quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Blurriler

Eis o blurriler. Na verdade, é blue heeler, mas o brasileiro abrasileirou o nome e, agora, a raça de cães originária da Austrália, cujo pelo não tem nenhum tom amarelado, que esses são os red heeler, tem um nome português para chamar de seu.

Nada resiste à criatividade brasileira.

Era um desses o meu vizinho de algumas semanas atrás, um cão esperto e engraçado, que me chamou a atenção e inclusive encorajou-me planos de sequestros que não vieram a se concretizar. Alegre, curioso, espevitado e cheio de energia, o sujeito encantou não só a mim, mas também à minha mãe. Agora, me restam apenas uns vídeos e fotos do cão.

Depois que soube que o bicho não era o vira-lata que eu, sem saber muito sobre cães, tinha calculado, embrenhei-me numa pesquisa para descobrir de que raça ele era. Depois alguma pesquisa, vim a saber que esse espírito alegre e espevitado é bem típico desses pastores australianos.

Conclusão que, somadas a outras impressões que adquiri de outras raças, me leva a "rereconsiderar" muitas coisas e a incluir esses blurrilers nas minhas buscas por um filhote. É pena, no entanto, que recomende-se a esses cães espaços abertos amplos, porque criados para o pastoreio, eles tendem a se aborrecer enormemente em lugares apertados, dizem os criadores. Aparentemente, são comuns no Brasil porque são dóceis, bonitos e grisalhos, muito fáceis de adestrar, alegres e amam crianças. À parte do DNA australiano, são uma versão canina desse que lhe escreve, praticamente.

E aí, nesses grupos de classificados, eis que surge um irmão do meu vizinho à venda. 150 reais. Carteira de pedrigree e tudo mais. Ligo para a dona que precisa se desfazer do cão, pessoa simples e que já tem outros bichos e aparentemente adotou o filhote por compaixão, para descobrir que telefonara 30 minutos atrasado: alguém já comprara o passe do cão. E aí, disso tudo, só me restou outra foto.



domingo, 27 de agosto de 2017

Confronto

Hoje, eu me sentei para escrever como nunca tinha feito na vida, e como venho ensaiando a meses, sobre tudo, sobre nada. Fiz, no toque das teclas, o exercício de desacelerar o veio turbulento dos meus pensamentos para transferi-los, um a um e sem obrigação alguma de coesão, ao texto. O resultado, que está longe de encantar qualquer juiz dos rigores e prumos estéticos da expressão escrita, ao menos dá tino de uma porção de coisas para as quais eu tendo naturalmente a fechar os olhos, a esconder debaixo do tapete, a empurrar para de trás do pano de fundo por onde se descortina essa minha vida romanesca.

Em certo sentido, é melhor que meditação: o confronto com as suas ideias e com as suas racionalizações gera resultados mais drásticos que a experiência contemplativa do meditar.

Mas não é para os fracos, não é para todos, não é, na verdade, para ninguém. Não acho que terei energia para tentar o exercício novamente tão cedo.

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Nômade e insights tardios

Eu tenho um problema com sentir-me em casa. Tudo começa porque, em 2004, um incidente tirou as minhas referências de lar, de casa, de raízes. De lá para cá, a sucessão de anos trouxe paradas, chegadas e partidas, mas a sensação de lar, de morada, de lugar para chamar de casa sempre foi elusiva.

Em Ponta Grossa, a natureza daquele teto era o improviso. Delicioso improviso, aliás, de ter morado sozinho e ter apreendido a se entender, a se preservar, a se querer.

Em São Paulo, o ritmo nunca foi saudável, o convívio no tumulto nunca foi de encontro ao meu espírito de sossego e o resultado foi que, também, nunca estive em casa naquele tempo.

Em Curitiba, o teto era efetivamente meu, morava sozinho, bancava todas as contas. Mas a sensação de lar, de pertencer, era elusiva: ela oscilava, ia e vinha, e em meio aos desagrados de morar no centro da cidade, do prédio antigo, do apartamento de arquitetura infeliz, também não me sentia em casa.

E hoje, em mais um desses insights tardios, eu percebo que estar em casa, sentir-se ligado a um lugar, tem muito pouco com o espaço, com as condições financeiras, geográficas e físicas do lugar. Eu descobri, num período que agora completa um ano, que lar é onde estão os meus sonhos, onde moram os meus amores, onde fica o meu coração. Era por isso, por exemplo, que a sensação de pertencer, de morar, de lar, era elusiva e flutuante nesses anos de Curitiba, é por isso que ir embora me cortava o coração e vê-la partir era tão amargo quanto possível.

Eu aprendi a ser nômade, a ser sem casa, a não ter a minha morada ao longo desses anos, mas hoje me recordo da delícia de ter lar, de pertencer, de ser parte. Meu coração, que é cigano acostumado, cansa das esperas, cansa das andanças, cansa das incertezas. Hoje, eu quero morada, eu quero presente, eu quero futuro, hoje eu preciso de estada, do fim das chegadas e partidas, preciso e quero as novas páginas.

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Voyagers e Sagan

Por esses dias, as missões Voyager 1 e 2 da Nasa completam 40 anos. No nada absoluto que se tornou a questão da exploração espacial, a data será uma mera vírgula no noticiário do dia e pouco se falará a respeito agora, menos provavelmente em 10 anos, quando as missões completarão 50 anos. Quatro décadas depois, as duas sondas ainda enviam sinais à Terra e assim devem continuar por mais alguns anos, quando finalmente seus reatores esgotarem as pilhas atômicas que os abastecem, ou quando esgotar o suprimento de monopropelente usado para controle de altitude (acredite: poderia aborrecer todo mundo por horas explicando porque isso é importante para que as sondas se comuniquem com a Terra). E, mesmo que a energia dure por muito mais tempo, as Voyager chegarão a uma distância relativa da Terra em que o sinal de rádio enviado por suas antenas se tornará fraco demais para ser captado pelos nossos equipamentos.

Sendo absolutamente injusto, eu vou resumir em um parágrafo porque, do ponto de vista histórico e científico, as Voyager são importantes: foram lançadas com o objetivo de visitar quatro planetas (e assim o fizeram: Júpiter, Saturno, Urano e Netuno), dos quais ninguém sabia muita coisa na época do lançamento. Ambas foram “over-engineered”, adoro o termo, com o nada pouco ambicioso fim de, um dia, serem resgatadas por seres inteligentes: levam gravações de sons da Terra, descrições de como localizar nosso sistema solar, dizem quem somos, é um cartão de visita da nossa espécie enviado às estrelas, algo de uma sensibilidade e doçura que só caberiam mesmo em alguém da dimensão e do otimismo de um Carl Sagan.

Há um relato, inclusive, de que depois que as Voyager terminaram a viagem pelos quatro planetas, uma festa entre toda a equipe que devotou décadas no projeto foi organizada. Chuck Berry tocou, porque uma música sua ia no disco dourado das sondas, e Carl Sagan foi visto dançando. Que tempo para estar vivo.

Mas por que a Voyager é importante para mim? Eu era absolutamente interessado em espaço, em astronomia, e adorava ler sobre planetas nos livros de ciência e geografia da escola. E como os pulos de planeta em planeta das duas sondas levaram anos (só chegaram a Netuno em 1989, 12 anos depois de lançadas), acabei crescendo numa época em que tudo de novo que se descobria sobre o sistema solar vinha na esteira das duas Voyager. Na escola, aborrecia os professores com perguntas e me recordo que, na TV Cultura, todas as tardes, logo depois de Anos Incríveis, passava uma longa série de documentários realizada nos anos 1980 e que, usando material e dados coletados pelas Voyager, me encantava com os prognósticos de mares de metano em Titã, erupções vulcânicas em Io, tempestades supersônicas em Júpiter, crosta congelada e em constante tensão pelo efeito maré em Europa, ou o eixo exuberantemente inclinado de Urano que, em uma altura do seu período solar, faz com que o pólo sul esteja completamente voltado para o sol (já parou pra pensar? Não é bizarro? É como se a rotação do planeta fosse de sul a norte em vez de leste a oeste).

As Voyager, a sensibilidade de Carl Sagan e essa paixão pelo novo, pela descoberta, por aprender, por imaginar, por mesmo imbuídos do mais estrito espírito científico, enviar espaçonaves para o espaço e o tempo sem hipóteses a confirmar, apenas para descobri-las, é o que sempre me encantou nessa história que importa muito pouco para muita gente e, talvez, exatamente por isso, o mundo esteja do jeito que está.



Eu tenho alguns livros de Carl Sagan e, o mais importante deles, Cosmos, que importei de Portugal à falta de versão brasileira na época, guarda, na primeira página, a minha assinatura e o mês de compra do livro (atenção que tenho com toda a minha biblioteca), mas também uma observação importante, transplantada de uma revista que falava da sua morte em 1996, e que fiz, do alto dos meus 11 anos de idade: me comprometendo a ser um cientista e a trazer a inspiração libertadora do conhecimento às pessoas.

O detalhe é que essa anotação, no entanto, veio copiada de uns garranchos meus sobre as páginas amareladas à época de uma revista Super Interessante de 1996, que falava da morte e legado do astrofísico que inspira ainda hoje milhões de pessoas. Aos 11 anos, eu era muito precoce.

Sagan escreveu para Ann Druyan, sua esposa, que “na imensidão do tempo e espaço, é uma honra dividir um planeta e uma época com você”. Tenho impressão de que todos nós que, de alguma forma, tocados pelo exemplo de Sagan, pela jornada da Voyager e capazes de amar podemos dizer o mesmo em relação a todas essas coisas: é um privilégio viver nessa época e é uma honra enorme poder se inspirar em pessoas da dimensão de um Carl Sagan e em histórias de triunfo humano como as Voyager.

Eu grito

Tenho vontade de gritar o seu nome, como quem comemora, como quem faz gol, como quem levanta a taça. Soltar um berro, um brado retumbante. Quero chamar inteiro. Chama, chama que inflama, vem e volta, desaparece e acha que me engana, chama que não se apaga. Sem graça. Saudade daquelas letras que me notificavam, que vibravam no meu bolso, na minha mente. Mas é, agora, indiferente. Você diz que morreu, eu renovo. Você matou, eu ressuscito, você esfria, eu rimo triunfante. Você diz que é hora, que agora vai embora; eu planejo o casamento. Chega de drama, mulher, abre a porta, não sufoca a chama, que eu te incendeio. Tenho saudade de ter o seu nome, de poder dizer, de poder ler, de ter comigo, cinco letras, uma palavra, duas pessoas, todos os amores. Saudade de você, que se colocou onde não foi chamada, foi embora quando foi mais amada, e não volta mais, talvez porque nunca foi tão clamada. Você teme e esfria, eu suspiro e desarmo a sua desforra. Não, não digo que te chamo. Digo que te amo. Mas não, não volta. Digo sim que fica, que daqui você nunca foi-se embora. Quero uivar o seu nome, feito lobo. É fogo. Faça o fogo, que eu levo os fogos.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Telescópios, noites e quintais

Nas noites limpas de inverno, em que não há nuvem alguma no céu escuro, armo o telescópio que fiz em tempos de marcenaria, do tripé e suporte que cortei em madeira e compensado, da lente perfeitamente polida que veio da Alemanha, do suporte em que entalhei Atlas, essa figura tão interessante, o titã que recebeu a tarefa de erguer e levar o mundo nas costas, essa sensação que todos nós um dia sentimos e que, portanto, faz de todos nós, à nossa maneira e em maior e menor medida, um pouco Atlas.


No gramado, há um espaço que, se venha a calhar de o frio ser suficiente, fazemos uma fogueira e deixamos o pinhão sapecar na chapa. Eu monto o telescópio, afago o cachorro, espero pelas crianças. Aponto a objetiva na direção das estrelas, das nebulosas, dos planetas próximos e convido a curiosidade dos meus filhos, que me enchem de perguntas, que apontam o planetário do computador para outros destinos, e falamos das estrelas, e rimos, e tomamos, eu o café, eles o chocolate, enquanto vamos esperando a noite desandar.


Lamentamos o cintilar provocado pela oscilação de quilômetros e quilômetros de atmosfera que, se generosa por nos fazer o obséquio da vida, bem que atrapalha na hora de admirar o cosmos. Comentamos a estranha figura de Vênus, esse inferno de calor e desolação, o absurdo de Júpiter e aquele conjunto de planetinhas que, qual nós outros, poderiam estar agora sentados ao fogo do sol e, de microscópios em mãos, cogitar o mistério dessas criaturinhas que povoam o planetinha azul. Aí olhamos as nebulosas, onde nascem as estrelas, onde a vida espera por acontecer, onde algo maravilhoso ainda por descobrir aguarda quem, com sorte, se deparar com as pistas, com as novas verdades.


E aí explico que é mentira o que dizem na escola, que não é separando o que brilha do que não brilha que se distingue planeta de estrela, que na verdade nada lá em cima está brilhando, está sim cintilando, e só o faz por conta das camadas da nossa atmosfera a refratar a luz que vem de lá. E a nossa atmosfera não faz favor a ninguém, de forma que ao olho destreinado, vai parecer que Marte, e seu tom avermelhado, brilha a mesma quantidade que Betelgeuse, essa enorme estrela vermelha que, mesmo na lente do telescópio, não é mais que um pontinho despretensioso.


E aí paramos de falar das estrelas, porque a noite vai avançando, amanhã tenho a vida pela frente, eles a deles, que vão à escola, quem sabe sofrer do bullying dos colegas que insistem que estrelas brilham, planetas não.

Despedidas

Na última quinta-feira, notei que meu vizinho grisalho não ganiu em protesto pelo confinamento, não latiu, tampouco deu as caras ao muro, debaixo da minha janela. Algo está errado, pensei.

Na sexta-feira, se repetiu a ausência. No sábado, idem e no domingo eu já tinha certeza de que o cachorro havia sumido.


Alguém pode ter se encantado tanto quanto eu e sequestrado o bicho, pensei. Ou a falta de intimidade entre donos e cão acabou selando o destino do cachorro, que terminou exilado, expulso, entregue a outra família, quem sabe devolvido. Temi pelo pior, que a crueldade do rapaz, filho do casal, tivesse levado a melhor e o cachorro tivesse sido morto.


Resolvi investigar.


E fui até a vizinha, perguntei do cachorrinho que tinha aparecido na casa dela nessas últimas semanas, que notei que não estava mais lá. Minha esperança era a de que tivessem devolvido o cão para alguém e que ainda estivesse em tempo de adotá-lo.


Ao que soube que se tratava de pouso temporário, o bicho, de raça e até com carteirinha de pedigree, era de um conhecido e tinha precisado ficar por ali por uns dias.


“Mas se eu soubesse que vocês tinham gostado dele, eu tinha dado pra vocês. Era para ele ficar aqui três, quatro dias, ficou mais de um mês. Eu mesma tive que levar para o dono”.


Eu devia mesmo tê-lo sequestrado.


“Ele era tão doce, né? Eu não gosto de cachorro, gosto de gatos, mas ele era tão brincalhão, tão quietinho”.


Sim, ele era, e, no entanto, você o deixava dias e dias fechado num quarto escuro, pensei.


É pena que não tenha roubado o cachorro antes e que a vizinha, sem muita intimidade com caninos, não soubesse explicar de que raça era o meu vizinho grisalho.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Perguntas e respostas

Durante muitos anos, eu pensei que a grande questão da vida eram só as respostas. Que saber o que você quer da vida, do futuro, era, em si, tudo uma questão de saber o que são essas coisas, de saber o fim, sem saber da história, de saber do desfecho, sem se importar muito com o mérito da caminhada. Custou muito para entender que as respostas são vazias se você não souber das perguntas.

Eu não estou questionando os seus valores, eu estou questionando você para que você descubra se eles são realmente seus.

E o que eu quero da vida, no fim das contas, não foge muito do que eu sempre disse que queria. Continuo interessado em criar uma família, preciso morar no interior, onde faça frio.

Mas há uma diferença porque essas coisas nunca foram um compromisso meu comigo mesmo. Nunca foram mais do que nuances, sombras, contornos de um futuro hipotético que, confinado a uma redoma de mundo de sonhos intocáveis pela dureza da realidade, me eram elusivos: nunca soube direito o que fazer, como fazer, para ir atrás dessas coisas. E o motivo é simples: sem saber se esses sonhos são mesmo seus, se são mesmo quem você é, não há energia que apareça para planejar, para correr nas buscas e enfrentar as pelejas que são necessárias para construir essas coisas.

Mas agora as coisas mudam porque entender que essas metas são suas, e que são importantes porque na realização delas é que se encontra o sentido para essa vida, dá esse senso de urgência, de importância, de necessidade de fazer escolhas e de orientar um caminho progressivo que direcione as buscas dessas metas. É em transformar sonhos em metas que você se encontra, no fim das contas, com as perguntas, que você sempre achou que eram desnecessárias, para aquelas respostas que sempre ofuscaram a sua percepção do que era realmente importante e necessário.

O que não quer dizer que os sonhos convertidos em metas serão fáceis de serem conquistados, tampouco que serão realizados. Mas viver, de verdade, remonta em assumir certos riscos.

Em tempos nem tão remotos, essa constatação me causaria desespero porque a vida, da forma como eu a via, precisava dessa perfeição: esses sonhos teriam que ser realizados, do contrário, tudo mais teria sido em vão. A sabedoria está em abrir mão da perfeição de todas as coisas, de submeter suas ilusões e quimeras ao duro teste da realidade e em saber que o saldo, qualquer que seja, será sempre positivo se tiver sido fruto de sincera e entregue busca: mesmo que você não se encontre realizando o que hoje parece imprescindível, no fim das contas, há um grande conforto em saber que tentou, buscou, brigou e foi à luta. Nada que vier disso, no fim, terá sido em vão.

E tudo isso me traz a esse senso de urgência que é tão fácil confundir com pressa, com temeridade, com falta de calma, de foco. Não é nada disso. O tempo é precioso e, embora eu veja em tudo na minha vida um caminho que me conduz até esse instante, não posso esconder um certo senso de tempo perdido, de que é preciso apertar o passo. É algo nas linhas do que Saramago escrevera: “não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”.


O que eu quero é uma vida mais resolvida, de saber para onde ir e de como chegar lá. O que eu quero é viver num lugar perto da natureza, numa casa com espaço, onde possa abrigar amigos e família. Eu faço voto de fé no sentido de que o que eu quero é adotar ao menos uma criança, quero ter a companhia de cães, quero colocar minha ideia de empresa para funcionar para que tenha qualidade de vida, possa passar com algum conforto, e viver em paz. Quero aprender mais coisas, da marcenaria a o que mais me despertar interesse, quero fazer dos meus dias os meus tesouros, que divido com quem me é caro e importante. Quero parar de correr, quero viver, não quero mais fugir, cansei de esperar, quero construir.

O tempo é precioso, a vida é curta e eu, que vivi sempre disposto a me debruçar na janela e ver a vida passar, hoje vejo que não há tempo a perder.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Ryan Taubert - Becoming Human

Queria ter composto a música e editado o vídeo.

domingo, 6 de agosto de 2017

O dia em que aprendi com um cachorro

Meu vizinho cinzento e eu temos estabelecido uma rotina de dois amigos que, embora separados, se entendem bem. Me espanta que, no fim das contas, eu e minha mãe somos as únicas pessoas interessadas em dar carinho ao cão.

Hoje, mais cedo, quando o cachorro, depois de horas chorando foi posto, enfim, em liberdade, e começara a correr e tentar chamar a atenção dos donos indiferentes, senti por ele um aperto no coração.

Não vou ao ponto de dizer que ele sofre, que seja cruelmente tratado, porquê, de mais a mais, há um teto sobre sua cabeça nas noites frias e de chuva, não lhe falta comida e, até onde pude ver, o comportamento frio e indiferente dos vizinhos nunca se traduziu em agressão física.


Mas senti um aperto, sim, ao notar que, apesar da pouca atenção, da maldade de ser relegado a um ornamento, que passa a maior parte do tempo trancado num cubículo sem janelas, seu único interesse ao sair de lá é correr, brincar, interagir, se sentir parte de uma família. Cães, assim como cavalos, não enxergam maldade, não guardam rancor.

No auge de suas preocupações, assim que pode sair o mais rápido possível da prisão, estava aquele universo compreendido pelos poucos metros quadrados daquele quintal, em achar o resto de vassoura que ele vive arrastando e atirando para o alto, em correr em volta de quem, cansado do choro, viera ao seu resgate.

Quando, depois do tanto tempo que o ouvi chorando, depois de vê-lo solto e reagindo com a desinteressada doçura de um filhote, senti vontade de abraçar, me apertou o coração e senti a ameaça das lágrimas. Engoli em seco enquanto me admirava do quanto mesmo o microcosmo das pequenas e inconsequentes aflições de um cachorrinho podem ser análogas às nossas.

Sequer sei seu nome, mas sei o que ele sente e sei que, no meio das durezas da nossa vida de gente grande, que gostamos de achar tão importante e fazer tanto por complicar, há uma profunda lição em ser tomada a partir do comportamento doce, abnegado, fiel e inabalável de um cachorro de pouco mais de um mês de idade.

Eu ainda vou roubá-lo.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Planejando sequestros

Os vizinhos adotaram um filhote. É um vira-lata, disso estou certo, mas o bicho tem uma beleza toda sua que só pode ser explicada por uma feliz linhagem de misturas que resultem o pelo cinza, malhado de manchas escuras, e o focinho preto com uma listra de pelos brancos. Ele tem a cara estreita, olhar trigueiro, passa a impressão de esperteza.

Ele é grisalho.

Mas o que mais me encanta nesse cão é a sua tendência de jogar as coisas para o alto, de correr por todos os cantos, de se empolgar com qualquer coisa, de fazer menção de quem vai pular o muro quando me vê, por mais que o muro seja bem alto para o seu tamanho. Quando se dá conta da impossibilidade, ele apenas me encara, é como se dissesse “então venha você!”.


No fundo, acho que nos entendemos bem, mesmo com essa distância que nos afasta. O cachorro me encanta porque é doce, sem maldade, feliz e animado, além de ter esse aspecto tão diferente de pelos de um cinza tão escuro. Minha mãe e eu, ambos aproveitamos os poucos momentos em que fica livre da prisão para brincar com ele à distância.


Nem mesmo sei que nome lhe deram.


E me compadeço da sua sina. Meus vizinhos, veja bem, não são exatamente gentis com o bicho. São, aliás, desse tipo de gente que têm animais, no plural, mas não dedicam grande consideração por nenhum deles, aparentemente. Lembro do filho mais velho do casal, que entre outros predicados, tinha o de bater no cavalo que tinham (sim, no interior, algumas pessoas têm galinhas, gatos, cães, porcos e até cavalos em casa).


À troco de não causar danos, imagino, meu vizinho de quatro patas passa o dia todo trancado dentro de um cubículo de madeira. Mesmo quando o soltam, nunca vi nenhum dos moradores dar atenção, algum tipo de carinho, de brincadeira que ultrapasse servi-lo de ração. É como se o cão fosse um ornamento, e mesmo que ele seja um bem bonito nessa função, acho tão cruel um bichinho de tanta doçura ser alvo de tamanha indiferença. Sinceramente, acho que ele brincou mais comigo, com um muro entre nós, do que com os donos.


É comum ouvi-lo chorando lá de dentro do cubículo. Ao que eu cismo, comigo, como se pudéssemos conversar “eu sei cara, eu sei, é horrível”.


Me parte o coração porque o espaço parece apertado, nenhum pouco limpo e ele fica preso lá o dia todo, muitas vezes por boa parte da noite também.


Com que posso dizer que fui de não gostar de cães, ou ainda, de não saber que deles gostava tanto, a planejador recorrente de sequestros.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Limites, derivadas e integrais

Em 2003, eu tinha 18 anos e era calouro de engenharia civil. A vida não era, naquela altura, muito difícil, isso eu preciso reconhecer, mas eu fiz muito por torna-la difícil, ainda que sem essa intenção. A faculdade de engenharia distava 100 quilômetros de onde eu morava e eu ia para as aulas, no primeiro ano eram todas pela manhã, todos os dias de van. Acordava às 4 da madrugada, chegava em casa perto das 14 horas. Todo os dias.


Muita gente encara rotinas mais puxadas, isso é verdade, não estou dizendo que a minha era especialmente dramática a ponto de ter me atrapalhado a vida. Apenas ponho o fato à apreciação.


Além desse ritmo, o curso de engenharia, no primeiro ano, é permeado de disciplinas teóricas da matemática, todas bastante intensas. Há o cálculo diferencial e integral, o cálculo vetorial e geometria analítica, além do desenho técnico.


Aos 18 anos de idade, eu não estava nenhum pouco preparado para encara-las.


Como, aliás, bem pouca gente está nessa altura. Meus colegas, que também sofriam com as dificuldades, se uniam e estudavam juntos, vantagem que eu não tinha por não residir na mesma cidade e que tentei aplacar, tardiamente e sem sucesso, me hospedando por umas semanas na casa de um colega. Nada dava jeito, eu simplesmente era incapaz de entender limites, derivadas e integrais, as notas eram horrorosas, perdi o ânimo, cansei, desisti e fui fazer outra coisa.


Minhas reações foram todas justificadas à luz do que eu atravessava porque faltou dizer que eu estava sozinho, eu me fazia de forte. Meu pai, éramos os dois muito ligados, havia falecido em novembro do ano anterior, sem saber por exemplo que eu era calouro de engenharia, algo que ele adoraria saber e que tínhamos os dois planejado.


Eu sei que com meu pai vivo, o caminho teria sido diferente. Eu teria, provavelmente, contado com a ajuda dele para ir morar na cidade em que estudaria (não que tenha me faltado apoio, caso tivesse escolhido isso, mas me sentia mal em ir embora de casa, em sair de perto da família, em pedir dinheiro, em perturbar minha mãe com meus dramas de adolescente. Eu sentia que eu precisava ser grande, forte, resolvido). Minha cabeça estaria sem tanto peso, eu mais calmo e mais atento, pronto para sorrir para a vida (fui eleito, no meio de 30 cidadãos, como o mais bonito da turma), poderia ter aproveitado o primeiro ano, ido melhor nas disciplinas, ter cursado engenharia até o final.


Escrever cá essas coisas significa arrepender-se, ainda mais uma vez, depois de tantos anos?


Não.


Eu escrevo como forma de revisitar sensações e conclusões que eu sempre tive a respeito dessas coisas, mas que nunca pus no papel. Sim, é verdade, passei anos ruminando remorsos por A ou B, mas essa temporada passou. Hoje, e isso é dito com coração leve e com sorriso no rosto, eu reconheço que o caminho foi acidentado, longe de ser tranquilo, que em muitos momentos eu mesmo inventei meus obstáculos e criei meus tropeços, mas em nada eu teria feito algo diferente. Nada. Aliás, que fique registrado, hoje estudo rudimentos de cálculo e nado de braçada entre as abstrações matemáticas que me eram insondáveis naquela fase.


Essa é uma das minhas formas de viver o lado positivo da entropia.

É bem pueril dizer que você é resultado direto das experiências que colhe, é o bordão mais recorrente nos GIFs que suas tias compartilham no WhatsApp, mas mesmo bordões e chavões um dia foram algo original, foram percepções novas.


E havia, só que eu esqueci, uma palavra num idioma europeu, acho que o húngaro, que tem a distinção de não parecer com rigorosamente nada, e portanto ser bem mais difícil de aprender (duvido que seja mais difícil entender a língua magiar do que o chinês), que servia para classificar essa sensação de quem se depara com a realização de algo impactante na vida, mas que é, para os outros, despido de qualquer sentido profundo porque para os outros é um bordão, ou uma ideia gasta.


Gastei um parágrafo para me desculpar de escrever um chavão de tia velha, o que só mostra como o verbete húngaro faz falta.


Embora seja redentor, há, no entanto, um certo desespero nessas percepções. Elas podem ser tardias, inconsequentes, suas demais para fazer diferença na vida. Daí a lição a se extrair de viver em maior sintonia com o que você sente, quer, precisa e pensa porque, tivesse eu sido mais honesto comigo aos 18 anos, teria percorrido basicamente os mesmos caminhos da vida que corri até aqui, mas teria feito o caminho com menos peso, mais sorriso, passos mais firmes e decididos.


Ou talvez não. No fundo, se eu fosse mais do que sou hoje tão lá atrás, teria perdido uma série de sensações primeiras e experiências extraordinárias, para o bem e para o mal, que me fazem esse paradoxo do homem pronto para o futuro, do homem do amanhã no ontem. Do herói do amanhã e que vive preso no presente.


E hoje me vejo uma vez mais às voltas com os limites, as derivadas e as integrais. Ao contrário da engenharia, esses conhecimentos são bastante remotos, na melhor das hipóteses periféricos à minha nova formação (que saudade das Álgebras de Boole). Mas, ainda assim, esses colossos do cálculo diferencial e integral se avizinharam do meu cotidiano ameaçadores, carregados, pesados.

Mas o colapso de tantos anos atrás não ocorreu. Eu entendo, aprendo, exercito, resolvo exercícios, sem a menor dificuldade. Encontro, aliás, paz na solução das expressões e no prazer de saber que estão corretas, que o resultado é aquele, que não há ambiguidade alguma. Matemática, quem diria, é também terapêutica (venho construindo uma nova tese, essa ideia de que, para a mente bem disposta, tudo pode ser terapêutico. Tudo).

Eu já visitei, no semestre passado, essa questão, o motivo, a razão que explica porque eu sou, hoje, tão mais produtivo, por que hoje me encontro feliz, e até com saudade, das aulas, por que hoje nada mais me assusta, por que eu me encontro satisfeito com os meus talentos, com as minhas disposições, com a minha capacidade.

Mas a resposta ainda me elude, ela ainda me escapa, porque em algum momento, do garoto confundido, de bom coração e ensombrecido eu virei um adulto. A resposta, o momento, o ponto de inflexão existem, devem estar no meu passado, brilhando oculto em algum lugar, mas não sei se me importo muito com isso, com a capacidade de isolar esse instante na memória. No fundo, nem tudo na vida precisa de uma resposta, de uma linha do tempo estritamente precisa, que conta o começo, meio e fim de todas as coisas.

Com o que me preocupo, mesmo, é comigo, com meus sonhos, com o que sou, hoje. Com o que eu persigo para o meu amanhã e com a manutenção e fortalecimento dessa minha certeza de que o melhor está por vir. E o importante mesmo nessa percepção é que ela não nasce de um fatalismo reverso que acha que sou predestinado para qualquer coisa. Não. Nasce, sim, de uma convicção de que, de coração aberto, de boa vontade, de compromisso com o amanhã e com muita vontade as coisas vem, as coisas acontecem, você vive, cresce, se preocupa menos e sorri muito mais.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Bits, bytes e desafios

Eu preciso de coisas para fazer, para me desafiar. Depois do 8080 Monitor, me dei à novas empreitadas, a novos desafios. Se não, vejamos:

- Criar, do zero, minha própria distro Linux. Achei que seria desgraçadamente difícil, foi moleza. Escrevo essas linhas a partir do LibreOffice e as publico via Chromium, que roda dentro do SOSF 1.0, ou “Sistema Operacional Sem Frecuras”, o meu primeiro e bem exclusivo sistema operacional. Ele é rústico, simples, feio, ainda não está 100% pronto (sou eu, basicamente) e precisa desesperadoramente de alguém que o otimize com relação ao meu computador, porque essa autonomia de bateria de 30 minutos está simplesmente ridícula. Mas funciona e fui eu quem fiz.

- A derivada disso, aí sim vai dar trabalho, é adaptar o SOSF 1.0 para rodar no Raspberry Pi e aquele processadorzinho ARM ridículo. Na verdade, eu nem sei por onde começar (o que é um bom sinal).
- Sondar o curso de marcenaria para voltar às aulas que me fazem falta. Ainda sem novidades nesse campo. Não posso, curioso, ir lá tirar vaga de quem precisa de emprego, afinal de contas.
- Criar um emulador de Nintendinho usando os conhecimentos adquiridos na aventura do 8080 Monitor. Tem sido absurdamente difícil, o NES é uma máquina muito mais complexa do que o arcade e eu tenho me atrapalhado muito com endereçamento de memória. Vou tentar outra abordagem, passando tudo para Python, que deve ser mais fácil.
- Traduzir e desenvolver um fork do MOD Tarsier Space Telescopes do Kerbal Space Program. Tradução: feito, levei um dia e ficou bem engraçado - minhas piadas com entropia, pilhas não inclusas e toda a confusão relacionada ao fato de que o Hubble é míope me deixaram profundamente orgulhoso. Entretanto, mexer nos parâmetros para adequar o MOD ao que eu considero ideal tem sido bem difícil.
- Não vamos tocar no assunto do mandarim.
- Desenvolver o aplicativo do reversos.com. Já temos um alpha!

domingo, 30 de julho de 2017

A outra morte de Tertuliano Máximo Afonso

É morto Tertuliano Máximo Afonso. O que, aliás, não chega a ser uma grande surpresa para quem teve a oportunidade de ler o romance de onde aquele homem duplicado espocou nessa realidade mentirosa, para vir aqui ser outra cópia, neste caso de outro sujeito, confundido e ensimesmado, que achou na fragilidade do professor de história de nome estranho e de conflitos profundos uma cópia sua. Foi pelas minhas mãos que Tertuliano Máximo Afonso ganhou segunda vida, foi pelas minhas também que se findou a sua história.

Rei morto, rei posto.


Tertuliano Máximo Afonso foi uma ótima desculpa para manter meu nome oculto num tempo em que eu levava tudo muito a sério, especialmente esse blogue e os exercícios criativos, exagerados, literários, jornalísticos, poéticos, de ficção e verdade, de desavergonhadas mentiras que ele abriga. Não me levo mais tão a sério, o que é uma delícia, me dá a chance de rir da minha seriedade de antanho e de me compadecer da ingenuidade e simplicidade do espírito inocente que, sem enxergar muito da vida, foi se comparar ao personagem do Saramago e dele emprestar nome à guisa de pseudônimo misterioso.


Num tempo em que toda gente se picava de intelectual e de profunda, ter um blog era cartão de visitas indispensável para arrancar suspiros das garotas e fazer inveja aos seus pares. Não bastava ser bonito, sorrir, ser gentil e passar o ar de tímido, misterioso. O blog era indispensável naquele tempo. E se o blogue ainda viesse acompanhado com um confuso e complicado pseudônimo, melhor ainda. Daí nasceu emprestado Tertuliano.


Parei com tanta bobagem.


Mas a necessidade de me esconder, de ocultar o meu verdadeiro nome, permanece porque eu adoro um bom mistério. Então, agora toca a escolher outra figura remota da literatura, uma que se adéque de forma mais apropriada ao sujeito que sou hoje, tão distante das querelas de identidade, timidez e pura loucura que atormentavam nosso falecido Tertuliano. Reli O Homem Duplicado há algum tempo e ainda tenho comigo a sensação de pasmo estranhamento que tive ao ver que, no fundo, Tertuliano Máximo Afonso é um tremendo babaca e que eu, se um dia fui mesmo tão parecido com ele, devo ficar muito contente em não mais sê-lo e em me reconhecer tão diferente do personagem.


Agora, portanto, escolho Liévin. De Anna Karenina, clássico da lavra de Leon Tolstói. Liévin, no livro, disso me recordo muito bem, tinha 32 anos, que são os que eu também conto no presente instante. Liévin tinha espírito irrequieto e, das muitas sensações que ainda tenho de um romance lido há oito anos, fica a lembrança de que Liévin era um homem simples, devotado a crescer, a buscar, a construir, tudo isso resguardando um sentido profundo de seus valores, de seus compromissos, de sua essência. Liévin, como eu, buscava desvendar os caminhos para a vida mais plena, para a vida feliz, para a construção de sentido num mundo muitas vezes hostil e indiferente. Liévin se esforçava nessas buscas, na construção de sentido, de importância, em desvendar o que a vida importa e significa.


Liévin sou eu. Liévin é o que eu sou hoje, é o que eu quero ser amanhã: cada vez melhor, um homem devotado à ideia de crescer, de evoluir e de sair em busca da vida, da felicidade, do amor e do sentido de todas as coisas.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Difícil

A lista de coisas difíceis na vida é enorme. É horrível encarar a morte de alguém próximo, é profundamente complexo o processo de luto, é absolutamente violento questionar os seus valores, reexaminar a vida, por em marcha um novo modelo de como aceitar o que a existência dá a cada dia. Empregar as lições que você coleta na sua rotina também é para poucos. É incrivelmente desafiador a tarefa de construir sentido em coisas que, numa primeira análise, são vagas e até mesmo negativas. Mas a gente consegue, a gente sua sangue, você luta, você bate na mesa, respira fundo, infla o peito e vai, faz, vence e sorri.

E tudo isso é muito bonito. Mas, PQP, aprender Mandarim beira o impossível.

Mas, para falar a verdade, eu ando interessado no difícil. Vida fácil não é vida ganha, vida sem fazer força é letargia e letargia, bem o sei, é doença.

De volta à programação normal

Devagar, sondo o entorno, espio, não faço o menor ruído, espero. Nada. Aparentemente, estamos seguros, sem mais aparições. Então, desbloqueio o blog e sigamos de volta à programação normal: sentimentos, coração aberto, otimismo e esperança pela vida, ah há vida!, que aqui, no fundo desse coração espartano feito de camuflagem, nada morre, tudo floresce, tudo evolui e tudo sorri.

E amor. Porque amor, no fundo, sempre foi o meu assunto preferido.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Para quem ainda se bate

Paz é a situação em que você está na vida. Desde que você não oponha resistência à ela.

domingo, 23 de julho de 2017

Diálogos e crianças

Na rodoviária, um pai entretinha o melhor que podia o curioso deslumbramento do garotinho que, olhando a todo movimento, disparava suas perguntas. E eu, sentado ao lado e na minha espera e cismas, resolvi distrair a mente do que tinha comigo e prestar atenção no diálogo.

O garoto, então, esgrimiu um “pai, por que o ônibus faz barulho?”. Confesso que não prestei muita atenção no esforço que o cidadão faria para responder e comecei a reagir como se fosse meu filho, e eu o desafiado a respondê-lo. No começo, fiquei feliz com a primeira pergunta, que é de coisas técnicas, e eu sou bom nessas coisas, posso dizer com facilidade porque um ônibus faz barulho: faz barulho porque tem lá dentro um motor e um motor é uma máquina que transforma um tipo de energia, nesse caso óleo diesel combustível, em outros: som, movimento e calor.


Mas responder uma criança assim não é batalha ganha. Não porque você levanta outras questões (eu adoraria, daí em diante, ir de item a item dando as definições), mas porque a resposta acaba alheia demais ao que, eu acho, um guri vá entender. E, depois, se o guri fosse esperto, poderia desarmar todo esse raciocínio com “mas então porque um ônibus elétrico não faz barulho?”.


E aí me encontrei com a dureza desse desafio de paternidade, que está no diálogo, na forma pela qual estabelecemos as pontes pelas quais trocamos ideias e sentimentos, ou mesmo definições de mecânica, física e química.


Não sei se minha resposta seria adequada para um filho meu. Não sei, também, se quando ele nascer, eu não vá virar uma outra chavinha cá comigo e ganhar todo um novo vernáculo dedicado a como construir conversas com essa criaturinha de sorte que minhas definições e respostas sobre a vida, o universo e tudo mais façam-lhe qualquer sentido.


O que eu sei, crianças, é que espero ter sempre paciência e a calma para responder, para pensar, para dar a vocês somente o melhor de mim. Seja na hora do carinho, da brincadeira, da bronca, do afeto e da hora de dizer porque ônibus fazem barulho.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Zen estoico de menos dois

Eu ando pelo meu caminho
De longe, avisto um buraco
E nele eu caio sozinho
No escuro, me vejo perdido, em desespero

sinto a alma caída
E sem esperança.
Mas não é culpa minha
eu só fui ingênuo, feito criança
Levo anos para encontrar uma saída.

Eu ando pelo meu caminho
E, lá adiante, há um buraco no meu rumo
Eu disfarço, minto, finjo que não vejo
E eu caio no buraco novamente
O que me dá o ensejo
de viver meu delírio e desespero,
em que grito, não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha, felizmente
Me consumo em mais uma eternidade de tempo para de lá escapar.

E eu ando pelo meu caminho.
Mas, lá na frente, há um buraco enorme
Dessa vez eu não o omito da minha consciência.

e meu olhar vigilante já não dorme
Mas, novamente, eu caio no escuro, no abandono, no erro
Já virou um hábito
Mas é no escuro, no amplo e irremediável escuro

que se abrem esses meus olhos,
e é aí que eu enxergo:
sinceramente
Sei onde estou
e sei que cá estou por culpa minha.
Levanto, saio imediatamente.

Ando pelo meu caminho.
Vai lá na frente uma depressão que esconde um buraco
E eu dou a volta.

Sigo caminhando e sorrindo,

mas agora eu invento o novo
eu abro nova vereda
e faço do outro o meu novo caminho.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

Balanços e óbitos

Aí eu faço balanços. E me lembro que eu não sou de jogar fora, que eu sou uma ótima pessoa, que eu realmente me esforcei e que, antes de apontar o dedo na direção dela, abaixei a cabeça e fui cuidar da vida, estudar o futuro e me corrigir, na ingênua expectativa de que ela faria o mesmo. Que exilado e rejeitado conjuguei tudo em função de nós, mesmo lendo os sinais todos que me alertavam do fim, não arredei pé e fiz questão em deixar o coração aberto e os sentimentos todos puros. Que, mesmo desconfiado e ciente do que aconteceria, fiz sucessivos votos de confiança e a esperei de forma justa, ainda que engolindo em seco alguns sapos (quantas pessoas teriam essa postura?). Lembro que sou gentil, romântico e carinhoso, que sou fiel como um cão, que em nada nesses anos todos fui inflexível: nenhuma das minhas restrições, que foram de encontro ao comportamento dela e não foram combatidas de forma honesta e racional, sobreviveram. Eu comecei a adorar cachorros, por exemplo, a tolerar hábitos, encarar com normalidade morar em São Paulo e a não ligar para coisas que sempre achei que me incomodariam; ela ser desorganizada virou até um charme porque me dava espaço para eu contribuir, para eu organizar, para eu mostrar afeto e eu adorava mostrar afeto por ela. Meu esforço e convite a abertura, aceitação e tolerância, além de franco crescimento pessoal e evolução são o maior testemunho do meu compromisso, do meu esforço, da minha disposição de caminhar e de ir em frente - pena que nada disso é suficiente quando o amor da outra pessoa acaba. Isso tudo, pelo menos, redunda em um saldo positivo no fim desse exercício de futilidade (o que não vai a lugar nenhum eu considero fútil): saí dessa história muito melhor pessoa do que entrei.

Mas eu recordo que começamos muito, muito bem e que, de minha parte, estávamos muito, muito bem (é um crime soçobrar às paixões que me despertaram no peito naqueles últimos dias e não ter o privilégio de vivê-las). Acabar tudo assim, naquele auge que antecipa grandeza (porque tínhamos tanto para crescer), é o que machuca mais. Eu fui muito feliz ao lado daquela mulher e estava 100% convicto e investido na ideia de que manteríamos e construiríamos em cima dessa felicidade. Valorizava nossas ambições parecidas, o valor que damos às mesmas coisas, o firme conceito de fidelidade, o companheirismo, o apego à família, a ciência de que a vida pode, e deve, ser mais doce e tranquila. A ideia de morar, viver, de por metas no meio do caminho e estratégias para persegui-las a dois me parecia tão próxima, tão imediata que passei a ver a ideia de morar com ela, de trabalhar, de dar os passos e tomar as decisões que precisavam ser dados e tomadas como inevitável para esse ano: era tudo tão presente, tão possível, tão delicioso, tão excitante. Pena que ela foi tão infeliz ao meu lado, quisera eu ter percebido antes o desgaste.

O que leva à pergunta: o que faltou? Amor? Não de minha parte. Afeto? Não. Princípios e objetivos parecidos? Também não. Valores? Não. Compromisso? Sim, mas não também. Porque não foi falta de compromisso, ou ainda, não foi falta de valorizar a importância do laço, mas foi falta de, de fato, unir as pontas soltas. Faltou, e aí é só opinião e meu ponto de vista, mais abertura de parte a parte, mais diálogo (especialmente do meu lado) e maior clareza sobre como lidar com um compromisso (também culpa minha). Do lado dela, só posso especular, mas estimo que os sentimentos ali já tinham esfriado há um bom tempo.

No começo, criamos um cabo de guerra inocente. Eu testava todos os limites, ela se fazia/era forte e os expandia cada vez mais. As brincadeiras foram saindo do controle e viraram crueldades. Eu era alimentado pela sede dela em provar-se forte e digna das minhas exigências ridículas. Eu achava que, no fim, ela gostava de ser testada, porque ela dizia que era "bruta" e que eu estava aprendendo sobre ela. Não é bem assim: ela sofria, eu não aprendia nada e, anos depois, descobri que ela, de bruta, não tem muita coisa: é toda delicada e sensível. Nada disso, veja bem, é ruim. O ruim foi nunca ter conversado sobre isso, ou eu ter sido mais maduro e percebido melhor as coisas, os limites.

Nós nunca conversamos, na verdade, sobre nada sério e de forma séria - o que é culpa minha, o meu grande ônus, o meu grande defeito nessa história: eu reagi mais às circunstâncias em vez de ser mais pró-ativo, de me antecipar melhor, de me abrir, de me entregar antes e mais. Foi uma escolha, mal calculada e infeliz. Não fiz por mal, de forma alguma, e não me torturo por essas coisas, mas foi um grande erro. Eu demorei para perceber isso e essa é uma grande, enorme culpa minha, essa inaptidão de colocar as coisas em ordem, de falar, de perguntar, de ouvir, de trocar ideias. De vestir a camisa mais cedo, de encampar as ideias que precisavam ser tidas e praticadas para orientar o nosso caminho. Faltou matar no peito antes, chamar, dizer: vamos.

De resto, houve a depressão que me impediu de me entregar antes ao que sentia. Sem isso, essa entrega, torna-se inviável se abrir, se doar como eu devia ter feito. É uma sensação engraçada essa, de assumir responsabilidades por coisas que, no fim, nem eram exatamente culpa sua, mas de uma forma ou de outra, estavam na sua mão para corrigir.

Mas... não me arrependo de nada. Nesse último ano, eu estava acordando, pronto para a vida, completamente disposto e entregue àquela mulher, cheio de amor, de carinho, de interesse: se ela argumentasse qualquer coisa, eu ouviria e iria em busca do que quer que seja porque estava devotado a essa ideia de nós. E nada dá maior testemunho dessa força de vontade do que a minha revolução, do que a minha fiel espera, do que a solidez dos meus compromissos. Nesse último ano, a imagem de eu e ela, contra tudo e contra todos, conspirando uma vida a dois, nossa, enorme e inteira era algo natural, certeiro, algo que eu queria construir, missão para qual estava me preparando, evoluindo.

Mas, se eu por um lado sempre errei no diálogo, ela também escolheu guardar cargas e rancores diversos para um ponto de ruptura, nós dois fomos omissos por inocência e, no fim, ela decidiu ir embora porque cansou, o que é legítimo e previsível. Eu não a julgo e censuro por ter cansado, por ter ido. Entretanto, me entristece que tenha cansado sem que tenhamos conversado antes, sem que tenhamos tido a maturidade, a abertura, a preocupação de zelar por nossa união mais cedo. É triste que tenhamos nos omitido.

O peso desses desencontros que explica porque, desde que brigamos, não houve mais nós: cansada, ela se omitiu de qualquer diagnóstico e solução para corrigir uma situação trivial de casal que se desentende. No fundo, o que eu fiz de errado nessa história foi ter-lhe dado de bandeja a desculpa para ir embora na forma de uma briga que, a rigor, teve erros de parte a parte, mas dos quais só eu fui penitente. Desde ali, estava dada a letra da metade de um amor morto. Porque aqui, vive.

E eu também acho extremamente revelador o cansaço dela a meu respeito em contraste com meu estado de paixão desvairada no fim do ano, a minha carência dela, a minha sede daquela companhia, daquela mulher, a minha vontade de tocá-la, de abraçá-la, de falar com aquela criatura por meio do meu toque, da minha voz e do meu olhar; minha voz pedindo atenção e o silêncio de quem, se não compreendia o pedido, também não perguntava nada mais para entendê-lo. Infelizmente, a mulher que eu mais amei e que semeou tanta coisa boa na minha vida, já estava esgotada de nós há muito tempo e o que eu fiz de ruim, na verdade, foi ter lhe dado a desculpa para o fim. Tenho impressão que se não brigássemos, nuns meses ela viria com o fatal "estou confusa/temos que conversar" e aí daria tudo na mesma.

Acabou, infelizmente, porque ela cansou e os rancores todos nunca foram tratados. Eu devia tê-la acalmado, tido a clareza de fazê-la me entender melhor, de estabelecer formas de diálogo mais profundas e íntimas de sorte que ela percebesse melhor as coisas que se passavam comigo, de ter dito o que eu via no futuro imediato, de quão sério eu estava sendo, construir essas pontes de conversa mais amplas para ter dito ainda antes daquela viagem que eu estava me acertando intimamente para que 2017 fosse nosso grande ano de mudanças, de evoluções. Mas para ter abordado essas questões todas, eu precisaria da estrutura emocional que eu tenho hoje e que me era inacessível naquela altura porque eu sequer reconheceria que havia um problema, há toda uma letargia associada a esse piloto automático de um relacionamento que me parecia tão natural, tão condenado a funcionar, tão firme e pronto para o amanhã e a eternidade. É um paradoxo irredutível: para consertar os erros, eu teria que ser o homem que sou hoje, ciente deles e dos problemas, e das ferramentas disponíveis; conhecimentos todos que só nasceram em mim depois de profunda, sincera e ponderada análise a respeito da crise criada pela ausência dessas percepções todas. É tão triste se despedir desse amor com a lucidez de que os erros foram tão pueris, os problemas tão fáceis de ser arrumados, os sentimentos tão intensos, os objetivos tão parecidos, os inícios de convivência tão doces e promissores, a verdade das minhas entregas tão honesta. É a maior desgraça nessa história: ao menos de minha parte, era tudo tão possível, verdadeiro e tão apaixonante.

Mas, claro, tudo isso é só o meu ponto de vista. Provavelmente, estou sendo injusto numa porção de coisas, se não mesmo completamente incorreto (e eu sei, sim, que em diversas ocasiões fui injusto, duro e abjeto no trato com ela, especialmente naquele começo de testes e crueldades, que cavei uma das covas em que ela nos sepultou e nunca, nas minhas ponderações, me omiti dessa penitência). Mas, opiniões, afinal. Entretanto, o que fica dessa história, além de uma porção de lições importantes e que carrego comigo, é um amor enorme e muita gratidão. Eu a respeito e amo, mesmo, apesar de tudo, e ainda sinto só coisas boas por ela porque, ao menos no que se refere à mim, acabamos naquilo que eu reconheço como um dos momentos mais felizes da minha vida que só não brilha completamente redentor sobre a minha cabeça porque há uma mancha e essa mancha é o buraco que ficou quando me arrancaram o coração do peito. É frustrante porque eu estava absolutamente pronto para a vida ao lado dela, estava completamente apaixonado por aquela criatura e sorvendo as delícias das memórias que me vinham dos excelentes momentos que tivemos juntos em 2016 e das coisas que eu planejava e via no amanhã. É uma grande perda, uma grande pena porque - mais uma vez, é um ponto de vista pessoal - tudo saiu do controle no auge, no melhor momento, na fase que antecipava os passos decisivos em direção ao futuro.

Se eu não me sentisse assim, talvez esse texto nem existisse e tudo estivesse bem resolvido há meses. Mas é o ônus de amar, muito, uma pessoa que não existe mais e que não está nem aí - infelizmente.

Eu fiz tudo que podia, dentro da exígua margem de manobra que ela me deixou para sobreviver no limbo desse tempo e não perdê-la. Isso me conforta. Assim como me conforta lembrar que, no começo de tudo, setembro de 2012, eu disse: daqui um tempo, você cansa dos meus defeitos, as minhas fraquezas deixam de ser bonitinhas, aí você escolhe uma desculpa qualquer e vai embora. Todas vão sempre embora. Ela, apaixonada, respondeu que era diferente, que nunca, que com ela era para sempre. Ela foi a primeira a usar o para sempre.

E sobre essas palavras bonitas, esses pra sempre, fica mais uma lição: é muito fácil sair prometendo mundos, dizer essas coisas no auge da paixão. O difícil é manter de pé essas coisas nas crises, depois que as falhas e defeitos do outro ficam evidentes, depois que o turbilhão do coração inflamado passa e a realidade se assenta. Eu, com todas as culpas (e não são poucas) e defeitos que tenho, ao menos posso dizer que depois de toda essa confusão e de todos os problemas, ainda vejo meus votos de até o fim da vida como firmes e verdadeiros. Na equação da vida, eu fiz dela uma constante, diretamente proporcional a coisas boas, a amor e felicidade. Na equação dela, eu era uma variável que, no fim, tendia a zero: no resultado dela, eu sou irrelevante.

Mas, no fim, ela cansou, escolheu uma desculpa e foi embora.

E é uma desgraçada pena que eu tenha, sem querer e de forma bastante infeliz, contribuído para que ela tenha cansado, escolhido uma desculpa e ido embora.