"Nenhum vento sopra para quem não sabe para onde ir". Sêneca.
Eu devia ter entendido, lido e me abraçado com os estoicos há anos.
quinta-feira, 29 de junho de 2017
Aforismos - Rumos
às 15:51 0 comentários Marcadores: Aforismos
quarta-feira, 28 de junho de 2017
Saudade
Eu tenho saudade do mistério da sua voz
eu tenho saudade da sua bagunça
da suas mãos improváveis
de sentir o cheiro que emana a sua nuca.
Eu sinto falta da sua boca delicada
dos seus olhos claros
sinto falta de você falar "jesus"
sinto falta dos cães
de ver uma taça de vinho na sua mão
sinto falta da sua pele
de delinear as formas do seu corpo
sinto falta de rir contigo
de contar o meu dia
de dividir uma série com você
de não saber o que fazer comigo ao seu lado
Sinto falta da churrascaria com você
de cozinhar
reclamar do seu açúcar que não adoça
sinto falta do seu amor que não volta
eu tenho saudade de quando você era
de quando existia
de quando era só planos e sorrisos
e nenhuma crueldade.
sábado, 24 de junho de 2017
De degrau em degrau
Nós vamos de falar até as duas da manhã para falar por duas horas por dia, para dois minutos por dia, aí falamos há dois dias, e depois, nunca mais.
às 17:47 0 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 23 de junho de 2017
Daughter - Youth
"Shadows settle on the place that you left
Our minds are troubled by the emptiness
Destroy the middle it's a waste of time
From the perfect start to the finish line
And if you're still breathing, you're the lucky ones
'Cause most of us are heaving through corrupted lungs
Setting fire to our insides for fun
Collecting names of the lovers that went wrong
The lovers that went wrong
We are the reckless
We are the wild youth
Chasing visions of our futures
One day we'll reveal the truth
That one will die before he gets there
And if you're still bleeding, you're the lucky ones
'Cause most of our feelings, they are dead and they are gone
We're setting fire to our insides for fun
Collecting pictures from the flood that wrecked our home
It was a flood that wrecked this
And you caused it
And you caused it
And you caused it
Well, I've lost it all, I'm just a silhouette
A lifeless face that you'll soon forget
My eyes are damp from the words you left
Ringing in my head, when you broke my chest
Ringing in my head, when you broke my chest
And if you're in love, then you are the lucky one
'Cause most of us are bitter over someone
Setting fire to our insides for fun
To distract our hearts from ever missing them
But I'm forever missing her
And you caused it
And you caused it
And you caused it".
às 10:30 0 comentários Marcadores: Memórias, Rádio blogue
terça-feira, 20 de junho de 2017
Revelações
Houve um começo de fevereiro em que me sentei com a dura missão de escrever, custasse o que custasse, o que eu sentia, como me sentia e o que se passava comigo, amortecido de amor e saudade, de carinho, de felicidade, de esperança, mas assombrado de medos, de pessimismo, de um juízo que gritava: cara, para com isso, vai lamber essas feridas, se recolhe, porque o tempo virou, vem chuva aí, daquelas de lavar a alma e cortar a pele, e a tua pele anda tênue, anda fina, não vai se escapelar nessa água feito lâmina. Porque vem tormenta por aí. Se protege porque ninguém vai proteger você.
Saiu dessa missão um texto, um longo texto, do qual só conservei fragmentos num exercício que, hoje, me parecia treino para essa missão de selecionar as lembranças que eu quero, e gosto de ter, enquanto deleto o que machuca, o que não deu certo, o que doeu.
Nesse texto, longo texto, refleti com calma a cada palavra e me propus a escrever dando resposta à pergunta primeira: por que, por que eu me sinto dessa forma, e nessa intensidade, e desse jeito a respeito de alguém que não me quer por perto? O resultado foi uma coleção de confissões, de epifanias, de palavras e mais palavras, de 43 páginas, de um extrato completo, sincero e sem restrição alguma do que sou, sinto, penso, preciso, quero e do que pretendo. A minha verdade, sem tirar, nem por.
Mas a passagem mais importante foi mesmo a resposta para a pergunta que abriu essa comporta, resposta que veio calma, a princípio, parecia uma meada, um novelo que eu ia desfiando no escuro, enquanto, às apalpadelas, seguia o rumo quieto de uma floresta fria e silenciosa. Puxando essa meada eu percebi que eu não estava, necessariamente e somente, amando a alguém. Eu estava em processo de paixão: aquele arrebatamento ensandecidos que nos consome a alma, que nos balança o juízo, que nos arrasta num vórtice de loucura, de doce loucura. Eu estava completamente apaixonado por uma pessoa a quem eu já amava. O fio tênue de raciocínio, de memória e sentimentos logo se converteu em algo que parecia mais com um corrimão e, da floresta escura e silenciosa, eu saí numa clareira ensolarada de onde, ao longe, eu divisava o meu futuro.
A conclusão da paixão que brota a despeito de já haver amor pode parecer trivial e, a quem nunca encarou esse diâmetro de sentimentos, até inocente, sequer reveladora. Mas não é nada disso. A percepção de que eu me apaixonara novamente pela mulher que amava, já naquela altura de forma decidida e firme, me colocou em parafuso porque me apresentou a uma série de verdades duras acerca da minha vida, das minhas circunstâncias, do tempo.
Mas, acima de tudo, me encheu de força, de alegria e eu me peguei chorando, vertendo lágrimas que não eram de dor, de tristeza, que não eram de felicidade: eram de emoção, era como se a percepção clara de que eu me apaixonara por aquela criatura viesse a tocar em algum recesso da anatomia humana, profundamente ignorado e intimamente ligado com o que quer que temos dentro de nós e que conduz as nossas emoções. Eu vertia lágrimas como se fossem o suor, o suor do meu coração calejado que, à luz dessa revelação, da esmagadora importância dessa epifania, enxergava-se, enfim, na sua totalidade. Naquele momento, meu coração conheceu a si mesmo.
Essa foi a maior, a mais doce, a mais dolorida, a mais esmagadora vitória de toda a minha vida: eu enxerguei, pela primeira vez, o que é amar abnegadamente uma pessoa e me senti livre, me senti feliz, me senti pleno porque eu não só me reconhecia capaz de sentir algo desse tamanho, como era capaz de isolar o fragmento de tempo, como se tempo fosse uma substância que pegamos e guardamos no bolso, o fragmento exato de tempo em que eu, sentado à mesa simples, houvera me apaixonado pela mulher que eu mais amei na vida.
Há uma força transformadora no amor, há uma liberdade incrível na capacidade de sentir, identificar, catalogar e viver seus sentimentos com clareza, com firmeza e sinceridade.
Se uma divindade, se uma força qualquer do cosmos, me desse um poder absoluto para que eu fizesse alguma alteração qualquer no mundo, eu garantiria que à todas as criaturas que vivem, amam, se decepcionam e tentam de novo nesse universo tivessem garantidas na sua existência passar por essa revelação ao menos uma vez. Tenho certeza de que o universo seria um lugar muito mais justo e a vida muito mais doce, as pessoas muito mais compreensivas e gentis, caso esse tipo de amor e paixão brotasse em todos nós.
Nem que fosse apenas uma vez na vida. Nem que fosse para uma miragem.
às 00:03 0 comentários Marcadores: Contos, Memórias
segunda-feira, 19 de junho de 2017
No colo da serra
Elisângela me me parecia como uma heroína. A mulher era uma expressão de bom gosto, mas acima de tudo, ela era uma força da natureza porque nada a derrubava, nada tirava o seu foco e eu vivia, convencido e inebriado, de que, dentro daquela criatura, morava esse super poder, essa habilidade de fazer a vida acontecer. Elisângela não era só força, ela fazia questão de parecer forte. E eu lembro de tantas vezes em que, no contraste das minhas claudicantes intenções para vida, me preocupar porque ninguém pode ser assim, tão vibrante para sempre, e que, em algum momento, ela iria cansar e perder o embalo.
Mas antes dos meus terrores sobre as forças volúveis, ou não, de Elisângela, veio a vida. Elisângela, um dia, me contou assustada que estava grávida e não sabia o que fazer. Que a vida, agora, era outra e nós dois precisávamos de decisão. Dentro de mim, tudo abalou, tudo desmoronou, porque eu me sentia incapaz de ser pai naquele momento porque andava doente, andava desempregado, porque eu não queria trazer uma criança para minha vida desequilibrada. Porque eu não tinha coragem. E eu calei.
Mas eu queria ter dito, queria ter encontrado a coragem de dizer, de encarar como me sentia, e de explicar: Elisângela, veja só, esses são os problemas. Mas, acima dos problemas, meu amor, eu sou louco por você, você é a criatura que define a minha vida e você seria mãe dos meus filhos, de um jeito ou de outro. Se o primeiro é por acidente, que seja, só vamos precisar nos unir, muito muito mesmo, para que isso dê certo e eu estou, aqui, abrindo essa porta. Eu tenho medo, Elisângela, muito medo mesmo, mas eu confio em você e espero que você confie em mim também. Então, casa comigo?
Mas não foi nada disso. Porque, nessas horas, eu me escondo, eu me perco, nessas horas eu penso que preciso defender alguma coisa, nessas horas eu fraquejo, nessas horas eu perco a ação. Eu não tenho coragem, eu não vibro.
Elisângela abortaria aquela criança. Elisângela foi, mais uma vez, coragem e força, foi o que eu não fora. Elisângela nunca me perdoou, não pelo aborto, mas pela minha incerteza.
Algum tempo depois, sentia que ela me tratava com frieza. Via nela uma desatenção tão estranha, uma falta de jeito, uma falta de paciência que nunca fora aquela criatura, que das tantas inconstâncias, das tantas hipocrisias que sempre a definiu, essa nunca fora uma delas. Mas, relevei.
Um dia, acordei e não a encontrei em casa. Na mesa, uma chave e um endereço, anotado no papel com orientações de seguir a rota impressa, de não checar o caminho do GPS. Peguei o carro na garagem, notei que ela tinha tido a precaução de completar o tanque, e segui as orientações: nada de GPS e naveguei-me apenas pelo percurso, impresso naquela folha de papel.
A jornada, no fim, consumiu quase 170 quilômetros. Cheguei no destino, uma chácara, um lugar adorável, o colo de serra em que eu embalo os meus sonhos com essa mulher desde que a conheço. Não havia uma casa, nada, só campo, mato e belas paisagens. Entro pela estradinha pouco usada, recoberta de vegetação, e a sigo até uma clareira adorável, de onde desponta uma vista para o vale e para vilas e cidades.
Sentada, de pernas cruzadas, ela me espera e me sorri: “O que é isso tudo? O que está acontecendo?”
“Olha, eu cansei. Cansei, cansei, cansei. E como eu sei que você nunca teria essa coragem, essa força, passei os últimos meses pesquisando e achei esse lugar. Eu comprei ele nessa semana, são anos de parcelas para pagar. Não tem casa aqui. Vamos ter que começar tudo...”
Antes de ela continuar me explicando, calma e da forma impositiva que eu morria de medo que ela percebesse que eu amava nela, interrompi com as minhas fraquezas e derrotismos, me convulsionando internamente porque eu estava à beira de morrer de amor, de enfartar de paixão por aquela mulher e enquanto costurava os argumentos imbecis, que iam do “você perdeu completamente a noção”, do “cara, como nós vamos pagar isso?” para o “e construir uma casa aqui! Vai sair uma fortuna!”, algo urrava dentro do meu peito para eu calar a boca, deita-la naquele campo, e amá-la com toda a paixão que eu sentia naquele momento.
Ela ouvia calma, serena, sem reação.
“Acabou?”
“... olha só, eu...”
Antes que eu continuasse, que encontrasse mais imbecilidades para dizer, desmoronei.
Sentei-me ao lado de Elisângela, abracei-a e, pela primeira vez nos grandes momentos da nossa vida, falei exatamente como me sentia: “Desculpe-me por ser tão imbecil. Eu valorizo muito você, eu sei que você fez isso aqui por amor, eu sei que você tem coragem para comprar um castelo à prestações, se você achar que a ideia é boa. E eu sei que você não é louca, que você sempre tem um plano, eu não sei o que toma conta de mim às vezes e eu queria que você soubesse que, embora com ciência dos riscos que nós corremos, que estou do seu lado e que você pode confiar em mim. Eu amo você, e posso dizer que hoje amo mais do que sempre amei, o que nunca foi pouco, e eu peço desculpas por me comportar como se não me sentisse assim às vezes”.
“Eu sei, eu sei, Mas você é tão difícil às vezes”.
Eu queria ter dito que, sim, eu sei, que o pior de tudo é que eu sei que eu sou um saco às vezes, que eu não consigo me controlar, nem explicar o que toma conta de mim. Mas se eu pudesse arriscar um palpite, diria que é essa dor de viver ensombrecido, esse medo de nunca bastar, essa impressão de que tudo acaba, de que não importa o que eu faça, se me esforce ou não, que nada vai dar certo no final e que, muito antes de ter a percepção de entender que, no meio do caos da vida o único erro é se furtar de viver as coisas e de assumir os riscos, acabo letárgico e estragando a vida. Queria dizer para ela que eu venho percebendo essas coisas e que eu vou melhorando.
Que me assusto quando percebo o quão ligado estou à ela e que, na verdade, o meu maior terror é perceber que os sonhos de amor intenso por alguém, aqueles que eu conservei tão bonitos dentro de mim por tanto tempo, viraram realidade. Eu amo profundamente, mas o que eu nunca soube antecipar é que amor, amor intenso assim, exige entrega e coragens que eu nunca me preocupei em criar.
Eu devia ter impedido o beijo que ela me deu no momento mais forte dessa epifania, que foi se perder na sofreguidão com que a abracei e a deitei naquele campo, porque nada pode calar a sede que eu tenho daquela mulher. Nem mesmo as revelações mais profundas de toda uma vida.
às 16:17 0 comentários Marcadores: Contos
domingo, 18 de junho de 2017
O novo estóico
O uso da filosofia como ferramenta para interpretação do mundo, de correção de rumo, como alavanca para mover as vontades da vida não se restringe apenas ao existencialismo. Nas minhas leituras, descobri que a terapia cognitivo-comportamental usa como bases uma porção de noções da filosofia clássica, dos gregos. E é essa forma de terapia que vem pavimentando os meus novos caminhos, dando chão às minhas caminhadas, firmeza aos meus passos, de sorte que esse meu juízo naturalmente curioso não descansaria até desencavar origens e fundamentos básicos.
Tenho investido inordinárias quantidades de tempo na leitura e ponderação a respeito de ensinamentos e percepções de mundo de um certo filósofo chamado de Epíteto, que fazia parte dos estoicos – aqueles que, por mais desgraçada que viessem a ser suas existências, sorriam e viviam em paz. Por leituras tortas, eu tinha uma impressão descalibrada do cidadão, considerando que seus ensinamentos não iam muito além da graça, fingida ou não, diante das desgraças. E isso nunca me pareceu suficiente para encarar as durezas da vida.
No resumo, eu pensava o seguinte a respeito do grego: Epíteto, ou Epicteto, foi um filósofo notável por dizer ao pão, luxo, dos legumes prodigalidade e da água embriaguez; era aquele que, quando desancado pelo amo, faltou dizer que fora escravo, numa surra de criar bicho, dizia, resmungando, é verdade, mas sem se zangar: "aposto que vós me quebraste a perna", e ganhava a aposta.
Mas, na verdade, Epíteto vai muito mais longe do que passividade diante das misérias. A acuidade das percepções do filósofo estão na capacidade de isolar fatos de percepções. Para Epíteto, há uma grande quantidade de coisas na vida que não podemos controlar, então não faz o menor sentido se abater e se torturar por elas. Para Epíteto, o que devemos fazer é focar no que podemos controlar: a maneira como reagimos, como encaramos, como aceitamos o que a vida apresenta. E é no trabalho sobre como encaro essas situações, sejam elas de alegria e triunfo, sejam elas de derrota e tristeza, que eu venho me reencontrando nesses últimos meses. Eu sorrio mais, vivo mais leve e em paz.
A filosofia de Epíteto não funciona apenas como base intelectual para a terapia, mas como prática. Seus discípulos costumavam repetir à exaustão máximas para torná-las verdades íntimas profundas e esse mesmo mecanismo, embora com adaptações, se repete na terapia cognitiva.
Filosofia pode mudar a sua vida, terapia é algo que todo mundo devia fazer, e a conclusão de última hora da minha reengenharia é que eu transformei meu coração, minha alma, num tipo de usina que processa tudo, que transforma o ruim em bom, que potencializa o bom em coisas novas, excitantes e maravilhosas. Eu sou um reatorzinho de razão, um adocicado engenho que faz da vida algo bom, leve e doce.
às 11:15 0 comentários Marcadores: Memórias
quarta-feira, 14 de junho de 2017
Dia dos desnamorados
Eu queria que não tivesse sido por vaidade que você vinha aqui naqueles dias, eu queria que tivesse sido por saudade, por amor, por vontade e insegurança. Eu queria que fossem essas, e mais coisas, porque aí, nesse caso, eu teria como lhe mostrar o caminho. Eu acenderia o farol, eu iluminaria a baía, eu escreveria na água um novo caminho, eu faria lugar no meu cais, que todo cais é uma saudade de pedra, e aportaria aqui essa nau dos nossos amores, dos nossos possíveis, dos nossos futuros.
Eu queria saber o que acontece, o que foi que houve, de onde nasceu tanto medo, tanto cansaço, de como é possível que você duvide de mim depois da minha espera, da minha temerária espera, de que você, um dia, voltaria e eu, tal qual aquele filhote, correria desembestado em direção ao seu, ao nosso, abraço.
Brinco de imaginar quando, e se, você lerá esse pequeno texto, mais esse resto, essa poeira, esse fragmento, esse vestígio do furacão de amor e saudade que me ensandece a alma, dessa desgraça íntima de precisar desmentir tudo, desdizer que amo você, que quero você, que nesse ano nós iríamos morar juntos, que dentro de poucos teríamos uma criança para adoçar (ainda mais) a vida, uma casa pra cuidar e outros tantos sonhos para buscar. Brinco de imaginar a pessoa que você será quando ler que, apesar de tudo, eu amo você.
Eu não enxergo onde acaba o meu amor por você.
às 09:10 0 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 9 de junho de 2017
Herói
Eu venho gastando muito tempo ultimamente lendo, refletindo e meditando sobre as minhas circunstâncias, sobre felicidade, vida, sonhos, amor e todas essas grandes questões que orientam as buscas de todos nós.
E pensando nelas, sobretudo no fato de que o amor é a coisa mais importante das nossas vidas, me sinto numa agridoce quadra da vida. Eu me encontrei com o amor, escolhi mesmo a pessoa para a minha vida, me preparei para a entrega, o compromisso, nos convoquei para essa grande aventura e, mesmo assim, nada. O convite não encontrou a destinatária, a iniciativa pode ter sido tardia, o ruído de comunicação virou vácuo, a distância me deixou iludido, porque amo convicto, a distância converteu o amor dela em frieza, a hipocrisia omitiu culpas e transferiu responsabilidades de sorte que, amar, muito, abrir o coração, doar-se, entregar-se e abrir a porta para o futuro com a pessoa amada, no fim das contas, nesse caso, não deu em nada. Perdi-me da criatura que eu mais amei na vida, daquela pessoa que amei no tempo futuro, daquela que me apaixonava constantemente no tempo presente.
E eu nunca imaginei que viveria essa situação, de absurdo, que é de amor e impossível. Hoje, eu colho os cacos do meu coração tantas vezes estilhaçado, sobretudo nesses últimos meses, tento entender o que deu errado, o que faltou, o que, enfim, aconteceu porque eu não entendi nada, é como se um furacão de confusão, ingenuidade e frieza; de insegurança, de omissão, tivesse varrido o meu coração e levado a doçura daquela criatura. Fiquei, sozinho, com esse amor todo.
E na inevitável falta de respostas sobre o que, de fato, deu errado, acabo decaindo para o pensamento baixo da conclusão "afinal, nada disso vale à pena!".
Mas vale a pena amar. Muito mesmo. É a coisa mais importante da vida, a única essência que você não pode abrir mão na busca da felicidade. O amor é a única forma de, mesmo depois de tanta frieza e injustiça, sair inteiro. Eu amo uma miragem, sim, mas que bom que eu amo porque isso me deixa no caminho certo para não errar mais e encontrar alguém que me entenda, que me queira, que não canse dos desgastes da vida, e que colha os frutos, hoje já maduros, desse meu trabalho sério, intenso e comprometido de reconstrução.
E nessa situação, de tanto amor e tanto impossível, me recordo do The Grant Study (estudo que, há 75 anos, acompanha homens da região de Washington para traçar quais são os fatores determinantes para a felicidade). Um dos sujeitos acompanhados pela pesquisa, Godfrey Minot Camille, fora classificado nos primeiros relatórios do estudo como candidato sério a uma vida complicada, de tristeza e sofrimento e era, entre todos os participantes, aquele de quem se esperava menos e a quem se davam os piores prognósticos. Godfrey havia tentado suicídio, tinha história de vida atribulada e, mesmo assim, ao fim da vida, era um dos mais felizes.
O motivo? Segundo George Valliant, que acompanhou o estudo por quatro décadas e escreveu sobre o assunto, Godfrey foi um homem feliz porque nunca deixou de buscar amor. Godfrey dedicou a vida toda a essa busca e disso colheu merecida redenção e felicidade: ao fim da vida, era um dos poucos que gozava de boa saúde, de uma relação sadia com a família, de amor intenso com a esposa, filhos e netos e de uma percepção bastante profunda a respeito de suas circunstâncias e do caminho que o levou até essa grande vitória. Godfrey é um herói e deve ter terminado como um velhinho adorável e com quem eu adoraria ter a honra de trocar algumas palavras. Devíamos batizar ruas, prédios e aeroportos com o nome de Godfrey Minot Camille e sua vida devia ser esmiuçada nas escolas.
A história de Godfrey, suas origens, os problemas que encarou e a maneira pela qual ele foi descobrir nos relacionamentos pessoais e na busca pelo amor as fontes de força para uma explosão de crescimento pessoal, de alegrias, de felicidade, de paz e de generosidade são algumas das coisas mais inspiradoras que eu li na minha vida sobre outra pessoa. Eu quero ser como Godfrey quando crescer.
Eu fico feliz em dizer que vou pelo mesmo caminho porque foi a um custo bem alto que eu abri essas veredas. Eu, de braços bem abertos, vou pelo mesmo rumo de Godfrey, porque meu coração espartano - corajoso, forte, carinhoso e sincero - quer a vida. Que cai, levanta, perdoa e aprende sorrindo.
E eu, tanto quanto preciso, mereço dar e receber amor, carinho e felicidade.
às 00:07 0 comentários Marcadores: Memórias
quarta-feira, 7 de junho de 2017
Agora eu sei
No meio de todas essas palavras, omissões, saudades, faltas, mentiras e verdades, sentimentos e desistências, eu tenho notado uma crescente gratidão e admiração por você. Porque hoje, lúcido e estimulado, depois de ter construído tantos planos e de ter lhe esperado nessa minha convicção claudicante de quem, precavido, anteviu o fim, mas tinha todas as esperanças do mundo, me dei conta da enormidade das coisas que, um dia, você sentiu por mim. Do quanto você foi longe por amor, da grandeza da sua generosidade.
Falo daqueles tempos em que você planejava e construía, de forma abnegada e sem filtros, o nosso futuro em planos que vinham ao meu resgate e que eu, deprimido, covarde e inseguro, abatia em pleno voo.
Admiro você ainda mais agora, que vivo o outro lado, e vejo minhas quimeras dissolvidas no ácido irredutível da sua falta, da sua desistência, da sua decisão de por fim ao que ainda ia começar. Admiro a grandeza daquele seu coração, daquela sua certeza, daquela sua vontade, da sua coragem. No fundo, eu reaprendi a ser guerreiro com você.
E das tantas lições e coisas grandes que eu tenho a agradecer por você ter representado na minha vida, essa é, sem dúvida, uma das mais importantes. Mesmo que ela tenha vindo dessa forma: quando eu te tratei da maneira mais adulta, você me desmontou do jeito mais imaturo possível.
segunda-feira, 5 de junho de 2017
Campo de hortênsias
Eu sonhei que andava por um campo
e ele era florido
florido de hortênsias
cheio de vida
e eu, comovido,
ignorei as suas desistências.
Eu sonhei que num campo
cheio de hortênsias
enquanto o nosso se desfazia
encontrei você, de olhar perdido
e tive medo.
Me calei enquanto você esmaecia
e voava com o vento, cantando ao meu ouvido
que não, não, não há paz,
e eu me estremecia.
Eu sonhei, então, que num campo
que estava cheio de hortênsias
eu caminhei e caminhei
como quem escapava
em busca de esteio
até encontrar uma festa de tanta gente conhecida
e eu sonhei que revirei as mesas, os cantos
as rodas, que fui de ponta a ponta
cadê? Cadê ela? Ela não veio?
e assim, eu me desesperava.
Sonhei que te encontrava, de olhos vermelhos
de quem chora e chorava
e me desacordei
E que você já não olhava para o nada
e que seus olhos vinham a mim
eu sonhei que, numa festa
num campo de hortênsias
engoli a dor, sorri e te gritei
ei, para com isso, me espera!?
E no campo de hortênsias
descobri que você não me espera
que era uma miragem assombrando o meu sono
mas eu, ainda assim, corri
sorri e morri
com toda essa paixão sincera
e te alcancei, para tocar a sua face
e a miragem se desfez
em sorriso, vida e verdade,
porque já não era ilusão
era você que me amava
como se nada mais importasse.
sábado, 3 de junho de 2017
Ainda o nada
Como pode a certeza de que nada leva a nada ser inspiradora? É tudo uma questão de perspectiva. À distância, estamos degradando a Terra além de ponto de não retorno, o sol está explodindo e, na ponta disso tudo, o universo se resfria em derrota impotente perante a inflexibilidade da entropia. Nessa ordem de magnitude, todas as coisas levam a nada e não há esperança.
Mas na perspectiva da vida de cada um de nós, do dia-a-dia, dos seus sonhos, dos seus amores, das coisas que, somadas, definem quem você é, o que quer, o que precisa, a ordem de magnitude é outra, porque a escala muda e, de repente, amar incondicionalmente, se esforçar para aprender um conceito matemático, terminar de ler um livro, escrever um outro, chorar por amor, sentir saudade, ser otimista pelo futuro ganham significado porque essas coisas todas não se conformam com a escala das enormidades absolutas do universo. Mesmo que, invariavelmente, nada leve a nada, porque você um dia vai errar e, para uma porção de coisas na vida a simples tentativa É o fracasso (se você precisar tentar ser mais amoroso, significa que não é de começo, então tentar é uma forma de falhar), há um propósito redentor nessa liberdade que nasce do momento em que você se pacifica com a noção da nulidade das coisas todas e com o paradoxo da importância do que o define, do que o motiva, do que lhe instiga.
Ou, em resumo, reconhecer que nada leva a nada não leva a nada. Porque essas coisas todas são fatos. E, confiem em mim, não dá para brigar contra os fatos. O que você pode fazer é trabalhar a forma pela qual você reage a eles.
Na pequena escala das nossas vidas insignificantes perante a imensidão de espaço e tempo, todas as coisas importam. O amor, a saudade, o carinho, o afeto, a raridade desses sentimentos, os seus sonhos, os seus desejos, as suas memórias mais doces, os seus melhores momentos. Como não reconhecer que essas coisas, que essas pequenas e insignificantes coisas, não são melhores que o absoluto frio de um universo que morre?
E quando você se encontra com essa convicção na vida, você abre a página do herói absurdo do Camus e tudo se encaixa numa busca serena pela felicidade, pelas suas circunstâncias e contextos na vida. De repente, todos os momentos são os mais importantes da sua vida, todas as coisas que você deseja e busca têm igual valia e tudo, tudo se torna o significado da vida.
às 17:16 0 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 2 de junho de 2017
Nota 10
=)
Felicidade é 10 em matemática.
Foram 24 anos, ensino fundamental, ensino médio, um ano de engenharia civil e quase seis meses de análise e desenvolvimento de sistemas mas, finalmente, eis que eu consegui um 10 (ou A) no boletim em matemática (100% de aproveitamento em todas as provas), no primeiro bimestre e estamos a uma prova de repetir a dose no segundo. E não se furtem de, também, observar o meu nível absurdo de desempenho em todas as disciplinas, que eu sou muito foda, um compilador humano, uma máquina de resolver problemas de capacidade praticamente incontrolável. A extensão das minhas capacidades e talentos chega a me assustar, às vezes.
Já posso riscar 10 em matemática da lista: falta ainda restaurar um carro antigo, plantar o livro, escrever o filho, ter uma árvore e encontrar alguém para construir uma família ao meu lado.
às 16:14 0 comentários Marcadores: Memórias
quinta-feira, 1 de junho de 2017
À luta
"O oposto de depressão não é felicidade, é vitalidade".
Incrível como, do começo ao fim, eu posso me transferir para dentro das palavras de Andrew Solomon em uma palestra do TED sobre depressão (o livro dele sobre o assunto é, aliás, obrigatório). Desde o que levou ele à condição, às percepções sobre como enfrentá-la e as lições extraídas.
Essa impressão de que o oposto da depressão é vitalidade é certeira porque você se sente de espírito embotado, é como se nada fosse possível, como se as coisas, por mais importantes que sejam, te esmagassem: a vida se resume à um nada, a um enorme não negro que senta sobre a sua cabeça, que suga toda a sua força. É uma sensação esquisita de que há uma enorme parede entre você e a vida, entre você e o que você quer, deseja. Soma-se a isso baixa autoestima, e a receita do caos, da letargia, da dor e desse apego idiota pela tristeza se instala. Sair do emprego que, simplesmente, lhe destrói parece algo fisicamente impossível, como se a virada de mesa que lhe salvaria e lhe daria novos paradigmas fosse inatingível. Nada mais parece possível porque não é a realidade o problema, o problema é a sua incapacidade de conciliar o que você sente, como se sente e se percebe, com a dureza da vida e as expectativas que você tem de você mesmo, que as pessoas acabam tendo de você. É uma sensação de sufocamento difícil de por em palavras e que, se você não souber como encarar, acaba explodindo em todos os aspectos da sua vida.
Eu lembro de ter passado por um período extremamente escuro de depressão em 2015, quando falava para uma pessoa que a única coisa me impedindo de encerrar a minha própria vida era a dor que traria a ela e a outros. Eu já estava no estágio dos planos, das imagens na cabeça. E, mesmo nesse quadro, eu não me reconheceria na época como deprimido, apenas diria que estava passando por uma fase um pouco mais miserável. Naquela fase, tive manifestações físicas da minha depressão: começaram a cair pelos do meu corpo (alopecia), não conseguia dormir e eu não fui capaz de raciocinar, de ligar a com b e perceber que eu precisava desesperadamente de ajuda. Eu entendi tudo isso há apenas uns meses, mas só agora me sinto bem para falar a respeito, ainda que de forma resumida num blog que ninguém lê.
Em questão de uns dois meses, minha mãe ficaria doente, eu sem dinheiro depois de meses desempregado, ainda mais infeliz, e morreria meu avô. A depressão me colocou num parafuso de desespero e eu, incapaz de entender o que acontecia comigo, de colocar em perspectiva o que eu estava sentindo, mesmo de me abrir com quem me ouviria, destruí um relacionamento como mecanismo de proteção de outra pessoa quando me vi confrontado com a necessidade de abraçar a vida que, não só era o que eu desejava, mas significaria o começo de que eu tanto precisava (e que eu tanto queria), causando ainda mais dor. Mas essa desgraça se manifesta dessas formas, ela engole a sua vontade, acaba a sua coragem, a vitalidade, o impulso de assumir a verdade que você conhece - de que a sua vida não está legal - e de fazer algo para mudar, melhorar, para sair do buraco. É essa falta de vontade, essa inexistência de vitalidade, de emoção, de coragem. O que se segue é desespero, já que essa doença é uma ciranda de falta de esperança e maldição porque a depressão se auto abastece de desgraça porque se não há desgraça, ela cria.
E isso me leva a, naturalmente, desconfiar dessa coisa de cura. Mas me sinto forte porque, hoje, eu consigo monitorar meus pensamentos, eu sei onde se escondem os terrores, eu consigo segurar as linhas de raciocínio que levam essa cabeça desregulada a embarcar numa jornada de confusão, dor e escuridão sem fim porque essa escrita terapêutica me ajuda, muito, a entender essas coisas, a colocar no papel a extensão por vezes caótica dos meus sentimentos. Esse controle é o segredo da minha calma, da minha lucidez: eu nunca estive tão ciente de como me sinto, do que eu sinto e de onde estão guardados os meus fantasmas como agora. E, embora eu não esteja 100% no controle, nenhum de nós está, eu recuperei essa antiga capacidade de me entender, de aceitar e de controlar impulsos que me levariam a sofrer. E isso garante resiliência.
No fim do vídeo abaixo, Andrew fala sobre como, de certa forma, é grato por ter encarado a depressão. Porque ela faz dar mais valor ao que de bom temos, à alegria, faz você se encontrar com coisas que tinha esquecido que existiam. No meu caso, ateu, comecei a meditar e acho que, dentro de mim, mora uma coisa enorme, maravilhosa, única e irredutível que, de repente, podemos chamar de alma e que eu confesso, até assustado, é feita de amor. Eu não sou grato pela depressão porque ela me atrasou a vida, porque ela traçou caminhos que me causaram dor, mas eu sou grato pelas lições, por essa força, por essa musculatura não mais atrofiada que me permite flexionar cada fibra do meu ser, do meu coração, nesse esforço de quem quer vida, de quem corre em busca da vida e de quem, não só com vitalidade, mas com esperança e coração aberto espera do destino o que vier. Eu sou grato porque, hoje, eu valorizo muito o que eu sinto, o que eu sou, o que eu posso e o que eu quero. Porque venha o que vier, eu apanho, mas eu bato, eu erro, eu perco, mas eu levanto logo depois, com sorriso e desafio no rosto porque a vida me espera e eu me abraço nela porque há uma porção de coisas para fazer: eu quero ser pai, eu tenho amor que não cabe no coração, eu preciso de cachorros, uma casa na serra, quero escrever livros, eu tive uma ideia para abrir uma empresa, ter filhos, mas também adotar ao menos uma criança, eu quero fazer faculdade de matemática aos 50, quem sabe aprender a tocar um instrumento, viajar mais, sorrir, viver. Eu quero amar alguém de forma intensa e entregue e eu quero, com essa pessoa, construir uma vida inteira, eu quero morrer velhinho, antes ou depois dela, não importa, mas eu quero ir até o fim com alguém ao meu lado, e estar ao lado dela, para tudo que a vida tentar contra a gente. E ter atravessado o que eu atravessei ajuda a valorizar muito, muito esse sonho e o meu coração espartano de forma a garantir que ele esteja pronto para quando o destino convocá-lo. Ainda que eu tenha, ingênuo, achado que eu podia convocá-lo e que, ainda neste ano, eu estaria dividindo um teto, trabalho, contas e metas com paixão e alegria ao lado de alguém. Meu coração está pronto para a vida.
Eu sou grato, sobretudo, porque a única forma de eu realmente aprender sobre essas coisas e aceitar as minhas circunstâncias era essa: a um custo elevado e isso nunca vai ficar claro para quem não encara essa doença, de que não há forma de sair do buraco sem encontrar o fundo. O preço que eu paguei para ter essa percepção é extremamente alto, mas é só assim que se aprende e é ter pago esse preço que me dá a lucidez de valorizar o que de bom há na minha vida, há em mim e há no meu futuro, porque ele corre ao meu encontro e dele virão coisas boas.
Eu sou grato por ter aprendido a me reencontrar, a valorizar as minhas qualidades, a ouvir meu coração sem medo nenhum, a viver de acordo com os meus valores e princípios e a dar às coisas o nome que elas têm. A cura pode ser uma ilusão porque essa pré-disposição sempre estará à espreita, mas isso não me preocupa, porque eu me sinto bem, bem como comecei a me sentir quando, há pouco mais de um ano, sentei à beira de uma cachoeira e ocultei minhas lágrimas com a água que caia daquelas pedras porque foi ali, ali que eu comecei a acordar, ali que eu comecei a acordar e sair do buraco, ali que eu ouvi o meu coração gritar, foi quando eu deixei que o amor me resgatasse e começasse a minha cura e cicatrização. Eu deixei esse amor todo transbordar e, mesmo que ele seja inútil e condenado a morrer no ocaso, eu ainda sorrio quando o vejo entre as coisas minhas porque ele é a prova da minha cura, é a minha força, é a minha vida, é o resgate. Um amor redentor, que não foi suficiente para outra pessoa, mas que ainda assim, é a minha maior fortuna. Um dia eu vou ser pai e vou lembrar que foi esse amor que me trouxe à vida e que me fez criar uma família, esse amor é um tesouro, é o meu renascimento, dele só vieram coisas boas.
E em questão de meses, as coisas todas se encaixam: eu estou magro!, eu estou aprendendo uma tonelada de coisas novas, eu fiz novas amizades, eu me permito sorrir e considerar encarar experiências que nunca me permitiria antes. Eu pinto o cabelo e ostento, orgulhoso, uma frondosa barba grisalha. Eu recebo más notícias, mas escolho encarar o que não dá certo com o coração leve, sem peso, sem dor, sem sofrimento e sem mágoas Eu me libertei e hoje, eu não me assusto com as pressões a que eu mesmo me coloco: eu as entendo, eu as aceito e, mais que tudo, eu as busco porque é nelas, é nessas buscas, que eu construo meu caminho, oriento minhas metas e saio fazendo planos e tentando conciliar os meus sonhos com a frieza da realidade. Eu estou vivo, vivo, quente e pulsante, me sinto garoto, ou melhor, sou garoto, desperto e forte.
Se eu precisasse falar como me sinto, hoje, em termos simples, diria que estou leve e simples porque não tenho remorsos, só tenho sentimentos bons, comigo só ficam sorrisos, coisas boas e essa minha força de fazer sacudir o meu mundo. Nesse ano, assim, direitinho como eu jurei que faria no alvorecer do primeiro dia de janeiro, eu decidi parar de passivamente esperar a luz no fim do túnel: eu simplesmente fui lá e acendi essa porra sozinho, porque o túnel é escuro não pela falta de saída, mas pelo fato de ser longo. E é dessa forma, iluminado, que eu me disponho a encarar a minha vida porque, como eu venho dizendo, prometendo, e mais que tudo, executando, 2017 é o primeiro ano do resto da minha vida e nada o proíbe de ser o melhor de todos até aqui.
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sexta-feira, 26 de maio de 2017
Fim de semana perfeito
A minha ideia de fim de semana romântico era pegar esse carro que está na garagem, que tem sede, que faz a minha sede de quilômetros, era embarcar nessa viagem e desandar toda essa quilometragem que mede distância, que corta divisas, que atravessa muros, que faz pontes entre as nossas escarpas e ir te achar do outro lado dessa avenida da saudade. Meu ideal de fim de semana perfeito começa com a minha viagem, solitária, como de costume, em direção a você.
Meu fim de semana romântico continua comigo te encontrando, te desafiando, comigo te questionando, com você sorrindo, com a festa com os cachorros, meu fim de semana perfeito se prolonga a cada momento em que posso divisar a improbabilidade dos meus sentimentos, essa raiz de número negativo, esse número complexo, essa medida que, mais que Fibonacci, é o princípio matemático que ordena o caos da minha vida, que põe a nossa existência numa ordem nossa, numa álgebra que ambos escrevemos a muito custo, é a nossa mecânica universal aplicada que nos coloca em sincronismo.
E o fim de semana perfeito continua, continua na folga do seu abraço, no calor do seu corpo, no apego deslumbrado que eu tenho, sempre tive, por cada uma das suas evoluções, pelo seu jeito de olhar, de se mexer, pela sua voz, pela improbabilidade, de novo ela, das suas mãos, as mãos mais perfeitas da criação.
E nosso fim de semana perfeito só começa e acaba e começa nessas coisas porque aí é hora de pegar o carro, é hora de andar muitos quilômetros mais, melhores, mais largos, mais profundos, nossos e novos, quilômetros e quilômetros, por todos os lados. Nosso fim de semana perfeito acaba em noite fria, em chalé, choupana ou barraca, céu claro e aberto, telescópio que não mais nos esqueceremos à nossa disposição para que, ao divisar o improvável das estrelas que desafiam o tempo e a nossa perspectiva de realidade, nos encontremos, ainda mais improváveis, porque complexos, porque entregues, nos braços um do outro.
às 20:49 0 comentários Marcadores: Memórias
quarta-feira, 24 de maio de 2017
Rádio: Willard Grant Conspiracy - The Trials by Harrison Hayes
"Don't have the patience for all these apologies, don't have the time to waste on suffering"...
às 19:29 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
Herói absurdo
Seria fácil, bem fácil, duvidar da seriedade, da intensidade, da profundidade dessa minha reengenharia, dessa minha força de correção, de solução dos meus problemas, de compreensão íntima das minhas circunstâncias. Seria fácil de duvidar e, eu mesmo, seria o primeiro a questionar a profundidade desses propósitos, a desmontar qualquer argumento mais sério, a suspeitar, a impor o pessimismo, a falar da entropia, que relativiza tudo. Mas estaria errado quem se pusesse a duvidar porque a verdade é que esse processo todo é vida, e eu me abraço da vida ao reconhecer o absurdo, o inerente absurdo dessas buscas todas, do desejo de encontrar sentido nas coisas, de enxergar destino, sonhos, objetivos, metas, e tanta subjetividade nesse universo indiferente, como algo profundo, alusivo a algum sentido íntimo maior e mais verdadeiro do que a irredutível aleatoriedade de todas as coisas. A vida é isso.
Eu sou, de certa forma, uma manifestação daquele herói absurdo que Camus definiu, o sujeito que encontra felicidade em reconhecer que, em última análise, vivemos numa luta eterna contra o aleatório e o inconsequente em um universo que, não apenas é frio e indiferente, mas também é hostil. O que tem ciência de que a vida, no fim, consiste em uma vã luta contra o nada, em uma busca pelo nada, e que mesmo seus sonhos mais profundos, seus desejos mais intensos são redundantes a partir da ideia de que, bem, nada leva a nada.
Poderia parecer uma visão muito obscura das suas circunstâncias, quem sabe um ranço do niilismo que venho exorcizando da minha vida (embora, na prática, Camus seja um existencialista), mas não é nada disso. A percepção de que as coisas, em si, não guardam nenhum sentido emancipa porque lhe dá os recursos para libertar-se do que é ruim e prejudicial e, sobretudo, de encontrar valor, se não mesmo significado, naquelas que são as suas grandes verdades. E vai parecer um contrassenso, essa ideia de que tudo leva ao nada, e no fim falar de encontrar sentido, mas, me desculpem, eu não tenho obrigação nenhuma de fazer... sentido porque, herói absurdo ou não, no fim das contas, eu também sou uma parcela desse nada, desse vazio do existir que nos aflige, quer percebamos, quer não.
Eu iria longe nesse texto, porque entre os reencontros desse ano, tenho me dado ao direito de folhear livros de filosofia, o que me levou, por exemplo, a revisitar o existencialismo (e a ficar muito, muito, muito longe do Emile Cioran, aquele homem destrói qualquer vã pretensão de otimismo com algumas poucas frases. Eu, particularmente, nunca me esqueci do “a consciência é o pesadelo da natureza”, que é como se fosse o negativo exato do “somos uma forma do universo conhecer a si mesmo” de Carl Sagan. Cioran não é para os fracos). E a filosofia também tem ajudado, tudo tem ajudado, na verdade, porque eu agora só extraio das coisas o que há de bom nelas. Com a filosofia, vou me reencontrando com o vazio da vida, com o nada intrínseco a todas as coisas que desejamos, de forma pacífica porque nada mais me assusta.
E isso permite depurar seus sonhos e objetivos e se encontrar com a essência das coisas, com a verdade profunda das coisas que você quer, de verdade, ainda que sejam elas todas manifestações esmagadoras da nulidade, da inconsequência da vida e do fato de que, no fim, nenhum de nós existe porque quer, todos vamos morrer e nenhum de nós tem qualquer ideia do que está fazendo, do porque está fazendo e dos caminhos que temos para percorrer.
A impressão mais emancipadora dessa jornada de debate íntimo, de leitura fragmentada da filosofia – não me escapa, de forma alguma, que estou violentando as ideias dos filósofos para encaixa-las nas molduras que criei para a minha realidade – é, depois do terremoto, se reencontrar com as suas verdades, com os seus valores, com seus objetivos e ter essa convicção íntima de que a sobrevivência deles a todo esse colapso só atesta a firmeza dessas coisas na sua vida. E aí, é hora de arregaçar as mangas, deixar a filosofia para horas vagas, e ir, correndo e de peito aberto, nessa jornada, nessa busca do nada, nessa fria e inevitável inconsequência cósmica que chamamos de viver.
às 12:42 0 comentários Marcadores: Cartas aos meus filhos, Memórias
terça-feira, 23 de maio de 2017
Cães e perdas
Na fila do banco, eu ouvi de uma mãe contando a uma amiga das dores que passava naquele momento o filho, criança, do que pude deduzir, e que teve que recentemente encontrar na perda do cachorro da família a sua primeira experiência com a morte. De como vinha sendo difícil explicar que o bicho não volta mais, que a vida dos cães é assim, tão mais curta, que o menino chorava e chorava, que na cabecinha dele não entrava a ideia desses absolutos, do pra sempre, do nunca mais, da ausência, da impotência diante das circunstâncias. Que nenhum brinquedo ou agrado substitui o cachorro.
O relato ainda foi longe, a fila era das demoradas, e prestava atenção curioso na forma como aquela criança precisava enfrentar essa dureza, de como a dor que o garoto encara em tão tenra idade afligia a mãe, que não sabia mais o que fazer. Me peguei, eu mesmo, engolindo as lágrimas, quando, por cima do ombro da interlocutora, flagrei a foto de guri e cão abraçados. Criança feliz, sorridente, de dentinhos ainda pequenos, sorriso de covinhas, olhinhos apertados. Cão marrom grande, não saberia dizer de que raça, eu basicamente vejo labradores e pastores em tudo, que são tão carinhosos esses labradores que, tenho certeza, se fui eu cachorro em uma vida passada, de certeza que fui eu um desses.
Engoli as lágrimas porque, acompanhando a fotografia disposta na tela de celular, veio a sequência do relato da mãe, que informada do veterinário do destino inevitável do bicho há algum tempo, preparou uma semana de agrados para criança e cão, dando aos dois todos os mimos que, de ordinário, seriam vetados. Então o bicho dormiu na cama com o menino, teve livre acesso ao interior da casa, ganhou carne de boa qualidade e todas as coisas que gostava de comer como forma de despedida de toda a família, como carinho, como zelo por essa vida que se finda, que leva tanta lembrança e encerra, já agora, tanta saudade. A dor da perda é esmagadora, por certo, tanto mais que achata as costas estreitas daquela criança, mas que inveja dá essa virtude da morte dos cães de família cujo fim pode ser antevisto, preparado, cuidado. Na nossa vida de pessoas esse tipo de luxo é uma raridade e, nem sempre bem vinda porque, do alto da nossa pretensa lucidez, gostamos de achar que somos por demais importantes e apegados à vida. O cão não presume seu destino, não questiona a finitude da sua existência e quando se dá uma semana de regalos e folgas, como no caso dessa família, apenas aproveita. Deve ser feliz a vida dos cachorros.
Não conheço o garoto, e me compadeço enormemente da sua dor e do seu sofrimento. Depois que chegou a vez da mulher, e não tive mais como ouvir a conversa, desejei intimamente que essa criança colha dessa experiência apenas boas lições. Que decaia esse sofrimento com o remédio do tempo e que, no futuro, fique a recordação de bons momentos compartilhados com o cão, dessa semana de despedida e festa em que tudo foi possível. Nunca fui diretamente afetado por morte de cães, embora já tenha perdido muita gente, mas mesmo assim, hoje, eu finalmente entendo o que li uma vez sobre a crueldade que é essa coisa de morrerem os cães tão cedo.
Criança nenhuma no mundo merece perder um amigo desse jeito. Cachorros de crianças deviam ser imortais.
às 15:41 0 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 22 de maio de 2017
Trechos
"... eu queria começar com uma conversa, uma desarmada conversa, esse encontro tão adiado de dois inteiros, eu queria um pacto, eu queria um laço para atar as nossas pontas soltas. Eu queria dizer como me sinto, como encarei esse processo, o que eu fiz. Eu queria ouvir o que tens para dizer, eu queria processar o seu lado, eu queria entender, eu queria ter mais subsídios para me colocar no seu lugar. Eu queria te ouvir falar, livre e sem receios, eu queria que você confiasse em mim, que me dissesse dos teus medos, que me deixasse te entregar meu coração como devoção última de que, de uma vez por todas você entenda, eu me comprometo, eu não fujo, não vai embora quem chegou onde sempre quis na vida. Eu queria firmar esse laço a partir dessa convicção já tão antiga de que não nos abrimos como deveríamos, de que nós precisamos de diálogo, de que eu quero você na minha intimidade, e eu quero navegar deslumbrado pela sua. Eu queria uma conspiração, um projeto, uma união que determinasse nossos protocolos, nossas formas de aparar arestas, eu queria o projeto e esboços para os jogos, para as descobertas, para os exercícios que eu imaginei e que deveríamos praticar para corrigir essas coisas, para nos encontrarmos mais um no outro, eu queria inaugurar a nossa vida juntos com essa convicção íntima de que, venham da vida as pedradas que vierem, recaiam sobre nós os problemas que recaírem, dê eu a você, e vice-versa, as respostas atravessadas que forem, no final de tudo, de indissolúvel está esse laço, esse pacto, essa firme certeza de que há uma constante, e essa constante é nós, o nosso bem estar. Eu queria, escrito a ferro e fogo nesse pacto, as nossas verdades: eu amo você, você me ama, eu quero você e só você, você quer a mim e só mim, juntos vamos para sempre. O que mais for da vida, nós encaixamos nessas verdades, a nossa guia é o bem-estar nosso em torno desse compromisso e dessa entrega. Eu queria um pacto que nos põe em ordem, que nos endireita o rumo, que nos dá metas, que nos faz trabalhar como time em busca de resultados, da conquista dos nossos sonhos, tão nossos e bonitos. Eu queria preparar o palco desse encontro de gigantes com o calmo e necessário processo de depuração, de cura, de calma e ponderada abertura, em que lhe digo as minhas verdades, lhe confesso os meus segredos, me penitencio dos meus erros, na convicção tão inocente e minha de que você faria o mesmo. Eu queria te reencontrar, do outro lado desse vórtice de erros, de distância, de bobagem e de fraquezas da forma que eu sou agora, de braços abertos e sem os ressentimentos que nunca consigo manter contra você, grande e pronto, generoso e calmo, desperto e apressado.
Queria lembrar você de que a vida que nós queremos é sempre luta, que todo mundo briga, que esperar não é saber. Que me recordo de uma vez em que você me escreveu, ou escreveu no seu blog, já não tenho certeza, quando você estava desse jeitinho, completamente apaixonada e eu perdido, toda doce e encantada, planejando e suspirando plena dessa paixão que hoje me assola a alma, que tinha conversado com seu pai sobre estar feliz porque tinha resolvido a vida, tinha resolvido a vida porque tinha me achado e por isso tudo, de agora em diante, seria fácil. Seu pai te respondeu que era engano seu, que era agora que começava o trabalho duro.
O que eu não prometo é que as coisas sejam fáceis, porque nada que vale na vida é fácil, que a ilusão de que as coisas devem ser fáceis é o que explica nossos descompassos. O que eu não posso prometer é que não vamos encarar dificuldades, que a vida não vá ser bandida, que as armadilhas não estejam à nossa espreita. Mas o que eu posso prometer, entretanto, é que de mãos dadas somos um, mais forte e resistente, e que eu te protejo do que vier de ruim, que sou esteio, deságue em mim suas angústias, confesse-me esses seus medos que eu nunca conheci, que eu nunca perguntei, me diga onde estão esses fantasmas que eu vou lá com a luz que me ilumina e pacifica espantar essas suas assombrações e reinstaurar essa calma. O que eu posso te prometer é que, mesmo em face das durezas que eu quero da vida, e eu quero da vida as durezas porque elas são inevitáveis e não há proveito nenhum em se esconder delas, sempre estarei do seu lado, como companheiro inarredável dessa vida que eu quero nos dar porque ainda antes de amar a você, eu amo a nós.
O que eu quero não é recomeço, não é volta, não é emenda e conserto, o que eu quero é futuro, é vida, é sentimentos e convicções. O que eu quero é início, é firmeza, é sinceridade e clara honestidade com o compromisso, eterno, do que sentíamos, das promessas e sonhos a que nos demos direito. O que eu proponho é leveza, eu quero batalhar do seu lado, eu quero proteger você. O que eu quero é calar essa voz que me canta no ouvido esse soneto da saudade, essa canção da falta, da urgência de todas as coisas que envolvem esse meu jeito de amar que não cansa, que me sufoca, que me abraça..."
às 12:18 0 comentários Marcadores: Memórias
domingo, 21 de maio de 2017
Quando eu tinha 85 anos
Faltava um mês para que eu completasse 86 anos e, assim, superasse em um ano completo a minha meta, a minha estimativa, o número de anos que, um dia, ainda muito jovem, eu tinha decidido arbitrariamente que seria a quantidade ideal para viver. Para ver o mundo, para amar, para chorar, para vencer, para perder, para construir essa coisa nossa, essa coisa de história, de vida, essa estranha sensação de precisar seguir em frente, de precisar experimentar a vida e o mundo, essa sensação tão estranha de, diante de um universo indiferente, de um universo frio, de um universo que nos faz insignificantes, precisar amar, crescer, sorrir, chorar e ser.
Aos 85 anos, como sempre fiz na vida, não era novidade, portanto, dei-me à tarefa de olhar para trás, de fazer os meus balanços porque, a partir de agora, eu recebo o fim e a morte de braços abertos, porque de agora em diante, o que vier me abraçar é lucro, é sobra.
E nesses balanços encontro tanto para sorrir e me orgulhar que me confunde essa sensação agridoce de quem se vê apresentado ao ocaso e ao fim; me deparo com a alegria que me trazem, hoje, os netos e que senti tão esmagadora nos beijos das minhas crianças. Me deparo liberto de tristezas porque dos meus remorsos fiz escada para procurar novas paragens e construir as minhas moradas em fundações mais sólidas.
Olho para o passado e sorrio, com satisfação, diante dos meus processos, tenho orgulho dessas minhas cicatrizes, do que me cortou profundo, mas me fez mais firme, mais inteiro, mais pronto. Hoje, velho, sem muito que esperar da vida, não me sinto sozinho, não me sinto desamparado, tampouco sou fraco que ainda mora em mim o rapaz que não sabia amar, o rapaz que tinha medo, o sujeito que se deprimiu, aquele que soube desistir, levantar, e começar tudo outra vez. Há uma força enorme que ainda sobrevive na fragilidade estranha desses meus ossos, há uma grandeza e vontade de vida que palpita no coração a cada sístole cansada dessas décadas.
Resta um mês para terminar o primeiro ano, o primeiro ano do resto da minha vida.
às 06:36 0 comentários Marcadores: Cartas aos meus filhos, Contos, Memórias

