Seria fácil, bem fácil, duvidar da seriedade, da intensidade, da profundidade dessa minha reengenharia, dessa minha força de correção, de solução dos meus problemas, de compreensão íntima das minhas circunstâncias. Seria fácil de duvidar e, eu mesmo, seria o primeiro a questionar a profundidade desses propósitos, a desmontar qualquer argumento mais sério, a suspeitar, a impor o pessimismo, a falar da entropia, que relativiza tudo. Mas estaria errado quem se pusesse a duvidar porque a verdade é que esse processo todo é vida, e eu me abraço da vida ao reconhecer o absurdo, o inerente absurdo dessas buscas todas, do desejo de encontrar sentido nas coisas, de enxergar destino, sonhos, objetivos, metas, e tanta subjetividade nesse universo indiferente, como algo profundo, alusivo a algum sentido íntimo maior e mais verdadeiro do que a irredutível aleatoriedade de todas as coisas. A vida é isso.
Eu sou, de certa forma, uma manifestação daquele herói absurdo que Camus definiu, o sujeito que encontra felicidade em reconhecer que, em última análise, vivemos numa luta eterna contra o aleatório e o inconsequente em um universo que, não apenas é frio e indiferente, mas também é hostil. O que tem ciência de que a vida, no fim, consiste em uma vã luta contra o nada, em uma busca pelo nada, e que mesmo seus sonhos mais profundos, seus desejos mais intensos são redundantes a partir da ideia de que, bem, nada leva a nada.
Poderia parecer uma visão muito obscura das suas circunstâncias, quem sabe um ranço do niilismo que venho exorcizando da minha vida (embora, na prática, Camus seja um existencialista), mas não é nada disso. A percepção de que as coisas, em si, não guardam nenhum sentido emancipa porque lhe dá os recursos para libertar-se do que é ruim e prejudicial e, sobretudo, de encontrar valor, se não mesmo significado, naquelas que são as suas grandes verdades. E vai parecer um contrassenso, essa ideia de que tudo leva ao nada, e no fim falar de encontrar sentido, mas, me desculpem, eu não tenho obrigação nenhuma de fazer... sentido porque, herói absurdo ou não, no fim das contas, eu também sou uma parcela desse nada, desse vazio do existir que nos aflige, quer percebamos, quer não.
Eu iria longe nesse texto, porque entre os reencontros desse ano, tenho me dado ao direito de folhear livros de filosofia, o que me levou, por exemplo, a revisitar o existencialismo (e a ficar muito, muito, muito longe do Emile Cioran, aquele homem destrói qualquer vã pretensão de otimismo com algumas poucas frases. Eu, particularmente, nunca me esqueci do “a consciência é o pesadelo da natureza”, que é como se fosse o negativo exato do “somos uma forma do universo conhecer a si mesmo” de Carl Sagan. Cioran não é para os fracos). E a filosofia também tem ajudado, tudo tem ajudado, na verdade, porque eu agora só extraio das coisas o que há de bom nelas. Com a filosofia, vou me reencontrando com o vazio da vida, com o nada intrínseco a todas as coisas que desejamos, de forma pacífica porque nada mais me assusta.
E isso permite depurar seus sonhos e objetivos e se encontrar com a essência das coisas, com a verdade profunda das coisas que você quer, de verdade, ainda que sejam elas todas manifestações esmagadoras da nulidade, da inconsequência da vida e do fato de que, no fim, nenhum de nós existe porque quer, todos vamos morrer e nenhum de nós tem qualquer ideia do que está fazendo, do porque está fazendo e dos caminhos que temos para percorrer.
A impressão mais emancipadora dessa jornada de debate íntimo, de leitura fragmentada da filosofia – não me escapa, de forma alguma, que estou violentando as ideias dos filósofos para encaixa-las nas molduras que criei para a minha realidade – é, depois do terremoto, se reencontrar com as suas verdades, com os seus valores, com seus objetivos e ter essa convicção íntima de que a sobrevivência deles a todo esse colapso só atesta a firmeza dessas coisas na sua vida. E aí, é hora de arregaçar as mangas, deixar a filosofia para horas vagas, e ir, correndo e de peito aberto, nessa jornada, nessa busca do nada, nessa fria e inevitável inconsequência cósmica que chamamos de viver.
quarta-feira, 24 de maio de 2017
Herói absurdo
às 12:42 0 comentários Marcadores: Cartas aos meus filhos, Memórias
terça-feira, 23 de maio de 2017
Cães e perdas
Na fila do banco, eu ouvi de uma mãe contando a uma amiga das dores que passava naquele momento o filho, criança, do que pude deduzir, e que teve que recentemente encontrar na perda do cachorro da família a sua primeira experiência com a morte. De como vinha sendo difícil explicar que o bicho não volta mais, que a vida dos cães é assim, tão mais curta, que o menino chorava e chorava, que na cabecinha dele não entrava a ideia desses absolutos, do pra sempre, do nunca mais, da ausência, da impotência diante das circunstâncias. Que nenhum brinquedo ou agrado substitui o cachorro.
O relato ainda foi longe, a fila era das demoradas, e prestava atenção curioso na forma como aquela criança precisava enfrentar essa dureza, de como a dor que o garoto encara em tão tenra idade afligia a mãe, que não sabia mais o que fazer. Me peguei, eu mesmo, engolindo as lágrimas, quando, por cima do ombro da interlocutora, flagrei a foto de guri e cão abraçados. Criança feliz, sorridente, de dentinhos ainda pequenos, sorriso de covinhas, olhinhos apertados. Cão marrom grande, não saberia dizer de que raça, eu basicamente vejo labradores e pastores em tudo, que são tão carinhosos esses labradores que, tenho certeza, se fui eu cachorro em uma vida passada, de certeza que fui eu um desses.
Engoli as lágrimas porque, acompanhando a fotografia disposta na tela de celular, veio a sequência do relato da mãe, que informada do veterinário do destino inevitável do bicho há algum tempo, preparou uma semana de agrados para criança e cão, dando aos dois todos os mimos que, de ordinário, seriam vetados. Então o bicho dormiu na cama com o menino, teve livre acesso ao interior da casa, ganhou carne de boa qualidade e todas as coisas que gostava de comer como forma de despedida de toda a família, como carinho, como zelo por essa vida que se finda, que leva tanta lembrança e encerra, já agora, tanta saudade. A dor da perda é esmagadora, por certo, tanto mais que achata as costas estreitas daquela criança, mas que inveja dá essa virtude da morte dos cães de família cujo fim pode ser antevisto, preparado, cuidado. Na nossa vida de pessoas esse tipo de luxo é uma raridade e, nem sempre bem vinda porque, do alto da nossa pretensa lucidez, gostamos de achar que somos por demais importantes e apegados à vida. O cão não presume seu destino, não questiona a finitude da sua existência e quando se dá uma semana de regalos e folgas, como no caso dessa família, apenas aproveita. Deve ser feliz a vida dos cachorros.
Não conheço o garoto, e me compadeço enormemente da sua dor e do seu sofrimento. Depois que chegou a vez da mulher, e não tive mais como ouvir a conversa, desejei intimamente que essa criança colha dessa experiência apenas boas lições. Que decaia esse sofrimento com o remédio do tempo e que, no futuro, fique a recordação de bons momentos compartilhados com o cão, dessa semana de despedida e festa em que tudo foi possível. Nunca fui diretamente afetado por morte de cães, embora já tenha perdido muita gente, mas mesmo assim, hoje, eu finalmente entendo o que li uma vez sobre a crueldade que é essa coisa de morrerem os cães tão cedo.
Criança nenhuma no mundo merece perder um amigo desse jeito. Cachorros de crianças deviam ser imortais.
às 15:41 0 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 22 de maio de 2017
Trechos
"... eu queria começar com uma conversa, uma desarmada conversa, esse encontro tão adiado de dois inteiros, eu queria um pacto, eu queria um laço para atar as nossas pontas soltas. Eu queria dizer como me sinto, como encarei esse processo, o que eu fiz. Eu queria ouvir o que tens para dizer, eu queria processar o seu lado, eu queria entender, eu queria ter mais subsídios para me colocar no seu lugar. Eu queria te ouvir falar, livre e sem receios, eu queria que você confiasse em mim, que me dissesse dos teus medos, que me deixasse te entregar meu coração como devoção última de que, de uma vez por todas você entenda, eu me comprometo, eu não fujo, não vai embora quem chegou onde sempre quis na vida. Eu queria firmar esse laço a partir dessa convicção já tão antiga de que não nos abrimos como deveríamos, de que nós precisamos de diálogo, de que eu quero você na minha intimidade, e eu quero navegar deslumbrado pela sua. Eu queria uma conspiração, um projeto, uma união que determinasse nossos protocolos, nossas formas de aparar arestas, eu queria o projeto e esboços para os jogos, para as descobertas, para os exercícios que eu imaginei e que deveríamos praticar para corrigir essas coisas, para nos encontrarmos mais um no outro, eu queria inaugurar a nossa vida juntos com essa convicção íntima de que, venham da vida as pedradas que vierem, recaiam sobre nós os problemas que recaírem, dê eu a você, e vice-versa, as respostas atravessadas que forem, no final de tudo, de indissolúvel está esse laço, esse pacto, essa firme certeza de que há uma constante, e essa constante é nós, o nosso bem estar. Eu queria, escrito a ferro e fogo nesse pacto, as nossas verdades: eu amo você, você me ama, eu quero você e só você, você quer a mim e só mim, juntos vamos para sempre. O que mais for da vida, nós encaixamos nessas verdades, a nossa guia é o bem-estar nosso em torno desse compromisso e dessa entrega. Eu queria um pacto que nos põe em ordem, que nos endireita o rumo, que nos dá metas, que nos faz trabalhar como time em busca de resultados, da conquista dos nossos sonhos, tão nossos e bonitos. Eu queria preparar o palco desse encontro de gigantes com o calmo e necessário processo de depuração, de cura, de calma e ponderada abertura, em que lhe digo as minhas verdades, lhe confesso os meus segredos, me penitencio dos meus erros, na convicção tão inocente e minha de que você faria o mesmo. Eu queria te reencontrar, do outro lado desse vórtice de erros, de distância, de bobagem e de fraquezas da forma que eu sou agora, de braços abertos e sem os ressentimentos que nunca consigo manter contra você, grande e pronto, generoso e calmo, desperto e apressado.
Queria lembrar você de que a vida que nós queremos é sempre luta, que todo mundo briga, que esperar não é saber. Que me recordo de uma vez em que você me escreveu, ou escreveu no seu blog, já não tenho certeza, quando você estava desse jeitinho, completamente apaixonada e eu perdido, toda doce e encantada, planejando e suspirando plena dessa paixão que hoje me assola a alma, que tinha conversado com seu pai sobre estar feliz porque tinha resolvido a vida, tinha resolvido a vida porque tinha me achado e por isso tudo, de agora em diante, seria fácil. Seu pai te respondeu que era engano seu, que era agora que começava o trabalho duro.
O que eu não prometo é que as coisas sejam fáceis, porque nada que vale na vida é fácil, que a ilusão de que as coisas devem ser fáceis é o que explica nossos descompassos. O que eu não posso prometer é que não vamos encarar dificuldades, que a vida não vá ser bandida, que as armadilhas não estejam à nossa espreita. Mas o que eu posso prometer, entretanto, é que de mãos dadas somos um, mais forte e resistente, e que eu te protejo do que vier de ruim, que sou esteio, deságue em mim suas angústias, confesse-me esses seus medos que eu nunca conheci, que eu nunca perguntei, me diga onde estão esses fantasmas que eu vou lá com a luz que me ilumina e pacifica espantar essas suas assombrações e reinstaurar essa calma. O que eu posso te prometer é que, mesmo em face das durezas que eu quero da vida, e eu quero da vida as durezas porque elas são inevitáveis e não há proveito nenhum em se esconder delas, sempre estarei do seu lado, como companheiro inarredável dessa vida que eu quero nos dar porque ainda antes de amar a você, eu amo a nós.
O que eu quero não é recomeço, não é volta, não é emenda e conserto, o que eu quero é futuro, é vida, é sentimentos e convicções. O que eu quero é início, é firmeza, é sinceridade e clara honestidade com o compromisso, eterno, do que sentíamos, das promessas e sonhos a que nos demos direito. O que eu proponho é leveza, eu quero batalhar do seu lado, eu quero proteger você. O que eu quero é calar essa voz que me canta no ouvido esse soneto da saudade, essa canção da falta, da urgência de todas as coisas que envolvem esse meu jeito de amar que não cansa, que me sufoca, que me abraça..."
às 12:18 0 comentários Marcadores: Memórias
domingo, 21 de maio de 2017
Quando eu tinha 85 anos
Faltava um mês para que eu completasse 86 anos e, assim, superasse em um ano completo a minha meta, a minha estimativa, o número de anos que, um dia, ainda muito jovem, eu tinha decidido arbitrariamente que seria a quantidade ideal para viver. Para ver o mundo, para amar, para chorar, para vencer, para perder, para construir essa coisa nossa, essa coisa de história, de vida, essa estranha sensação de precisar seguir em frente, de precisar experimentar a vida e o mundo, essa sensação tão estranha de, diante de um universo indiferente, de um universo frio, de um universo que nos faz insignificantes, precisar amar, crescer, sorrir, chorar e ser.
Aos 85 anos, como sempre fiz na vida, não era novidade, portanto, dei-me à tarefa de olhar para trás, de fazer os meus balanços porque, a partir de agora, eu recebo o fim e a morte de braços abertos, porque de agora em diante, o que vier me abraçar é lucro, é sobra.
E nesses balanços encontro tanto para sorrir e me orgulhar que me confunde essa sensação agridoce de quem se vê apresentado ao ocaso e ao fim; me deparo com a alegria que me trazem, hoje, os netos e que senti tão esmagadora nos beijos das minhas crianças. Me deparo liberto de tristezas porque dos meus remorsos fiz escada para procurar novas paragens e construir as minhas moradas em fundações mais sólidas.
Olho para o passado e sorrio, com satisfação, diante dos meus processos, tenho orgulho dessas minhas cicatrizes, do que me cortou profundo, mas me fez mais firme, mais inteiro, mais pronto. Hoje, velho, sem muito que esperar da vida, não me sinto sozinho, não me sinto desamparado, tampouco sou fraco que ainda mora em mim o rapaz que não sabia amar, o rapaz que tinha medo, o sujeito que se deprimiu, aquele que soube desistir, levantar, e começar tudo outra vez. Há uma força enorme que ainda sobrevive na fragilidade estranha desses meus ossos, há uma grandeza e vontade de vida que palpita no coração a cada sístole cansada dessas décadas.
Resta um mês para terminar o primeiro ano, o primeiro ano do resto da minha vida.
às 06:36 0 comentários Marcadores: Cartas aos meus filhos, Contos, Memórias
sexta-feira, 19 de maio de 2017
Ninguém segura
Se eu soubesse que simplificar e adicionar leveza, bater no peito, pensar positivo, meditar e ser mais otimista traziam tantas coisas boas, eu teria começado isso há muito, muito, muito tempo.
A vida, assim, em equilíbrio, reforça essa sensação gostosa de saber o que faz, onde vai, por que vai, como vai. Desdobram-se, aos meus pés, todos os caminhos da vida e eu vou, solto, por eles. Essa convicção das coisas que são necessárias, do que precisa vir, de onde ir, do que fazer, de como construir, tudo nasce dessa clareza de propósitos, do foco, da calma, da capacidade de respirar fundo, sorrir e batalhar o mundo.
Mas essa lucidez conquistada a duras penas também vale, e vale muito, porque as lições ficam firmes, impressas no meu couro, no meu surrado couro.
E eu pensava nisso hoje, quando finalmente terminei minha mais ambiciosa empreitada, no que diz respeito a desenvolvimento de software: o meu próprio emulador de Space Invaders escrito em C, que batizei de 8080 Monitor, nome que faz referência ao processador, o 8080 do arcade dos anos 1970, e ao Woz Monitor, de Steve Wozniak no Apple 1. Terminei de corrigir os erros no código, compilei o programa pela primeira vez sem nenhum acidente e fui capaz de testar todos os recursos do 8080 Monitor e de jogar Space Invaders por uns três minutos, quando inevitavelmente atingi o limite do tédio porque, embora as pessoas gostem dessa coisa de nostalgia, a verdade é que games da infância da indústria são, em geral, lamentavelmente ruins. Space Invaders é um clássico e todos os etc, mas é bem chatinho também.
Eu sofri estoicamente para terminar o 8080 Monitor, aprendi conteúdos avançados distantes do escopo da faculdade, e me submeti a um processo árduo de aprendizado por conta do aspecto bem mais avançado do código: foi difícil começar, foi difícil continuar, foi difícil não desistir, foi, realmente, uma tentativa de abraçar o mundo. Mas, no fim, deu tudo certo, fui do começo ao fim e realizei. Fiquei satisfeito com a minha disciplina, esforço, com o foco, com a decisão bem firme de não desistir, de não arredar pé e vini, vidi, vinci. E por que se submeter a tanto sofrimento e dificuldade? Bueno, a dureza do desafio que parece insolúvel contribui para aumentar a temperatura desse caldeirão, desse crisol, onde se forja o homem do amanhã.
E para falar a verdade, difícil mesmo tem sido aprender mandarim (rumos da indústria da tecnologia apontam para a China).
Além disso, a vida sem o seu próprio emulador do Intel 8080 não é tão excitante quanto ela poderia ser. A qualquer interessado na empreitada, me guiei basicamente pelo Emulator101.com e o foco, agora, é converter o código para C#, quem sabe compilar uma versão para Android. Por quê, você pergunta? Razão nenhuma. Só sei que pode ser divertido.
E, para falar a verdade, essa sequer é a grande boa notícia do dia porque terminar o 8080 Monitor, embora seja um exercício sintomático dessa nova maneira de encarar a vida, é algo bem menor na grandeza das coisas boas que eu, hoje, recebo na minha vida de braços bem abertos.
"It's a new dawn, it's a new day"...
às 09:12 0 comentários Marcadores: Memórias
quarta-feira, 17 de maio de 2017
Manual de Desesperança
E eu digo que o que mais me assusta nessa história, nessa loucura, é que são já seis meses. E seis meses é tempo demais para que sentimentos fracos e sem propósito esmoreçam, para que o ânimo acabe, para que as verdades frias e duras cortem fundo na carne, tempo mais que suficiente para que a distância, a indiferença, o desinteresse, enfim, se assentem na alma, nessa essência nossa que diz o que somos e como somos perante a vida, e passem a martelar, sem trégua, que acabou. Que não era nada disso, que era tudo um engano, que foi melhor assim, que, veja só, eu sobrevivi e, agora, já fico aqui do meu canto sem sentir nada por você. Até logo e muito obrigado.
Mas não tem sido assim, ao menos na minha metade do muro, e eu não sei explicar o porquê. Porque esforços não faltaram no sentido de dar ao juízo essa folga, o conforto dessa certeza, de instruir o coração dessa acidez corrosiva da velha máxima do “quem não te procura, não sente a sua falta e quem não sente a sua falta, no fim das contas, não te ama”. Houve lutas, houve conflagração, houve esforço, houve cinismo, houve dúvida, houve razão, reflexão, muito amor próprio e, sobretudo, houve tempo e distância e, ainda assim, tenaz, segue no meu coração essa qualquer coisa que chamamos de amor e saudade, temperada com os contornos da esperança, do carinho e da felicidade leve, leve de entender o que sente e aceitar os fatos.
Me esconjuro, mas não tenho mais recurso, e tento conviver com a verdade do que eu sinto e, de minha parte, venho sendo bem-sucedido porque há paz na admissão da beleza de um sentimento tão resiliente, ainda que, em última análise, inútil. Há uma alegria em ser capaz de reconhecer essas coisas, de entender como elas funcionam, de poder dizer que ama uma pessoa à essa intensidade. Eu, hoje, não luto mais contra o que eu sinto, eu aceito, eu vibro com a vida, eu me deixo em paz, sentindo só coisas boas, na esperança de que, eventualmente, me canse; mas na torcida de que não, de que esse amor todo não seja em vão. E nesse tênue equilíbrio, eu vivo feliz porque eu me recuso a sofrer. Se o preço para matar tanta coisa bonita são lágrimas, ódio, se é a depressão, prefiro viver iludido, cultivando apenas coisas boas porque sentimentos bons me deixam leve, calmo, me pacificam e eu gosto de sossego.
Mas são seis meses de escuro, seis meses em que brilha, sempre fugidio e distante, aquele farol que me ilumina o rumo, como que me conduzindo novamente a todas essas coisas, à ela, sempre. Mas toda vez que persigo aquela luz elusiva, acabo eu encontrando o mesmo ponto de saída dessa verdade inescapável do que eu sinto e de que eu não tenho mais nada para fazer. É tão frustrante, é tão triste essa mistura de vontade e de impossível, de querer dizer tantas coisas, mas não poder por instinto, por medo, por necessidade de sobrevivência. E nessa espera, antes de começar a vagar por esse escuro em busca de tropeçar com algum vestígio dela, me confronto com o fato de que, nesse universo sem luz que abandonamos, fico eu sozinho.
Não posso mais dar murro em ponta de faca, porque dói e corta a alma esse esforço que não é mais humanamente possível. Porque são seis meses. Seis meses de desencontro e de uma bobagem, seis meses lutando contra a maré vermelha do que eu sinto, seis meses me convencendo da inviabilidade de algo que o coração, que agora deu para arquiteto, planeja e edifica em sonhos e planos que muito me dão, ainda, o que pensar (dia desses, apagava uns arquivos, e achei o Grande Plano, The Tertuliano* and Maria da Paz* Conspiracy, que escrevi em fevereiro, 18 páginas, tinha até planilhas com previsão de quanto devíamos poupar em x meses para compra de um terreno de y alqueires, tinha o meu projeto de empresa, dependendo da cidade que escolhêssemos. Foi uma das coisas mais incríveis que eu escrevi na vida; contingências, soluções projetos, técnicas de diálogo e de desenvolvimento de intimidade, estava tudo lá. Eu imprimiria esse documento em papel nobre, guardaria num baú e o mostraria aos meus netos: "vê? Aqui, foi aqui, nessas páginas, que eu e sua avó começamos a construir essa casa"). É tempo demais e se fosse mesmo todo esse sentimento incidental, eu não teria mais amor nenhum para confessar, mas mesmo assim, está tudo aqui, estão todos aqui suspirando possível, suspirando vá, suspirando fale, suspirando, grite.
E se são seis meses de frieza, distância, de especulação e ausência, de incerteza e incompreensão, e mesmo assim se agarram em mim esses sentimentos, que força mais eu tenho para vencê-los? Quero mesmo vencê-los? Devo mesmo vencê-los? Não passei eu a vida toda em busca de exatamente esse tipo de lucidez sobre a vida e o que vai no meu coração para, justo agora, despejar tudo no ocaso das desistências? Quem sou eu, em resumo, para brigar contra um amor que, a despeito de tudo que eu tentei, vive forte no meu coração, generoso, capaz de perdoar e disposto a recomeçar, todo bem-dito dia, essa rotina?
Vivi sob a ilusão de que, uma vez sabido do fim, tudo passaria: mesmo o coração não teria mais argumentos para manter essa loucura, esse amor maluquinho, vivo e firme, essa saudade louca que cresce. Além disso, a certeza do fim, do ponto final dessa história, combinada com os esforços sinceros que fiz no sentido de prevenir esse desfecho pareciam ser as armas derradeiras para cortar a cabeça desse monstro, e é ou não é monstro?, que cresce dentro de mim. Afinal, enquanto eu usei o tempo que ela escolheu para melhorar, para crescer, para me construir, para me preparar para a vida ao lado dela, sempre a esperando; ela optou por me esquecer, pela frieza, indiferença, por me deixar.
Mas não. Não acaba. E não esmorece, e segue comigo.
Não há nada que pareça dar jeito. Há, ainda, uma força que mantem tudo vivo, como se houvesse esperança, como se os possíveis que meu coração arquiteto pensa estivessem ao alcance, como se eu fosse correspondido. Há uma força que me diz para ir, para buscar, para fazer algo, para dizer que não há remorsos e ressentimentos, que portas, coração e futuro estão abertos à nossa espera. Há uma força que tenta me convencer de que não há impossíveis, que o que não é possível nessa história é que eu tenha ficado com a metade que não morre nunca desse amor todo, que não há a menor possibilidade de justiça no universo se, do outro lado desse muro, não estiver aquele coração mais ou menos pulsando o mesmo tipo de paradoxo. São seis meses! E, que fique claro, eu não sofro por conta disso, eu fico é intrigado, maravilhado até, porque se deparar com um sentimento tão forte por outra criatura, tão verdadeiro e singelo, é raro, há quem passe a vida sem amar, e eu dei essa sorte absurda. O amor engrandece, e esse que eu carrego comigo, ainda que tristonho pelas suas impossibilidades, é do tipo que me põe em perspectiva diante da enormidade das coisas a que nós, humanos, pessoas comuns, estamos expostos, à grandeza de coisas que dignificam a existência e dão sentido a essa aventura, estranha e desesperada aventura, de átomos, moléculas, matéria, enfim, que se organiza assim e assim, dali a pouco começa a articular sons, quando vê está fazendo pensamentos complexos, mais um pouco sonha, e não passa nada, e está amando, sentindo um amor que, sem sombra de dúvida, é especial e, ainda que abstrato e sem substância física, maior e mais poderoso do que a criatura que o sente, que o mantem, que o tenta matar, que se esforça para compreendê-lo num esforço que, se não inútil, é completamente inviável: somos pequenos demais para a grandeza absoluta de certas coisas que nos envolvem. Tem uma majestade esmagadora todo esse oceano caudaloso de coisas boas que eu sinto por aquela pessoa e essa percepção, ainda que redentora, me intimida: eu nunca vou saber expressá-la em palavras de forma a explicar como me sinto, o idioma é tão limitado nas possibilidades, e nunca mais vou ter a chance de tentar fazê-la ver as coisas como eu as enxergo, sentir o amor que eu sinto num esforço, desesperado como tudo mais nessa quadra da vida, de fazê-la, se não sentir algo parecido, ao menos compreender que nós dois juntos, essa união que não houve, somos como um tempo, uma celebração da vida, uma celebração desse mistério que aniquila qualquer vã pretensão de frieza e distância de que nós dois somos uma forma do universo amar a si mesmo.
Eu sou, antes e acima de tudo, grato por esse amor todo.
Meu maior risco não é a perda do equilíbrio, que eu ando mais forte, não é a tristeza, eu me recuso a sofrer por quem não me quer, meu maior medo é sucumbir ao que eu sinto, é correr atrás, é perseguir essa ilusão, é não me conter, é ir em busca de uma pessoa que, infelizmente, já não me ama mais. Meu maior risco é por o coração na frente da mente, é não me comportar com razão, é me submeter, aí sim, a sofrimento por pura ingenuidade. Meu maior risco é não apaziguar essa paixão, esse amor maluquinho que me quer lá, que quer acreditar que eu tenha qualquer retórica sentimental para dizer a ela que tudo está a nosso favor, que sente-se aqui na minha frente e entenda, por favor, que há jeito para tudo, me permita explicar, você vai entender, que não é pressa que eu tenho, tempo se arranja, o que eu tenho é urgência. Entenda que eu não tenho mágoa, que eu te recebo na vida de braços abertos, que eu entendo, e o que eu não entendo, eu perdoo, porque amor é a generosidade que temos com as falhas do outro na certeza íntima de que é essa generosidade que nos torna análogos, solidários, unidos e compreensivos. Sente-se, me ouça, abra seu coração, e entenda. Diria que essa minha intensidade toda é trunfo, não é para assustar, que eu já morri de medo dessa mesma coisa, especialmente se viesse ela toda de você, mas que hoje eu entendo, sentir intensamente essas verdades dá força, dá clareza, energiza a mente, purifica a alma. Que eu derrubo a minha metade do muro, você derruba a sua, nós conversamos e começamos tudo juntos porque nossos erros todos não foram fruto de maldade, de falta de carinho, de falta de amor, de infidelidade, de todas as monstruosidades que se comete por aí. Que, se depois de seis meses, ainda é tudo isso, então toca a viver e dar a esses sentimentos a vida que eles buscam, porque nada assim é grande e intenso por acaso e que me angustia lutar contra coisas tão fortes, ser artífice da morte de tanta vida.
É essa tensão entre esperança e paixão que me faz pensar que não há justiça num universo que permite que uma criatura sinta essa dimensão de sentimentos por outra sem ser correspondida, que é preciso que, no meio da aleatoriedade caótica da existência num universo vasto, infinito e indiferente, uma coisa precisa ser sagrada e inviolável, uma coisa precisa ser exceção, uma porção da vida precisa funcionar, precisa ser justa, ser equilíbrio, e essa coisa só pode ser amor, e se assim é, então não fazer nada é o mesmo que fazer tudo para sepultar esses sentimentos: um tipo de crime, de sacrilégio, de atentado.
Mas, em socorro desse meu coração maluco e sempre disposto, vem a mente. Há um equilíbrio presumido no universo que diz que para cada positivo há um negativo. Então, se há esse amor todo comigo, por certo, em algum lugar, se esconde a mesma proporção de ódio. Tivesse eu sorte, esse ódio e indiferença estariam todos no peito de um alienígena a milhões de anos-luz daqui. Mas, que sorte desgraçada essa a minha, porque o oposto do que eu sinto foi crescer justamente na mulher que eu amo.
São seis meses. Fossem imaturos, fossem comuns, fossem fracos, esses sentimentos não tinham atravessado as primeiras semanas, não tinham resistido a nada.
às 08:12 0 comentários Marcadores: Memórias
domingo, 14 de maio de 2017
sábado, 13 de maio de 2017
Silver Linings Playbook
Em 2017, eu me prometi um ano diferente, custasse o que custasse, doesse o que doesse, fosse o que fosse, 2017 não seria ruim, 2017 seria começo, 2017 seria avanço, progresso, vida e batalha. No alvorecer do dia primeiro desse ano, eu jurei de amor que tudo seria diferente, novos caminhos seriam perseguidos e novas formas de pensar, de encarar a vida e de resolver os problemas seriam implementadas. Velhas qualidades resgatadas do fundo do baú e uma porção de vícios, erros e costumes ruins acabariam. Não tenho baixado a guarda nessa construção e persistência, meus caros, paga: as coisas se endireitam, você sorri mais, se preocupa menos e a vida, ah a vida, encontra formas curiosas de ajeitar as coisas.
Porque agora eu deixo. Antes, eu entrava em queda de braço com a realidade. E sempre saia perdendo. Não era uma questão de sabotar-se, mas sim de ser incapaz de reagir, de devotar a mesma paixão que eu tenho pelos meus sonhos, ideais e sentimentos às coisas, às durezas, aos sacrifícios, às incertezas. Hoje, eu não sou mais meu inimigo.
Talvez os três pilares desse novo momento na vida sejam: se conhecer bem e ser absolutamente honesto com o que sente, valorizar-se e reconhecer suas qualidades, colocando-as a serviço dos planos e, por fim, encarar as dificuldades com leveza, sem lamentação. Bater no peito, olhar as perspectivas, respirar fundo e fazer. Tentar e desistir somente quando esgotadas todas as suas possibilidades, ou quando no limiar do absurdo e da falta de dignidade, desses três, o que vier primeiro.
Abre parêntesis. É possível, vejam bem, eu disse possível, que estudar Lógica Matemática tenha qualquer coisa a ver com a situação. É incrível. Mas é possível que tenhamos, enfim, encontrado o assunto matemático, que transcende as operações básicas, e que se ensinado a um sujeito normal, pode realmente fazer a diferença na vida do indigitado. Ainda não tirei minhas conclusões. Mas matemática nunca é demais, atrapalhar é certo que não atrapalha. Fecha parêntesis.
Eu pensava nisso, sobretudo como essa perspectiva mais positiva perante a vida tem me ajudado a escapar ileso de problemas, e me feito mais forte, o que não mata acresce na minha casca, e eu sou cascudo; tudo indo de encontro ao que pode até mesmo explicar o sucesso das minhas novas empreitadas. Como oportunidade de emprego beliscando, bem do meu jeito, trabalho remoto via Internet. Perspectiva alvissareira que me deixou contente e me levou a fazer algo que eu vinha adiando há algum tempo: um balanço desse ano que ainda não está na metade.
- Perdi 14 quilos
- Resolvi colorir o cabelo
- Nova faculdade e a nota mais baixa do primeiro bimestre foi um B
- Emocional em dia e em compasso com a Razão
- Novos círculos de pessoas
- Acampei e fiz uma porção de novas trilhas
- Sentindo-se bem em aprender coisas novas
- Escrevendo MUITO mais do que em anos
- Duas ideias ótimas para livros e que me desobrigam das minhas obsessões com História
- Cicatriz vai sair em disco
- Metas claras e muito mais tranquilidade
E a lista de afazeres, de coisas para resolver e conquistar, só cresce. E isso não me assusta, isso me anima, isso me empurra, porque a minha pressa é boa, é uma pressa de urgência, não de temeridade: é a pressa de quem imprime ritmo à vida, mas caminha com calma ressabiada porque as armadilhas estão por todos os lados. Curso de marcenaria, que não vou eu, um reles curioso, roubar vaga de quem precisa de profissão, e encontrar uma arte marcial que substitua o boxe, que infelizmente todos só querem saber de MMA, são as minhas próximas urgências. E eu preciso de novas paixões, porque o meu coração é enorme, e eu que sou feito de exageros e idiossincrasias, sou movido a paixão, então eu preciso me exagerar um pouco.
E, claro, nem tudo dá certo só porque você decide que tem que dar certo. 2017 também já coleciona seus pequenos fracassos, mas aí entra a capacidade de, resiliente, ver o lado bom das coisas e de encontrar paz nas verdades que você precisa assumir em foro íntimo. Em geral, nesses casos, reflexão e honestidade consigo mesmo vão mostrar que você fez tudo que era possível dentro das suas possibilidades e dentro do que as circunstâncias impostas a você pelo contexto e pela vida. Não tem remorsos quem lutou pelo que quis com boa vontade e honestidade para com o que sente e isso liberta e abre o coração para o novo, que sempre vem.
às 13:14 0 comentários Marcadores: Cartas aos meus filhos, Memórias
Coração espartano
Eu acho muito curiosa essa minha mania de precisar falar tudo, mesmo quando não devo, essa minha tendência a achar que as pessoas, de alguma forma, vão valorizar o que eu digo de mais sincero simplesmente porque eu sempre presumo que todos têm uma empatia natural pelos sentimentos que eu exponho. Mas, verdade seja dita, nem sempre é o caso, quase nunca é o caso, porque, no geral, são as pessoas mesmas que nos instigam a esses grandes sentimentos que nos impedem de vive-los. Eu devia calar mais, devia falar muito menos, devia lutar pouco e ser mais racional. Mas eu não sou, eu nunca sou.
Se você estiver mesmo comprometido com os seus valores e com os seus grandes projetos para a vida, isso não chega a assustar porque chega uma altura em que, ou você aprende a contornar esses vícios, ou então resolve mudar dramaticamente de comportamento – o que é muito difícil. Eu consigo me encher de ótimos argumentos para mudar coisas ruins, porque, bom, elas são ruins, mas algo que eu vejo como inocência é difícil de desarmar.
E é difícil porque eu gosto de me entender. De processar, de falar como eu me sinto, de dizer, mesmo, o que vai lá no fundo, sejam nas páginas secretas de um outro blog, sejam nas desse, sejam nos rascunhos que eu guardo por aqui. Nos quilômetros e quilômetros de textos que eu escrevi, li e apaguei como forma de terapia, de paz, de aceitação e de reconstrução. É difícil mudar porque eu gosto do meu conflito interno, é difícil porque, no geral, eu tenho lado toda vez que as minhas metades pegam em armas: em geral, eu sempre torço para o coração.
Eu gosto de não me esconder do que eu sinto, de apaziguar as facções que, no meu interior, escaramuçam, travam batalhas históricas e tentam puxar o pêndulo de Foucault das minhas escolhas para o lado frio da razão, ou para o lado emocional, cheio de pureza, dos meus sentimentos de menino.
Eu poderia arbitrar todos esses conflitos, criar uma Otan para cada metade, poderia instituir uma ONU para ter um Conselho de Segurança que se esforçasse para criar mais consenso e menos conflagração. Eu poderia armar os dois lados com ogivas nucleares, tudo com o incerto intuito de impedir conflitos, sempre nessa obsessão pelo consenso, e viver dessa forma tão bobinha, que parece encantar toda as outras pessoas, de se impor perante seus próprios conflitos, não ouvir nada do que sente e reagir de forma embotada diante dos desafios da vida bandida.
Mas consenso, ao menos no que tange o eterno e terno rebuliço das minhas emoções, é algo ruim: me impede de observar, de sentir, de me conhecer, de me ver como eu realmente sou, como eu realmente funciono, o que é que faz o meu sangue correr quente pelas veias. No conflito, eu depuro tudo e, no meio dos escombros de cada uma das lutas, só sobram as verdades universais que bombardeios, peças de artilharia, demolição, explosões, metralhadoras e as inclemências gerais das batalhas não conseguem destruir. A cabeça sempre entra com vantagem nessa eterna guerra, mas sempre perde. A mente não quer reconhecer verdades, quer destruí-las e desmenti-las. O coração quer que as verdades sobrevivam e que os sentimentos governem tudo. E que bom que é assim, que esse coração guerreiro me lembre sempre, sempre do que eu sinto.
Eu morro de amor pelo meu coração, guerreiro espartano.
às 11:07 0 comentários Marcadores: Memórias
terça-feira, 9 de maio de 2017
Epifania 2
... e tudo dá, tudo pode, porque nós temos tudo ao nosso favor: os sentimentos, a vontade, a clareza do que é a vida, os sonhos, os valores, os princípios, nós só precisamos um do outro nessa deliciosa aventura de se aprender, de por paz, de dar um ao outro o afeto e o sossego que nós precisamos. Eu queria te contar como eu tive essa epifania, o que fiz e onde fui, por onde estive e a que não me permiti, queria dizer que nesse verão que vai acabando morre no meu peito e me deixa acalorado, porque aqui fica, aqui sobrevive o amor que é feito de calor, esse amor apaixonado que eu tenho, que é tão você, que é só você, que é por você. Esse amor que me lembra das suas mãos, tão impossíveis, dos seus olhos, tão adocicados, dessa pele, que é delicada como a primeira pétala da primavera, o jeito que o teu cabelo cai quando você o prende, o teu acordar sensível, ah que medo, e dos seus gostos, dos seus jeitos, da sua voz, dessa verdade irremovível do que eu sinto, do que temos, do que podemos, do que devemos.
Eu queria criar uma nova forma de linguagem, inventar o nosso idioma, porque aí a barreira das ideias que se diluem na torrente de palavras vivas e mortas não estaria no meu caminho, aí eu poderia, enfim, te mostrar, te dizer, te fazer entender. Eu poderia versejar sem medo, compor sem receio, escrever e te falar sobre as coisas todas, sobre os dias, as noites, sobre as idas e vindas, sobre as vidas remidas, sobre as vidas abortadas, sobre as desistências e vitórias. Eu poderia, à força das nossas palavras, te explicar e mostrar do que é feito esse meu coração, esse meu jeito, essas minhas epifanias, essas minhas cismas. Você me leria, porque eu deixo, eu peço, eu quero, eu preciso da sua leitura do que eu tenho, do que eu te ofereço, do que eu te entrego. Eu poderia dar ao meu corpo e ao meu peito essa coragem, essa coragem que anda me faltando, essa de atravessar esse muro e cair, cair no lado de lá e te contar, do começo ao fim, sobre esse mistério da minha Epifania, desse meu jeito de te amar e me apaixonar por você o tempo todo, como se eu fosse um paradoxo do tempo, do eterno retorno, do amante que se apaixona, e que ama, se apaixona, ama, apaixona, amapaixona para sempre.
Eu te quero, te quero como quis naquela viagem, te espero como te esperei ansioso e impaciente por aqueles dias de agosto e setembro que me diziam que algo, algo grande, algo de importante estava para acontecer, te espero porque é hora, é hora de ir em frente, de sairmos os dois unidos desse mês de setembro, esse mês de setembro que durou quatro anos. É hora de correr a vida, é hora de fazer os planos, é hora de abrir as portas, de fechar as estradas e construir as nossas veredas porque nunca estivemos tão prontos, nunca foi melhor a hora, nunca foram mais fortes os meus sentimentos, nunca fui eu melhor pessoa que agora, essa hora preciosa. Esse tempo que, nosso, vira futuro.
O meu coração espartano, que se movia como corsa, que fugia a cada investida sua, desistiu, ele baixou as armas, esse meu coração espartano, enfim, reconheceu que não é derrota, que amor é a vitória. Vitória que você sempre teve, porque você chegou antes, você viu antes, você entendeu antes, você quis. Quando eu te vi sorrir ao meu gracejo, quando te disse que tinha me apaixonado novamente, que falei mesmo sem pensar, sem perceber, e vi no seu riso timidez, vi no riso graça. Lembro de encarar os seus olhos do outro lado da mesa, ah que demora essa comida, a que pouca coisa esse vinagrete, ah mas que delícia essa nossa companhia. Tudo me preparava, tudo ensaiava o palco, tudo colocava as peças no lugar porque dali a poucos dias, nós faríamos aquele passeio da cachoeira, e eu de lá nunca mais voltei, é como se tivesse por aquela trilha ficado a perambular, na busca desse momento fugidio, dessa minha atávica incapacidade de articular, de lhe pedir que espere, que ouça com atenção, olha que coisa maluca que me aconteceu, não dê risada, não, não é engraçado, que é bom, mas não é necessariamente engraçado. Ah, o que eu faço? O que que eu faço agora, logo agora, que descobri que eu amo, que eu amo nós dois?
Na vida simples dos seus amigos, eu arquitetei a nossa, nos vi sob o mesmo teto, dividindo contas, fazemos uma conta conjunta, eu viro o seu companheiro e tocamos a sua empresa, e nós pensando no cardápio, falando dos planos do feriado. Neles eu nos vi, caminhando os dois em compasso, um passo de cada vez, que a estrada vai ser longa, mas que bom que vai ser longa, porque se é longa, é mais tempo ao seu lado. Eu pensava, do meu jeito bobo, que as coisas estavam se encaixando: eu já tinha tempo de voo ao seu lado, eu estava melhor, mais atento, eu queria de 2017 o começo, o começo a que nos propomos. Eu sonhei em te fazer surpresas, ah essa vida que não tive, eu vivi de planejar nossos retiros, de descobrir e rir das nossas manias, eu te contava do curso de massagem que fui fazer para te agradar. Quis matricular a gente num curso de marcenaria, num de jardinagem, quis aprender da vida contigo. Eu quis ser cão de guarda dos seus cachorros quando você viajasse, eu queria te dizer que nesse ano, meu bem, nesse ano nós construímos a nossa vida e eu quero a sua mão, você toda, toda no meu futuro, nessa hipoteca nossa de planos, de sonhos, de tantos desejos e desse amor maluco. Diga a todos que eu caso. Que eu sonhei que nosso filho chamava Raul, há anos, mas morria de medo de te contar. Eu ia folhear as páginas surradas dos meus cadernos ao seu lado, eu me embrenharia nas durezas daquele seu projeto e faria aquele programa. Eu me vi naquela rotina, a doce rotina, de quem se arrisca, de quem procura, de quem divide, de quem quer mais da vida e de quem sabe com quem.
Lembro daqueles quilômetros que percorremos, das músicas, Tom Jobim, das conversas, que falta me fazem aquelas nossas conversas, que ninguém odeia o Serra com tanta paixão, das descobertas, das placas de vende-se se insinuando a cada curva, cada pedaço de chão com mato e isolamento e boas vistas se exibindo aos meus olhos, esses meus olhos que só tinham você, esses meus olhos que cantarolavam e que te procuravam, esses meus olhos que queriam falar com os seus, ontem, hoje e sempre. Que sufoco, que aperto de saudade, que aperto dessa minha loucura, mais uma, que vai comigo, eu sei que vai, como eu sempre soube que iria, como eu sempre tive medo que iria, até o fim, até para aquele para sempre em que você não vai estar porque, se hoje só te amo, aí eu me aflijo, porque logo eu me reapaixono, enquanto você me anexa e esquece. E o ciclo não acaba, porque meu coração espartano é difícil de dobrar, mas uma vez batido, ele é fiel.
Lembro daquelas estradas e da minha vontade, sempre que meus olhos encontravam você, de te abraçar porque eu não cabia em mim de alegria. Eu tinha, ali, com aquele volante nas mãos, 120 km/h, todas as respostas, porque eu venci, eu tinha achado você e você tinha me achado. Eu queria tanto ter podido baixar a poeira desse vendaval de sensações e de intensidade para chegar do seu lado e te dizer que tive uma epifania, que eu vi a gente no futuro, que eu quero e sei por onde começar e que, contigo, eu vou pra onde for, porque a minha casa, a minha morada, passa a ser onde quer que você estiver com o meu coração. E que não vou embora, mulher, deixa de coisas, deixa disso, não vai embora quem chegou onde queria, não vai embora quem se vê rodeado de caminhos que só levam ao mesmo destino, você.
E é quase carnaval, e nunca tive um carnaval contigo, que azar, que tristeza, que falta de coragem, que sem jeito. Tenho essa vontade vulcânica de andar e correr, de te encontrar, de te dizer, de te mostrar a novidade, de te falar do meu jeito, da minha vontade, de te explicar, de te instruir nesse novo idioma.
Não há palavras, e eu odeio essa expressão, mas é a que cabe, não há mesmo palavras que abracem o sentido amplo e desordenado desse caos em que estão as coisas nossas, os meus sentimentos em desordem, esperançosa desordem, como que se negando a ordenarem-se, a entrarem em arranjo disciplinado e controlado, a se abrigarem no catálogo ontológico da estante da alma, formassem todos eles uma lógica só nossa, em que só a nós cabe interpretá-los. Que meus sentimentos são todos teus, ficam todos eles pelo chão, te esperando chegar e escolher entre eles, o que vai ser seu, o que vai usar, qual deles você vai levar consigo.
Nessa bagunça íntima, tão minha, tão você, a desordem tenta ser estratégia, o meu silêncio e resiliência tentam me fazer de forte, a minha fé no que você sente vai escrevendo no caderninho desses fiados que a gente faz assim que diz que ama, que investe a paz e o que sente na outra pessoa. Na minha epifania, na mesma medida em que foi libertador entender que me apaixonei por você depois de ter te amado, a vitória maior foi perceber que esse ciclo de amores e paixões por você durariam uma vida toda, que tudo é descoberta, que tudo me encanta, que tudo me absorve nesse caleidoscópio de delícias que é a vida, que são as suas cores de aquarela nas minhas formas, que você me rouba os contornos, você me define no tempo presente, no tempo futuro, você me resgata do passado, que eu vivo agora pelo presente e quisera eu viver conjugado por você, feito verbo, em todos os tempos e em todos os espaços porque, ah, é fortuna demais essa minha de ter conhecido você nessa imensidão dessas duas metades do tecido de todas as coisas. A maior derrota dessa minha epifania foi ter sido tardia, foi não ter sido na nossa língua, foi não ter tido tempo de te arrastar para o vórtice ensandecido do amor que eu sinto.
Minha epifania me prende, também, ironia, porque na mesma medida que me liberta, ela me sequestra, ela me lembra sempre, ela faz com que eu sinta, com que eu ame, com que eu apaixone, com que eu lembre, com que eu espere, com que eu recorde, com que eu torça, com que eu busque, com que eu melhore, com que eu te perca, com que eu não me ache. Eu te amo a perder de vista.
às 16:46 0 comentários Marcadores: Memórias
segunda-feira, 8 de maio de 2017
Opportunity successfully seized
"I used to believe, although I don't now, that growing and growing up are analogous, that both are inevitable and uncontrollable processes. Now it seems to me that growing up is governed by the will, that one can choose to become an adult, but only at given moments. These moments come along fairly infrequently - during crises in relationships, for example, or when one has been given the chance to start afresh somewhere - and one can ignore them or seize them.”
Nick Hornby, em "Fever Pitch".
Só prova que eu devia ter menos reservas quanto a reler alguns livros.
E dado o tipo de literatura de Hornby ("Uma Longa Queda", alguém?), não me espantaria se ele tivesse tirado suas conclusões sobre amadurecer a partir de experiências de vida similares as que eu tive, a partir de uma percepção dessa desgraça que são os ideais inatingíveis de masculinidade e seus efeitos no longo prazo que, em sujeitos como eu, podem espocar na depressão.
Esse tipo de percepção, associada com uma visão muito clara e precisa daquilo que você quer para a sua vida, é o que fortalece nos momentos de dificuldade e na hora de fazer escolhas e de enfrentar a vida. Você passa a honrar o compromisso com você mesmo de não se deixar abater, de não cair, de não permitir que a escuridão volte a assombrar.
Eu nunca esqueci de uma palestra, anos e anos atrás, com o Flavio Gikovate. Eramos todos adolescentes na plateia e ele gastou um tempo enorme dizendo, em especial para os meninos, não amadurecerem como seus pais: à base de paulada e usando referenciais externos. Para que, ao contrário, questionassem seus valores e princípios não como forma de rebeldia, mas para descobrir se eles eram mesmo nossos. Me pergunto, hoje, se algum de nós entendeu o recado e seguiu o conselho.
Eu sei que eu não.
Eu, bobo, pensava que um dos meus maiores compromissos na eventualidade de ser pai seria o de, sempre que ouvisse uma pergunta do tipo "pai, por que o céu é azul e a grama é verde?" eu responderia da melhor forma possível, se tivesse a resposta, ou diria "eu não sei, filho, mas a gente pode procurar juntos essa resposta, o que você acha?" ou "eu não sei e ninguém sabe. Mas você pode crescer e ser a pessoa que vai descobrir essa resposta", para usar como último recurso. A ideia aqui, vejam só a sutileza do meu artifício, é manter viva a curiosidade e ensinar os pequenos o poder emancipatório da aprendizagem.
Mas, hoje, especialmente na eventualidade de ter filhos meninos, incluo um compromisso muito firme de afastá-los desses padrões de comportamento insustentáveis, dessas expectativas monstruosas sobre o que eles devem ser na vida adulta.
às 15:23 0 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 5 de maio de 2017
Tempo é amor e amor é tempo
E, se você quiser, você coloca o tempo no bolso e faz dele aliado. É tudo uma questão de percepções, de aberturas, de entregas e compromissos. De clareza a respeito das nossas circunstâncias e possibilidades nessa aventura tão doce que é a vida.
Em algum lugar do código matemático que explica a realidade, eu tenho plena convicção disso, se esconde uma fórmula que relaciona diretamente tempo e amor.
O tempo é a maior prova de amor que você pode dar a alguém porque a vida se faz no agora. Eu descobri que passei anos remoendo, e sofrendo, no passado e isolei completamente meu futuro numa redoma de aço, em que nada real poderia penetrar para não denegrir os sonhos, os doces sonhos, que me acostumei a ter. Mas, agora, desperto, eu desmontei essa redoma e estou submetendo os sonhos todos aos duros testes da realidade: todos vem sobrevivendo porque são as coisas que eu quero, que eu preciso, que eu almejo.
De certa forma, eu sempre levei a vida numa constante queda de braço com o tempo. Eu queria, por vezes, viver no passado. Por outras, eu andava sonhando no futuro. Mas, como forma de proteção contra os meus fantasmas, como reflexo da depressão e das minhas fraquezas, vivia pouco no presente. A percepção clara desses problemas e erros, hoje, dá paz, ilumina. Liberta.
E essas percepções não são vagas. Você pode ver como o tempo é precioso facilmente: aos 32 anos, um ano de vida equivale a 3,13% da sua vida. Aos cinco anos de idade, o mesmo ano vale 20%. Essa matemática ajuda a explicar porque, nessa altura, o tempo parece voar, andar tão rápido. Há um incrível arrazoado na Internet sobre essa escassez interminável, que quando li, me deu um sentido de urgência sobre a minha vida que eu nunca tinha experimentado e que mostra, de forma absolutamente clara, como temos pouco tempo para fazer o que precisamos, o que queremos, para dividir com quem amamos.
E todas essas coisas ajudam a explicar porque eu ando tão apressado para correr atrás do que eu sinto, do que eu desejo, do que eu preciso. De certa forma, ao brigar tanto com o tempo passado, ao amar tanto o tempo futuro e evitar tanto o presente, aprendi que há uma diferença de escala entre essas três entidades: o passado é vasto, amplo e enorme e dá uma ilusão de felicidade palpável, mas é uma felicidade que não frutifica mais, como se fosse uma estátua, ou um animal empalhado. O presente é, só isso, ele existe, mas é adimensional. O futuro, por outro lado, é estreito, apertado e, de alguma forma aconchegante porque apresenta uma felicidade, mas que não é palpável, que não é real, que esfarela na mão se você tentar tocá-la, o que você vive no futuro, se furtando do presente, são ilusões e miragens. O único lugar dos três em que você pode encontrar alguma forma de felicidade verdadeira, real, é no presente, por fugaz, pequeno e árido que seja, é nele que as coisas, de fato, acontecem, é nele que nos apaixonamos, é nele que amamos, é nele que nos construímos é nele, sempre nele, que devemos nos refugiar, por dolorido que isso possa ser.
A realização dessas coisas não vem de agora, vem de antes, mas como tudo na vida, nessa guerra eterna contra a passagem inflexível do tempo, chegou tarde. Assim como o poder da meditação na minha vida e tantas outras coisas doces, agridoces, que esse 2017, estranho, novo, forte e grande vem me trazendo.
Se não tivesse aprendido nada, poderia encerrar esse texto com um chiste, dizendo que “que pena que meu 2017 não foi em 2013, ou antes”. Mas não brigo mais com o tempo, não brigo mais com nada, chega de queda de braço, que agora não moram mais no peito todos os sonhos do mundo: agora mora um relógio cósmico que, em paz, conta os pentelhésimos de segundos dessa existência para que eu viva em plena harmonia e sincronia com as minhas circunstâncias, com o que eu quero, sinto e preciso.
O tempo, enfim, é o meu grande aliado.
às 12:21 0 comentários Marcadores: Memórias
quarta-feira, 3 de maio de 2017
Coágulo
Dava
queria
e podia
eu te mostrava
que a vida
se faz paz
que o amor pulsa
e que não há loucura
na luta
que já é vencida.
domingo, 30 de abril de 2017
Epifania
Naquele dia da cachoeira, eu tive uma epifania. Eu sempre ouvi de você a sua vontade por uma vida mais simples, o desejo de viver longe da megalópole, de construir uma família num lugar pacato e mais saudável. Mas, às vezes, eu me perguntava até onde essa vontade iria, até que ponto a cosmopolita ia abrir mão do shopping, do mercado que tem tudo, do estádio, do acesso a qualquer coisa que a cidade grande proporciona. Não julgue mal, não estou dizendo que fazia pouco dos seus sonhos, não é isso. Não era uma questão de não acreditar em você, era só um ceticismo natural de desconfiar da sua capacidade de renegar todas as vantagens da cidade grande na hora decisiva de uma escolha para mudar de vida. Porque eu, que cresci em cidadezinha, sei que é legal ter cinema, shopping, restaurantes de todos os tipos, mercados para comprar coisas diferentes de vez em quando.
Aí, naquele dia, fomos até a cachoeira com seus amigos e, na volta, nós paramos para almoçar naquele lugarzinho totalmente isolado no meio da estrada de terra, meio escondido entre as árvores. A simplicidade do lugar me pôs, imediatamente, em alerta: eu fiquei completamente sintonizado nas suas reações.
Eu conheço uma lista enorme de hipongas que fariam cara de nojinho e nunca, jamais, comeriam nada ali. Naquele momento, eu fiquei atento para avaliar o seu comportamento. E não apenas você comeu com naturalidade (a comida era ótima, o feijão cheio de caldo, tudo bem temperado, a salada fresquinha e batata frita inesquecível), como realmente curtiu o momento, a comida, o lugar, o papo, o dia. Somando isso com o restante da viagem, com a alegria que eu sentia naqueles dias, com a felicidade que a sua companhia me proporcionava, foi como se algo estourasse dentro de mim. A sensação física era de calor, como se eu tivesse tomado por algo indizível que me aquecia e me atraía até você.
Eu demorei para entender o que aconteceu comigo naquele instante e nos dias seguintes. Demorei mesmo. Eu demorei porque eu nunca, nunca, nunca, nunca tinha vivido isso. O que eu senti naquele momento, e na volta do passeio foi, pela primeira vez na minha vida, um tipo de paixão. Mas a melhor forma de paixão que existe, que é essa que brota depois que você já ama alguém, porque aí é mais que um sentimento, é uma força da natureza: é todo aquele calor gostoso de gostar de alguém, de sentir falta, de ficar pensando e pensando nessa pessoa, mas temperado com o que você já sente, com o amor que já possui, com o carinho que já tem, com a lucidez que já existe dos defeitos e potenciais. Essa foi a minha epifania, esse amor de verdade, porque o que eu sentia antes, pelas outras que vieram, sempre me pareceu incompleto, sempre soou como se faltasse algo, como se não fosse ideal. Foi algo insano, sim, porque, depois de te conhecer por tanto tempo, depois de tudo, eu me apaixonei novamente por você, eu fui conquistado, mas tudo isso já sentindo amor e eu me senti, sim, a pessoa mais feliz, importante e resolvida da face da Terra. Foi como quando a gente gosta da primeira pessoa na nossa vida e não enxerga mais nada na nossa cara, só que com o detalhe de que eu já te conhecia, já sentia amor, e lendo agora eu vejo que nada disso faz sentido, que você vai rir da minha cara, que não importa mais, mas é verdade, tudo verdade, e que bom poder dizer isso, ainda que à toa, para alguém. Foi como uma certeza, como se eu tivesse ficado totalmente convencido de que estamos condenados um ao outro.
De repente, tudo se encaixava, as promessas deixavam de parecer só promessas e a vida toda se desenrolava diante dos meus olhos.
O que eu senti foi tão forte e íntimo e eu não tive tempo para processar e, como nós dois não somos bons de se abrir e conversar sobre sentimentos com o outro (o que, se você parar para pensar, é um potencial incrível), acabei não sabendo extravasar, não soube como expressar o que eu sentia e que não cabia dentro de mim, eu não tive o sangue frio de dizer, “olha só, aconteceu isso comigo hoje! O que que eu faço? Eu quero te esmagar num abraço!”. E antes que você corra a me rotular de imaturo, você precisa levar em consideração o quanto eu considero os momentos que eu passava com você preciosos porque a nossa realidade era de duas pessoas distantes fisicamente, então eu precisava aproveitar a sua companhia como se não houvesse amanhã e aí não só eu estou sempre interessado no seu corpo como, nesse momento em específico da viagem, eu precisava demonstrar e dar vazão às manifestações físicas do meu afeto por você o tempo todo. Nessa onda de serotonina, eu passei a olhar para você de outra forma, eu não via mais você, a gostosa, a interessante, a que é boa de conversar, que se interessa por tudo, que se faz de durona, mas é delicada, que é calma e sossego, que quer tudo, mas nunca impõe, que é essa incógnita, esse mistério a resolver, a que me sufoca, que cozinha tão bem, que é a melhor companhia de viagem que eu conheci, que me motiva, que rouba minha atenção, que vive nos livros que eu leio, que não sai da cabeça, que me fez gostar de cães, a que eu queria para mãe dos meus filhos, que me fez conhecer melhor o mundo e a mim mesmo, que me curou da depressão. Não. O que eu passei a ver, dali em diante, foi a mulher que eu amo, com quem todos os planos – não mais sonhos – são possíveis porque ela vale a pena, com ela dá pra caminhar, dá pra confiar nessa pessoa, dá para ver ela como constante nessa equação da vida, tão cheia de números negativos, de variáveis. A pessoa com quem eu sei que eu posso ter coragem de contar meus segredos que ninguém mais sabe, a pessoa com quem eu quero contar até o fim da vida. Naquele dia, ao se mostrar tão você, normal e feliz, sendo simples, naquele lugar simples, sendo plena e completa, você redefiniu os meus paradigmas todos porque você rompeu todas as barreiras que eu ainda tinha. Você me reconquistou, você colocou o meu coração no bolso, você me tirou o chão e você me confrontou com a verdade de que quem constrói o nosso destino somos nós, então toca a por mãos à obra.
Como eu te amei naqueles dias, eu te amei de tremer as pernas.
Eu precisava te fazer carinho, tocar em você, porque é a única forma imediata que eu conheço de expressar afeto, de te mostrar, “hey, olha só, estou estourando de paixão e amor por você, sinta aqui na palma da minha mão, veja o quanto eu te quero, o quanto eu amo você”. Se nós dois não tivéssemos construído de forma inocente essa ilusão de que nos conhecemos tão bem, eu saberia que você não gostaria, ou você teria a porta aberta para dizer “o que foi? Por que você está assim?”. Mas nós não nos conhecemos bem, tínhamos problemas de intimidade e diálogo e isso foi porta de entrada para um monte de problemas.
Eu não quero falar no passado porque aí o texto ficaria longo, mas queria falar do futuro e do presente, queria falar desse incomodo de não entender, de se preparar para tudo e para nada. Queria, mesmo, entender. Queria me explicar, queria alcançar, queria, queria e queria.
Poderia lhe dizer que as mudanças que fiz são sólidas, que eu tenho planos, que tudo dá pé, que de mãos dadas, a gente fecha os olhos e pula nesse abismo de deliciosas aventuras e incertezas que é a vida, convictos de que caímos no macio. Que eu transfiro a faculdade para o IF daí, que a gente aluga uma casa aqui, que a gente faz, a gente se abre, a gente se entrega, a gente resolve porque agora dá, porque agora é, porque agora precisa, porque o tempo é fugaz, porque esperar não é saber, porque te quero, porque te encanto com meus planos e os uno aos seus, porque é você, só pode ser você, porque eu te amo, amo ainda de me tremerem as pernas, porque não te esqueço, porque te perdoo, porque te entendo.
às 15:08 0 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 21 de abril de 2017
A primeira a gente nunca esquece
Há um prazer esquecido dessa coisa de morar no mesmo lugar por muitos anos, em especial aquele em que você cresceu: a cada esquina, o passado anda à espreita. É uma vantagem que, nas metrópoles, tende a acabar diluída, já que os encontros fortuitos com os vestígios do seu passado ficam restritos aos lugares, já que as pessoas se dispersam nas grandes conurbações, vão embora, ou simplesmente moravam longe o suficiente de você desde sempre para que tropeçar nelas se torne uma improbabilidade cósmica irredutível. Na cidade pequena, nunca se sabe, mas de repente, você esbarra e reencontra a primeira garota que você beijou anos e anos depois ou, então, a primeira professora. Hoje, no mercado, eu me encontrei com a Professora Cristina. A mulher que foi a “tia” do primeiro e segundo ano do primário, na portentosa Escola Estadual Nossa Senhora das Graças.
Eu nunca esqueci da Professora Cristina porque, por ter sido de fato a primeira (na minha época, a pré-escola não era obrigatória, razão pela qual não tive outra professora antes) ela construiu na minha cabeça os contornos do que devia ser uma professora, ou professor. Isso pode parecer piegas, e, acreditem, eu sei ser piegas, mas essas impressões são verdadeiras e indeléveis, sobretudo em quem aprendeu a ter tamanho carinho pela palavra escrita: se eu hoje escrevo, se eu me apaixono por personagens, por escritores, se me perco em histórias, se ensaio as minhas, se faço versos, se me entendo com a ciência, se aprendo marcenaria em um novo curso, se tenho esse, e outros blogs, enfim, se interajo com as palavras da forma que for, e com a paixão que normalmente devoto ao que eu aprecio, devo tudo à Professora Cristina.
E aí me recordo que, pouco tempo antes de morrer, prestes a lançar um livro, meu pai resolveu procurar o cidadão que tinha sido o seu primeiro professor para dedicar-lhe a obra. Estava vivo o homem, bem velhinho e, pelo que lembro, chorou de emoção e gratidão pelo gesto. Corre nas veias o carinho pelos primeiros mestres, portanto.
Eu gostaria de ter organizado melhor essas palavras para tê-las dito todas à ela no momento em que a encontrei escolhendo pacotes de macarrão. Gostaria de ter ido além da minha bem honesta demonstração de surpresa por ela lembrar de mim também, que não é pouco prodígio, a mulher tem décadas lecionando, não tem a menor obrigação de lembrar de um menininho que, em 1991, tinha seis anos e não sabia ler e escrever e, hoje, veja só, é esse sujeito barbado e apressado, vive do que escreve e escreve para viver. A obrigação de lembrar dela, portanto, é toda minha. Mas não nego que senti um carinho gentil em vê-la lembrando do meu nome e falando do meu sorriso, que eu sorria muito, que eu era quietinho, interessado, carinhoso e cheio de perguntas. E, em geral, mantenho todas essas qualidades ainda comigo e não tenho a menor intenção de perdê-las.
Agora, ao escrever, me sinto decepcionado por não ter dito um obrigado, ou ter sabido como explicar que ela é mesmo especial e que eu não esqueço, mesmo. Ficamos apenas nas platitudes do que tenho feito, de como vai meu irmão, também foi aluno dela, de como ela vai, de, poxa vida, como assim, não se aposentou ainda? Ah, mas pra falar a verdade, que bom que não, que bom porque quem sai ganhando são os alunos. Ah, que engraçado, eu lembro de ter que olhar para cima para falar com você, mas agora eu olho para baixo, a vida não é engraçada?
Cristina tem uns olhos azuis clarinhos, clarinhos, mais que os da minha mãe, e nunca esqueci aquele olhar e a voz dela na sala. O método para ensinar o alfabeto, explicando como juntar as letras para descobrir o som que elas fazem, as primeiras continhas. É tudo meio esmaecido nas memórias que eu tenho daquele tempo, e que pena, que pena mesmo, que não tenho alguma passagem mais marcante, uma historinha com começo, meio e fim para contar da professora Cristina ,porque se tem uma pessoa do meu passado florido que merece protagonizar boas histórias e lembranças, é a Professora Cristina.
Ou não. Porque a ciência já provou que, toda vez que você busca uma memória na mente, seu cérebro não recorda de nada, ele reconstrói momentos e sensações todas as vezes, mudando um pouco ali, um pouco aqui e, no final, com a passagem de anos e anos lembrando, você acaba com memórias falsas, plantadas por você mesmo, sobre o que passou. Você não passa de um iludido, ou de uma iludida, que crê cegamente em mentiras que você mesmo construiu sem perceber.
E aí me conformo porque há beleza na sabedoria dessas e de outras coisas, há paz para se extrair dessa lição e toma-la do ângulo que importa. Me sinto aliviado em notar que a Professora Cristina vai comigo no coração, e sem historinhas embrenhadas nos trópicos dessa selva de mentiras, racionalizações, bons e maus momentos que são as minhas memórias, não há nada sobre ela para acabar se estragando à luz das mentiras que a gente mesmo constrói sem querer. Professora Cristina vai viver eternamente em meio ao carinho, ao apreço, ao respeito e a enorme gratidão que eu sinto por ela ter sido a minha primeira professora.
às 23:08 0 comentários Marcadores: Cartas aos meus filhos, Memórias
sábado, 15 de abril de 2017
O ano da virada
O processo de crescimento, sobretudo no caso masculino, é permeado por letargia, golpes do destino e a voz rouca de referenciais externos, que podem ser bem bizarros. Eu lembro de ter lido, e já vão alguns anos, uma frase de Nick Hornby em um de seus livros e que dizia algo no sentindo de que passamos a vida toda achando que crescer e amadurecer são processos automáticos e inevitáveis conforme o tempo passa. Um leva ao outro e você não tem poder nenhum para detê-los e controlá-los.
Aí Hornby conclui que, agora ele sabe, o processo está longe de ser assim porque, na verdade, o ato de amadurecer, de se transformar diante das situações da vida, tem mais a ver com escolhas, posturas e, sobretudo, situações. Crises diversas apresentam situações únicas para esse processo de crescimento pessoal e, por infrequentes na nossa vida, cabe a cada um de nós escolhermos se aproveitamos as aberturas do destino, ou não. Tenho impressão que a máxima se sustenta para boa parte da humanidade, embora o processo seja menos tumultuado entre as mulheres, que amadurecem antes e de forma mais saudável, o que faz de boa parte delas exímias mestras na arte da manipulação e da mágica da transferência de culpa. Descontadas, claro, as raras exceções de praxe.
"I used to believe, although I don't now, that growing and growing up are analogous, that both are inevitable and uncontrollable processes. Now it seems to me that growing up is governed by the will, that one can choose to become an adult, but only at given moments. These moments come along fairly infrequently-- during crises in relationships, for example, or when one has been given the chance to start afresh somewhere-- and one can ignore them or seize them".
Talvez eu discorde apenas do "tornar-se um adulto". Acredito que crescemos e evoluímos, de uma forma ou de outra, sempre em direção à pessoa que desejamos nos tornar, seja ela quem for, seja ela o somatório de uma porção de qualidades e potenciais, seja ela o resto de uma subtração orquestrada pelas circunstâncias da vida, que acabam nos tolhendo de algumas possibilidades, de algumas fortunas. O termo adulto, acho, acaba dando um contorno determinista a algo que é subjetivo: o perfil acabado de uma pessoa que se constrói ao longo do tempo, à luz das dificuldades da vida, fazendo as escolhas que tem de fazer para seguir em frente, mesmo durante as crises mais duras.
Crise, aliás, se não me falham os poucos conhecimentos etimológicos que eu nunca tive, tem origem na palavra grega para oportunidade. Parece bobajada de auto-ajuda, mas atravessar as portas que você pode abrir, ainda que a fórceps, em tempos de crise tende a render frutos: assim que passa o turbilhão de problemas e emoções à flor da pele, o tamanho dos dramas diminui aos seus olhos, enquanto crescem as suas perspectivas e a sua resiliência.
Há um outro caráter interessante sobre o processo de amadurecimento, ao menos na metade masculina da espécie humana, e que diz respeito aos referenciais externos: uma figura paterna, um ídolo, um livro, uma frase do Hornby que volta à memória, um amigo, um estranho, um arrazoado de Internet que mostra, na ponta do lápis, o quanto o tempo de vida que temos é escasso para dar conta dos nossos projetos, prazeres e para dividir com quem amamos, enfim, qualquer um ou algo que apareça com argumentos para colocar uma situação sobre um ângulo que você nunca explorou - porque provavelmente não sabia que ele estava lá - pode ter o mesmo efeito que você experimentaria na esteira de uma catástrofe pessoal. A partir do momento em que você enxerga a mensagem desse referencial, e se coloca nessa posição nova diante da vida, se dispõe a mudanças dramáticas de comportamento e se coloca nessa postura inflexível de quem vai chutar o balde. E é sempre bom chutar o balde.
Mas, no geral, as pessoas tendem mesmo a amadurecer na porrada, já que essa coisa do referencial externo depende de quanto você está disposto a ouvir outras pessoas, a abrir suas perspectivas. No meu caso, por exemplo, embora tenha colhido por aí a injusta fama de imaturo, as catarses foram todas na esteira de eventos decisivos nesse processo de construção da minha personalidade, todos relacionados com situações, e não referências: morte de meu pai muito cedo, desastre familiar e falhas e decepções amorosas e profissionais para as quais eu não estava preparado me fizeram muito melhor do que uma análise superficial tende a mostrar - tragédias e dores colossais não me abalam tanto: eu me compadeço do avião que cai com todo um time de futebol por pura negligência técnica, mas não posso dizer que fico de coração partido porque eu sei que perdas e mortes doem, e doem diferente para cada pessoa, para cada família e que, a seu tempo, todos teremos nossa vez com esse tipo de dor; uns antes, outros depois. O grande mal da morte é que ela é banal e não há espetáculo que mude essa realidade para quem a viu tão cedo e de jeitos tão marcantes, como foi o meu caso. Aprendi também a não esperar muito do amor e a desconfiar de quaisquer sentimentos que me fizessem enxergar o mundo cor-de-rosa - não porque os sentimentos sejam ruins em si, mas porque a realidade das coisas é sempre em tons de cinza - e ainda tenho comigo essa lição de forma eminentemente positiva.
Mas, atualmente, estou num curso novo desse processo de engrandecimento, ainda bem que ninguém precisou morrer para isso, que veio de uma mistura de porrada e referenciais, tudo num sincronismo bastante interessante e que me recoloca num caminho que eu havia deixado de trilhar já há alguns anos: o da busca.
Recentemente, por exemplo, experimentei inclusive o processo inverso ao das tragédias: felicidade como combustível para essa eterna construção do homem do amanhã. Ao me permitir amar, no ano passado, mudei algumas coisas e abandonei uma porção de lastro no processo (heranças malditas e não tão risonhas dos amores de antanho), tornando-me algo muito próximo daquilo que eu quero e preciso ser no momento: um tipo de trebuchet de razão, um aríete de decisão, uma alabarda de força e coragem, porque a vida está por aí esperando que nós a encaremos a 100%, e esperar não é saber. Nem sonhar: por anos, achei que sonhos eram inocentes e inofensivos - e, em geral, eles são - mas essas quimeras, se não controladas no reino dos sonhos, permeiam a realidade e nos colocam numa posição catatônica diante dos desafios e da exigências da vida. Você para de se arriscar, se confunde com o que é honesto esperar da realidade e deixa de buscar seus verdadeiros objetivos. Sonhar é importante, mas, como tudo na vida, precisa ser feito com parcimônia. O ponto é saber separar as coisas, sonhos de metas, e correr atrás das últimas, sem deixar de ter as primeiras.
Outro elemento no processo que me traz essa nova forma de ver a vida, nessa vontade de vencer, é um referencial externo: um aprofundado artigo de Internet mostra que o tempo de vida que temos restando é exíguo, que temos que aproveitar tudo ao máximo das nossas possibilidades. Especialmente a companhia de quem amamos e os prazeres que nos deixam felizes. Não há tempo a se perder. Essa soma de clareza proporcionada por aceitar meus sentimentos, de se permitir à felicidade, de buscar ajuda para me compreender pela ação de uma psicóloga, de me encontrar com a conta fria e indiscutível da escassez do tempo que me sobra e às injustiças gerais do fim de um relacionamento são as molas que me empurraram para esse novo estado de consciência, essa perspectiva sobre quem eu sou, sobre o que eu quero e o que eu preciso fazer.
Os prognósticos são bons, a continuar galgando os degraus dessa curva ascendente iniciada por, quem diria, o poder transformador do amor que, agora eu sei, é um tremendo agente galvanizador de mudança para o bem. O ano de 2017, o primeiro do resto da minha vida, me parece, ainda promete bastante. Descobri, um pouco surpreso, que há uma grande paz de espírito a ser encontrada no reexame das suas prioridades, na definição de metas (lição esmagadora desse jovem ano para parar de sonhar e passar a planejar) e na busca por objetivos maiores e realmente dignificantes são a minha inusitada promessa não de ano novo, mas de vida nova. Todos objetivos que enfoquem o que realmente é importante porque não há mais tempo a se perder. Cansei de reclamar, cansei de esperar, cansei de não fazer nada e dizer que nada dá certo. É o fim do derrotismo.
As mudanças são até palpáveis. Auto-estima também entra na conta porque me sinto bem comigo, tenho feito de 50 a 60 quilômetros de caminhada por semana, perdido peso, me exercitado. Eu, basicamente, me sinto o polímata que sempre esperei que seria, quando tinha lá meus 17 anos, e começavam a esbranquiçar os cabelos que nunca antes tinha pintado.
Depois de muitos anos, eu posso dizer que tenho um plano. Tenho ideias, saídas, soluções e estou inclusive preparado para as contingências da vida porque o que o homem põe, o elusivo altíssimo dispõe, a dar-se fé nos antigos ditados. Mudança de área profissional em curso, viagens, trilhas, novos rumos, cidade nova para morar, tudo são infinitas possibilidades, acenando com perspectivas do futuro que me acostumei a esperar sentado nos últimos anos. Foda-se a espera, porque agora eu vou atrás das coisas, das metas, dos objetivos, não dos sonhos.
Amadurece-se em algumas semanas, só por que é ano novo? Não. É um processo de transformação, de conquista, de afirmação, e eu venho subindo esse escada há alguns meses. O que pode acontecer, se você se der conta das coisas que está encarando, das transformações que está alimentando, é essa sensação gostosa de poder, de capacidade de orientar o próprio rumo e de acelerar um processo de crescimento que só tende a potencializar essas coisas boas na vida. Sempre subestimei a capacidade de uma mudança de ano - evento aleatório e sem sentido na grande escala das coisas cósmicas - em propiciar a mudança e abrir portas para o novo e hoje me sinto feliz em reconhecer que estava enganado. Proposições de ano novo nunca me pareceram tão atingíveis e certeiras.
Revigorado, estou decidido a fazer e não mais esperar. Como dizia a canção, "eu tenho uma porção de coisas grandes pra conquistar e não posso ficar aí parado".
às 02:30 0 comentários Marcadores: Memórias, O dia em que cresci
domingo, 9 de abril de 2017
Saindo da forja
Eu vivi sob a ilusão de que, um belo dia, tendo conhecido a pessoa certa, tudo mais se encaixaria. O amor que você sentisse, e aquele que viesse em retorno, bastaria para que você se entendesse com essa pessoa e para que os dois construíssem o futuro que desejassem ter um com o outro. Aquela velha máxima de que basta amor para que tudo funcione e caminhe me parecia tão real como a paixão enlouquecedora do primeiro amor, aquele que, quando se desmancha pelo motivo que for, faz com que você descubra a relatividade de outra ideia universal nessa coisa do romance e da vida a dois, a de que tudo é eterno só porque você acha que tem que ser. Assim como essa primeira experiência de paixão e amor morreu de morte morrida, a impressão de que amor é tudo que precisa, enfim, não está mais entre nós. Amar é trabalho duro, mas trabalho duro que recompensa e trabalho duro no melhor sentido de trabalho: aquele que engrandece.
"I started out in search of ordinary things..."
Seria muito melhor se todos nós aprendêssemos essas coisas de formas menos dramáticas, com menos ruptura. Mas, talvez, aí as lições fossem menos duradouras e impactantes porque é na forja que se endurecem os metais, ou, nesse caso, a espinha, de sorte que, na próxima tentativa e fracasso, você verga, mas não quebra.
Eu descobri que amor, em si, não resolve nada. Que um relacionamento sadio é uma construção, exige, sim, trabalho. Mas, que se você gosta mesmo da outra pessoa, a coisa deixa de ser trabalho no sentido cansativo e vazio do termo porque se você não encontra prazer na incumbência de conhecer melhor aquela criatura, em passar tempo com ela, em conversar com ela sobre segredos, sobre o que ela fez quando tinha, sei lá, 14 anos, sobre o que ela fez hoje e ontem, enfim, desvendar a fundo seus medos, histórias, traumas, verdades e mentiras, tudo não para destruir a privacidade e o mistério, mas para se tornar íntimo, análogo, um ente desse todo que você escolhe para a sua vida, então há algo tremendamente errado. Eu sempre tive essa vontade, sim, mas nunca encontrei os meios, a abertura, o caminho para explicar que, olha só, você aí, eu preciso te entender melhor, e que você me entenda mesmo, eu preciso conversar com você sem receios, eu preciso da sua intimidade e eu quero você na minha. Que, enfim, eu quero conversar contigo, te desvendar, você deixa? Simples, não? Nunca foi porque, nesse mundo de comunicação à velocidade da luz de forma praticamente gratuita, de tantas e tantas formas de se dizer algo a alguém, o maior problema de comunicação, esse ainda insolúvel, é o de perto, é aquele com os olhos nos olhos.
A esperança é que, no futuro, seja tudo mais fácil porque eu irei às últimas consequências para que essas coisas não mais me estraguem meus amores. De alguma forma boba, eu acreditei que amor em si é a base que permite que essas coisas ocorram de forma natural, num tipo de piloto automático que não existe para nenhuma relação humana; nada é por acaso e nada se mantem aceso e saudável sem esforço, sem entrega, sem essa ciência da importância de se fazer acessível, especialmente nos momentos iniciais de qualquer romance.
"I started telling the story without knowing the end..."
Não que tenha sido sempre tudo culpa minha: todo esse exercício só é bem-sucedido quando é recíproco e, muitas vezes, não é. Precisa de uma entrega quase cega, uma reciprocidade sem filtros, uma generosidade absoluta e uma dedicação definitiva nesse adorável mistério que é aquela pessoa incrível, cheia de qualidade e defeitos, que é quem amamos e, assim como muitos têm dificuldade para perceber essa importância toda no diálogo e na intimidade, outros tantos simplesmente não valorizam essas ideias e não as reconhecem como fundamentais.
Eu aprendi, como sempre da pior maneira (mas que bom que tenha sido assim, porque aí a lição não é esquecida) que o relacionamento estável, duradouro e sem prazo de validade que a maioria de nós almejamos depende, universalmente, de um processo muito transparente e sério de comunicação, de sinergia, de entrega, de batalha diária pela sinceridade e pela intimidade. Que amor sozinho não dá voz ao que você sente, deseja, precisa, quer, não quer, ao que te diminui e engrandece na presença dessa pessoa que, também, está sempre confrontada por esses mesmos lapsos, e outros tantos vácuos, falhas e omissões – especialmente se ela estiver iludida sobre a realidade das coisas e, como você, despreparada para esse tremendo desafio de criar as bases para uma vida inteira com outra pessoa dessa forma meio infantil de querer o amor eterno sem abrir o bico.
Aí, recentemente, acabei descobrindo um filme independente adorável, exclusivo do Netflix, que dá voz a essas percepções. “Blue Jay”, que é o nome do média-metragem (ainda se usa média-metragem?), foi-me revelado porque, ao saber da morte por câncer de Robert Fisher, vocalista e líder do coletivo-banda Willard Grant Conspiracy, fui levado a uma viagem nostálgica pelo cancioneiro de WGC, que, por sua vez, me levou a desencavar “Jim Cain”, canção de Bill Callahan e que encerra “Blue Jay”.
O filme, um singelo e agridoce tratado sobre os descaminhos das pessoas que se amam e se desencontram, passa essa e muitas lições, dos problemas esmagadores da comunicação. Cada caso é um caso, mas me espanta perceber que nos meus, em todos esses voos de galinha que foram meus relacionamentos, os problemas de diálogo, de ambas as partes têm todas as facetas que você quiser encaixar: timidez, receios bobos, fraquezas, inconstâncias, falta de intimidade, meu egoísmo, insegurança, falsidade, manipulação, hipocrisia, falta de amor, racionalizações de quem não sente, rigorosamente, nada por você e por aí vai.
"With the death of the shadow came a lightness of verse..."
Não que isso queira dizer que todas as minhas experiências afetivas teriam se beneficiado unilateralmente de maior entrega e abertura, de diálogo, de mais intimidade. Algumas, simplesmente, não eram mesmo para ser. E, sinceramente, acho que nenhuma delas se sentiria empolgada em embarcar nessa jornada de conhecimento, de intimidade, comigo. Ou, talvez, elas só precisassem dessa diretiva, dessa postura da minha parte para encarar um desafio que talvez desejassem.
Não foi “Blue Jay” que me fez observar esses problemas e eu gostaria, mesmo, de poder dizer que, se tivesse visto “Blue Jay” há um ano, teria corrigido o rumo em muita coisa. Mas, eu não iria: é no calor dissoluto do crisol que você sublima essas descobertas, não vendo filmes, por bonitos que sejam, sobre as coisas que você ignora a respeito de você mesmo. É preciso um nível de sintonia e sincronismo com relação ao cinismo dos amores morridos para ver o filme e dele tirar alguma conclusão capaz de fazer você reavaliar e mudar a sua vida, o que não era o caso há um ano. Entretanto, como toda e qualquer manifestação artística de qualidade, "Blue Jay" é dessas que resumem todas essas impressões, essas sensações e valores de forma a tocar o coração e te motivarem a escrever sobre elas na vaga esperança de que, ao cristalizar em texto essas descobertas, que elas fiquem ainda mais incutidas na alma e que, quem sabe, alguém que leia sem querer isso aqui aprenda uma coisa ou outra para evitar acidentes de percurso - afinal, meu objetivo de vida é espalhar o amor pelo mundo.
"But the darkest of nights, in truth, still dazzles..."
O que eu posso dizer, e aí de coração leve e aberto, é que, agora, eu sei, eu sei. Jazem impressas no coração todas essas impressões sobre o valor da comunicação e o conhecimento íntimo de quais são as suas bases e a vontade, sincera e bastante ciente, de que, se tudo que você precisa para ser feliz é o amor, tudo o que você mais precisa para que ele floresça e viceje ao longo da vida são o diálogo, a curiosidade em relação a quem você gosta e a posição firme e sincera de quem se entrega à intimidade, à abertura, às conversas, a esse delicioso exercício de convidar alguém a te desvendar sem filtros e à tarefa de, judiciosamente, construir uma vida com a colaboração indissolúvel de outra pessoa e que tudo isso dá um trabalho dos diabos - no bom sentido.
às 13:08 0 comentários Marcadores: Memórias
sexta-feira, 7 de abril de 2017
Pensamento positivo
Eu sempre desdenhei da ideia de pensamento positivo porque estava em descompasso com a verdade das coisas e de percepção embotada por uma doença. Mas hoje sei valorizar essa capacidade, a capacidade de olhar o lado bom das coisas e de encarar as dificuldades e durezas da vida de uma forma sadia: não é abstrair-se de senti-las pelo que elas são, mas de escolher a forma pela qual você vai permitir que elas impactem no seu dia. E eu aprendi a usar essa coisa de pensar positivo para não deixar que nada me desvie do que eu quero, do que estou fazendo, do que eu sei e preciso.
É um ensinamento bem zen, um dos poucos que absorvi, porque eu não tenho mais idade para ser hippie, quando me interessei por um outro recurso das filosofias orientais. Ao lado da meditação, esse talento de contar até 10, usar empatia e deixar que tudo exploda à sua volta é incrível.
O que eu ainda não aceito muito bem ou, na verdade, desconfio, é da ideia de pensar que tudo tem que dar certo porque sim. O mundo é cruel, a vida é dura, a existência é algo assustadoramente injusto e não há razão nenhuma para otimismo: as guerras continuam, o planeta se degrada, as pessoas se odeiam, crianças morrem de fome, há doenças incuráveis destruindo a vida de tantos e tantos, o poder e o dinheiro não apenas corrompem, como seguem aqueles preceitos físicos das coisas que se aglutinam sobre a água em pequenas porções, inacessíveis a todos. E no fim de tudo, os seus dramas pessoais se acumulam e fazem as grandes mazelas da humanidade parecerem minúsculas em comparação: é conta para pagar, o futuro para resolver e as incógnitas impressas no sangue tépido do coração que ama e pulsa em compasso de espera, sem o sincronismo daquela doce verdade científica da pulsação de dois amantes que entra em harmonia. Não há como escapar da dureza de todas essas coisas e apenas olhar para elas com olhos inocentes e umedecidos esperando que elas darão certo por algum fatalismo reverso é infantilidade.
Mas cada uma das mazelas que se abatem sobre você podem, e devem, ser absorvidas e encaradas de forma positiva no sentido de que é a maneira pela qual você escolhe encará-las que vai lhe dar os melhores subsídios para superar os problemas. Eu tenho escolhido paz e aceitação e qualquer outra resposta que me permita ter equilíbrio diante de humilhação, indiferença, agravos, obtusidade e o que mais aparecer por aí. Eu mato de peito, respiro, sorrio, e de coração leve, resolvo o que eu faço em seguida. Eu tenho me sentido mais leve, mais em paz por conta dessa nova forma de lidar com o mundo. Eu nunca fui assim. Nunca.
O pensamento positivo em relação ao futuro é enganoso e pode levar a amargas decepções. Mas pensar positivo sobre o que te atinge, seja isso algo originário de pessoas, de coisas, do banco, do trabalho, dos colegas, da família, enfim, ajuda, muito, a evitar cair em depressão, a policiar pensamentos negativos, a tristeza que pode aproveitar qualquer brecha para te puxar para aquele niilismo destrutivo e imbecil. E é incrível como uma mente sã, disposta a se libertar, dá esse chão firme para que você se sinta em paz, resiliente e num equilíbrio em que tudo começa a se encaixar: meditação, o cuidado com a forma pela qual você reage, a capacidade de entender como sua mente funciona, os pensamentos ruins esperando na esquina, tudo, fica mais na mão, mais fácil de entender, de seguir. Aí, até as músicas que falam de redenção e vitória dominam a playlist e o videogame, essa deliciosa válvula de escape dos problemas da vida, fica ali, empoeirando, enquanto você faz seus planos, resolve problemas e gasta tempo aprendendo a programar em C# por um curso à distância da Microsoft: algo para que você jamais pensou ter a menor disciplina.
O ano de 2017 está longe da metade. Mas eu já fiz muito por ele, aprendi, parei, reexaminei, busquei ajuda e me proibi de antigos vícios.
às 09:29 0 comentários Marcadores: Cartas aos meus filhos, Memórias

