O professor Silvio foi o que eu tive de mais próximo daquele colosso de retórica e capacidade de iluminar que, por vezes, pessoas de sorte encontram na vida, em especial quando chegam ao que uns chamam de ensino superior, outros, mais debochados, de máquina de moer sonhos. O professor Silvio era admirado pelo coletivo dos alunos do curso, era um tipo de farol, luminar que desbravava os caminhos tortuosos da filosofia e base teórica do ato de comunicar-se. Tudo, hoje, ciência relativamente vã na minha vida, mas de qualquer forma ainda apaixonante porque toda vez que eu me lembro de Adorno, Walter Benjamin e toda aquela gente boa da Escola de Frankfurt, lembro das perorações e do Silvio conjecturando como deveria ser apavorante levar um esporro de Theodor Adorno.
E quando digo que “foi o mais perto de...” não estou diminuindo o sujeito. Estou apenas atestando que o convívio foi curto demais: por razões pessoais que, hoje, eu entendo porque as encarei na pele, o professor Silvio acabou se transferindo para outro lugar mais aprazível e menos deprimente que uma certa princesa de uns não tão certos campos.
As aulas com ele eram inesquecíveis. Eram importantes, difíceis. As histórias que ele contava, a forma de explicar, o jeito de dizer as coisas de uma maneira que torna claras e pulsantes algumas das querelas mais inconsequentes a respeito das teorias da comunicação, a postura de quem tinha a sincera expectativa de que nós outros ali, apenas crianças, soubéssemos entender a largura de algumas ideias e a bitola larga por onde trafegam os raciocínios e progresso da história era libertadora, era empolgante, nutria em muitos de nós o desejo de aprender mais, de conhecer, de entender o que todas aquelas coisas significavam. De abraçar cada uma das referências culturais que ele encaixava naquelas aulas.
Silvio era redentor principalmente porque reinava sozinho no vácuo da boa parte de professores horríveis que tive. O que não é juízo de valor a respeito das pessoas em si, mas apenas medida da qualidade do trabalho que podiam oferecer no ofício do ensino. E, sinceramente, era mesmo difícil competir com o Silvio.
E foram dessas aulas, dessas referências, desse tempero apaixonante de cultura e descoberta que eu comecei a ouvir Sigur Rós, por exemplo. Ler Hermann Hesse ganhou outro paradigma, porque agora o alemão era mais que um escritor interessante. Italo Calvino redefiniu as possibilidades do narrável e da literatura na minha vida (sem a intenção do trocadilho). Entender o mérito da filosofia, de Nietsche, por exemplo. Filmes obscuros do cinema periférico, que eram mais do que aquela obsessão de parecer cult mesmo que isso custasse horas e horas perante filmes difíceis e aborrecidos, passaram a virar parte do cotidiano porque tudo vinha costurado com embasamento, sensibilidade e uma acuidade que eu nunca tinha sabido encontrar sozinho naqueles que eram, até àquela altura, meus curtos referenciais culturais.
Convivi com Silvio por poucos meses, não tive a sorte de tê-lo como professor nos anos subsequentes da graduação, mas a impressão nunca foi embora. Eu e meus amigos continuamos cultivando essa figura de guru, de sábio, que veio e foi embora das nossas vidas, semeando algumas ideias e impressões profundas sobre a vida, o universo e tudo mais. Algumas frases recorrentes do professor viraram itens constantes nas nossas conversas, como o esmagador “há momentos na vida em que você questiona a validade disso tudo”.
E é revelador desse apreço que aprendi a ter pelo professor que, anos e anos depois, fomos os dois nos reconectarmos no Facebook. Fiquei, a um tempo feliz e orgulhoso, em saber que ele se lembrava de mim e de um amigo querido.
De lá pra cá, nos esbarramos em postagens, em trocas de comentários, em algumas mensagens.
E hoje, completamente por acaso, fui comentar num post em que ele recomendava uma canção, letra de Dylan e voz de Joan Baez, que combinação perfeita, aliás. Nos comentários, fui apresentado a mais um referencial que, não fosse Silvio, jamais teria aparecido na minha vida:
quinta-feira, 12 de outubro de 2017
Ao mestre, com carinho
às 22:10 0 comentários Marcadores: Memórias
quarta-feira, 11 de outubro de 2017
Breaching the cognitive gap
Eu sou cheio de tropeços, então eu tropeço em história naval, de lá caio em alguma questiúncula sobre Napoleão e, de alguma forma, no meio disso tudo, vou estudar o kernel do Linux porque as minhas ambições crescem dramaticamente. E de alguma forma, no mágico caleidoscópio de ideias, desatinos, memórias e conhecimento que formam essa pessoa que eu sou, tudo faz o maior sentido. Mas hay um problema.
Porque eu sempre fui assim, mas em maior ou menor medida, sempre me foi difícil estimar um efeito de fastio que venho notando agora, bem agora que a cabeça precisa ter espaço para muito mais coisas e chavear instruções e modos de operação entre todas elas com uma exuberância que eu pensei fosse inoxidável. Mas não é. Eu não sou mais adolescente.
Eu sinto que a minha capacidade de transitar de contextos e minha capacidade de isolar processos e raciocínios, sem considerar a habilidade de lembrar e conectar ideias, já não é mais a mesma. A entropia, a inevitável entropia, alcançou os meus neurônios e não há nada que possamos contra a termodinâmica.
De alento, meu otimismo poderia dizer que esse tipo de percepção, de acuidade em relação a si mesmo seria inviável há algum tempo, que eu só fui notar essa transição a algum custo e depois de ler, por pura falta do que fazer, um artigo a respeito do que os gringos têm chamado de “cognitive gap” entre as gerações (e que me dá o que pensar: serão os meus filhos muito mais espertos do que eu? Eu vou me sentir orgulhoso em 100% dos casos? Não vai doer nenhum pouquinho se sentir burro perante uma criatura que você pôs no mundo? A saber.).
A solução para essa prematura decrepitude deve vir na calma de, mais uma vez, aceitar o que a vida dá. Quem sabe começar a selecionar melhor os assuntos. Ou ainda desenvolver método para casar melhor as informações, criando vínculos e as raízes de tudo que se aprende para que, quando mergulhar nos galhos e nas folhas das pequenas minúcias, elas tenham onde se agarrarem e nessa árvore do que você sabe, tudo tenha laços e vínculos que dão sentido e coesão ao todo. Nunca precisei me preocupar em organizar as minhas informações porque, de alguma forma, meu cérebro entrava num piloto automático fascinante de biblioteconomista que sabe exatamente onde estão trivialidades e informações importantes com rigor e precisões impressionantes.
Sempre morri de orgulho da minha memória.
Talvez do que eu precise, já que a entropia é inevitável, é mesmo de uma receita de overclock do cérebro. Acelerar essas sinapses, prover de todo fosfato possível esses neurônios e elevar a frequência de operação dessas células certamente poria todo o sistema sobre um estresse pronunciado, elevando potencialmente o efeito da tal entropia, quem sabe até antecipando-o de forma perceptível em alguns anos, mas: de que adianta viver se poupando para um ocaso que, se vier, não fara o menor sentido com todas essas luzes guardadas? Mais importante ainda: que pai vou ser eu se não for esperto o suficiente para impressionar e me impressionar com minhas crianças, sem a insegurança bocó de me sentir burrinho perante elas?
quinta-feira, 28 de setembro de 2017
A cidade é um museu a céu aberto
Num desses dias, precisei comprar três metros cúbicos de pedra brita e me fora recomendado que o fizesse numa certa loja de materiais de construção, localizada naquela que nós aqui chamamos de Praça da Bandeira.
Conheço muito bem o lugar porque, há uns 30 anos, por lá funcionava uma escolinha particular onde fiz parte primeira da pré-escola. Lembro vagamente do lugar, que é antigo, e tenho alguma recordação dos livros e apostilas, que eram do Expoente, das lições que ensinavam as letras ao compara-las com objetos e animais. O “I” era uma girafa, por exemplo. O “8” era um senhor barrigudo.
Mas tenho recordação mais vívida de uma festa junina no amplo pátio da casa que, naquela altura já era decididamente antiga, e em que eu compareci todo caracterizado de caipira. Lembro da fogueira, enorme, da dança da quadrilha, das meninas de vestidinho, dos pais, das barraquinhas e das crianças correndo para lá e para cá.
São flashes fugidios que nunca foram embora da mente ao longo de todos esses anos, mas que nunca foram revisitados de forma tão atenta porque nunca foram chamados à tela enorme desse cinema onde revivemos nossas antigas recordações.
Lembrar dessas coisas não trouxe nada de muito importante, apenas pôs em evidência impressões e imagens de um tempo que passou há muito, da doce criança que eu fui. As memórias são tão antigas que qualquer sensação mais intensa se perdeu com o tempo. Assim como as fotos da minha versão caipira de cinco aninhos que, infelizmente, foram engolidas pelo fogo.
A casa, em pé, está bem diferente por dentro. Não encontra-se mais o corredorzinho que levava ao quarto onde funcionava a minha classe. Lembro do banheiro, que era escuro, e da sala, em que ficavam brinquedos de montar. Mas agora tudo se confunde num emaranhado de produtos, balcões e estantes que obstruem a vista e não permitem mais sequer vislumbrar se a antiga divisão de cômodos sobreviveu.
Hoje, apesar da fachada e da casca, além da disposição do terreno, que ainda preservam toda a área da antiga escolinha, desapareceu todo o resto: não há sinal de que, há quase 30 anos, crianças começavam a vida escolar por ali. Não há sinal que eu, um dia, corri por aquele gramado, me encantei com a altura daquela fogueira, dancei por ali a minha primeira quadrilha. Não há sinal naquele monte de areia que ali um dia ficou uma gangorra e que, no espaço ocupado pelo monte de brita de onde saem os metros que acabei de comprar, ficava o balanço em que, e disso me lembro bem, meu pai me embalava até que cansássemos os dois.
Há uma impressão, no entanto, que sobrevive a essas recordações. A da nossa inconsequência diante das coisas que passam e que se perdem pela inexorável passagem do tempo, porque eu não me surpreendo se esse cidadão aqui, que acaba de me atender, não souber que um dia isso foi uma escola e que, mais ou menos de onde ele maneja a calculadora, eu estive caminhando em direção à salinha em que a tia e meus coleguinhas me esperavam.
Nós somos, mesmo, episódicos e inconsequentes. Toca, então, a deixarmos nossas marcas, se não no mundo, no coração e na lembrança das pessoas, em especial aquelas que nos querem bem. Porque todo o resto soçobra, decai, desaparece, muda e esquece. O que fica, no fim, somos eu e você, admirando o manancial inesgotável das lembranças doces que gostamos de ter.
às 13:36 0 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
Pureza e gratidão
Hoje dirigia pelas ruas atrás das minhas responsabilidades quando avistei, ainda há poucas quadras de casa, um senhorzinho com severas dificudades de locomoção, esgrimindo o melhor que podia duas muletas com enorme sofrimento para descer uma ladeira. Parei o carro imediatamente, baixei o vidro e lhe perguntei aonde ia e ofereci carona. Não ia longe, ao menos nas minhas contas de moço forte e sadio, e ainda mais motorizado. Ia ao banco buscar dinheiro e dali iria à farmácia.
De um salto, ele me olhou incrédulo. Depois que refiz a oferta, de sorriso amistoso no rosto, percebi que ali se travava algum conflito. Talvez desconfiasse de mim. Lhe dei todo o tempo até que se decidiu e aceitou. Puxei o freio de mão, de motor ligado desci e o ajudei a embarcar no lado do passageiro. Levei-o ao banco e fiz questão de levá-lo também à farmácia. Deixei-o em sua residência e, aí sim, fui correr atrás da flecha do dia.
Eu poderia tecer panegíricos em serviço próprio no sentido da minha grandeza de espírito, da minha tamanha generosidade, do quanto me comovo, dessa percepção que tive, que tantos sequer notariam o senhorzinho. Poderia dizer que, além de tudo, resisti ao odor de quem não deve frequentar o chuveiro com muita assiduidade. Nada disso define esse episódio porque a cidade pequena convida a esses gestos: numa capital, eu não sei se perceberia o sujeito à beira do caminho e se, em percebendo, teria a preocupação que tive quando o avistei.
Mas tudo isso é irrelevante.
Porque o homem, ao me agradecer, sorriu e chorou. Me recomendou a todos os santos, me abençoou diversas vezes e, palavra, eu bem que queria comungar dessa fé para me sentir íntimo, se não mesmo digno, de toda essa gratidão. E a experiência extraordinária de um sentimento puro assim é, no fim, o que fica aqui comigo desse pequeno episódio.
Porque é nisso que eu queria chegar. A partir do momento em que você se pacifica com o que vai dentro de você, coisas simples e coisas grandes acontecem, porque você fica mais atento, você fica mais sensível, o universo se interlaça contigo. Quando você se encontra consigo mesmo, é fácil notar e descobrir as demonstrações absolutas dos sentimentos humanos: da raiva ao amor.
O que eu vi nos olhos daquele homem, vertendo lágrimas pela face judiada pela vida, foi uma gratidão definitiva, pura, em uma essência de dicionário, de verdade e grandeza que tocam fundo no coração da gente.
às 15:26 0 comentários Marcadores: Memórias
domingo, 24 de setembro de 2017
Chaos Chaos - Do you feel it?
Are you afraid of me now?
às 23:03 0 comentários Marcadores: Rádio blogue
sábado, 23 de setembro de 2017
Foi em 1814
O livro, antes de se debater no aspecto histórico do evento, que nem foi tão interessante assim e se prolongou por meses, segundo eu me recordo, versava sobre a depravação de uma classe de pessoas completamente alheia ao mundo real, toda desesperada pela manutenção dos privilégios e de, muito antes do que consertar a europa de forma justa, se preocupava em criar mecanismos que impedissem o surgimento de uma revolução que fosse dar em outro Napoleão. E não porque Napoleão fora inerentemente ruim: do que esse povo não gostava era da guilhotina que, gulosa, não poupou as cabeças douradas de Luís XVI e Maria Antonieta, além de outros potentados menos votados da chamada aristocracia francesa. Porque o Bonaparte, em que pese a insaciável sede conquistadora, de resto, de citoyen tinha muito pouco: virou imperador autoproclamado, foi morar em palácio, criou sua corte e ainda encontrou tempo de casar-se com princesa, e dizem que morrera de amores por, curiosamente ela austríaca, nascida desses mesmos Habsburgos que foram anfitriões do banquete em que se almoçou a vida e obra do baixinho francês que, a essa altura, se contentava em imperar sozinho nos confins da diminuta e quase inabitada Ilha de Elba.
O livro narrava a vida de prostitutas e golpistas. Diziam os críticos que era rico em contrastes e tons cômicos, e que a prosa não era de todo ruim.
Contam as memórias e registros desse tempo que não houve puta pobre na Áustria por meses. Que não faltou escândalo, extravagância e frivolidade, trio certeiro que eu deveria converter imediatamente em minhas temáticas preferidas para escrita porque escrever a sério pode ser muito nobre, engrandecedor e honrado, mas não leva a lugar nenhum.
O que guarda certa semelhança com aquela passagem do "O Lobo da Estepe" que, hoje, 12 anos depois, eu ainda sei recitar direitinho: o homem não foi feito para pensar, assim como não foi feito para nadar. O homem foi feito para viver e para andar na terra. Pensando, o homem pode chegar muito longe, mas um dia estará trocando a terra pela água e nela morrerá afogado.
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Parte 4
Meu escape para essas ilhas cheias de distância, como dizia a canção, estava em vias de acabar-se quando, enfim, despertei do sono tão bem dormido naquela rede na varanda, exilado voluntário que fui do quarto masculino e, evidentemente, do feminino, que eu não sou desses. Se soubesse da delícia dessa rede e dessa varanda, tinha dormido todas as noites da minha estada nela.
De resto, acordei do sono bem dormido com a cabeça tentanto voltar a garrar-se nos problemas dos dias, das obrigações, das omissões, das missões e necessidades, desse oceano de coisas que todos devemos atender e que vão, uma a uma, dando propósito a essa nossa perseguição do nada último que é o sentido da vida. Ando, como se vê, muito filosófico e a isso devo, sem medo algum, o ocaso calmo e reflexivo desses dias de retiro, de desaceleração, de paz, de curiosidade, de calma.
E refletindo sobre as delícias todas desse feriado, instiguei o juízo na busca de razões pelas quais devia sentir falta do lugar e do período. É a paz, que por ventura só se encontra nessa ilha e nessa morada, ao custo módico de algumas centenas de reais? De forma alguma, porque a paz, ah a paz, essa eu trago comigo e faço de todos os meus destinos moradas pacíficas.
A natureza, então? Não vou negar que a paisagem afeiçoa, que o silêncio acalma, que o nada e a ausência das distrações e frivolidades da vida cotidiana dão senso de propósito e reorientam a escala pela qual medimos o que é importante. Mas não podemos viver nos escondendo da vida, que ela é mesmo bandida, e o mais interessante dessa percepção é, portanto, tirar a lição de que se não podemos ficar cá com a montanha, é o caso de achar meios de trazê-la para perto, ou de, ao menos, encontrar meios termos: nem tanta fuga e floresta, nem tanta correria e concreto.
Meios termos, dirá alguém, é uma forma muito certeira de não se compromenter de verdade com mudança alguma e de fincar morada em cima do muro das eternas omissões. Há certa verdade nisso.
Mas também há verdade na necessidade que todos temos de racionalizações e de construção de sentido, se não mesmo de clareza, em buscas que nos alimentam, que nos empurram, que nos comovem e emocionam na direção de coisas grandes, maiores que nós mesmos, sejam elas quais forem para cada um de nós. E as buscas que me apaixonam hoje, as que me norteiam certeiro como o pássaro que nunca perde o rumo de casa, são as íntimas convicções de que jogar tudo para o alto e me exilar nessa ilha é fuga, e de fuga eu ando farto.
E eu andava contente com as minhas filosofias e medidas pueris para problemas hipotéticos, revisitados tantas vezes por quem é melhor, quem sabe mais precoce, quando vi a mente resvalar nos problemas do cotidiano. Na necessidade de não perder a hora, do contrário barco para o continente, só amanhã. E, ah, como todo cais é, de fato, uma sasudade de pedra. Na necessidade de abastecer o carro, de pagar o estacionamento, de fazer as compras. Carregar o celular. As aulas que voltam. Os encargos e missões, responsabilidades e as expectativas que há de outros em cima dos meus ombros largos, todas essas coisas, que afastei da mente com tanto vigor, vieram no fim desse exílio como as vagas que a gente passa a vida inteira tentando represar. Um tsunami de chatice, portanto, foi lenta mas inexoravelmente afogando o brilho da minha filosofia de boteco, dos meus pensamentos e valores pueris reciclados na forma de tanta palavra bonita e inconsequente.
As horas foram se contanto, fui me despedindo dos novos amigos, ah nós outros, brasileiros, quatro dias ao lado de estranhos e os chamamos de amigos, mas vá lá, são meus amigos, porque quem os decide sou eu e eu os acolho no abraço largo de quem faz tino em, por onde andar, deixar novas amizades. É de certa forma cômica a cena desses e-mails todos anotados em papel. Fiquei contente de, pela manhã, poder brincar um pouco com meu amigo canino, vigia camarada que caminhou comigo ontem e montou vigilância fiel sobre o meu descanso de ressaca de quem, como diria meu pai, ah, como você tem feito falta, aliás, "teve noitadas".
Mas se não é paz o que me encantou nesse lugar e nesses dias, nessa fusão de espaço-tempo, desse propósito de exílio e descanso, o que foi? As companhias? Por certo que agradaram, é tão bom praticar esse inglês de anedota. Mas boas companhias se encontram em todo o lugar, é tudo uma questão de procurar por elas. A mata é bonita, sim, mas floresta e rumos a serem andados eu posso encontrar perto de casa. O barulho do mar, talvez? Desconfio que não, porque não prestei tanta atenção assim nele: havia tanto mais para ouvir, tanto mais para ver e, no meio dos doces encantos das coisas que eu tenho para dizer, para ouvir, para rimar e cantarolar para mim mesmo, vou falar a verdade, o mar acaba sem graça nenhuma.
E nesse exercício de achar a razão dessa delícia, só lá no fim, quando já vencia a pequena língua de água a separar a ilha do continente, que foi sedimentando aqui no peito a resposta, essa verdade tão clara, como de ordinário são elas todas, tanto mais essas obviedades ululantes, que me gritam diante dos olhos e que eu, bem bobinho, vou perceber uns meses ou anos depois: assim como a paz, seu bocó, a felicidade, a calma, a tranquilidade, o prazer desse retiro, estão em você. Idiota. Se você quiser, você entra em comunhão com a paz última do fim de todas as coisas no olho de um furacão, só depende de você. Como sempre, aliás.
Duly noted. Again.
domingo, 17 de setembro de 2017
Felicidade pura
Essa nova janela de tempo prolongada de vida no interior tem me colocado em contato com uma antiga paixão: a astronomia. Venho lendo, estudando, observando e coletando novas impressões sobre essa ciência em virtude do céu que aqui, limpo, não é tão perturbado pelas luzes da cidade.
Mais do que olhar para estrelas, acompanhar o noticiário científico das descobertas, os podcasts e o que mais for, tenho renovado o já portentoso catálogo de documentários e vídeos sobre o tema. Investigando umas deliciosas transmissões ao vivo da Nasa, me deparei com essa pequena montagem:
O detalhe que mais me chama atenção no vídeo são as demonstrações de felicidade dos engenheiros e cientistas de cada missão bem sucedida. É felicidade pura, alegria que nasce de um feito que não diminui ninguém: ao contrário de uma comemoração de gol, por exemplo, o triunfo de quem manda sondas, robôs e rovers para um outro planeta não machuca ninguém, não representa infelicidade de outra pessoa.
Um dos compromissos que eu tenho comigo mesmo é de ensinar crianças, não necessariamente os meus filhos, esse carinho e essa sensibilidade para com a ciência. Se, um dia, uma criança escolher a astronomia, ou qualquer outra ciência em virtude dessa percepção do lado humano em cada uma dessas conquistas, eu terei sido uma pessoa feliz e bem sucedida.
às 16:19 0 comentários Marcadores: Cosmo por ele mesmo
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
Parte III
Há muito tempo que eu não vivia uma ressaca dessas, uma ressaca de criar bicho, uma ressaca de matar remorsos, uma ressaca de juras eternas no sentido de nunca, jamais, sob hipótese alguma, me entregar aos exageros do álcool mais uma vez.
Que delícia.
Ao longo do dia, dia em que mesmo me sentindo como um vestígio humano, me impus mais caminhadas, fui remontando os episódios ocorridos na noite anterior e foram se esboçando sorrisos poliglotas nessas minhas memórias perfumadas com o solene galanteio do mar que, logo ali, ondulava e cantarolava as cantigas de além, de saudade.
Na saída, um cão fugitivo da vila de pescadores veio me acompanhar. Já tinha notado o bicho noutro dia. De aspecto magro e sofrido, o cão mendigava atenção e restos de comida dos visitantes da pousada e, provavelmente preocupado com o silêncio da casa em hora avançada, se assomava sem cerimônias à porta da varanda que dá para o jardim. Me saudou com um olhar inquisitivo, provavelmente querendo saber da comida e do café, que por essa hora já deveria estar servido.
Não sei se cães comem maçãs, que era só o que tinha comigo, e por isso não dividi o lanche.
Mas essa falta não parece ter desinteressado o cão que, provavelmente sem outro recurso e nada mais interessante para fazer no momento, resolveu me acompanhar. Me embrenhei na mata e notei que o bicho tentava não apenas andar ao meu lado, se não adiante, e assim deixei, instigado por saber até onde ele iria.
Uns dois ou três quilômetros depois, me encontrei com o lugar que desejara para o descanso do dia e a contemplação descompromissada da natureza. Era preciso sair da trilha e entrar no mato e aí sim meu camarada canino hesitou.
Parou, ergueu a cabeça, e lançou um olhar inquisitivo, desses que impõe: “tem certeza, companheiro?”. E eu tinha, e eu tenho. Em geral, camarada, eu sempre tenho certeza.
Porque acontece que, no roteiro dessa nova alvorada, me impus uma nova rota, resolvi caminhar uma trilha sem compromisso e escolher um espaço qualquer que, do alto, me desse vista do mar, que ali montaria minha breve morada. Levei comigo frutas, música para ouvir e todos os meus pensamentos, que em luta fraterna e tardia, dilaceram a ditadura dos meus sonhos. Então, sim, eu tenho certeza.
Gostaria agora de dizer que, recostado naquela clareira, tive alguma nova epifania, que sedimentou-se no meu juízo uma nova catarse. Que alguma aparição me fez profeta, que fiquei mais sábio, que descobri ou aceitei algo novo, que a vida se descortinou envolta nas brumas que envolviam o céu cinzento que ensimesmava sem roubar nenhuma paz e beleza daquele mar sereno.
Nada disso aconteceu, talvez porque a ressaca não seja boa companhia para momentos transcendentais na vida, ou simplesmente porque talvez o momento dessas dramáticas viradas de página simplesmente já passou, ou talvez porque nada disso, no fundo, exista: o que há, mesmo, somos nós outros, todos de alguma forma perdidos no meio do caminho da vida, angustiados e ansiosos na expectativa de sermos capazes de extrair propósito, desígnio e sentido das nossas escolhas e das consequências delas e dos nossos atos esparsos. Quem é que sabe?
O que aconteceu foi que eu descansei, ouvi música, pensei na viagem de volta. Fiz notas mentais para comprar os licores que minha mãe encomendou. Para calibrar os pneus. Para pegar contatos dos gringos com quem enchi a cara. Pensei na faculdade, no trabalho, em mim, pensei na família. Nas coisas que me importam realmente. Pensei em 2018, pensei nesse desafio de transformar o ano que vem em algo ainda melhor do que esse que, estranho e com seus espinhos, é um dos melhores anos da minha vida. Pensei, pensei, pensei e pensei.
Atrás de mim, repousava o caminho que me conduzira até aquele ponto e eu podia ouvir por lá vozes animadas e gente que fazia também as suas trilhas. Intimamente, torci para que alguém viesse até onde eu estava, para que compartilhássemos a vista, eu contasse e ouvisse histórias, aí sorriríamos e trocaríamos impressões sobre a vida. Mas a verdade é que eu não posso me mexer daqui para dar esses passos para trás, não agora, não assim, não desse jeito. E a verdade é que quem vai lá por aquele caminho desconhece-me, quem sabe rejeita, ignora esse lugar maravilhoso e as preciosidades que vão comigo aqui, agora e nesse instante.
Aí aborreci-me.
Era hora de voltar, de levantar acampamento, juntar as coisas, coletar o lixo e deixar só as cascas das frutas. Andei pela curta extensão de mata no rumo da trilha, desci o barranco com cuidado e encontrei o caminho alguns metros abaixo de onde originalmente tinha me desviado horas atrás. Para a minha surpresa, aninhado entre as raízes generosas de uma árvore, estava embrulhado o cão guarda que me acompanhara.
Com a maior naturalidade do mundo, de um jeito que me tocou o coração, ele simplesmente levantou e se pôs a andar ao meu lado.
Na pousada, fui até a cozinha, expliquei-me à cozinheira e dela comprei um naco de carne, uns ossos e linguiças. Fiz-lhe o banquete em agradecimento e me enchi de alegria ao ver que, nos olhos daquele cachorro, ia genuína gratidão e amizade, que estava ali feito um laço indissolúvel de amizade, de companheirismo, de entrega.
Meu pai sempre dizia para que, onde quer que você vá, faça amigos.
terça-feira, 12 de setembro de 2017
Guia do caroneiro II
Caiu a noite enquanto eu me encorajava a tomar um banho para aceitar o convite dos colegas de hospedagem e ir, à beira do mar, fazer-me presente à roda envolta da fogueira, onde se beberia, contar-se-iam históricas e a dar-se fé na viola que, orgulhosa, pairava emparedada na recepção, ouvir-se-ia música a partir do dedilhar e do cantarolar do dono do lugar que, imaginei com razão, cantaria e tocaria noite à fora.
Eu estava sobretudo curioso a respeito dos gringos e gringas que compartilhavam o teto. Gente de todos os cantos, Dinamarca, Austrália, Colômbia, Canadá, Estados Unidos e outras denominações e nacionalidades menos votadas das Europas todas. Gostaria de conversar com essas pessoas, saber delas, do que fazem aqui, do que acham desse pedaço de nada, do que as encanta e decepciona, se voltariam, se ficariam, se me recomendariam ir conhecer suas terras.
Encorajado pelo suor que me fazia a pele viscosa e grudenta, tomei a coragem, peguei a toalha e todos os acepipes dedicados à arte do banho e me assomei ao banheiro para, não digo interromper que meus passos são leves como os de felino, mas para surpreender uma tórrida relação entre dois rapazes que dividiam um dos quartos do primeiro piso. Esse registro não tem razão nenhuma de ser nesse post, mas eu precisava dividir a anedota com alguém.
Refeito do susto, e de banho tomado, fui de isopor carregado de gelo e cervejas debaixo do braço rumo a roda que já se animava ao calor desnecessário do fogo, do calor mais que necessário do álcool e o que mais consumiam para libertar as amarras.
Me assomei à roda onde havia espaço, tive o cuidado de escolher uma área longe de casais e que me desse vista ao mar, mas também ao contorno irregular da serra, não que tenha ido à roda para admirar a paisagem, mas porque se é para escolher um lugar, não vejo razão para que não escolha simplesmente o melhor disponível.
Eu não lembro de muita coisa, mas recordo ter conversado com uma dinamarquesa de olhos azuis, ter falado sobre corridas com um americano, defendido Narcos junto a um colombiano e ter dado muita risada conversando sobre política com meus conterrâneos.
Tinha uma gringa e um gringo que eram estudantes de astronomia, e a quem eu teria tietado por toda a noite, não fosse o fato de que, bêbado, fiquei com medo do meu inglês de anedota acabar no caminho na hora de discutir essa ciência da qual já foi dito é uma experiência que ensina humildade e constrói caráter: “não há demonstração melhor da tolice das presunções humanas”, diria Carl Sagan, com as carradas de razões de costume. Translation, rotation, quasar, neutron star, delta-V, Mars, Venus, Moon. Eu iria trocar essas coisas todas.
O que me recorda, pela enésima vez na vida, a comprar ou montar um telescópio, que bem que faria sucesso em meio a esse céu feito esplanada dessas terras sem cidades, sem luz que aborreça o brilho cálido das estrelas, do universo e dos planetas.
A noite passou qual um borrão porque eu bebi uma barbaridade e acordei com a cara enfiada na areia na manhã seguinte, bem a tempo de prevenir-me de queimaduras de sol. Ao meu lado, outros vestígios da longa noite se assomavam na forma de garotas e outros moços que também esticaram a não mais poder a noitada.
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
Guia do caroneiro I
Nessa última viagem, andei calmo e não me impus a nada. Nas anteriores, vinha me obrigando a fazer algo que não estava no escopo do trajeto, ou que eventualmente não seria de minha preferência. A ideia era sempre se obrigar a dar brechas para as coisas novas, testar, permitir-se ver e fazer coisas diferentes.
A verdade é que toda essa dança cansa. A um certo ponto da vida, você é o que você é e mudanças radicais não vão acontecer mais. Ou, se ocorrerem, virão na esteira de algum evento especial, não a fórceps.
E aí me enviei nessa viagem, tanta coisa para descansar o lombo, para esticar as pernas pelas trilhas, para dormir sem pressões no silêncio da mata que envolve o hostel simples, extremamente simples, que fiz questão de escolher: sem internet, sem cobertura de celular, energia elétrica só por algumas horas por dia por conta do gerador que não fica o tempo todo ligado.
Paz e natureza.
Havia, no roteiro, ensejo para as torturas que me havia imposto. Eu comeria prato com frutos do mar, por exemplo. Se algum turistão mala quisesse me aborrecer nas minhas trilhas, seria bastante gentil e receptivo, e lá iríamos compartilhar a natureza. Se houvesse alguma celebração na praia, com direito à droga e álcool, eu me permitiria aos exageros que sempre soube contornar com a velha segurança de quem, desde cedo, soube dos seus limites.
Mas não fiz nada disso. Ou quase, tentei um prato com peixe, mas não venci o engulho para tentar comer qualquer bobagem na forma de fruto do mar que acompanhava o cardápio do dia. A carne do peixe, vou ser bem sincero, foi bem comestível e me surpreendi em descobrir que, ao menos da variedade que experimentei, é bem melhor do que frango, por exemplo. A tal bobagem do fundo do mar me faria vomitar.
Na trilha, que fiz questão de começar à primeira hora da manhã, bem antes do café para não arriscar companhias, me vi nessa calma de quem renasce toda vez que anda pelo mato. O som, a beleza da luz que se filtra pelas folhas e vem brincar com a gente pelo caminho, o ruído da vida em decomposição que estala a cada passo, a sensação de entrega ao todo e de paz de quem bem que poderia dizer que está sozinho no planeta dão energia.
Liguei o celular para acompanhar a quilometragem.
Caminhava nessa velha paz e lancei o olhar para o que vinha. Encontrei, por meio das árvores, o perfil azulado do mar que, eu não sabia, chegava tão perto do trajeto. Fugi da trilha e fui sentar à areia, vislumbrando as dezenas de metros que a água precisava vencer pela maré, se quisesse me alcançar. Nublado, o dia parecia que seria bonito, sem tanto calor, sem tanto tumulto.
Deitei na areia para esperar a vontade de continuar, faltariam talvez uns 10 quilômetros ainda.
Enquanto me entregava aos meus pensamentos, que não param esses meus pensamentos todos, fui desandando alguns outros caminhos, refazendo uns, criando novos. Há tantos planos, eu tenho tido tantas urgências, e embora o peso de escolhas, responsabilidades e consequências de hoje pareçam que vão me entortar as costas, há uma segurança que eu sinto, uma paz que revigora na mesma medida que a calma sossegada dessas matas, essa de que eu, pela primeira vez em tanto tempo, sei muito bem o que estou fazendo, sei muito bem para onde estou me dirigindo e, mais do que tudo, estou feliz e satisfeito por conta do destino que eu não mais aceito passivo e descompromissado, mas construo com paciência e devoção com esse meu jeito ressabiado de quem já apanhou que chegue da vida e que, antes de revidar, cala, sorri, respira fundo e para de brigar com os fatos e com a verdade de que a vida que a gente leva não é fruto da nossa escolha, mas é consequência.
Sento-me novamente e fico aborrecido de não ter me preparado para meditar, que o lugar é deveras interessante para o mister, fico ainda mais chateado de não ter trazido o Kindle: eu poderia ler Guerra e Paz de uma só vez nesse lugar. Pena ser isso uma reserva, porque confesso que essa é a primeira praia da minha vida em que eu ergueria uma morada. Tudo para acordar com essa paisagem e esse som.
Finalmente entendo qual é a graça que via o Neruda em acordar com aquela janelona enorme, debruçada sobre o Pacífico. Finalmente entendo como podia aquele cidadão ser tão inspirado nos seus poemas.
Mas aqui não faz frio, dirá algum recesso da minha essência. Não, não faz tanto frio, mas talvez onde venta, geia e neva, não há som do mar, cheiro de mato, calma e essa energia que brota da comunhão com a paz das coisas vivas. É tudo, como sempre, uma questão de escolhas.
Perdi a noção do tempo, sentado na areia, como quem pede carona à beira de uma estrada que não existe, por onde não trafega ninguém. Com o que concluo essa breve anedota dessa viagem de quatro dias (ou seria de alguns anos?), percebendo que não mudaram tanto as coisas, eu sou a mesma coleção de exageros, desatinos e disparates de sempre, só agora mais calejado e ciente, coeso; que eu ainda estou pelos caminhos à pedir carona, mas que agora, ao menos, não embarco em qualquer um que responda ao meu polegar em riste, simplesmente à troco de embarcar e ir a algum lugar. Não, porque agora, ao menos, sei muito bem para onde estou indo.
às 14:44 0 comentários Marcadores: Memórias
quarta-feira, 6 de setembro de 2017
Todas as algumas palavras
Saudade, idas e vindas, chegadas e partidas. Falta. Força, sobra, sonho metas, destino e desatino, caminhada. Paciência. Porta aberta para o sertão da solidão, coragem. Volta. Não volta, incerteza, maldade, incompreensão. Omissão. Paixão, sonhos, recordações, mais força, nenhuma dor. Ridículo. Afeto, carinho em suspensão. Tempo, tempo, tempo, tempo: cinco anos. Futuro, planos, vontade, energia, amanhã, hoje, mas é só ontem. Fim e recomeço. Morte e ressurreição. Palavras, palavras, palavras e mais palavras. Se, e se. Somente se.
às 13:19 0 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 1 de setembro de 2017
Um dia na vida
Acorde às 6 horas da manhã. Exercícios de cálculo para refazer, semana que vem tem prova, puta que pariu, e o trabalho? 8 horas da manhã, faz o café, amargo, de doce já basta a vida. Pega o carro, vai na construção, da construção vai na advogada ver como anda a negociação porque a construtora, que entre outras aventuras, ergueu parte da casa no terreno errado, simplesmente largou a obra. Dor de cabeça, mas que venham, que eu não tenho medo, eu tenho razão, e, melhor ainda: eu sou bom de briga. 10h30 da manhã, mensagens no celular, não vou ler agora, tenho que me concentrar no trabalho, esse que paga as contas e soma as bases do amanhã que há de ser ainda melhor. Consulta, a quantas anda essa miopia? Volta, almoço, não almoço, mas faço companhia, minha mãe aposentada cozinha qualquer coisa que eu acabo provando e, claro, gostando. Aí vamos lá, vai chegando a tarde, tenho que ver esse ruído na direção do carro, não é problema de segurança, mas me irrita uma barbaridade. Volta da concessionária, vida em trânsito, volta para a casa. Qualera aquela história do Python mesmo? Como usava aqueles self? E como diabos faz aqueles laços com for? Puta que pariu, Python, como você consegue ser tão simples e, justamente quando simplifica as coisas, ficar tão complexo? Paro de estudar, trabalho mais um pouco, aí sou indulgente, vou ver um documentário sobre ciência, um episódio de uma série, dou-me folga, e volto com uma ideia para o SOSF 1.2 Fetutine (SOSF é meu Linux homebrew, cujo codinome de versão é Fetutine, já que o Google usa as sobremesas para o Android, eu vou de massas), integro suporte ao Wi-Fi para SOSF e fico feliz quando a parada toda funciona. O que me incentiva a continuar o curso à distância sobre C#. 18h. Tomo banho, lavo bem as mãos, manejo as lentes de contato, computador novo na mochila (como eu fico animado com computador novo, como eu sou bobo), mochila nas costas, eu no assento, 7 quilômetros, estaciono, vou à aula. Putz, esqueci de novo de ligar para pedir reembolso daqueles vinhos extraviados no transporte. Aliás, a encomenda do meu irmão saiu da alfândega na Alemanha? Bora checar, se não esquecer, lá no instituto. Matemática. Funções, limites e derivadas, tudo tranquilo, aí tem aula de Banco de Dados, me dá sono, mas fico ainda mais convicto dessa ideia de, lá pelos 50, aposentado e com as crianças crescidas, cursar matemática só por amor ao esporte. Fim da aula. Cerveja com os camaradas na bodega que vende artesanal, que não tem letreiro, abre de vez em quando e que faz uma questão absurda em não ser conhecida por ninguém. Volta pra casa, rapaz, tá na hora de ir dormir, amanhã é isso, e muito mais, tudo de novo.
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quarta-feira, 30 de agosto de 2017
Blurriler
Eis o blurriler. Na verdade, é blue heeler, mas o brasileiro abrasileirou o nome e, agora, a raça de cães originária da Austrália, cujo pelo não tem nenhum tom amarelado, que esses são os red heeler, tem um nome português para chamar de seu.
Nada resiste à criatividade brasileira.
Era um desses o meu vizinho de algumas semanas atrás, um cão esperto e engraçado, que me chamou a atenção e inclusive encorajou-me planos de sequestros que não vieram a se concretizar. Alegre, curioso, espevitado e cheio de energia, o sujeito encantou não só a mim, mas também à minha mãe. Agora, me restam apenas uns vídeos e fotos do cão.
Depois que soube que o bicho não era o vira-lata que eu, sem saber muito sobre cães, tinha calculado, embrenhei-me numa pesquisa para descobrir de que raça ele era. Depois alguma pesquisa, vim a saber que esse espírito alegre e espevitado é bem típico desses pastores australianos.
Conclusão que, somadas a outras impressões que adquiri de outras raças, me leva a "rereconsiderar" muitas coisas e a incluir esses blurrilers nas minhas buscas por um filhote. É pena, no entanto, que recomende-se a esses cães espaços abertos amplos, porque criados para o pastoreio, eles tendem a se aborrecer enormemente em lugares apertados, dizem os criadores. Aparentemente, são comuns no Brasil porque são dóceis, bonitos e grisalhos, muito fáceis de adestrar, alegres e amam crianças. À parte do DNA australiano, são uma versão canina desse que lhe escreve, praticamente.
E aí, nesses grupos de classificados, eis que surge um irmão do meu vizinho à venda. 150 reais. Carteira de pedrigree e tudo mais. Ligo para a dona que precisa se desfazer do cão, pessoa simples e que já tem outros bichos e aparentemente adotou o filhote por compaixão, para descobrir que telefonara 30 minutos atrasado: alguém já comprara o passe do cão. E aí, disso tudo, só me restou outra foto.
às 20:28 0 comentários Marcadores: Memórias
domingo, 27 de agosto de 2017
Confronto
Hoje, eu me sentei para escrever como nunca tinha feito na vida, e como venho ensaiando a meses, sobre tudo, sobre nada. Fiz, no toque das teclas, o exercício de desacelerar o veio turbulento dos meus pensamentos para transferi-los, um a um e sem obrigação alguma de coesão, ao texto. O resultado, que está longe de encantar qualquer juiz dos rigores e prumos estéticos da expressão escrita, ao menos dá tino de uma porção de coisas para as quais eu tendo naturalmente a fechar os olhos, a esconder debaixo do tapete, a empurrar para de trás do pano de fundo por onde se descortina essa minha vida romanesca.
Em certo sentido, é melhor que meditação: o confronto com as suas ideias e com as suas racionalizações gera resultados mais drásticos que a experiência contemplativa do meditar.
Mas não é para os fracos, não é para todos, não é, na verdade, para ninguém. Não acho que terei energia para tentar o exercício novamente tão cedo.
às 20:55 0 comentários Marcadores: Memórias
quarta-feira, 23 de agosto de 2017
Nômade e insights tardios
Eu tenho um problema com sentir-me em casa. Tudo começa porque, em 2004, um incidente tirou as minhas referências de lar, de casa, de raízes. De lá para cá, a sucessão de anos trouxe paradas, chegadas e partidas, mas a sensação de lar, de morada, de lugar para chamar de casa sempre foi elusiva.
Em Ponta Grossa, a natureza daquele teto era o improviso. Delicioso improviso, aliás, de ter morado sozinho e ter apreendido a se entender, a se preservar, a se querer.
Em São Paulo, o ritmo nunca foi saudável, o convívio no tumulto nunca foi de encontro ao meu espírito de sossego e o resultado foi que, também, nunca estive em casa naquele tempo.
Em Curitiba, o teto era efetivamente meu, morava sozinho, bancava todas as contas. Mas a sensação de lar, de pertencer, era elusiva: ela oscilava, ia e vinha, e em meio aos desagrados de morar no centro da cidade, do prédio antigo, do apartamento de arquitetura infeliz, também não me sentia em casa.
E hoje, em mais um desses insights tardios, eu percebo que estar em casa, sentir-se ligado a um lugar, tem muito pouco com o espaço, com as condições financeiras, geográficas e físicas do lugar. Eu descobri, num período que agora completa um ano, que lar é onde estão os meus sonhos, onde moram os meus amores, onde fica o meu coração. Era por isso, por exemplo, que a sensação de pertencer, de morar, de lar, era elusiva e flutuante nesses anos de Curitiba, é por isso que ir embora me cortava o coração e vê-la partir era tão amargo quanto possível.
Eu aprendi a ser nômade, a ser sem casa, a não ter a minha morada ao longo desses anos, mas hoje me recordo da delícia de ter lar, de pertencer, de ser parte. Meu coração, que é cigano acostumado, cansa das esperas, cansa das andanças, cansa das incertezas. Hoje, eu quero morada, eu quero presente, eu quero futuro, hoje eu preciso de estada, do fim das chegadas e partidas, preciso e quero as novas páginas.
às 19:35 0 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 21 de agosto de 2017
Voyagers e Sagan
Por esses dias, as missões Voyager 1 e 2 da Nasa completam 40 anos. No nada absoluto que se tornou a questão da exploração espacial, a data será uma mera vírgula no noticiário do dia e pouco se falará a respeito agora, menos provavelmente em 10 anos, quando as missões completarão 50 anos. Quatro décadas depois, as duas sondas ainda enviam sinais à Terra e assim devem continuar por mais alguns anos, quando finalmente seus reatores esgotarem as pilhas atômicas que os abastecem, ou quando esgotar o suprimento de monopropelente usado para controle de altitude (acredite: poderia aborrecer todo mundo por horas explicando porque isso é importante para que as sondas se comuniquem com a Terra). E, mesmo que a energia dure por muito mais tempo, as Voyager chegarão a uma distância relativa da Terra em que o sinal de rádio enviado por suas antenas se tornará fraco demais para ser captado pelos nossos equipamentos.
Sendo absolutamente injusto, eu vou resumir em um parágrafo porque, do ponto de vista histórico e científico, as Voyager são importantes: foram lançadas com o objetivo de visitar quatro planetas (e assim o fizeram: Júpiter, Saturno, Urano e Netuno), dos quais ninguém sabia muita coisa na época do lançamento. Ambas foram “over-engineered”, adoro o termo, com o nada pouco ambicioso fim de, um dia, serem resgatadas por seres inteligentes: levam gravações de sons da Terra, descrições de como localizar nosso sistema solar, dizem quem somos, é um cartão de visita da nossa espécie enviado às estrelas, algo de uma sensibilidade e doçura que só caberiam mesmo em alguém da dimensão e do otimismo de um Carl Sagan.
Há um relato, inclusive, de que depois que as Voyager terminaram a viagem pelos quatro planetas, uma festa entre toda a equipe que devotou décadas no projeto foi organizada. Chuck Berry tocou, porque uma música sua ia no disco dourado das sondas, e Carl Sagan foi visto dançando. Que tempo para estar vivo.
Mas por que a Voyager é importante para mim? Eu era absolutamente interessado em espaço, em astronomia, e adorava ler sobre planetas nos livros de ciência e geografia da escola. E como os pulos de planeta em planeta das duas sondas levaram anos (só chegaram a Netuno em 1989, 12 anos depois de lançadas), acabei crescendo numa época em que tudo de novo que se descobria sobre o sistema solar vinha na esteira das duas Voyager. Na escola, aborrecia os professores com perguntas e me recordo que, na TV Cultura, todas as tardes, logo depois de Anos Incríveis, passava uma longa série de documentários realizada nos anos 1980 e que, usando material e dados coletados pelas Voyager, me encantava com os prognósticos de mares de metano em Titã, erupções vulcânicas em Io, tempestades supersônicas em Júpiter, crosta congelada e em constante tensão pelo efeito maré em Europa, ou o eixo exuberantemente inclinado de Urano que, em uma altura do seu período solar, faz com que o pólo sul esteja completamente voltado para o sol (já parou pra pensar? Não é bizarro? É como se a rotação do planeta fosse de sul a norte em vez de leste a oeste).
As Voyager, a sensibilidade de Carl Sagan e essa paixão pelo novo, pela descoberta, por aprender, por imaginar, por mesmo imbuídos do mais estrito espírito científico, enviar espaçonaves para o espaço e o tempo sem hipóteses a confirmar, apenas para descobri-las, é o que sempre me encantou nessa história que importa muito pouco para muita gente e, talvez, exatamente por isso, o mundo esteja do jeito que está.
Eu tenho alguns livros de Carl Sagan e, o mais importante deles, Cosmos, que importei de Portugal à falta de versão brasileira na época, guarda, na primeira página, a minha assinatura e o mês de compra do livro (atenção que tenho com toda a minha biblioteca), mas também uma observação importante, transplantada de uma revista que falava da sua morte em 1996, e que fiz, do alto dos meus 11 anos de idade: me comprometendo a ser um cientista e a trazer a inspiração libertadora do conhecimento às pessoas.
O detalhe é que essa anotação, no entanto, veio copiada de uns garranchos meus sobre as páginas amareladas à época de uma revista Super Interessante de 1996, que falava da morte e legado do astrofísico que inspira ainda hoje milhões de pessoas. Aos 11 anos, eu era muito precoce.
Sagan escreveu para Ann Druyan, sua esposa, que “na imensidão do tempo e espaço, é uma honra dividir um planeta e uma época com você”. Tenho impressão de que todos nós que, de alguma forma, tocados pelo exemplo de Sagan, pela jornada da Voyager e capazes de amar podemos dizer o mesmo em relação a todas essas coisas: é um privilégio viver nessa época e é uma honra enorme poder se inspirar em pessoas da dimensão de um Carl Sagan e em histórias de triunfo humano como as Voyager.
às 15:32 0 comentários Marcadores: Cartas aos meus filhos, Memórias
Eu grito
Tenho vontade de gritar o seu nome, como quem comemora, como quem faz gol, como quem levanta a taça. Soltar um berro, um brado retumbante. Quero chamar inteiro. Chama, chama que inflama, vem e volta, desaparece e acha que me engana, chama que não se apaga. Sem graça. Saudade daquelas letras que me notificavam, que vibravam no meu bolso, na minha mente. Mas é, agora, indiferente. Você diz que morreu, eu renovo. Você matou, eu ressuscito, você esfria, eu rimo triunfante. Você diz que é hora, que agora vai embora; eu planejo o casamento. Chega de drama, mulher, abre a porta, não sufoca a chama, que eu te incendeio. Tenho saudade de ter o seu nome, de poder dizer, de poder ler, de ter comigo, cinco letras, uma palavra, duas pessoas, todos os amores. Saudade de você, que se colocou onde não foi chamada, foi embora quando foi mais amada, e não volta mais, talvez porque nunca foi tão clamada. Você teme e esfria, eu suspiro e desarmo a sua desforra. Não, não digo que te chamo. Digo que te amo. Mas não, não volta. Digo sim que fica, que daqui você nunca foi-se embora. Quero uivar o seu nome, feito lobo. É fogo. Faça o fogo, que eu levo os fogos.
quarta-feira, 16 de agosto de 2017
Telescópios, noites e quintais
Nas noites limpas de inverno, em que não há nuvem alguma no céu escuro, armo o telescópio que fiz em tempos de marcenaria, do tripé e suporte que cortei em madeira e compensado, da lente perfeitamente polida que veio da Alemanha, do suporte em que entalhei Atlas, essa figura tão interessante, o titã que recebeu a tarefa de erguer e levar o mundo nas costas, essa sensação que todos nós um dia sentimos e que, portanto, faz de todos nós, à nossa maneira e em maior e menor medida, um pouco Atlas.
No gramado, há um espaço que, se venha a calhar de o frio ser suficiente, fazemos uma fogueira e deixamos o pinhão sapecar na chapa. Eu monto o telescópio, afago o cachorro, espero pelas crianças. Aponto a objetiva na direção das estrelas, das nebulosas, dos planetas próximos e convido a curiosidade dos meus filhos, que me enchem de perguntas, que apontam o planetário do computador para outros destinos, e falamos das estrelas, e rimos, e tomamos, eu o café, eles o chocolate, enquanto vamos esperando a noite desandar.
Lamentamos o cintilar provocado pela oscilação de quilômetros e quilômetros de atmosfera que, se generosa por nos fazer o obséquio da vida, bem que atrapalha na hora de admirar o cosmos. Comentamos a estranha figura de Vênus, esse inferno de calor e desolação, o absurdo de Júpiter e aquele conjunto de planetinhas que, qual nós outros, poderiam estar agora sentados ao fogo do sol e, de microscópios em mãos, cogitar o mistério dessas criaturinhas que povoam o planetinha azul. Aí olhamos as nebulosas, onde nascem as estrelas, onde a vida espera por acontecer, onde algo maravilhoso ainda por descobrir aguarda quem, com sorte, se deparar com as pistas, com as novas verdades.
E aí explico que é mentira o que dizem na escola, que não é separando o que brilha do que não brilha que se distingue planeta de estrela, que na verdade nada lá em cima está brilhando, está sim cintilando, e só o faz por conta das camadas da nossa atmosfera a refratar a luz que vem de lá. E a nossa atmosfera não faz favor a ninguém, de forma que ao olho destreinado, vai parecer que Marte, e seu tom avermelhado, brilha a mesma quantidade que Betelgeuse, essa enorme estrela vermelha que, mesmo na lente do telescópio, não é mais que um pontinho despretensioso.
E aí paramos de falar das estrelas, porque a noite vai avançando, amanhã tenho a vida pela frente, eles a deles, que vão à escola, quem sabe sofrer do bullying dos colegas que insistem que estrelas brilham, planetas não.
às 20:16 0 comentários Marcadores: Cartas aos meus filhos, Memórias
Despedidas
Na última quinta-feira, notei que meu vizinho grisalho não ganiu em protesto pelo confinamento, não latiu, tampouco deu as caras ao muro, debaixo da minha janela. Algo está errado, pensei.
Na sexta-feira, se repetiu a ausência. No sábado, idem e no domingo eu já tinha certeza de que o cachorro havia sumido.
Alguém pode ter se encantado tanto quanto eu e sequestrado o bicho, pensei. Ou a falta de intimidade entre donos e cão acabou selando o destino do cachorro, que terminou exilado, expulso, entregue a outra família, quem sabe devolvido. Temi pelo pior, que a crueldade do rapaz, filho do casal, tivesse levado a melhor e o cachorro tivesse sido morto.
Resolvi investigar.
E fui até a vizinha, perguntei do cachorrinho que tinha aparecido na casa dela nessas últimas semanas, que notei que não estava mais lá. Minha esperança era a de que tivessem devolvido o cão para alguém e que ainda estivesse em tempo de adotá-lo.
Ao que soube que se tratava de pouso temporário, o bicho, de raça e até com carteirinha de pedigree, era de um conhecido e tinha precisado ficar por ali por uns dias.
“Mas se eu soubesse que vocês tinham gostado dele, eu tinha dado pra vocês. Era para ele ficar aqui três, quatro dias, ficou mais de um mês. Eu mesma tive que levar para o dono”.
Eu devia mesmo tê-lo sequestrado.
“Ele era tão doce, né? Eu não gosto de cachorro, gosto de gatos, mas ele era tão brincalhão, tão quietinho”.
Sim, ele era, e, no entanto, você o deixava dias e dias fechado num quarto escuro, pensei.
É pena que não tenha roubado o cachorro antes e que a vizinha, sem muita intimidade com caninos, não soubesse explicar de que raça era o meu vizinho grisalho.
às 13:32 0 comentários Marcadores: Memórias

