Are you afraid of me now?
domingo, 24 de setembro de 2017
Chaos Chaos - Do you feel it?
às 23:03 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
sábado, 23 de setembro de 2017
Foi em 1814
O livro, antes de se debater no aspecto histórico do evento, que nem foi tão interessante assim e se prolongou por meses, segundo eu me recordo, versava sobre a depravação de uma classe de pessoas completamente alheia ao mundo real, toda desesperada pela manutenção dos privilégios e de, muito antes do que consertar a europa de forma justa, se preocupava em criar mecanismos que impedissem o surgimento de uma revolução que fosse dar em outro Napoleão. E não porque Napoleão fora inerentemente ruim: do que esse povo não gostava era da guilhotina que, gulosa, não poupou as cabeças douradas de Luís XVI e Maria Antonieta, além de outros potentados menos votados da chamada aristocracia francesa. Porque o Bonaparte, em que pese a insaciável sede conquistadora, de resto, de citoyen tinha muito pouco: virou imperador autoproclamado, foi morar em palácio, criou sua corte e ainda encontrou tempo de casar-se com princesa, e dizem que morrera de amores por, curiosamente ela austríaca, nascida desses mesmos Habsburgos que foram anfitriões do banquete em que se almoçou a vida e obra do baixinho francês que, a essa altura, se contentava em imperar sozinho nos confins da diminuta e quase inabitada Ilha de Elba.
O livro narrava a vida de prostitutas e golpistas. Diziam os críticos que era rico em contrastes e tons cômicos, e que a prosa não era de todo ruim.
Contam as memórias e registros desse tempo que não houve puta pobre na Áustria por meses. Que não faltou escândalo, extravagância e frivolidade, trio certeiro que eu deveria converter imediatamente em minhas temáticas preferidas para escrita porque escrever a sério pode ser muito nobre, engrandecedor e honrado, mas não leva a lugar nenhum.
O que guarda certa semelhança com aquela passagem do "O Lobo da Estepe" que, hoje, 12 anos depois, eu ainda sei recitar direitinho: o homem não foi feito para pensar, assim como não foi feito para nadar. O homem foi feito para viver e para andar na terra. Pensando, o homem pode chegar muito longe, mas um dia estará trocando a terra pela água e nela morrerá afogado.
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Parte 4
Meu escape para essas ilhas cheias de distância, como dizia a canção, estava em vias de acabar-se quando, enfim, despertei do sono tão bem dormido naquela rede na varanda, exilado voluntário que fui do quarto masculino e, evidentemente, do feminino, que eu não sou desses. Se soubesse da delícia dessa rede e dessa varanda, tinha dormido todas as noites da minha estada nela.
De resto, acordei do sono bem dormido com a cabeça tentanto voltar a garrar-se nos problemas dos dias, das obrigações, das omissões, das missões e necessidades, desse oceano de coisas que todos devemos atender e que vão, uma a uma, dando propósito a essa nossa perseguição do nada último que é o sentido da vida. Ando, como se vê, muito filosófico e a isso devo, sem medo algum, o ocaso calmo e reflexivo desses dias de retiro, de desaceleração, de paz, de curiosidade, de calma.
E refletindo sobre as delícias todas desse feriado, instiguei o juízo na busca de razões pelas quais devia sentir falta do lugar e do período. É a paz, que por ventura só se encontra nessa ilha e nessa morada, ao custo módico de algumas centenas de reais? De forma alguma, porque a paz, ah a paz, essa eu trago comigo e faço de todos os meus destinos moradas pacíficas.
A natureza, então? Não vou negar que a paisagem afeiçoa, que o silêncio acalma, que o nada e a ausência das distrações e frivolidades da vida cotidiana dão senso de propósito e reorientam a escala pela qual medimos o que é importante. Mas não podemos viver nos escondendo da vida, que ela é mesmo bandida, e o mais interessante dessa percepção é, portanto, tirar a lição de que se não podemos ficar cá com a montanha, é o caso de achar meios de trazê-la para perto, ou de, ao menos, encontrar meios termos: nem tanta fuga e floresta, nem tanta correria e concreto.
Meios termos, dirá alguém, é uma forma muito certeira de não se compromenter de verdade com mudança alguma e de fincar morada em cima do muro das eternas omissões. Há certa verdade nisso.
Mas também há verdade na necessidade que todos temos de racionalizações e de construção de sentido, se não mesmo de clareza, em buscas que nos alimentam, que nos empurram, que nos comovem e emocionam na direção de coisas grandes, maiores que nós mesmos, sejam elas quais forem para cada um de nós. E as buscas que me apaixonam hoje, as que me norteiam certeiro como o pássaro que nunca perde o rumo de casa, são as íntimas convicções de que jogar tudo para o alto e me exilar nessa ilha é fuga, e de fuga eu ando farto.
E eu andava contente com as minhas filosofias e medidas pueris para problemas hipotéticos, revisitados tantas vezes por quem é melhor, quem sabe mais precoce, quando vi a mente resvalar nos problemas do cotidiano. Na necessidade de não perder a hora, do contrário barco para o continente, só amanhã. E, ah, como todo cais é, de fato, uma sasudade de pedra. Na necessidade de abastecer o carro, de pagar o estacionamento, de fazer as compras. Carregar o celular. As aulas que voltam. Os encargos e missões, responsabilidades e as expectativas que há de outros em cima dos meus ombros largos, todas essas coisas, que afastei da mente com tanto vigor, vieram no fim desse exílio como as vagas que a gente passa a vida inteira tentando represar. Um tsunami de chatice, portanto, foi lenta mas inexoravelmente afogando o brilho da minha filosofia de boteco, dos meus pensamentos e valores pueris reciclados na forma de tanta palavra bonita e inconsequente.
As horas foram se contanto, fui me despedindo dos novos amigos, ah nós outros, brasileiros, quatro dias ao lado de estranhos e os chamamos de amigos, mas vá lá, são meus amigos, porque quem os decide sou eu e eu os acolho no abraço largo de quem faz tino em, por onde andar, deixar novas amizades. É de certa forma cômica a cena desses e-mails todos anotados em papel. Fiquei contente de, pela manhã, poder brincar um pouco com meu amigo canino, vigia camarada que caminhou comigo ontem e montou vigilância fiel sobre o meu descanso de ressaca de quem, como diria meu pai, ah, como você tem feito falta, aliás, "teve noitadas".
Mas se não é paz o que me encantou nesse lugar e nesses dias, nessa fusão de espaço-tempo, desse propósito de exílio e descanso, o que foi? As companhias? Por certo que agradaram, é tão bom praticar esse inglês de anedota. Mas boas companhias se encontram em todo o lugar, é tudo uma questão de procurar por elas. A mata é bonita, sim, mas floresta e rumos a serem andados eu posso encontrar perto de casa. O barulho do mar, talvez? Desconfio que não, porque não prestei tanta atenção assim nele: havia tanto mais para ouvir, tanto mais para ver e, no meio dos doces encantos das coisas que eu tenho para dizer, para ouvir, para rimar e cantarolar para mim mesmo, vou falar a verdade, o mar acaba sem graça nenhuma.
E nesse exercício de achar a razão dessa delícia, só lá no fim, quando já vencia a pequena língua de água a separar a ilha do continente, que foi sedimentando aqui no peito a resposta, essa verdade tão clara, como de ordinário são elas todas, tanto mais essas obviedades ululantes, que me gritam diante dos olhos e que eu, bem bobinho, vou perceber uns meses ou anos depois: assim como a paz, seu bocó, a felicidade, a calma, a tranquilidade, o prazer desse retiro, estão em você. Idiota. Se você quiser, você entra em comunhão com a paz última do fim de todas as coisas no olho de um furacão, só depende de você. Como sempre, aliás.
Duly noted. Again.
domingo, 17 de setembro de 2017
Felicidade pura
Essa nova janela de tempo prolongada de vida no interior tem me colocado em contato com uma antiga paixão: a astronomia. Venho lendo, estudando, observando e coletando novas impressões sobre essa ciência em virtude do céu que aqui, limpo, não é tão perturbado pelas luzes da cidade.
Mais do que olhar para estrelas, acompanhar o noticiário científico das descobertas, os podcasts e o que mais for, tenho renovado o já portentoso catálogo de documentários e vídeos sobre o tema. Investigando umas deliciosas transmissões ao vivo da Nasa, me deparei com essa pequena montagem:
O detalhe que mais me chama atenção no vídeo são as demonstrações de felicidade dos engenheiros e cientistas de cada missão bem sucedida. É felicidade pura, alegria que nasce de um feito que não diminui ninguém: ao contrário de uma comemoração de gol, por exemplo, o triunfo de quem manda sondas, robôs e rovers para um outro planeta não machuca ninguém, não representa infelicidade de outra pessoa.
Um dos compromissos que eu tenho comigo mesmo é de ensinar crianças, não necessariamente os meus filhos, esse carinho e essa sensibilidade para com a ciência. Se, um dia, uma criança escolher a astronomia, ou qualquer outra ciência em virtude dessa percepção do lado humano em cada uma dessas conquistas, eu terei sido uma pessoa feliz e bem sucedida.
às 16:19 0 comentários Marcadores: Cosmo por ele mesmo
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
Parte III
Há muito tempo que eu não vivia uma ressaca dessas, uma ressaca de criar bicho, uma ressaca de matar remorsos, uma ressaca de juras eternas no sentido de nunca, jamais, sob hipótese alguma, me entregar aos exageros do álcool mais uma vez.
Que delícia.
Ao longo do dia, dia em que mesmo me sentindo como um vestígio humano, me impus mais caminhadas, fui remontando os episódios ocorridos na noite anterior e foram se esboçando sorrisos poliglotas nessas minhas memórias perfumadas com o solene galanteio do mar que, logo ali, ondulava e cantarolava as cantigas de além, de saudade.
Na saída, um cão fugitivo da vila de pescadores veio me acompanhar. Já tinha notado o bicho noutro dia. De aspecto magro e sofrido, o cão mendigava atenção e restos de comida dos visitantes da pousada e, provavelmente preocupado com o silêncio da casa em hora avançada, se assomava sem cerimônias à porta da varanda que dá para o jardim. Me saudou com um olhar inquisitivo, provavelmente querendo saber da comida e do café, que por essa hora já deveria estar servido.
Não sei se cães comem maçãs, que era só o que tinha comigo, e por isso não dividi o lanche.
Mas essa falta não parece ter desinteressado o cão que, provavelmente sem outro recurso e nada mais interessante para fazer no momento, resolveu me acompanhar. Me embrenhei na mata e notei que o bicho tentava não apenas andar ao meu lado, se não adiante, e assim deixei, instigado por saber até onde ele iria.
Uns dois ou três quilômetros depois, me encontrei com o lugar que desejara para o descanso do dia e a contemplação descompromissada da natureza. Era preciso sair da trilha e entrar no mato e aí sim meu camarada canino hesitou.
Parou, ergueu a cabeça, e lançou um olhar inquisitivo, desses que impõe: “tem certeza, companheiro?”. E eu tinha, e eu tenho. Em geral, camarada, eu sempre tenho certeza.
Porque acontece que, no roteiro dessa nova alvorada, me impus uma nova rota, resolvi caminhar uma trilha sem compromisso e escolher um espaço qualquer que, do alto, me desse vista do mar, que ali montaria minha breve morada. Levei comigo frutas, música para ouvir e todos os meus pensamentos, que em luta fraterna e tardia, dilaceram a ditadura dos meus sonhos. Então, sim, eu tenho certeza.
Gostaria agora de dizer que, recostado naquela clareira, tive alguma nova epifania, que sedimentou-se no meu juízo uma nova catarse. Que alguma aparição me fez profeta, que fiquei mais sábio, que descobri ou aceitei algo novo, que a vida se descortinou envolta nas brumas que envolviam o céu cinzento que ensimesmava sem roubar nenhuma paz e beleza daquele mar sereno.
Nada disso aconteceu, talvez porque a ressaca não seja boa companhia para momentos transcendentais na vida, ou simplesmente porque talvez o momento dessas dramáticas viradas de página simplesmente já passou, ou talvez porque nada disso, no fundo, exista: o que há, mesmo, somos nós outros, todos de alguma forma perdidos no meio do caminho da vida, angustiados e ansiosos na expectativa de sermos capazes de extrair propósito, desígnio e sentido das nossas escolhas e das consequências delas e dos nossos atos esparsos. Quem é que sabe?
O que aconteceu foi que eu descansei, ouvi música, pensei na viagem de volta. Fiz notas mentais para comprar os licores que minha mãe encomendou. Para calibrar os pneus. Para pegar contatos dos gringos com quem enchi a cara. Pensei na faculdade, no trabalho, em mim, pensei na família. Nas coisas que me importam realmente. Pensei em 2018, pensei nesse desafio de transformar o ano que vem em algo ainda melhor do que esse que, estranho e com seus espinhos, é um dos melhores anos da minha vida. Pensei, pensei, pensei e pensei.
Atrás de mim, repousava o caminho que me conduzira até aquele ponto e eu podia ouvir por lá vozes animadas e gente que fazia também as suas trilhas. Intimamente, torci para que alguém viesse até onde eu estava, para que compartilhássemos a vista, eu contasse e ouvisse histórias, aí sorriríamos e trocaríamos impressões sobre a vida. Mas a verdade é que eu não posso me mexer daqui para dar esses passos para trás, não agora, não assim, não desse jeito. E a verdade é que quem vai lá por aquele caminho desconhece-me, quem sabe rejeita, ignora esse lugar maravilhoso e as preciosidades que vão comigo aqui, agora e nesse instante.
Aí aborreci-me.
Era hora de voltar, de levantar acampamento, juntar as coisas, coletar o lixo e deixar só as cascas das frutas. Andei pela curta extensão de mata no rumo da trilha, desci o barranco com cuidado e encontrei o caminho alguns metros abaixo de onde originalmente tinha me desviado horas atrás. Para a minha surpresa, aninhado entre as raízes generosas de uma árvore, estava embrulhado o cão guarda que me acompanhara.
Com a maior naturalidade do mundo, de um jeito que me tocou o coração, ele simplesmente levantou e se pôs a andar ao meu lado.
Na pousada, fui até a cozinha, expliquei-me à cozinheira e dela comprei um naco de carne, uns ossos e linguiças. Fiz-lhe o banquete em agradecimento e me enchi de alegria ao ver que, nos olhos daquele cachorro, ia genuína gratidão e amizade, que estava ali feito um laço indissolúvel de amizade, de companheirismo, de entrega.
Meu pai sempre dizia para que, onde quer que você vá, faça amigos.
terça-feira, 12 de setembro de 2017
Guia do caroneiro II
Caiu a noite enquanto eu me encorajava a tomar um banho para aceitar o convite dos colegas de hospedagem e ir, à beira do mar, fazer-me presente à roda envolta da fogueira, onde se beberia, contar-se-iam históricas e a dar-se fé na viola que, orgulhosa, pairava emparedada na recepção, ouvir-se-ia música a partir do dedilhar e do cantarolar do dono do lugar que, imaginei com razão, cantaria e tocaria noite à fora.
Eu estava sobretudo curioso a respeito dos gringos e gringas que compartilhavam o teto. Gente de todos os cantos, Dinamarca, Austrália, Colômbia, Canadá, Estados Unidos e outras denominações e nacionalidades menos votadas das Europas todas. Gostaria de conversar com essas pessoas, saber delas, do que fazem aqui, do que acham desse pedaço de nada, do que as encanta e decepciona, se voltariam, se ficariam, se me recomendariam ir conhecer suas terras.
Encorajado pelo suor que me fazia a pele viscosa e grudenta, tomei a coragem, peguei a toalha e todos os acepipes dedicados à arte do banho e me assomei ao banheiro para, não digo interromper que meus passos são leves como os de felino, mas para surpreender uma tórrida relação entre dois rapazes que dividiam um dos quartos do primeiro piso. Esse registro não tem razão nenhuma de ser nesse post, mas eu precisava dividir a anedota com alguém.
Refeito do susto, e de banho tomado, fui de isopor carregado de gelo e cervejas debaixo do braço rumo a roda que já se animava ao calor desnecessário do fogo, do calor mais que necessário do álcool e o que mais consumiam para libertar as amarras.
Me assomei à roda onde havia espaço, tive o cuidado de escolher uma área longe de casais e que me desse vista ao mar, mas também ao contorno irregular da serra, não que tenha ido à roda para admirar a paisagem, mas porque se é para escolher um lugar, não vejo razão para que não escolha simplesmente o melhor disponível.
Eu não lembro de muita coisa, mas recordo ter conversado com uma dinamarquesa de olhos azuis, ter falado sobre corridas com um americano, defendido Narcos junto a um colombiano e ter dado muita risada conversando sobre política com meus conterrâneos.
Tinha uma gringa e um gringo que eram estudantes de astronomia, e a quem eu teria tietado por toda a noite, não fosse o fato de que, bêbado, fiquei com medo do meu inglês de anedota acabar no caminho na hora de discutir essa ciência da qual já foi dito é uma experiência que ensina humildade e constrói caráter: “não há demonstração melhor da tolice das presunções humanas”, diria Carl Sagan, com as carradas de razões de costume. Translation, rotation, quasar, neutron star, delta-V, Mars, Venus, Moon. Eu iria trocar essas coisas todas.
O que me recorda, pela enésima vez na vida, a comprar ou montar um telescópio, que bem que faria sucesso em meio a esse céu feito esplanada dessas terras sem cidades, sem luz que aborreça o brilho cálido das estrelas, do universo e dos planetas.
A noite passou qual um borrão porque eu bebi uma barbaridade e acordei com a cara enfiada na areia na manhã seguinte, bem a tempo de prevenir-me de queimaduras de sol. Ao meu lado, outros vestígios da longa noite se assomavam na forma de garotas e outros moços que também esticaram a não mais poder a noitada.
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
Guia do caroneiro I
Nessa última viagem, andei calmo e não me impus a nada. Nas anteriores, vinha me obrigando a fazer algo que não estava no escopo do trajeto, ou que eventualmente não seria de minha preferência. A ideia era sempre se obrigar a dar brechas para as coisas novas, testar, permitir-se ver e fazer coisas diferentes.
A verdade é que toda essa dança cansa. A um certo ponto da vida, você é o que você é e mudanças radicais não vão acontecer mais. Ou, se ocorrerem, virão na esteira de algum evento especial, não a fórceps.
E aí me enviei nessa viagem, tanta coisa para descansar o lombo, para esticar as pernas pelas trilhas, para dormir sem pressões no silêncio da mata que envolve o hostel simples, extremamente simples, que fiz questão de escolher: sem internet, sem cobertura de celular, energia elétrica só por algumas horas por dia por conta do gerador que não fica o tempo todo ligado.
Paz e natureza.
Havia, no roteiro, ensejo para as torturas que me havia imposto. Eu comeria prato com frutos do mar, por exemplo. Se algum turistão mala quisesse me aborrecer nas minhas trilhas, seria bastante gentil e receptivo, e lá iríamos compartilhar a natureza. Se houvesse alguma celebração na praia, com direito à droga e álcool, eu me permitiria aos exageros que sempre soube contornar com a velha segurança de quem, desde cedo, soube dos seus limites.
Mas não fiz nada disso. Ou quase, tentei um prato com peixe, mas não venci o engulho para tentar comer qualquer bobagem na forma de fruto do mar que acompanhava o cardápio do dia. A carne do peixe, vou ser bem sincero, foi bem comestível e me surpreendi em descobrir que, ao menos da variedade que experimentei, é bem melhor do que frango, por exemplo. A tal bobagem do fundo do mar me faria vomitar.
Na trilha, que fiz questão de começar à primeira hora da manhã, bem antes do café para não arriscar companhias, me vi nessa calma de quem renasce toda vez que anda pelo mato. O som, a beleza da luz que se filtra pelas folhas e vem brincar com a gente pelo caminho, o ruído da vida em decomposição que estala a cada passo, a sensação de entrega ao todo e de paz de quem bem que poderia dizer que está sozinho no planeta dão energia.
Liguei o celular para acompanhar a quilometragem.
Caminhava nessa velha paz e lancei o olhar para o que vinha. Encontrei, por meio das árvores, o perfil azulado do mar que, eu não sabia, chegava tão perto do trajeto. Fugi da trilha e fui sentar à areia, vislumbrando as dezenas de metros que a água precisava vencer pela maré, se quisesse me alcançar. Nublado, o dia parecia que seria bonito, sem tanto calor, sem tanto tumulto.
Deitei na areia para esperar a vontade de continuar, faltariam talvez uns 10 quilômetros ainda.
Enquanto me entregava aos meus pensamentos, que não param esses meus pensamentos todos, fui desandando alguns outros caminhos, refazendo uns, criando novos. Há tantos planos, eu tenho tido tantas urgências, e embora o peso de escolhas, responsabilidades e consequências de hoje pareçam que vão me entortar as costas, há uma segurança que eu sinto, uma paz que revigora na mesma medida que a calma sossegada dessas matas, essa de que eu, pela primeira vez em tanto tempo, sei muito bem o que estou fazendo, sei muito bem para onde estou me dirigindo e, mais do que tudo, estou feliz e satisfeito por conta do destino que eu não mais aceito passivo e descompromissado, mas construo com paciência e devoção com esse meu jeito ressabiado de quem já apanhou que chegue da vida e que, antes de revidar, cala, sorri, respira fundo e para de brigar com os fatos e com a verdade de que a vida que a gente leva não é fruto da nossa escolha, mas é consequência.
Sento-me novamente e fico aborrecido de não ter me preparado para meditar, que o lugar é deveras interessante para o mister, fico ainda mais chateado de não ter trazido o Kindle: eu poderia ler Guerra e Paz de uma só vez nesse lugar. Pena ser isso uma reserva, porque confesso que essa é a primeira praia da minha vida em que eu ergueria uma morada. Tudo para acordar com essa paisagem e esse som.
Finalmente entendo qual é a graça que via o Neruda em acordar com aquela janelona enorme, debruçada sobre o Pacífico. Finalmente entendo como podia aquele cidadão ser tão inspirado nos seus poemas.
Mas aqui não faz frio, dirá algum recesso da minha essência. Não, não faz tanto frio, mas talvez onde venta, geia e neva, não há som do mar, cheiro de mato, calma e essa energia que brota da comunhão com a paz das coisas vivas. É tudo, como sempre, uma questão de escolhas.
Perdi a noção do tempo, sentado na areia, como quem pede carona à beira de uma estrada que não existe, por onde não trafega ninguém. Com o que concluo essa breve anedota dessa viagem de quatro dias (ou seria de alguns anos?), percebendo que não mudaram tanto as coisas, eu sou a mesma coleção de exageros, desatinos e disparates de sempre, só agora mais calejado e ciente, coeso; que eu ainda estou pelos caminhos à pedir carona, mas que agora, ao menos, não embarco em qualquer um que responda ao meu polegar em riste, simplesmente à troco de embarcar e ir a algum lugar. Não, porque agora, ao menos, sei muito bem para onde estou indo.
às 14:44 0 comentários Marcadores: Memórias
quarta-feira, 6 de setembro de 2017
Todas as algumas palavras
Saudade, idas e vindas, chegadas e partidas. Falta. Força, sobra, sonho metas, destino e desatino, caminhada. Paciência. Porta aberta para o sertão da solidão, coragem. Volta. Não volta, incerteza, maldade, incompreensão. Omissão. Paixão, sonhos, recordações, mais força, nenhuma dor. Ridículo. Afeto, carinho em suspensão. Tempo, tempo, tempo, tempo: cinco anos. Futuro, planos, vontade, energia, amanhã, hoje, mas é só ontem. Fim e recomeço. Morte e ressurreição. Palavras, palavras, palavras e mais palavras. Se, e se. Somente se.
às 13:19 0 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 1 de setembro de 2017
Um dia na vida
Acorde às 6 horas da manhã. Exercícios de cálculo para refazer, semana que vem tem prova, puta que pariu, e o trabalho? 8 horas da manhã, faz o café, amargo, de doce já basta a vida. Pega o carro, vai na construção, da construção vai na advogada ver como anda a negociação porque a construtora, que entre outras aventuras, ergueu parte da casa no terreno errado, simplesmente largou a obra. Dor de cabeça, mas que venham, que eu não tenho medo, eu tenho razão, e, melhor ainda: eu sou bom de briga. 10h30 da manhã, mensagens no celular, não vou ler agora, tenho que me concentrar no trabalho, esse que paga as contas e soma as bases do amanhã que há de ser ainda melhor. Consulta, a quantas anda essa miopia? Volta, almoço, não almoço, mas faço companhia, minha mãe aposentada cozinha qualquer coisa que eu acabo provando e, claro, gostando. Aí vamos lá, vai chegando a tarde, tenho que ver esse ruído na direção do carro, não é problema de segurança, mas me irrita uma barbaridade. Volta da concessionária, vida em trânsito, volta para a casa. Qualera aquela história do Python mesmo? Como usava aqueles self? E como diabos faz aqueles laços com for? Puta que pariu, Python, como você consegue ser tão simples e, justamente quando simplifica as coisas, ficar tão complexo? Paro de estudar, trabalho mais um pouco, aí sou indulgente, vou ver um documentário sobre ciência, um episódio de uma série, dou-me folga, e volto com uma ideia para o SOSF 1.2 Fetutine (SOSF é meu Linux homebrew, cujo codinome de versão é Fetutine, já que o Google usa as sobremesas para o Android, eu vou de massas), integro suporte ao Wi-Fi para SOSF e fico feliz quando a parada toda funciona. O que me incentiva a continuar o curso à distância sobre C#. 18h. Tomo banho, lavo bem as mãos, manejo as lentes de contato, computador novo na mochila (como eu fico animado com computador novo, como eu sou bobo), mochila nas costas, eu no assento, 7 quilômetros, estaciono, vou à aula. Putz, esqueci de novo de ligar para pedir reembolso daqueles vinhos extraviados no transporte. Aliás, a encomenda do meu irmão saiu da alfândega na Alemanha? Bora checar, se não esquecer, lá no instituto. Matemática. Funções, limites e derivadas, tudo tranquilo, aí tem aula de Banco de Dados, me dá sono, mas fico ainda mais convicto dessa ideia de, lá pelos 50, aposentado e com as crianças crescidas, cursar matemática só por amor ao esporte. Fim da aula. Cerveja com os camaradas na bodega que vende artesanal, que não tem letreiro, abre de vez em quando e que faz uma questão absurda em não ser conhecida por ninguém. Volta pra casa, rapaz, tá na hora de ir dormir, amanhã é isso, e muito mais, tudo de novo.
às 21:00 0 comentários Marcadores: Memórias
quarta-feira, 30 de agosto de 2017
Blurriler
Eis o blurriler. Na verdade, é blue heeler, mas o brasileiro abrasileirou o nome e, agora, a raça de cães originária da Austrália, cujo pelo não tem nenhum tom amarelado, que esses são os red heeler, tem um nome português para chamar de seu.
Nada resiste à criatividade brasileira.
Era um desses o meu vizinho de algumas semanas atrás, um cão esperto e engraçado, que me chamou a atenção e inclusive encorajou-me planos de sequestros que não vieram a se concretizar. Alegre, curioso, espevitado e cheio de energia, o sujeito encantou não só a mim, mas também à minha mãe. Agora, me restam apenas uns vídeos e fotos do cão.
Depois que soube que o bicho não era o vira-lata que eu, sem saber muito sobre cães, tinha calculado, embrenhei-me numa pesquisa para descobrir de que raça ele era. Depois alguma pesquisa, vim a saber que esse espírito alegre e espevitado é bem típico desses pastores australianos.
Conclusão que, somadas a outras impressões que adquiri de outras raças, me leva a "rereconsiderar" muitas coisas e a incluir esses blurrilers nas minhas buscas por um filhote. É pena, no entanto, que recomende-se a esses cães espaços abertos amplos, porque criados para o pastoreio, eles tendem a se aborrecer enormemente em lugares apertados, dizem os criadores. Aparentemente, são comuns no Brasil porque são dóceis, bonitos e grisalhos, muito fáceis de adestrar, alegres e amam crianças. À parte do DNA australiano, são uma versão canina desse que lhe escreve, praticamente.
E aí, nesses grupos de classificados, eis que surge um irmão do meu vizinho à venda. 150 reais. Carteira de pedrigree e tudo mais. Ligo para a dona que precisa se desfazer do cão, pessoa simples e que já tem outros bichos e aparentemente adotou o filhote por compaixão, para descobrir que telefonara 30 minutos atrasado: alguém já comprara o passe do cão. E aí, disso tudo, só me restou outra foto.
às 20:28 0 comentários Marcadores: Memórias
domingo, 27 de agosto de 2017
Confronto
Hoje, eu me sentei para escrever como nunca tinha feito na vida, e como venho ensaiando a meses, sobre tudo, sobre nada. Fiz, no toque das teclas, o exercício de desacelerar o veio turbulento dos meus pensamentos para transferi-los, um a um e sem obrigação alguma de coesão, ao texto. O resultado, que está longe de encantar qualquer juiz dos rigores e prumos estéticos da expressão escrita, ao menos dá tino de uma porção de coisas para as quais eu tendo naturalmente a fechar os olhos, a esconder debaixo do tapete, a empurrar para de trás do pano de fundo por onde se descortina essa minha vida romanesca.
Em certo sentido, é melhor que meditação: o confronto com as suas ideias e com as suas racionalizações gera resultados mais drásticos que a experiência contemplativa do meditar.
Mas não é para os fracos, não é para todos, não é, na verdade, para ninguém. Não acho que terei energia para tentar o exercício novamente tão cedo.
às 20:55 0 comentários Marcadores: Memórias
quarta-feira, 23 de agosto de 2017
Nômade e insights tardios
Eu tenho um problema com sentir-me em casa. Tudo começa porque, em 2004, um incidente tirou as minhas referências de lar, de casa, de raízes. De lá para cá, a sucessão de anos trouxe paradas, chegadas e partidas, mas a sensação de lar, de morada, de lugar para chamar de casa sempre foi elusiva.
Em Ponta Grossa, a natureza daquele teto era o improviso. Delicioso improviso, aliás, de ter morado sozinho e ter apreendido a se entender, a se preservar, a se querer.
Em São Paulo, o ritmo nunca foi saudável, o convívio no tumulto nunca foi de encontro ao meu espírito de sossego e o resultado foi que, também, nunca estive em casa naquele tempo.
Em Curitiba, o teto era efetivamente meu, morava sozinho, bancava todas as contas. Mas a sensação de lar, de pertencer, era elusiva: ela oscilava, ia e vinha, e em meio aos desagrados de morar no centro da cidade, do prédio antigo, do apartamento de arquitetura infeliz, também não me sentia em casa.
E hoje, em mais um desses insights tardios, eu percebo que estar em casa, sentir-se ligado a um lugar, tem muito pouco com o espaço, com as condições financeiras, geográficas e físicas do lugar. Eu descobri, num período que agora completa um ano, que lar é onde estão os meus sonhos, onde moram os meus amores, onde fica o meu coração. Era por isso, por exemplo, que a sensação de pertencer, de morar, de lar, era elusiva e flutuante nesses anos de Curitiba, é por isso que ir embora me cortava o coração e vê-la partir era tão amargo quanto possível.
Eu aprendi a ser nômade, a ser sem casa, a não ter a minha morada ao longo desses anos, mas hoje me recordo da delícia de ter lar, de pertencer, de ser parte. Meu coração, que é cigano acostumado, cansa das esperas, cansa das andanças, cansa das incertezas. Hoje, eu quero morada, eu quero presente, eu quero futuro, hoje eu preciso de estada, do fim das chegadas e partidas, preciso e quero as novas páginas.
às 19:35 0 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
Voyagers e Sagan
Por esses dias, as missões Voyager 1 e 2 da Nasa completam 40 anos. No nada absoluto que se tornou a questão da exploração espacial, a data será uma mera vírgula no noticiário do dia e pouco se falará a respeito agora, menos provavelmente em 10 anos, quando as missões completarão 50 anos. Quatro décadas depois, as duas sondas ainda enviam sinais à Terra e assim devem continuar por mais alguns anos, quando finalmente seus reatores esgotarem as pilhas atômicas que os abastecem, ou quando esgotar o suprimento de monopropelente usado para controle de altitude (acredite: poderia aborrecer todo mundo por horas explicando porque isso é importante para que as sondas se comuniquem com a Terra). E, mesmo que a energia dure por muito mais tempo, as Voyager chegarão a uma distância relativa da Terra em que o sinal de rádio enviado por suas antenas se tornará fraco demais para ser captado pelos nossos equipamentos.
Sendo absolutamente injusto, eu vou resumir em um parágrafo porque, do ponto de vista histórico e científico, as Voyager são importantes: foram lançadas com o objetivo de visitar quatro planetas (e assim o fizeram: Júpiter, Saturno, Urano e Netuno), dos quais ninguém sabia muita coisa na época do lançamento. Ambas foram “over-engineered”, adoro o termo, com o nada pouco ambicioso fim de, um dia, serem resgatadas por seres inteligentes: levam gravações de sons da Terra, descrições de como localizar nosso sistema solar, dizem quem somos, é um cartão de visita da nossa espécie enviado às estrelas, algo de uma sensibilidade e doçura que só caberiam mesmo em alguém da dimensão e do otimismo de um Carl Sagan.
Há um relato, inclusive, de que depois que as Voyager terminaram a viagem pelos quatro planetas, uma festa entre toda a equipe que devotou décadas no projeto foi organizada. Chuck Berry tocou, porque uma música sua ia no disco dourado das sondas, e Carl Sagan foi visto dançando. Que tempo para estar vivo.
Mas por que a Voyager é importante para mim? Eu era absolutamente interessado em espaço, em astronomia, e adorava ler sobre planetas nos livros de ciência e geografia da escola. E como os pulos de planeta em planeta das duas sondas levaram anos (só chegaram a Netuno em 1989, 12 anos depois de lançadas), acabei crescendo numa época em que tudo de novo que se descobria sobre o sistema solar vinha na esteira das duas Voyager. Na escola, aborrecia os professores com perguntas e me recordo que, na TV Cultura, todas as tardes, logo depois de Anos Incríveis, passava uma longa série de documentários realizada nos anos 1980 e que, usando material e dados coletados pelas Voyager, me encantava com os prognósticos de mares de metano em Titã, erupções vulcânicas em Io, tempestades supersônicas em Júpiter, crosta congelada e em constante tensão pelo efeito maré em Europa, ou o eixo exuberantemente inclinado de Urano que, em uma altura do seu período solar, faz com que o pólo sul esteja completamente voltado para o sol (já parou pra pensar? Não é bizarro? É como se a rotação do planeta fosse de sul a norte em vez de leste a oeste).
As Voyager, a sensibilidade de Carl Sagan e essa paixão pelo novo, pela descoberta, por aprender, por imaginar, por mesmo imbuídos do mais estrito espírito científico, enviar espaçonaves para o espaço e o tempo sem hipóteses a confirmar, apenas para descobri-las, é o que sempre me encantou nessa história que importa muito pouco para muita gente e, talvez, exatamente por isso, o mundo esteja do jeito que está.
Eu tenho alguns livros de Carl Sagan e, o mais importante deles, Cosmos, que importei de Portugal à falta de versão brasileira na época, guarda, na primeira página, a minha assinatura e o mês de compra do livro (atenção que tenho com toda a minha biblioteca), mas também uma observação importante, transplantada de uma revista que falava da sua morte em 1996, e que fiz, do alto dos meus 11 anos de idade: me comprometendo a ser um cientista e a trazer a inspiração libertadora do conhecimento às pessoas.
O detalhe é que essa anotação, no entanto, veio copiada de uns garranchos meus sobre as páginas amareladas à época de uma revista Super Interessante de 1996, que falava da morte e legado do astrofísico que inspira ainda hoje milhões de pessoas. Aos 11 anos, eu era muito precoce.
Sagan escreveu para Ann Druyan, sua esposa, que “na imensidão do tempo e espaço, é uma honra dividir um planeta e uma época com você”. Tenho impressão de que todos nós que, de alguma forma, tocados pelo exemplo de Sagan, pela jornada da Voyager e capazes de amar podemos dizer o mesmo em relação a todas essas coisas: é um privilégio viver nessa época e é uma honra enorme poder se inspirar em pessoas da dimensão de um Carl Sagan e em histórias de triunfo humano como as Voyager.
às 15:32 0 comentários Marcadores: Cartas aos meus filhos, Memórias
Eu grito
Tenho vontade de gritar o seu nome, como quem comemora, como quem faz gol, como quem levanta a taça. Soltar um berro, um brado retumbante. Quero chamar inteiro. Chama, chama que inflama, vem e volta, desaparece e acha que me engana, chama que não se apaga. Sem graça. Saudade daquelas letras que me notificavam, que vibravam no meu bolso, na minha mente. Mas é, agora, indiferente. Você diz que morreu, eu renovo. Você matou, eu ressuscito, você esfria, eu rimo triunfante. Você diz que é hora, que agora vai embora; eu planejo o casamento. Chega de drama, mulher, abre a porta, não sufoca a chama, que eu te incendeio. Tenho saudade de ter o seu nome, de poder dizer, de poder ler, de ter comigo, cinco letras, uma palavra, duas pessoas, todos os amores. Saudade de você, que se colocou onde não foi chamada, foi embora quando foi mais amada, e não volta mais, talvez porque nunca foi tão clamada. Você teme e esfria, eu suspiro e desarmo a sua desforra. Não, não digo que te chamo. Digo que te amo. Mas não, não volta. Digo sim que fica, que daqui você nunca foi-se embora. Quero uivar o seu nome, feito lobo. É fogo. Faça o fogo, que eu levo os fogos.
quarta-feira, 16 de agosto de 2017
Telescópios, noites e quintais
Nas noites limpas de inverno, em que não há nuvem alguma no céu escuro, armo o telescópio que fiz em tempos de marcenaria, do tripé e suporte que cortei em madeira e compensado, da lente perfeitamente polida que veio da Alemanha, do suporte em que entalhei Atlas, essa figura tão interessante, o titã que recebeu a tarefa de erguer e levar o mundo nas costas, essa sensação que todos nós um dia sentimos e que, portanto, faz de todos nós, à nossa maneira e em maior e menor medida, um pouco Atlas.
No gramado, há um espaço que, se venha a calhar de o frio ser suficiente, fazemos uma fogueira e deixamos o pinhão sapecar na chapa. Eu monto o telescópio, afago o cachorro, espero pelas crianças. Aponto a objetiva na direção das estrelas, das nebulosas, dos planetas próximos e convido a curiosidade dos meus filhos, que me enchem de perguntas, que apontam o planetário do computador para outros destinos, e falamos das estrelas, e rimos, e tomamos, eu o café, eles o chocolate, enquanto vamos esperando a noite desandar.
Lamentamos o cintilar provocado pela oscilação de quilômetros e quilômetros de atmosfera que, se generosa por nos fazer o obséquio da vida, bem que atrapalha na hora de admirar o cosmos. Comentamos a estranha figura de Vênus, esse inferno de calor e desolação, o absurdo de Júpiter e aquele conjunto de planetinhas que, qual nós outros, poderiam estar agora sentados ao fogo do sol e, de microscópios em mãos, cogitar o mistério dessas criaturinhas que povoam o planetinha azul. Aí olhamos as nebulosas, onde nascem as estrelas, onde a vida espera por acontecer, onde algo maravilhoso ainda por descobrir aguarda quem, com sorte, se deparar com as pistas, com as novas verdades.
E aí explico que é mentira o que dizem na escola, que não é separando o que brilha do que não brilha que se distingue planeta de estrela, que na verdade nada lá em cima está brilhando, está sim cintilando, e só o faz por conta das camadas da nossa atmosfera a refratar a luz que vem de lá. E a nossa atmosfera não faz favor a ninguém, de forma que ao olho destreinado, vai parecer que Marte, e seu tom avermelhado, brilha a mesma quantidade que Betelgeuse, essa enorme estrela vermelha que, mesmo na lente do telescópio, não é mais que um pontinho despretensioso.
E aí paramos de falar das estrelas, porque a noite vai avançando, amanhã tenho a vida pela frente, eles a deles, que vão à escola, quem sabe sofrer do bullying dos colegas que insistem que estrelas brilham, planetas não.
às 20:16 0 comentários Marcadores: Cartas aos meus filhos, Memórias
Despedidas
Na última quinta-feira, notei que meu vizinho grisalho não ganiu em protesto pelo confinamento, não latiu, tampouco deu as caras ao muro, debaixo da minha janela. Algo está errado, pensei.
Na sexta-feira, se repetiu a ausência. No sábado, idem e no domingo eu já tinha certeza de que o cachorro havia sumido.
Alguém pode ter se encantado tanto quanto eu e sequestrado o bicho, pensei. Ou a falta de intimidade entre donos e cão acabou selando o destino do cachorro, que terminou exilado, expulso, entregue a outra família, quem sabe devolvido. Temi pelo pior, que a crueldade do rapaz, filho do casal, tivesse levado a melhor e o cachorro tivesse sido morto.
Resolvi investigar.
E fui até a vizinha, perguntei do cachorrinho que tinha aparecido na casa dela nessas últimas semanas, que notei que não estava mais lá. Minha esperança era a de que tivessem devolvido o cão para alguém e que ainda estivesse em tempo de adotá-lo.
Ao que soube que se tratava de pouso temporário, o bicho, de raça e até com carteirinha de pedigree, era de um conhecido e tinha precisado ficar por ali por uns dias.
“Mas se eu soubesse que vocês tinham gostado dele, eu tinha dado pra vocês. Era para ele ficar aqui três, quatro dias, ficou mais de um mês. Eu mesma tive que levar para o dono”.
Eu devia mesmo tê-lo sequestrado.
“Ele era tão doce, né? Eu não gosto de cachorro, gosto de gatos, mas ele era tão brincalhão, tão quietinho”.
Sim, ele era, e, no entanto, você o deixava dias e dias fechado num quarto escuro, pensei.
É pena que não tenha roubado o cachorro antes e que a vizinha, sem muita intimidade com caninos, não soubesse explicar de que raça era o meu vizinho grisalho.
às 13:32 0 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
Perguntas e respostas
Durante muitos anos, eu pensei que a grande questão da vida eram só as respostas. Que saber o que você quer da vida, do futuro, era, em si, tudo uma questão de saber o que são essas coisas, de saber o fim, sem saber da história, de saber do desfecho, sem se importar muito com o mérito da caminhada. Custou muito para entender que as respostas são vazias se você não souber das perguntas.
Eu não estou questionando os seus valores, eu estou questionando você para que você descubra se eles são realmente seus.
E o que eu quero da vida, no fim das contas, não foge muito do que eu sempre disse que queria. Continuo interessado em criar uma família, preciso morar no interior, onde faça frio.
Mas há uma diferença porque essas coisas nunca foram um compromisso meu comigo mesmo. Nunca foram mais do que nuances, sombras, contornos de um futuro hipotético que, confinado a uma redoma de mundo de sonhos intocáveis pela dureza da realidade, me eram elusivos: nunca soube direito o que fazer, como fazer, para ir atrás dessas coisas. E o motivo é simples: sem saber se esses sonhos são mesmo seus, se são mesmo quem você é, não há energia que apareça para planejar, para correr nas buscas e enfrentar as pelejas que são necessárias para construir essas coisas.
Mas agora as coisas mudam porque entender que essas metas são suas, e que são importantes porque na realização delas é que se encontra o sentido para essa vida, dá esse senso de urgência, de importância, de necessidade de fazer escolhas e de orientar um caminho progressivo que direcione as buscas dessas metas. É em transformar sonhos em metas que você se encontra, no fim das contas, com as perguntas, que você sempre achou que eram desnecessárias, para aquelas respostas que sempre ofuscaram a sua percepção do que era realmente importante e necessário.
O que não quer dizer que os sonhos convertidos em metas serão fáceis de serem conquistados, tampouco que serão realizados. Mas viver, de verdade, remonta em assumir certos riscos.
Em tempos nem tão remotos, essa constatação me causaria desespero porque a vida, da forma como eu a via, precisava dessa perfeição: esses sonhos teriam que ser realizados, do contrário, tudo mais teria sido em vão. A sabedoria está em abrir mão da perfeição de todas as coisas, de submeter suas ilusões e quimeras ao duro teste da realidade e em saber que o saldo, qualquer que seja, será sempre positivo se tiver sido fruto de sincera e entregue busca: mesmo que você não se encontre realizando o que hoje parece imprescindível, no fim das contas, há um grande conforto em saber que tentou, buscou, brigou e foi à luta. Nada que vier disso, no fim, terá sido em vão.
E tudo isso me traz a esse senso de urgência que é tão fácil confundir com pressa, com temeridade, com falta de calma, de foco. Não é nada disso. O tempo é precioso e, embora eu veja em tudo na minha vida um caminho que me conduz até esse instante, não posso esconder um certo senso de tempo perdido, de que é preciso apertar o passo. É algo nas linhas do que Saramago escrevera: “não tenhamos pressa, mas não percamos tempo”.
O que eu quero é uma vida mais resolvida, de saber para onde ir e de como chegar lá. O que eu quero é viver num lugar perto da natureza, numa casa com espaço, onde possa abrigar amigos e família. Eu faço voto de fé no sentido de que o que eu quero é adotar ao menos uma criança, quero ter a companhia de cães, quero colocar minha ideia de empresa para funcionar para que tenha qualidade de vida, possa passar com algum conforto, e viver em paz. Quero aprender mais coisas, da marcenaria a o que mais me despertar interesse, quero fazer dos meus dias os meus tesouros, que divido com quem me é caro e importante. Quero parar de correr, quero viver, não quero mais fugir, cansei de esperar, quero construir.
O tempo é precioso, a vida é curta e eu, que vivi sempre disposto a me debruçar na janela e ver a vida passar, hoje vejo que não há tempo a perder.
às 11:51 0 comentários Marcadores: Cartas aos meus filhos, Memórias
terça-feira, 8 de agosto de 2017
Ryan Taubert - Becoming Human
Queria ter composto a música e editado o vídeo.
às 15:06 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
domingo, 6 de agosto de 2017
O dia em que aprendi com um cachorro
Meu vizinho cinzento e eu temos estabelecido uma rotina de dois amigos que, embora separados, se entendem bem. Me espanta que, no fim das contas, eu e minha mãe somos as únicas pessoas interessadas em dar carinho ao cão.
Hoje, mais cedo, quando o cachorro, depois de horas chorando foi posto, enfim, em liberdade, e começara a correr e tentar chamar a atenção dos donos indiferentes, senti por ele um aperto no coração.
Não vou ao ponto de dizer que ele sofre, que seja cruelmente tratado, porquê, de mais a mais, há um teto sobre sua cabeça nas noites frias e de chuva, não lhe falta comida e, até onde pude ver, o comportamento frio e indiferente dos vizinhos nunca se traduziu em agressão física.
Mas senti um aperto, sim, ao notar que, apesar da pouca atenção, da maldade de ser relegado a um ornamento, que passa a maior parte do tempo trancado num cubículo sem janelas, seu único interesse ao sair de lá é correr, brincar, interagir, se sentir parte de uma família. Cães, assim como cavalos, não enxergam maldade, não guardam rancor.
No auge de suas preocupações, assim que pode sair o mais rápido possível da prisão, estava aquele universo compreendido pelos poucos metros quadrados daquele quintal, em achar o resto de vassoura que ele vive arrastando e atirando para o alto, em correr em volta de quem, cansado do choro, viera ao seu resgate.
Quando, depois do tanto tempo que o ouvi chorando, depois de vê-lo solto e reagindo com a desinteressada doçura de um filhote, senti vontade de abraçar, me apertou o coração e senti a ameaça das lágrimas. Engoli em seco enquanto me admirava do quanto mesmo o microcosmo das pequenas e inconsequentes aflições de um cachorrinho podem ser análogas às nossas.
Sequer sei seu nome, mas sei o que ele sente e sei que, no meio das durezas da nossa vida de gente grande, que gostamos de achar tão importante e fazer tanto por complicar, há uma profunda lição em ser tomada a partir do comportamento doce, abnegado, fiel e inabalável de um cachorro de pouco mais de um mês de idade.
Eu ainda vou roubá-lo.
às 22:22 0 comentários Marcadores: Memórias
quinta-feira, 3 de agosto de 2017
Planejando sequestros
Ele é grisalho.
Mas o que mais me encanta nesse cão é a sua tendência de jogar as coisas para o alto, de correr por todos os cantos, de se empolgar com qualquer coisa, de fazer menção de quem vai pular o muro quando me vê, por mais que o muro seja bem alto para o seu tamanho. Quando se dá conta da impossibilidade, ele apenas me encara, é como se dissesse “então venha você!”.
No fundo, acho que nos entendemos bem, mesmo com essa distância que nos afasta. O cachorro me encanta porque é doce, sem maldade, feliz e animado, além de ter esse aspecto tão diferente de pelos de um cinza tão escuro. Minha mãe e eu, ambos aproveitamos os poucos momentos em que fica livre da prisão para brincar com ele à distância.
Nem mesmo sei que nome lhe deram.
E me compadeço da sua sina. Meus vizinhos, veja bem, não são exatamente gentis com o bicho. São, aliás, desse tipo de gente que têm animais, no plural, mas não dedicam grande consideração por nenhum deles, aparentemente. Lembro do filho mais velho do casal, que entre outros predicados, tinha o de bater no cavalo que tinham (sim, no interior, algumas pessoas têm galinhas, gatos, cães, porcos e até cavalos em casa).
À troco de não causar danos, imagino, meu vizinho de quatro patas passa o dia todo trancado dentro de um cubículo de madeira. Mesmo quando o soltam, nunca vi nenhum dos moradores dar atenção, algum tipo de carinho, de brincadeira que ultrapasse servi-lo de ração. É como se o cão fosse um ornamento, e mesmo que ele seja um bem bonito nessa função, acho tão cruel um bichinho de tanta doçura ser alvo de tamanha indiferença. Sinceramente, acho que ele brincou mais comigo, com um muro entre nós, do que com os donos.
É comum ouvi-lo chorando lá de dentro do cubículo. Ao que eu cismo, comigo, como se pudéssemos conversar “eu sei cara, eu sei, é horrível”.
Me parte o coração porque o espaço parece apertado, nenhum pouco limpo e ele fica preso lá o dia todo, muitas vezes por boa parte da noite também.
Com que posso dizer que fui de não gostar de cães, ou ainda, de não saber que deles gostava tanto, a planejador recorrente de sequestros.
às 14:28 0 comentários Marcadores: Memórias


