais e que não está nem aí - infelizmente.

Eu fiz tudo que podia, dentro da exígua margem de manobra que ela me deixou para sobreviver no limbo desse tempo e não perdê-la. Isso me conforta. Assim como me conforta lembrar que, no começo de tudo, setembro de 2012, eu disse: daqui um tempo, você cansa dos meus defeitos, as minhas fraquezas deixam de ser bonitinhas, aí você escolhe uma desculpa qualquer e vai embora. Todas vão sempre embora. Ela, apaixonada, respondeu que era diferente, que nunca, que com ela era para sempre. Ela foi a primeira a usar o para sempre.

E sobre essas palavras bonitas, esses pra sempre, fica mais uma lição: é muito fácil sair prometendo mundos, dizer essas coisas no auge da paixão. O difícil é manter de pé essas coisas nas crises, depois que as falhas e defeitos do outro ficam evidentes, depois que o turbilhão do coração inflamado passa e a realidade se assenta. Eu, com todas as culpas (e não são poucas) e defeitos que tenho, ao menos posso dizer que depois de toda essa confusão e de todos os problemas, ainda vejo meus votos de até o fim da vida como firmes e verdadeiros. Na equação da vida, eu fiz dela uma constante, diretamente proporcional a coisas boas, a amor e felicidade. Na equação dela, eu era uma variável que, no fim, tendia a zero: no resultado dela, eu sou irrelevante.

Mas, no fim, ela cansou, escolheu uma desculpa e foi embora.

E é uma desgraçada pena que eu tenha, sem querer e de forma bastante infeliz, contribuído para que ela tenha cansado, escolhido uma desculpa e ido embora.

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Hipercubo

Eu sinto como se a vida fosse um Cubo de Rubik. Porque quando você acerta todos os quadrados de uma das faces, acaba bagunçando outra. Aí você rearranja todos novamente, na esperança de manter o que estava correto e corrigir o que faltava, tudo para descobrir em seguida que, no processo, você bagunçou a face que tinha resolvido e não foi muito longe em progredir naquela em que estava se dedicando.

Se a minha vida é um Hipercubo de Rubik, porque eu sou muito mais complexo do que seis faces, precisamos aí de mais uma dimensão para dar conta das minhas excentricidades, posso dizer que venho me deparando com essa situação ultimamente. Um esforço enorme é feito em por em ordem uma determinada face do cubo que, no entanto, destrói uma outra. Abre parêntesis: hipercubo é um cubo em quatro dimensões, informei. Fecha parêntesis.


Em meio a esse processo, eu sinto como se tudo que resta, além dessa inútil luta contra os fatos, contra a entropia (eu sou fascinado por qualquer conceito da física e da matemática que você possa extrapolar nas relações humanas e como metáfora geral da vida) que dá cabo de todas as coisas, essa vontade inexorável termodinâmica que nos empurra para o limiar do caos, mas eu dizia, que sinto como se tudo que nos resta é o poder das escolhas.


Eu, quando jovem, novinho e com todos os sonhos do mundo dentro do peito, escolhia sorriso, escolhia acreditar que as coisas se endireitam, escolhia calma. Pessoas, um dia, se apaixonaram por mim porque eu era... calmo, calmo diante de tudo, porque eu sempre parecia ter a solução, ter a resposta e essa fé íntima em que as coisas se encaixam.


Até que nada mais deu certo.


E aí, na tentativa de corrigir uma face do cubo que estava em total desarranjo, baguncei essa minha face. Perdi a calma. Mais que tudo, perdi o otimismo, a serenidade, a gentileza, perdi o senso do real e do imaginário em meio às garras de um negrume que nunca fui eu, mas que só esperava o tempo de dar o bote.


Foi em meio a esse caos que conheci uma das pessoas mais importantes da minha vida. E foi pena, porque ela chegou certa, precisa e preciosa no momento errado. E, sina de quem não sabe resolver o cubo, na esperança de por no prumo a face das coisas que eu fui - força, garra, sorriso, otimismo e generosidade - acabei me afastando dela, que era a face desse hipercubo que eu não gostaria nunca de ter desmanchado.


O saldo é assim, agridoce, porque eu corrigi, no fim das contas, essa face das coisas que eu era. Eu, hoje, me reconheço no jovem que eu fui, não na sombra que eu me deixei transformar ao longo de uns anos. Eu me restaurei, e sem me arrepender de nada, porque eu valorizo muito o que há de bom em mim. Mas não consigo deixar de olhar para esse hipercubo da vida sem desejar ter um guia para, enfim, dar conta de por em ordem duas faces ao mesmo tempo, para ter comigo tudo que eu sempre sonhei. E sonho.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Já era

Você queria um amor eterno, te sobrou o vazio dos e-mails nunca enviados e dos não recebidos;
Você queria o pecado encarnado, te sobrou o catálogo interminável de pornografia da Internet.
Você queria uma ótima chance de abrir o coração pra dividir as agonias do viver, te sobrou "vamos ver de beber uma, sim";
Você queria o fim da solidão, te sobrou o Netflix com guaraná e WhatsApp;
Você queria mergulhar na imensidão dos sentimentos e das entregas, te sobrou o onanismo das conversas adiadas e das metas nunca perseguidas;
E, aliás, se queria, por que não o fez?
Você queria encontrar todas as pontas soltas da sua vida e desamarrar o nós das coisas que ficam pela metade. Acabou cortando os laços.
Você queria dar amor e receber amor dela, ter dinheiro para viver, brincar com os cães e viagem no fim de semana. Te sobrou a dor de separar umas moedas pra pegar o ônibus, paquerar filhotes dos outros e fugir de estranhas cheias de defeitos.
Demorou pra entender que entrega é um processo inteiro, não dá para construir a vida com alguém pela metade, cercado de medo, de incerteza. Ninguém se apaixona por decreto e não dá para viver os sonhos e os compromissos sonegando sentimentos, verdades e abertura.
Você queria amar, mas sobrou a omissão. Você queria gozar, mas sobrou a punheta, a siririca, a energia desperdiçada. Você queria ser levada - ou levado - pelas coisas bonitas e simples da vida, as que importam de verdade, como que embalados numa cena romântica de chuva ao fim da tarde, seguindo de mãos dadas, rumo ao horizonte que já ameaçava um felizes para sempre. Mas você ficou com medo do resfriado e não quis se arriscar a se molhar.
Você queria abraçar, mas ficou tremendo de frio, se fazendo de forte, de independente, de rebelde. Você queria sonhar junto, mas ficou correndo atrás da própria sombra.
Você queria, mas não agia, só esperava e reclamava. Você precisava de coragem, mas achava que medo é segurança.

Você andava doente, mas achava que a vida é a culpada.
Por isso a porta fechou. O tempo acabou. A estrada da vida desmanchou na sua frente. Sua chance passou, foi tudo para o lixo, e embora nada nunca seja em vão, a enormidade das coisas todas que você sonhou, no fim, acabam todas na sarjeta das oportunidades e metas que não deram certo, em meio a todos os outros rascunhos das coisas de que você aprendeu a desistir, ou dexistir, permeados pelo sangue que ainda escorre dos cacos e frangalhos daquilo que, até outro dia, fora o amor e o coração que você tinha como constantes para toda uma vida.
Agora já era.

domingo, 16 de julho de 2017

Busca por eternizar-se

Eu venho escutando muita música instrumental. Orquestras, rock, trilhas, trilhas sonoras, composições aleatórias de gente famosa e desconhecida. Meus dias ganharam os contornos de música que me anima, que me emociona, que me dá coragem, que me faz sorrir, que me lembra do que eu sou, de como eu sou, do que eu busco, do que eu sinto. Música é essa coisa maior do que nós mesmos, que abraça e envolve, que protege e empurra.

E é uma frustração enorme não saber tocar instrumento algum, não ter a menor coordenação motora para dançar (eu tentei), não saber cantar. É frustrante porque, você pode escrever um romance redentor, pode sentar numa cabana numa encosta isolada e, depois de 10 anos, sair com um clássico esmagador da literatura, um volume obrigatório, marco artístico e estético, referencial histórico que será lido, examinado e comentado por gerações.


Mas cada um dos seus leitores, ainda que sejam capazes de simpatizar, desenvolver carinho e emoções em torno das coisas que você tem a dizer no livro, serão incapazes de colocar as suas palavras, de lembrar como o livro começa, em que altura exata a história sofre uma reviravolta, qual é a cadeia precisa de eventos que leva ao desfecho do livro. Todo mundo, ao término da leitura, sai com essas impressões e muitas outras.
Mas é diferente com a música. Mesmo que você não saiba sequer dedilhar as cordas de um violão, é relativamente fácil para que você toque na mente os acordes que começam as músicas que você mais gosta. Basta, aliás, ouvi-los de relance para lembrar da canção, das emoções que ela provoca, das memórias que traz à tona. A música vive numa vantagem enorme sobre a literatura nesse sentido. É fácil testar essa ideia: quais são as primeiras frases do seu livro preferido? Agora, quais são os primeiros versos da sua música preferida?


Não importa o quanto o poeta e o escritor se esforcem, eles nunca terão a capacidade de deixar em alguém uma marca indelével como fazem os músicos e compositores. Não importa o esforço e capricho que você imponha sobre as coisas que escreve porque, no fim, todos esquecem o que você diz, ninguém lembra da exata construção da cuidadosa escolha de palavras que você realizou na vã expectativa de se eternizar e ver seus ditos lembrados.

terça-feira, 11 de julho de 2017

Ironia

Lembro daquele doce começo, em que disputávamos tudo, em que eu avisava que você iria embora eventualmente, e que você respondia com "é para sempre". Eu lembro, sobretudo, quando lhe confessei minhas desditas, dizendo que elas tinham me feito cínico, pouco romântico, descrente. Você lamentava, não só dizia que contigo era diferente, mas que sentia muito por eu não ser mais daquele jeito e pelo azar que tive em encontrar mulheres volúveis, de gênio ruim, infiéis.

Tentava me encorajar a ser como eu era, porque você gostaria que fosse, porque você queria ter me conhecido sem estar estragado.

Avançamos uns anos. Você me reconquista sucessivas vezes, desenterra o que eu era, o romântico, o amável, o entregue e apaixonado, o otimista. Você me devolve à juventude, você me resgata. E é precisamente quando o faz que, no auge da crueldade, estilhaça meu coração.

Tenha muito cuidado com o que você deseja, portanto. Não só por você, mas pelo efeito do seus desejos na vida dos outros.

Sempre é dia de ironia.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Anatomia do fim em 13 capítulos

Primeiro capítulo

Nós brigamos. Ela me colocou numa situação impossível e, sim, eu perdi a paciência. Mas ela também perdeu o limite, e isso horas antes. Mas, antes que eu perceba, a coisa toda gira em torno dos MEUS erros, da minha culpa, do meu comportamento. Do nada, como num passe de mágica, a parte dela nessa tragédia some: ela pode, eu não. A culpa então é toda minha e eu me abraço, como de costume, ao papel do errado, do culpado.


Infelizmente, demorei muito tempo para perceber que não houve, daquele momento em diante, nós: houve eu e as minhas culpas, e ela, suas fugas e omissões. Não houve um casal corrigindo seus problemas e só isso, só a percepção desse detalhe, teria me polpado muito.

Segundo capítulo

Suporto olimpicamente a indiferença, distância de quem num dia te ama e quer viver a vida ao ser lado, no outro te evita e não quer ouvir o que você tem a dizer. Vou ser calmo, pensei. Ela tem o direito de se sentir assim, é natural, eu argumento no meio do meu delírio de que ela ainda me ama. Respira fundo, segura a onda, deixa passar uns dias.


Passam os dias, renovo minhas intenções e deixo bem claro o que pretendo para o novo ano e, penso, OK, brigamos, já entendi onde errei, espero que ela tenha enxergado os erros dela. Vamos, então, para a conversa que ela tinha me prometido.

Terceiro capítulo

Não há, nem nunca houve, conversa. Porque os meus argumentos já não importam, o que eu sinto, menos ainda: já fui julgado, já estou condenado. O que, somado ao comportamento do capítulo anterior e a total omissão de empatia e de percepção de participação na criação do problema, já devia ter acendido o meu sinal de alerta. Mas, assim como no primeiro capítulo, eu me abraço ao sentimento de culpa: eu errei, eu sou um monstro, eu sou imaturo (sim. Aparentemente, dizer que se diverte horrores com os seus amigos, como quem esfrega sal na ferida dos outros, enquanto reforça o quanto é fácil me odiar, jogando responsabilidades que eu nem sabia que tinha nas minhas costas, é sinal de maturidade). A gente sempre aprende com esse povo avançado da sétima série.

Mas eu sou romântico e eu realmente amo, então eu não percebo as hipocrisias e as falhas nessa argumentação que quer me fazer culpado, que quer me por contra a parede, que quer me exilar. E mesmo me derramando de amor, ainda encontro lucidez para escrever que eu sei onde isso vai dar, que amor não vive em inanição e que esse é só um método redução de danos certeiro para me deixar em alguns meses. Spoiler: eu tinha razão, acertei até a quantidade de tempo, previ todo o comportamento dela durante cada passo desse processo. Só nunca, nunca, nunca teria adivinhado o método do fim.

De tudo nesse capítulo, o que mais doeu foi saber do ódio, porque dessa vez eu não agi sozinho, eu reagi ao que me foi posto, doeu se sentir abandonado no meio da crise e da oportunidade que ela enseja. Não tive espaço para defesa e acabei com a culpa toda nas minhas costas, enquanto tive que, no auge do meu amor por alguém que já não existia, ler “que sou boa em te odiar/você é imaturo”. Passo a entreter a mente, e a rir, pensando na situação inversa: e se fosse eu que tivesse batido a porta e fosse indiferente à carência dela?

Quarto capítulo

Apesar de, sempre tardiamente, identificar essas hipocrisias todas, ponho em marcha uma promessa que tinha feito a essa mesma criatura, dizendo que 2017 seria o ano de começar a vida, de por as coisas em ordem e de crescer. Decido por tudo em ordem, não necessariamente por nós, mas especialmente por mim. Vou para o divã, começo a fazer exercícios físicos puxados e a pintar o cabelo: descubro muitas coisas no divã, emagreço 12 quilos em poucas semanas e me vejo sem cabelos brancos, pela primeira vez, desde os 17: numa paulada só, sou lembrado da minha força (eu sempre fui duro na queda, lembrar disso, saber como e por que isso se perdeu de mim durante um tempo foi como nascer de novo), resgato todas minhas qualidades, lembro que sou um cara atraente. Me divirto com os flertes de algumas garotas, que abato em pleno voo, porque meu coração, destino e alma têm dona: sim, é ela, só pode ser ela. Mas, de couro fustigado pela rejeição da mulher que eu amo, me sinto bem em ser desejado porque fugir da depressão também é construir autoestima. Começo uma nova faculdade, me sinto feliz em me encontrar com novas aptidões e perspectivas excelentes de uma carreira nova. Amo aprender coisas novas, conheço gente e me sinto forte, revigorado e pronto. Fico sem saber se devo compartilhar minhas boas notícias com ela, mas opto pelo silêncio. Ela quis distância. Talvez devesse tê-la apenas comunicado: estou colocando tudo em ordem e pondo todos os meus compromissos em prática. Mas, não acho que tivesse feito alguma diferença porque o mesmo interesse que eu tive em contar as boas novas teria que ser dela em sabê-las e a mulher me exilou completamente.

Emocionalmente, separo as coisas: sim, eu a amo e posso identificar com precisão a extensão, profundidade e importância desses sentimentos; e consigo enxergar que o que ela fez de ruim foi por defesa, e eu perdoo porque eu também já fui inseguro e com medo e eu sei que tudo o que aconteceu foi bem ruim: não me eximo do que fiz de errado, lamento que o tenha feito, mas já fiz minha paz, pedi as minhas desculpas e sinalizei minha intenção de conversar, virar a página e construir algo ao lado dela. Me sinto forte, feliz por saber do que sinto e preparo um documento lindo sobre o que devemos fazer para acertar a nossa vida e andar juntos. Crio um tumblr secreto só para falar do que sinto por aquela criaturinha e para dar espaço aos textos que evito postar aqui por não querer que ela me veja me derramando de amor enquanto ela me ignora: nesse momento, eu me sentia injustiçado. Pelo sim e pelo não, engenho planos mirabolantes de demonstração de amor para adoçar os dias daquela mulher menininha e brinco de imaginar a surpresa que provocaria com essas coisas - mas não consigo ter a coragem.


Racionalmente, com uma série de conclusões sobre os capítulos anteriores, me preparo para o fim e, nessa de tempo, faço o que qualquer pessoa ajuizada faria: me isolo e dou a ela o espaço e tempo que ela quiser. Mas tudo com a certeza de que mais dia, menos dia, ela vai terminar comigo. Sigo mantendo meus esforços para não perturba-la, mostrando respeito, confiança e controle, baseado nas minhas convicções: amo você, mas não posso te alcançar nesse lugar onde você se colocou, você precisa dar, ao menos, o primeiro passo.

Iludido, faço planos. Planejo tudo para prazos flexíveis, um ano, dois anos, três. Começo a definir metas e pensar em formas de alcançar objetivos práticos. Ainda hoje, rio da minha ingenuidade. Eu mal sabia.

Quinto capítulo

Quando percebo que de lá não volta nada, intensifico a preparação para o fim. Enviei um poema doce e amistoso, e sequer obtive resposta: ela poderia ter dado um fim a tudo, poderia ter respondido de forma amistosa e interessada, reatando o contato. Mas ela escolheu a coluna do meio: nada, nada, como se não tivesse recebido, ou eu não existisse, ou como se estivesse tudo dito, e não estava. Passei uns dias rindo do ponto a que chegamos depois de tanta besteira, sem saber o que ser ignorado significava na minha situação. Só sei que foi muita maturidade. Fim à vista, começo a desencanar e a me preparar emocional e mentalmente para encarar o término.


Entretenho a mente pensando, mais uma vez, na situação contrária: e se fosse eu que não respondesse nada a um e-mail bonitinho dela?

Apazíguo o juízo lembrando que nunca, jamais, ela me deu motivos para desconfiar de suas inclinações e sentimentos, que ela sempre teve um comportamento inquestionável e correto e dou, sem nenhum esforço e remorso, um voto íntimo de confiança porque ela merece.

Sexto capítulo

É domingo. Chove pela manhã e aborto o acampamento no meio da serra porque me desanimo com o prognóstico de chuva ao longo da segunda-feira, feriado. Na estrada, enquanto meu irmão dirige, saco o celular para passar o tempo. Há meses que não consulto o Instagram da indigitada, mas dessa vez me bate curiosidade porque sinto muita falta dela. E dos cães.

Ela não está mais entre meus seguidores. Hum.

Sétimo capítulo

Me sinto profundamente humilhado. Ela terminou comigo e não me avisou? É isso mesmo? Checo os e-mails, nada. Dou uma olhada nos apps de mensagens e descubro que estou bloqueado em tudo e, me pergunto, há quanto tempo? Lembro do poema: ela já tinha “terminado” comigo naquela altura e não teve a gentileza de me avisar? Sério? Ela me odeia tanto assim, mas por quê? Eu não mereci uma despedida? NADA? Ou o conceito de tempo, que ela fez questão em não explicar, consiste nisso: separação unilateral até que um dia, quem sabe, ela tenha vontade?

Paro, respiro, e penso: claro que ela terminou, era o que eu estava prevendo, mas gostaria de saber como é possível que ela tenha tão pouca consideração. Talvez tenha acontecido alguma coisa e, enfim... vamos dar o benefício da dúvida, ela sempre foi correta e sensata.


Ainda incrédulo pelo método (não pelo fim), fico pensando: e se fosse o contrário? Ou E se eu não tivesse olhado o Instagram por mais alguns meses, ficaria tudo assim? Ela, seguindo a vida dela, e eu a esperando? Me gela a espinha imaginar o constrangimento que sentiria eu quando, depois de mais algum tempo, fosse tentar falar com ela novamente e fosse mal recebido. Como ela pôde achar OK conduzir as coisas assim?

Sétimo capítulo

Em casa, escrevo um e-mail, leve, mas direto e sincero, cobrando uma posição. Porque até onde ela tinha me dado a saber, era um “tempo” (haha). Nada de resposta.

Oitavo capítulo

A resposta chega, dois dias depois, acho. Duas linhas, aparentemente é o que eu mereço, afinal, sou só um casinho de balada que se prolongou por algumas semanas. Alguma coisa sobre não termos paz e sobre cansaço. Fico aborrecido em saber que os motivos são tão vagos, mas eu a respeito: não tenho direito nenhum de contestar o que quer que ela sinta, ou não sinta, sobretudo depois do que ela fez, depois de meses na geladeira fica bem claro que a mulher, se não me despreza e odeia, sente indiferença a meu respeito e onde há indiferença, de fato, não cabe amor. É bem ruim engolir essas razões e esse buraco enorme de quem vai embora porque simplesmente esqueceu você, e o fez porque o quis, mas eu fico em paz porque previra exatamente esse desfecho e porque, preparado, aceito o fim que ela escolheu pelo motivo que for. Sem qualquer tipo de rancor, mágoa e ressentimento, mando um e-mail cordial e delicado, agradecendo por tudo e, acho, dou uma bela lição de educação, gentileza, gratidão e respeito a quem me tratou com tanta falta de consideração e cordialidade ao terminar comigo sem ter a sensibilidade de me avisar. Epíteto ficaria orgulhoso.

Como achei que era a última correspondência da minha vida com a criatura, evitei cobrar satisfações pela forma pela qual fui tratado. Afinal, se alguém se dispõe a se comportar dessa forma para com o outro, é essa pessoa quem tem problemas. Não eu.

Extremamente treinado para o episódio, me sinto bem e sem trauma, sem tristeza e sei por no lugar cada uma das sensações: frustração, tristeza, saudade e o amor que eu sinto. Porque a desolada e magnífica desgraça dessa coisa toda, a verdadeira tragédia, é o fato de que eu amo ela de uma forma bonita, indolor, entregue. Então, ela me ferir, me ignorar, me humilhar, me abandonar é, no fundo, irrelevante porque amá-la é um tipo de rebeldia, de liberdade: ela não pode me impedir, por mais que me deteste, que me despreze, que tenha raiva ou pena, ou até a mais gelada indiferença. Pela primeira vez em meses, posso dizer que me sinto realmente em paz: estou insatisfeito com a situação (amor, os sonhos, desejo e a saudade, e tudo mais), mas estou leve porque há um ponto final numa história que eu não conseguia mais prolongar no limbo e no vácuo. Perdoo a maldade e a injustiça, aceito que ela não me queira mais, e bola pra frente porque eu tenho um coração enorme para cicatrizar e cuidar.

Nono capítulo

Ciente do fim, desenterro textos que escrevi, além de cometer muitos outros, sobre essa pessoa e começo a postá-los no meu blog porque agora não há mais perigo, agora posso mandar berrar o dia inteiro que ela é meu máximo denominador comum nesse pedaço da minha vida que não interessa a ninguém, a não ser eu e o meu futuro. Preciso escrever porque a escrita e a leitura são importantes, ajudam, muito, a equilibrar meus sentimentos. E, agora que acabou, nada mais justo que liberar esses sentimentos, esses coágulos, todas essas coisas maravilhosas que vivem aqui dentro, porque ela pode me desprezar à vontade, mas eu a amo e eu acho o amor uma coisa preciosa, misteriosa e bonitinha, então vivo bem com o que eu sinto; meio que admirado como o garoto que descobre o primeiro beijo. Também me dou ao direito, como tinha me preparado, a sentir cada coisa a seu tempo: me dou uns dias para tristeza, para saudade, para amor e carinho e, com calma e consciência, vou me deixando sentir e cicatrizar cada coisa na forma de textos e ponderações sinceras e em completa harmonia com meus sentimentos. Um bom tempo de preparação e meditação, enfim, mostra como compensou ser racional.

Me sinto bem, em controle, em paz, conformado e apaziguado com o passado e com o futuro que, infelizmente, não vem mais. Começo a fazer meus balanços e admito, pra mim mesmo as minhas culpas, e que, no fundo, ela é igual as outras: cansa, vai embora, que ela quis isso, talvez estivesse bem cansada já há um tempo e a briga foi a desculpa para acabar com tudo. Que ela, no fundo, nunca me perdoou por nada de ruim que eu fiz (o que é direito dela e culpa minha), e essa carga sempre a seguiu e por isso, qualquer coisa que eu fizesse, mesmo que não fosse grave e culpa minha, ia somar nessa lista de pecados que ela guardou no coração e que, sem diálogo, essa pressão iria mesmo estourar eventualmente. Recordo que o episódio todo não foi para tudo isso, que não foi culpa exclusiva minha e que, no fundo, ela já andava de saco cheio de nós. O que eu fiz foi dar uma desculpa para chutar o balde, porque caso ela me amasse mesmo e estivesse comigo pelo longo prazo, nada explicaria essa falta de compromisso com seus erros e a omissão no processo de cura e de correção dos nossos rumos. Lembro que eu fiz o que eu pude, dentro das estreitas margens de manobra que ela me deixou.


No fim, a verdade do “quem não te procura, não sente a sua falta, e quem não sente a sua falta, não te ama” liberta. Não tenho mágoas, sigo amando e me sinto em paz porque me convenço de que amei uma miragem e que, afinal de contas, tive culpa no processo que levou ao fim. Lembro dela com saudade, gratidão e carinho e, mesmo que tente, não consigo sentir ódio, raiva, crucifica-la e, em vez de me sentir frustrado por não ter esse recurso fácil à mão, me sinto orgulhoso em ser capaz de me afastar de quem eu amo tanto sem essa carga. Leio incerteza, dúvida, cansaço no comportamento dela e, por já ter encarado coisas assim, sei como esses sentimentos pegam e a respeito pelas suas escolhas, embora discorde. Toca combater o platonismo pelo fantasma da mulher que não existia há tempos e seguir a vida.

Décimo capítulo

Aí percebo uma coisa. Ela tem acessado meu blog diariamente, várias vezes ao dia: houve ocasiões com cinco acessos. Ela lê algumas das coisas mais abertas, sinceras, doces e profundas que escrevi na vida sobre amor, sobre ela. Lê sobre as minhas descobertas e meu processo de descobrimento. Do nada, vou de 0 a 100 e perco o sossego. Começo a alimentar esperanças, resgatar meus planos de gestos apaixonados e demonstrações loucas de amor, começo a tentar entender o que se passa. O coração bate mais forte, o amor me assalta, me inunda, me toma.

Mas uma voz grita no meu peito para parar, para desligar, para dar com a cabeça nas paredes até que essa coisa toda morra, para arrancar o coração do peito eu mesmo porque se eu deixar, é ela quem vai fazer isso de novo, vai arrancar, cuspir, chutar ele na sarjeta outra vez (e adivinha...); a voz grita para tirar o bendito blog do ar. Não tiro. Escrevo, em cinco páginas, o que poderia ter escrito em 50 e, mais uma vez, envio. Sei que não vou ter resposta, quem sabe apenas mais um gelado pisão no meu coração. Mas eu não seria eu mesmo se não tentasse e eu gosto de ser eu mesmo.

Ela recebe e, lá dos Estados Unidos, ainda vê meu blog mais dois dias, e silêncio. Como fez, aliás, na véspera de terminar: leu e leu, e demorou por esses posts, provavelmente se convencendo de A ou B - porque o jeito maduro de decidir se você gosta de alguém é ler nuances da vida da pessoa num blog, não conversar com essa pessoa para avaliar a situação. No meio do turbilhão de sentimentos despertos e da esperança, não sei mais o que pensar, apenas que a conta não fecha e que nada disso vai terminar bem pra mim no curto prazo porque eu me sinto indefeso, vulnerável e em exposição à violência de quem não sente nada, sequer respeito pelos meus sentimentos. 


Taí, idiota, parabéns.

Décimo primeiro capítulo

Claro que não veio resposta.

Décimo segundo capítulo


Até que veio. Mais frieza, fim, acabou, morreu dentro de mim, não nasceu mais. Como ela diria, "eu truco": morreu nada, mas OK, sua escolha. Ou eu podia ter dito “mas claro que morreu! Era o que você queria, você se esforçou pra isso, você me exilou da sua vida exatamente pra isso. Você fez de uma briga de casal que ainda está se encaixando num cavalo de batalha, desgovernado e incontrolável, que eu passei meses tentando domar de olhos fechados e mãos amarradas. Não importava o que eu fizesse, a letra tava dada no dia em que você pediu tempo pra eu ir 'amadurecer'”. Ela escreve “dessa vez” não voltou, como se fosse igual as outras, o que me agride, porque não teve rigorosamente nada a ver com as outras... mas e daí? Aí eu me dou conta de que, claro, eu tinha razão, eu passei seis meses preparando a vida para uma miragem: a mulher criou uma narrativa toda dela para justificar decisões e, parabéns para ela, porque funcionou, me cortou completamente, acabou com qualquer sentimento que ela tivesse a meu respeito, enquanto eu me enamorava do nosso futuro. Dividindo culpas e responsabilidades, e conjugando tudo a partir do nós, eu nunca tive a menor chance. Foi quando eu mais fui "maduro" no trato com ela que ela me tratou da forma mais imatura.

Finjo que acredito que ela via aquele blog só para ver até onde eu ia falando dela. Finjo que não fico ofendido por isso. Em todo caso, é incrível, eu elenquei uma lista absurda de possibilidades para que ela acessasse aquelas páginas, mas só lá no final eu encaixei vaidade. E era por vaidade, pura vaidade - segundo ela. Se eu soubesse que ela tinha esse Ego todo, tinha caprichado mais nos elogios, que ela sempre desdenhou. Enfim.


Sugerir isso, aliás, é mais uma forma de me ferir: é dizer que meus sentimentos por ela são tão frágeis quanto eram os dela por mim, é admitir que em questão de poucos dias, ela esperava que eu me comportasse como ela, que esquecesse, quem sabe substituísse, que "morresse" aqui dentro - haha, ela ainda não entendeu, faz mais de seis meses e eu estou aqui, fazendo profissão de fé no sentido de que a amo, ela não aprendeu nada. É calcular que o meu "pra sempre" é tão fugaz quanto esse dela. É, enfim, me medir com a mesma régua pela qual ela mediu a si mesma.

Me sinto mal, pela primeira vez em meses, porque as esperanças todas morreram, porque me deixei iludir quando estava bem. Agora sim, dói. Penso comigo se ela não planejou tudo para me fazer sofrer, assim que percebeu que eu estava em paz. Tento entender por que complicar tanto as coisas, por que tanta falta de sinceridade, por que tanta indiferença, tanto medo, como é possível que eu sinta tudo isso e ela nada disso? Como é possível? Ainda me sinto humilde perante um amor que não morre. Mas, no fim, até entendo que ela tenha tentado ser mais correta, dar um fim mais digno, fechar as portas como forma de me impedir de ter esperanças.

Tento resgatar a minha preparação para o fim, que tinha me deixado tão sereno e equilibrado, tão em paz com meus sentimentos e com a escolha dela. Não funciona mais: porque eu me deixei ter esperança, e esperança não é algo que você tem de pouco, esperança vem num tsunami de paixão, carinho, saudade, amor e me pego infeliz, machucado e em desespero. Começo a fazer planos e a me torturar toda vez que o romance salta na minha mente. A sensação que eu tenho é a mesma de coração cortado ao meio que eu sentia quando precisava vê-la voltando a São Paulo, ou eu vindo de lá, só que bem pior: é essa coisa o tempo todo, meu coração ao meio, aos pedaços, estilhaçado por ela sei lá quantas vezes, jogado ao lixo, espezinhado.

Morro de medo de voltar a me deprimir. Penso que é irônico que justamente o objeto de afeto que me salvou da doença em momento de amor, tenha me condenado à ela novamente no ódio. Juro com toda a força do meu coração que eu não vou mais sofrer por ela e que já chega. Que eu fiz tudo que era possível e só não fiz mais porque ela não deixou.

Décimo terceiro capítulo

Dois dias depois, a infeliz visita meu blog, como houvera feito no fim de semana que antecedeu a atualização do pé na bunda, quando reforçou que "morreu". A mulher que eu amei virou assombração e eu sou o local das aparições. Provavelmente o fez para alimentar esse Ego incontrolável, esse buraco negro de vaidade, e para medir as minhas reações, para me atingir, para me machucar e se certificar de que eu sofro, de que dói, para prolongar esse ioiô emocional e me fazer de idiota. E foi pena, porque se eu soubesse que ela teria a cara de pau de fazer isso, teria deixado uma mensagem direta dizendo: desculpe decepcioná-la, mas não, não dói. Eu não sofro por você. Eu amo você. Quem sabe um dia você aprenda a enorme diferença que existe entre essas coisas.


E aqui acontece uma inflexão importante: eu havia pedido, de forma cordial, para que ela não fizesse mais isso. Mas, mesmo assim, ela volta. O que significa que qualquer que seja a força que a motiva a vir a essas páginas - vaidade, orgulho ferido, medo, raiva, ódio, pena, ou até esperança (aham, haha) - ela é maior do que qualquer resto de consideração pelos meus sentimentos que possa ter sobrado por lá. Para ela, matar a vontade incentivada pela vaidade é algo mais forte do que não me machucar. É a primeira vez, em toda essa história, que, mesmo me esforçando muito, não consigo defendê-la, não consigo racionalizar um comportamento dela que me machuca. É a primeira vez que admito que ela faz o que faz, se não por pura maldade, por total, fria e esmagadora indiferença: tanto faz se dói ou não em mim, contanto que ela afague o Ego. 

Me sinto mal porque eu pedi, pedi educadamente para ser deixado em paz. Para que ela parasse de brincar com os meus sentimentos. Eu pedi, pedi claramente, e nem isso, nem esse favor menor, que certamente não custaria nada a quem aprendeu a me esquecer e ser tão indiferente a meu respeito, eu tive.

Depois da forma pela qual ela me tratou em todo o processo, esse é o auge do desprezo, é muito ódio, muita tortura, muita crueldade, é uma enorme necessidade de ferir, de impor sofrimento. Eu sinto como se ela risse da minha cara enquanto vê a minha vida descortinada nessa página; porque ela é boa demais para nós, porque ela não me quer, mas quer ler como eu me sinto, ri sabendo que me tortura, que machuca, que me faz ficar confuso porque eu confesso, e confesso, que a amo e que o meu pra sempre não acaba assim, fácil. Sinto como se ela fisicamente pisasse em cima de mim.

Profundamente humilhado, canso. Dou um basta. Cansei de brincar, fecho o blog para estranhos e só lê meus textos quem eu convido, atitude necessária para me defender e que é algo que me aborrece muito. Com isso, ela vai ter que criar um novo método de tortura, quem sabe um bonequinho de vodu, macumba, quem não garante que ela não arruma alguém para me sequestrar e me torturar só para ver meu coração sangrar e descobrir até onde vai o meu pulso e a minha capacidade de amar. Porque não basta terminar comigo desse jeito e por pouca coisa, não, é preciso machucar, é preciso ferir, é preciso fazer sangrar, é preciso me diminuir ao nível dela, tentando converter a minha bondade, o meu sossego e o meu amor em ódio.

Mas, no meio do caos de uma situação fora de controle e do fim de um relacionamento que me parecia tão firme e tão preparado para o desafio do tempo e do futuro, respiro fundo. Os meus sentimentos de amor, carinho, tesão, paixão e saudade são verdadeiros, bonitos, meus. Eu me orgulho deles. A dor, não. A dor não sou eu. A vida já me ensinou o que são perdas, eu já passei por algumas das piores experiências que uma pessoa pode passar, eu já fui para o fundo do poço mais de uma vez, eu caí, sim, várias vezes, mas todas elas em pé e, fazendo das tripas, coração, embora larga literatura médica nunca tenha feito menção dessa capacidade entre nós, eu me levantei sozinho. E com tudo isso marcado no lombo, simplesmente não posso permitir que a rejeição e falta de consideração de uma pessoa que me rejeita, que me afasta, que simplesmente decidiu me esquecer, abale minha paz, meu equilíbrio. Eu não sofrerei por quem me rejeita, por quem não me quer, por quem vai embora, por quem não me ama.

Há quanto tempo eu amo uma miragem?

domingo, 9 de julho de 2017

Vida em parcelas

Hoje eu paguei a última fatura de cartão de crédito em que constam as parcelas de um buquê de flores e da reserva de uma mesa num restaurante, que eu deixei em aberto o quanto eu pude na vã, estúpida e infeliz esperança; mas a data original era a quarta-feira, 21 de dezembro, porque no dia 20 já havia compromisso. Eu reservei uma mesa, o Uber ia buscar alguém com as flores à bordo (que trabalho deu editar aquele cartão da rodoviária). O Uber, o silêncio e o sumiço do dia, tudo, construiriam o mistério, teria deixado instruções antes de desaparecer umas horas antes (para ir bem bonito ao compromisso), de que ela se preparasse para uma surpresa e vestisse uma roupa bacana para tal hora. Eu queria que ela tivesse um dia especial para comemorar o aniversário e que, mais do que tudo, se sentisse como uma pessoa amada intensamente.

Eu iria dizer, à mesa, que gostaria que ela guardasse aquele momento com carinho e que visse, nesse meu gesto, nenhum exagero e exibicionismo, mas apenas uma forma de demonstrar amor. Só isso. E que, naquele momento, quando terminasse de ouvir isso, se sentisse a pessoa mais especial do mundo.

Ao menos, o buquê eu pude salvar. E que bom que tive o juízo de não por nenhuma das outras sucessivas ideias românticas em prática porque, caso tivesse, estaria em processo de falência por uma pessoa que, há meses, não sente nada por mim.


E a lição de nunca, jamais, se permitir viver amor em parcelas novamente. Eu não economizo mais, eu morro de medo de juros e de usura, eu não peço empréstimo de vida, que banco agora sou eu. Amor, eu pago à vista.

sábado, 8 de julho de 2017

Bob Dylan - Shelter from the Storm

Ah coração, o que eu faço com você?



I was in another lifetime;
One of toil and blood
When blackness was a virtue
And the road was full of mud.
I come in from the wilderness,
A creature void of form.
"Come in" she said, "I'll give you
Shelter from the storm".

And if I pass this way again
You can rest assured
I'll always do my best for her,
On that I give my word.
In a world of steel-eyed death
And men who are fighting to be warm,
"Come in" she said, "I'll give you
Shelter from the storm".

Not a word was spoke between us.
There was little risk involved.
Everything up to that point
Had been left unresolved.
Try imagining a place where
It's always safe and warm.
"Come in" she said, "I'll give you
Shelter from the storm".

I was burned out from exhaustion.
Buried in the hail.
Poisoned in the bushes
And blown out on the trail.
Hunted like a crocodile
Ravaged in the corn.
"Come in" she said, "I'll give you
Shelter from the storm".

Suddenly I turned around
And she was standing there
With silver bracelets on her wrists
And flowers in her hair.
She walked up to me so gracefully
And took my crown of thorns.
"Come in" she said, "I'll give you
Shelter from the storm".

Now there's a wall between us.
Something there's been lost.
I took too much for granted;
Got my signals crossed.
Just to think that it all began
On a non-eventfull morn.
"Come in" she said, "I'll give you
Shelter from the storm".

Well, the deputy walks on hard nails
And the preacher rides a mount,
But nothing really matters much.
It's doom alone that counts
And the one-eyed undertaker;
He blows a futile horn.
"Come in" she said, "I'll give you
Shelter from the storm".

I've heard newborn babies
Wailing like a mourning dove
And old men with broken teeth
Stranded without love.
Do I understand your question, man?
Is it hopeless and forlorn?
"Come in" she said, "I'll give you
Shelter from the storm".

In a little hilltop village
They gambled for my clothes.
I bargained for salvation
And she gave me a lethal dose.
I offered up my innocence
And got repaid with scorn.
"Come in" she said, "I'll give you
Shelter from the storm".

Well, I'm living in a foreign country,
But I'm bound to cross the line.
Beauty walks a razor's edge.
Someday I'll make it mine.
If I could only turn back the clock
To when God and her were born.
"Come in" she said, "I'll give you
Shelter from the storm".

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Amor à vida

Nós estamos a um acidente de carro, a um diagnóstico, a um telefonema inesperado, a um esbarrão na rua, a uma nova paixão, ou a um coração quebrado, de distância de nos tornarmos uma nova pessoa. Cabe a nós, sempre, nos esforçar para que o novo nos faça melhores.

Viver é um eterno diálogo entre você e suas circunstâncias. Somos deliciosamente frágeis diante dessas circunstâncias, custa muito pouco para que esses eventos inesperados nos mudem de formas tão marcantes e definitivas. Em um lapso de segundos, somos novos, outros, melhores, mais sábios, mais doces, mais otimistas, mais gentis, mais compassivos, mais compreensivos, mais românticos, mais sinceros, muito mais corajosos, menos sonhadores porque mais vivos, mais firmes, mais despertos, mais dispostos, mais plenos (sim, estou sendo autobiográfico aqui).

Sou um homem de muitos amores. Dentre eles, vai esse mistério da vida, essa doçura amarga das verdades libertadoras que aprendemos a entender, a aceitar, a viver.

A vida é desespero, existência é dor, o nada leva ao nada, mas no microcosmo das coisas enormes que se passam no interior de cada um de nós, no intenso e perturbado caos das nossas mentes e corações, tudo se acerta, tudo faz sentido, tudo é bom e maravilhoso e a liberdade maior e última é viver essas coisas, saber do desespero da vida, a ainda assim poder dizer que ama, ama muito à vida desesperada.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Algoritmo da vida

Em 2017, eu me reprogramei
Eu compilei um novo código
eu saí do beta
em 2017, eu saí de algoritmo
de aplicativo
passei a inteligência artificial
que, de forma natural, aprende
executa e, da memória, só busca
instruções e novas verdades
definições e bondades
sou uma rede neural;
que cresce, que não só aprende
como sente
e vive como quem entende
que a vida são ciclos
e o importante não são os erros
e os remorsos
são as lições e o amor
de, sempre, tentar diferente.

#include[life.h]


      while(fracasso)
      {

          tenteNovamente();
          autoconhecimento++;

      }

if(sucesso)
{

     felicidade();         
     autoconhecimento++;

}

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Eu sou o meu próprio herói

Mas eu não consigo ficar triste. Sinto um tipo de dor, saudade. Mas o que mais me aborrece é essa nostalgia do futuro que não vem, é saber que o amor que nós tínhamos é tão raro, que tínhamos tanto por nós, que atravessamos anos, com distância e tudo, que eu estava tão feliz naquela viagem, tão leve, tão apaixonado. É injusto demais sentir algo assim e não poder curtir isso e é duro ficar lembrando que a vida não é para ser justa e isso que incomoda, essas conclusões que você não pode debater. Mas, no meio de tudo isso, eu não consigo ficar triste. Eu acho isso estranho.

- Mas isso é uma coisa boa, não?

É, sim. Mas é estranho. Eu sei o que eu sinto, o que eu quero, o que eu desejo e o que eu posso fazer. Eu tenho tudo com muita clareza, assim como aceito que nada disso importa no fim das contas, porque eu, sozinho, não faço as coisas virarem. Só que, ao longo da vida, eu me acostumei a, em situações parecidas, me sentir mal, em desespero, a sofrer muito. Eu sempre associei tristeza a rejeição, a abandono. Entende?

- Meus parabéns.


Como assim?

- Você chegou aqui sem saber o que queria, sem saber que tipo de ajuda precisava. Você chegou aqui porque estava numa encruzilhada da vida e se sentiu com medo de errar, de não saber o que fazer, de ter remorsos, de ter tristeza. Você veio pra cá no limiar do desespero porque, no fundo, você sempre soube que havia alguma coisa errada e você não queria cair no buraco novamente. Hoje, você tem clareza, você identifica o que sente, você não está mais com “aquele véu” que cobre a realidade, como nós falamos lá atrás. Na minha opinião, você está liberto, em paz, em equilíbrio e, sendo honesta contigo, conheço casos de pessoas que passam por terapia por 10, 15, 20 anos e não chegam perto do avanço que você teve nesses meses. Você quis, procurou, se permitiu e, mais do que tudo, amou a mudança. Parabéns.

Mas ainda assim me incomoda. Eu tenho medo de que, sem tristeza, sem luto, sem dor e sofrimento, eu não vá superar o que eu sinto.

- Essa é uma ótima questão. Eu não sei a resposta, você vai descobrir com o tempo, mas eu acho que você vai superar sim, e se for sem sofrimento, muito melhor. Porque você está aberto à vida e a vida surpreende, você não está em pé de guerra com você, com as circunstâncias e, como me diz, não está sofrendo, embora se reconheça triste. Pare e pense, há um ano, você esperava todas essas transformações? Você mesmo me diz que não se arrepende de nada, porque você reconhece que, há muito custo, cresceu como pessoa e que não pode nunca abrir mão disso. Acho que é inevitável que você aprenda a conviver com o que sente em paz, até porque já está fazendo isso há um bom tempo. Essa sua impressão sobre tristeza e dor serem o jeito certo têm a ver com o que você foi, não com o que você é. Tem a ver com a depressão, que marcou a sua vida, e se alimentou, de momentos chave e que fez você assumir que as coisas são assim. Você fez esforços heroicos para equilibrar razão e emoção nesses meses todos e acho que devia, acima de tudo, se sentir orgulhoso de tanta força, de ter sido honesto com você mesmo e paciente. De ter sido tão gentil contigo ao mesmo tempo que foi honesto com relação a uma outra pessoa, por mais que isso tenha cobrado de você, tenha doído, tenha posto você sob pressão e em cheque o tempo todo. Nós falamos sobre construir sentido, sobre encontrar coisas das quais se orgulhar, e essa sua história toda, na minha opinião, é uma das suas maiores vitórias nesses meses todos e talvez da sua vida. São poucas as pessoas que podem sair de um relacionamento dessa importância com esse equilíbrio.

domingo, 2 de julho de 2017

Construção da paternidade

No meu exercício de construção do homem do amanhã tenho contemplado a minha infância e adolescência de olho nas lições que o percurso, nem sempre bem resolvido, pode me dar quando for a minha vez de, no melhor das minhas capacidades, orientar, guiar e dar condições ao futuro dos meus filhos. Provavelmente penso nisso porque hoje é dia 29 e somaria, caso vivo estivesse, 71 anos o meu pai.

E nesse exercício, um dos capítulos que mais me ocupa a mente é a questão de como se estruturar um futuro cheio de perspectivas para crianças que nascem em um mundo conturbado, à luz de questões ambientais, sociais e políticas que não apontam para um destino assaz alvissareiro. Água vai começar a faltar, nada garante que a dependência dos combustíveis fósseis irá diminuir, a população só aumenta num contexto de automatização e robotização do mercado de trabalho que muito me preocupa.

Mas, olhando a minha experiência, posso encontrar alguns pontos em que posso trabalhar para dar melhores condições aos que terão a honra de ostentar o meu nome, carregar minha informação genética e, com alguma sorte, fazer o favor de potencializar os meus talentos, aptidões e acresce-las de muitas outras. Quero, um dia, me sentir burro diante dos meus filhos.

E um dos pontos que encontrei é de não apenas instigar a curiosidade, coisa que meus pais sempre fizeram, mas tentar alimenta-la. Quero minhas crianças desbravando o mundo, quero que aprendam, entendam as coisas, e tenham mais do que nunca tive: iniciativa, desinibição e um pouco mais de coragem para desafiar os limites impostos – eventualmente até por mim.

Nesse sentido, vou começar uma poupança para ter dinheiro para financiar esse projeto, o da vida dos meus filhos. Vou começar a guardar dinheiro não apenas para poder financiar uma viagem ao exterior, um intercâmbio, educação de qualidade. Vou guardar dinheiro para que eles tenham recursos, que desenvolvam ideias, que as persigam e saibam que o combustível financeiro estará resguardado.

Tenho pensado assim depois de ler muito sobre a vida de grande empreendedores, em especial a de Elon Musk. O homem, com todas as suas excentricidades e perspectivas iludidas, tem grandes chances de mudar o nosso mundo em algumas décadas e, sabendo do seu perfil, de como vê o mundo, de como, sobretudo, cresceu e se tornou o que é hoje, identifico nele alguns traços que eu tive na juventude. Isso quer dizer que eu teria chance de ser um Elon Musk? Não necessariamente, mas apenas que talentos e predisposições mal aproveitados são um grande desperdício e num mundo que fica cada vez mais restrito às pessoas, instigar, valorizar e se esforçar para que seus filhos tenham como potencializar esses talentos é algo de extrema responsabilidade e importância. Paternidade, em qualquer medida, é um grande contrato, uma responsabilidade enorme e eu tenho levado isso muito à sério porque se não for para ser algo feito com atenção, zelo, planejamento e interesse, não faz sentido fazê-lo (até que você engravida alguém por acidente, a garota aborta e a vida nunca mais é a mesma; mas isso é tão 2010, é história para outro dia).

O que não quer dizer que estou jogando às costas de quem sequer existe a responsabilidade de mudar o mundo e virar bilionário. Não. Estou, ao contrário, me obrigando a cuidar do amanhã com o amor e paixão que atendo ao presente, garantindo que, na hipótese de ser pai, essas adoráveis criaturinhas tenham a chance de atingir, na vida, o que de melhor puderem e quiserem ser, seja lá isso o que for: de novo Werner Von Braun a artilheiro do São Paulo FC, de padeiro ou professora a piloto de F1, de oncologista renomada a pastor.

Minha primeira obrigação é zelar, fortalecer e dar todos os meios para que esses potenciais floresçam, amadureçam e frutifiquem.

quinta-feira, 29 de junho de 2017

Aforismos - Rumos

"Nenhum vento sopra para quem não sabe para onde ir". Sêneca.

Eu devia ter entendido, lido e me abraçado com os estoicos há anos.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Saudade

Eu tenho saudade do mistério da sua voz
eu tenho saudade da sua bagunça
da suas mãos improváveis
de sentir o cheiro que emana a sua nuca.
Eu sinto falta da sua boca delicada
dos seus olhos claros
sinto falta de você falar "jesus"
sinto falta dos cães
de ver uma taça de vinho na sua mão
sinto falta da sua pele
de delinear as formas do seu corpo
sinto falta de rir contigo
de contar o meu dia
de dividir uma série com você
de não saber o que fazer comigo ao seu lado
Sinto falta da churrascaria com você
de cozinhar
reclamar do seu açúcar que não adoça
sinto falta do seu amor que não volta
eu tenho saudade de quando você era
de quando existia
de quando era só planos e sorrisos
e nenhuma crueldade.