quarta-feira, 7 de junho de 2017

Agora eu sei

No meio de todas essas palavras, omissões, saudades, faltas, mentiras e verdades, sentimentos e desistências, eu tenho notado uma crescente gratidão e admiração por você. Porque hoje, lúcido e estimulado, depois de ter construído tantos planos e de ter lhe esperado nessa minha convicção claudicante de quem, precavido, anteviu o fim, mas tinha todas as esperanças do mundo, me dei conta da enormidade das coisas que, um dia, você sentiu por mim. Do quanto você foi longe por amor, da grandeza da sua generosidade.

Falo daqueles tempos em que você planejava e construía, de forma abnegada e sem filtros, o nosso futuro em planos que vinham ao meu resgate e que eu, deprimido, covarde e inseguro, abatia em pleno voo.

Admiro você ainda mais agora, que vivo o outro lado, e vejo minhas quimeras dissolvidas no ácido irredutível da sua falta, da sua desistência, da sua decisão de por fim ao que ainda ia começar. Admiro a grandeza daquele seu coração, daquela sua certeza, daquela sua vontade, da sua coragem. No fundo, eu reaprendi a ser guerreiro com você.

E das tantas lições e coisas grandes que eu tenho a agradecer por você ter representado na minha vida, essa é, sem dúvida, uma das mais importantes. Mesmo que ela tenha vindo dessa forma: quando eu te tratei da maneira mais adulta, você me desmontou do jeito mais imaturo possível.

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Campo de hortênsias

Eu sonhei que andava por um campo
e ele era florido
florido de hortênsias
cheio de vida
e eu, comovido,
ignorei as suas desistências.

Eu sonhei que num campo
cheio de hortênsias
enquanto o nosso se desfazia
encontrei você, de olhar perdido
e tive medo.
Me calei enquanto você esmaecia
e voava com o vento, cantando ao meu ouvido
que não, não, não há paz,
e eu me estremecia.

Eu sonhei, então, que num campo
que estava cheio de hortênsias
eu caminhei e caminhei
como quem escapava
em busca de esteio
até encontrar uma festa de tanta gente conhecida
e eu sonhei que revirei as mesas, os cantos
as rodas, que fui de ponta a ponta
cadê? Cadê ela? Ela não veio?
e assim, eu me desesperava.

Sonhei que te encontrava, de olhos vermelhos
de quem chora e chorava
e me desacordei
E que você já não olhava para o nada
e que seus olhos vinham a mim
eu sonhei que, numa festa
num campo de hortênsias
engoli a dor, sorri e te gritei
ei, para com isso, me espera!?

E no campo de hortênsias
descobri que você não me espera
que era uma miragem assombrando o meu sono
mas eu, ainda assim, corri
sorri e morri
com toda essa paixão sincera
e te alcancei, para tocar a sua face
e a miragem se desfez
em sorriso, vida e verdade,
porque já não era ilusão
era você que me amava
como se nada mais importasse.

sábado, 3 de junho de 2017

Ainda o nada

Como pode a certeza de que nada leva a nada ser inspiradora? É tudo uma questão de perspectiva. À distância, estamos degradando a Terra além de ponto de não retorno, o sol está explodindo e, na ponta disso tudo, o universo se resfria em derrota impotente perante a inflexibilidade da entropia. Nessa ordem de magnitude, todas as coisas levam a nada e não há esperança.

Mas na perspectiva da vida de cada um de nós, do dia-a-dia, dos seus sonhos, dos seus amores, das coisas que, somadas, definem quem você é, o que quer, o que precisa, a ordem de magnitude é outra, porque a escala muda e, de repente, amar incondicionalmente, se esforçar para aprender um conceito matemático, terminar de ler um livro, escrever um outro, chorar por amor, sentir saudade, ser otimista pelo futuro ganham significado porque essas coisas todas não se conformam com a escala das enormidades absolutas do universo. Mesmo que, invariavelmente, nada leve a nada, porque você um dia vai errar e, para uma porção de coisas na vida a simples tentativa É o fracasso (se você precisar tentar ser mais amoroso, significa que não é de começo, então tentar é uma forma de falhar), há um propósito redentor nessa liberdade que nasce do momento em que você se pacifica com a noção da nulidade das coisas todas e com o paradoxo da importância do que o define, do que o motiva, do que lhe instiga.

Ou, em resumo, reconhecer que nada leva a nada não leva a nada. Porque essas coisas todas são fatos. E, confiem em mim, não dá para brigar contra os fatos. O que você pode fazer é trabalhar a forma pela qual você reage a eles.

Na pequena escala das nossas vidas insignificantes perante a imensidão de espaço e tempo, todas as coisas importam. O amor, a saudade, o carinho, o afeto, a raridade desses sentimentos, os seus sonhos, os seus desejos, as suas memórias mais doces, os seus melhores momentos. Como não reconhecer que essas coisas, que essas pequenas e insignificantes coisas, não são melhores que o absoluto frio de um universo que morre?

E quando você se encontra com essa convicção na vida, você abre a página do herói absurdo do Camus e tudo se encaixa numa busca serena pela felicidade, pelas suas circunstâncias e contextos na vida. De repente, todos os momentos são os mais importantes da sua vida, todas as coisas que você deseja e busca têm igual valia e tudo, tudo se torna o significado da vida.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Nota 10


=)

Felicidade é 10 em matemática.

Foram 24 anos, ensino fundamental, ensino médio, um ano de engenharia civil e quase seis meses de análise e desenvolvimento de sistemas mas, finalmente, eis que eu consegui um 10 (ou A) no boletim em matemática (100% de aproveitamento em todas as provas), no primeiro bimestre e estamos a uma prova de repetir a dose no segundo. E não se furtem de, também, observar o meu nível absurdo de desempenho em todas as disciplinas, que eu sou muito foda, um compilador humano, uma máquina de resolver problemas de capacidade praticamente incontrolável. A extensão das minhas capacidades e talentos chega a me assustar, às vezes.

Já posso riscar 10 em matemática da lista: falta ainda restaurar um carro antigo, plantar o livro, escrever o filho, ter uma árvore e encontrar alguém para construir uma família ao meu lado.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

À luta

"O oposto de depressão não é felicidade, é vitalidade".

Incrível como, do começo ao fim, eu posso me transferir para dentro das palavras de Andrew Solomon em uma palestra do TED sobre depressão (o livro dele sobre o assunto é, aliás, obrigatório). Desde o que levou ele à condição, às percepções sobre como enfrentá-la e as lições extraídas.

Essa impressão de que o oposto da depressão é vitalidade é certeira porque você se sente de espírito embotado, é como se nada fosse possível, como se as coisas, por mais importantes que sejam, te esmagassem: a vida se resume à um nada, a um enorme não negro que senta sobre a sua cabeça, que suga toda a sua força. É uma sensação esquisita de que há uma enorme parede entre você e a vida, entre você e o que você quer, deseja. Soma-se a isso baixa autoestima, e a receita do caos, da letargia, da dor e desse apego idiota pela tristeza se instala. Sair do emprego que, simplesmente, lhe destrói parece algo fisicamente impossível, como se a virada de mesa que lhe salvaria e lhe daria novos paradigmas fosse inatingível. Nada mais parece possível porque não é a realidade o problema, o problema é a sua incapacidade de conciliar o que você sente, como se sente e se percebe, com a dureza da vida e as expectativas que você tem de você mesmo, que as pessoas acabam tendo de você. É uma sensação de sufocamento difícil de por em palavras e que, se você não souber como encarar, acaba explodindo em todos os aspectos da sua vida.

Eu lembro de ter passado por um período extremamente escuro de depressão em 2015, quando falava para uma pessoa que a única coisa me impedindo de encerrar a minha própria vida era a dor que traria a ela e a outros. Eu já estava no estágio dos planos, das imagens na cabeça. E, mesmo nesse quadro, eu não me reconheceria na época como deprimido, apenas diria que estava passando por uma fase um pouco mais miserável. Naquela fase, tive manifestações físicas da minha depressão: começaram a cair pelos do meu corpo (alopecia), não conseguia dormir e eu não fui capaz de raciocinar, de ligar a com b e perceber que eu precisava desesperadamente de ajuda. Eu entendi tudo isso há apenas uns meses, mas só agora me sinto bem para falar a respeito, ainda que de forma resumida num blog que ninguém lê.

Em questão de uns dois meses, minha mãe ficaria doente, eu sem dinheiro depois de meses desempregado, ainda mais infeliz, e morreria meu avô. A depressão me colocou num parafuso de desespero e eu, incapaz de entender o que acontecia comigo, de colocar em perspectiva o que eu estava sentindo, mesmo de me abrir com quem me ouviria, destruí um relacionamento como mecanismo de proteção de outra pessoa quando me vi confrontado com a necessidade de abraçar a vida que, não só era o que eu desejava, mas significaria o começo de que eu tanto precisava (e que eu tanto queria), causando ainda mais dor. Mas essa desgraça se manifesta dessas formas, ela engole a sua vontade, acaba a sua coragem, a vitalidade, o impulso de assumir a verdade que você conhece - de que a sua vida não está legal - e de fazer algo para mudar, melhorar, para sair do buraco. É essa falta de vontade, essa inexistência de vitalidade, de emoção, de coragem. O que se segue é desespero, já que essa doença é uma ciranda de falta de esperança e maldição porque a depressão se auto abastece de desgraça porque se não há desgraça, ela cria.

E isso me leva a, naturalmente, desconfiar dessa coisa de cura. Mas me sinto forte porque, hoje, eu consigo monitorar meus pensamentos, eu sei onde se escondem os terrores, eu consigo segurar as linhas de raciocínio que levam essa cabeça desregulada a embarcar numa jornada de confusão, dor e escuridão sem fim porque essa escrita terapêutica me ajuda, muito, a entender essas coisas, a colocar no papel a extensão por vezes caótica dos meus sentimentos. Esse controle é o segredo da minha calma, da minha lucidez: eu nunca estive tão ciente de como me sinto, do que eu sinto e de onde estão guardados os meus fantasmas como agora. E, embora eu não esteja 100% no controle, nenhum de nós está, eu recuperei essa antiga capacidade de me entender, de aceitar e de controlar impulsos que me levariam a sofrer. E isso garante resiliência.

No fim do vídeo abaixo, Andrew fala sobre como, de certa forma, é grato por ter encarado a depressão. Porque ela faz dar mais valor ao que de bom temos, à alegria, faz você se encontrar com coisas que tinha esquecido que existiam. No meu caso, ateu, comecei a meditar e acho que, dentro de mim, mora uma coisa enorme, maravilhosa, única e irredutível que, de repente, podemos chamar de alma e que eu confesso, até assustado, é feita de amor. Eu não sou grato pela depressão porque ela me atrasou a vida, porque ela traçou caminhos que me causaram dor, mas eu sou grato pelas lições, por essa força, por essa musculatura não mais atrofiada que me permite flexionar cada fibra do meu ser, do meu coração, nesse esforço de quem quer vida, de quem corre em busca da vida e de quem, não só com vitalidade, mas com esperança e coração aberto espera do destino o que vier. Eu sou grato porque, hoje, eu valorizo muito o que eu sinto, o que eu sou, o que eu posso e o que eu quero. Porque venha o que vier, eu apanho, mas eu bato, eu erro, eu perco, mas eu levanto logo depois, com sorriso e desafio no rosto porque a vida me espera e eu me abraço nela porque há uma porção de coisas para fazer: eu quero ser pai, eu tenho amor que não cabe no coração, eu preciso de cachorros, uma casa na serra, quero escrever livros, eu tive uma ideia para abrir uma empresa, ter filhos, mas também adotar ao menos uma criança, eu quero fazer faculdade de matemática aos 50, quem sabe aprender a tocar um instrumento, viajar mais, sorrir, viver. Eu quero amar alguém de forma intensa e entregue e eu quero, com essa pessoa, construir uma vida inteira, eu quero morrer velhinho, antes ou depois dela, não importa, mas eu quero ir até o fim com alguém ao meu lado, e estar ao lado dela, para tudo que a vida tentar contra a gente. E ter atravessado o que eu atravessei ajuda a valorizar muito, muito esse sonho e o meu coração espartano de forma a garantir que ele esteja pronto para quando o destino convocá-lo. Ainda que eu tenha, ingênuo, achado que eu podia convocá-lo e que, ainda neste ano, eu estaria dividindo um teto, trabalho, contas e metas com paixão e alegria ao lado de alguém. Meu coração está pronto para a vida.

Eu sou grato, sobretudo, porque a única forma de eu realmente aprender sobre essas coisas e aceitar as minhas circunstâncias era essa: a um custo elevado e isso nunca vai ficar claro para quem não encara essa doença, de que não há forma de sair do buraco sem encontrar o fundo. O preço que eu paguei para ter essa percepção é extremamente alto, mas é só assim que se aprende e é ter pago esse preço que me dá a lucidez de valorizar o que de bom há na minha vida, há em mim e há no meu futuro, porque ele corre ao meu encontro e dele virão coisas boas.

Eu sou grato por ter aprendido a me reencontrar, a valorizar as minhas qualidades, a ouvir meu coração sem medo nenhum, a viver de acordo com os meus valores e princípios e a dar às coisas o nome que elas têm. A cura pode ser uma ilusão porque essa pré-disposição sempre estará à espreita, mas isso não me preocupa, porque eu me sinto bem, bem como comecei a me sentir quando, há pouco mais de um ano, sentei à beira de uma cachoeira e ocultei minhas lágrimas com a água que caia daquelas pedras porque foi ali, ali que eu comecei a acordar, ali que eu comecei a acordar e sair do buraco, ali que eu ouvi o meu coração gritar, foi quando eu deixei que o amor me resgatasse e começasse a minha cura e cicatrização. Eu deixei esse amor todo transbordar e, mesmo que ele seja inútil e condenado a morrer no ocaso, eu ainda sorrio quando o vejo entre as coisas minhas porque ele é a prova da minha cura, é a minha força, é a minha vida, é o resgate. Um amor redentor, que não foi suficiente para outra pessoa, mas que ainda assim, é a minha maior fortuna. Um dia eu vou ser pai e vou lembrar que foi esse amor que me trouxe à vida e que me fez criar uma família, esse amor é um tesouro, é o meu renascimento, dele só vieram coisas boas.

E em questão de meses, as coisas todas se encaixam: eu estou magro!, eu estou aprendendo uma tonelada de coisas novas, eu fiz novas amizades, eu me permito sorrir e considerar encarar experiências que nunca me permitiria antes. Eu pinto o cabelo e ostento, orgulhoso, uma frondosa barba grisalha. Eu recebo más notícias, mas escolho encarar o que não dá certo com o coração leve, sem peso, sem dor, sem sofrimento e sem mágoas Eu me libertei e hoje, eu não me assusto com as pressões a que eu mesmo me coloco: eu as entendo, eu as aceito e, mais que tudo, eu as busco porque é nelas, é nessas buscas, que eu construo meu caminho, oriento minhas metas e saio fazendo planos e tentando conciliar os meus sonhos com a frieza da realidade. Eu estou vivo, vivo, quente e pulsante, me sinto garoto, ou melhor, sou garoto, desperto e forte.

Se eu precisasse falar como me sinto, hoje, em termos simples, diria que estou leve e simples porque não tenho remorsos, só tenho sentimentos bons, comigo só ficam sorrisos, coisas boas e essa minha força de fazer sacudir o meu mundo. Nesse ano, assim, direitinho como eu jurei que faria no alvorecer do primeiro dia de janeiro, eu decidi parar de passivamente esperar a luz no fim do túnel: eu simplesmente fui lá e acendi essa porra sozinho, porque o túnel é escuro não pela falta de saída, mas pelo fato de ser longo. E é dessa forma, iluminado, que eu me disponho a encarar a minha vida porque, como eu venho dizendo, prometendo, e mais que tudo, executando, 2017 é o primeiro ano do resto da minha vida e nada o proíbe de ser o melhor de todos até aqui.


sexta-feira, 26 de maio de 2017

Fim de semana perfeito

A minha ideia de fim de semana romântico era pegar esse carro que está na garagem, que tem sede, que faz a minha sede de quilômetros, era embarcar nessa viagem e desandar toda essa quilometragem que mede distância, que corta divisas, que atravessa muros, que faz pontes entre as nossas escarpas e ir te achar do outro lado dessa avenida da saudade. Meu ideal de fim de semana perfeito começa com a minha viagem, solitária, como de costume, em direção a você.

Meu fim de semana romântico continua comigo te encontrando, te desafiando, comigo te questionando, com você sorrindo, com a festa com os cachorros, meu fim de semana perfeito se prolonga a cada momento em que posso divisar a improbabilidade dos meus sentimentos, essa raiz de número negativo, esse número complexo, essa medida que, mais que Fibonacci, é o princípio matemático que ordena o caos da minha vida, que põe a nossa existência numa ordem nossa, numa álgebra que ambos escrevemos a muito custo, é a nossa mecânica universal aplicada que nos coloca em sincronismo.

E o fim de semana perfeito continua, continua na folga do seu abraço, no calor do seu corpo, no apego deslumbrado que eu tenho, sempre tive, por cada uma das suas evoluções, pelo seu jeito de olhar, de se mexer, pela sua voz, pela improbabilidade, de novo ela, das suas mãos, as mãos mais perfeitas da criação.

E nosso fim de semana perfeito só começa e acaba e começa nessas coisas porque aí é hora de pegar o carro, é hora de andar muitos quilômetros mais, melhores, mais largos, mais profundos, nossos e novos, quilômetros e quilômetros, por todos os lados. Nosso fim de semana perfeito acaba em noite fria, em chalé, choupana ou barraca, céu claro e aberto, telescópio que não mais nos esqueceremos à nossa disposição para que, ao divisar o improvável das estrelas que desafiam o tempo e a nossa perspectiva de realidade, nos encontremos, ainda mais improváveis, porque complexos, porque entregues, nos braços um do outro.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Rádio: Willard Grant Conspiracy - The Trials by Harrison Hayes

"Don't have the patience for all these apologies, don't have the time to waste on suffering"...


Herói absurdo

Seria fácil, bem fácil, duvidar da seriedade, da intensidade, da profundidade dessa minha reengenharia, dessa minha força de correção, de solução dos meus problemas, de compreensão íntima das minhas circunstâncias. Seria fácil de duvidar e, eu mesmo, seria o primeiro a questionar a profundidade desses propósitos, a desmontar qualquer argumento mais sério, a suspeitar, a impor o pessimismo, a falar da entropia, que relativiza tudo. Mas estaria errado quem se pusesse a duvidar porque a verdade é que esse processo todo é vida, e eu me abraço da vida ao reconhecer o absurdo, o inerente absurdo dessas buscas todas, do desejo de encontrar sentido nas coisas, de enxergar destino, sonhos, objetivos, metas, e tanta subjetividade nesse universo indiferente, como algo profundo, alusivo a algum sentido íntimo maior e mais verdadeiro do que a irredutível aleatoriedade de todas as coisas. A vida é isso.

Eu sou, de certa forma, uma manifestação daquele herói absurdo que Camus definiu, o sujeito que encontra felicidade em reconhecer que, em última análise, vivemos numa luta eterna contra o aleatório e o inconsequente em um universo que, não apenas é frio e indiferente, mas também é hostil. O que tem ciência de que a vida, no fim, consiste em uma vã luta contra o nada, em uma busca pelo nada, e que mesmo seus sonhos mais profundos, seus desejos mais intensos são redundantes a partir da ideia de que, bem, nada leva a nada.

Poderia parecer uma visão muito obscura das suas circunstâncias, quem sabe um ranço do niilismo que venho exorcizando da minha vida (embora, na prática, Camus seja um existencialista), mas não é nada disso. A percepção de que as coisas, em si, não guardam nenhum sentido emancipa porque lhe dá os recursos para libertar-se do que é ruim e prejudicial e, sobretudo, de encontrar valor, se não mesmo significado, naquelas que são as suas grandes verdades. E vai parecer um contrassenso, essa ideia de que tudo leva ao nada, e no fim falar de encontrar sentido, mas, me desculpem, eu não tenho obrigação nenhuma de fazer... sentido porque, herói absurdo ou não, no fim das contas, eu também sou uma parcela desse nada, desse vazio do existir que nos aflige, quer percebamos, quer não.

Eu iria longe nesse texto, porque entre os reencontros desse ano, tenho me dado ao direito de folhear livros de filosofia, o que me levou, por exemplo, a revisitar o existencialismo (e a ficar muito, muito, muito longe do Emile Cioran, aquele homem destrói qualquer vã pretensão de otimismo com algumas poucas frases. Eu, particularmente, nunca me esqueci do “a consciência é o pesadelo da natureza”, que é como se fosse o negativo exato do “somos uma forma do universo conhecer a si mesmo” de Carl Sagan. Cioran não é para os fracos). E a filosofia também tem ajudado, tudo tem ajudado, na verdade, porque eu agora só extraio das coisas o que há de bom nelas. Com a filosofia, vou me reencontrando com o vazio da vida, com o nada intrínseco a todas as coisas que desejamos, de forma pacífica porque nada mais me assusta.

E isso permite depurar seus sonhos e objetivos e se encontrar com a essência das coisas, com a verdade profunda das coisas que você quer, de verdade, ainda que sejam elas todas manifestações esmagadoras da nulidade, da inconsequência da vida e do fato de que, no fim, nenhum de nós existe porque quer, todos vamos morrer e nenhum de nós tem qualquer ideia do que está fazendo, do porque está fazendo e dos caminhos que temos para percorrer.

A impressão mais emancipadora dessa jornada de debate íntimo, de leitura fragmentada da filosofia – não me escapa, de forma alguma, que estou violentando as ideias dos filósofos para encaixa-las nas molduras que criei para a minha realidade – é, depois do terremoto, se reencontrar com as suas verdades, com os seus valores, com seus objetivos e ter essa convicção íntima de que a sobrevivência deles a todo esse colapso só atesta a firmeza dessas coisas na sua vida. E aí, é hora de arregaçar as mangas, deixar a filosofia para horas vagas, e ir, correndo e de peito aberto, nessa jornada, nessa busca do nada, nessa fria e inevitável inconsequência cósmica que chamamos de viver.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Cães e perdas

Na fila do banco, eu ouvi de uma mãe contando a uma amiga das dores que passava naquele momento o filho, criança, do que pude deduzir, e que teve que recentemente encontrar na perda do cachorro da família a sua primeira experiência com a morte. De como vinha sendo difícil explicar que o bicho não volta mais, que a vida dos cães é assim, tão mais curta, que o menino chorava e chorava, que na cabecinha dele não entrava a ideia desses absolutos, do pra sempre, do nunca mais, da ausência, da impotência diante das circunstâncias. Que nenhum brinquedo ou agrado substitui o cachorro.

O relato ainda foi longe, a fila era das demoradas, e prestava atenção curioso na forma como aquela criança precisava enfrentar essa dureza, de como a dor que o garoto encara em tão tenra idade afligia a mãe, que não sabia mais o que fazer. Me peguei, eu mesmo, engolindo as lágrimas, quando, por cima do ombro da interlocutora, flagrei a foto de guri e cão abraçados. Criança feliz, sorridente, de dentinhos ainda pequenos, sorriso de covinhas, olhinhos apertados. Cão marrom grande, não saberia dizer de que raça, eu basicamente vejo labradores e pastores em tudo, que são tão carinhosos esses labradores que, tenho certeza, se fui eu cachorro em uma vida passada, de certeza que fui eu um desses.

Engoli as lágrimas porque, acompanhando a fotografia disposta na tela de celular, veio a sequência do relato da mãe, que informada do veterinário do destino inevitável do bicho há algum tempo, preparou uma semana de agrados para criança e cão, dando aos dois todos os mimos que, de ordinário, seriam vetados. Então o bicho dormiu na cama com o menino, teve livre acesso ao interior da casa, ganhou carne de boa qualidade e todas as coisas que gostava de comer como forma de despedida de toda a família, como carinho, como zelo por essa vida que se finda, que leva tanta lembrança e encerra, já agora, tanta saudade. A dor da perda é esmagadora, por certo, tanto mais que achata as costas estreitas daquela criança, mas que inveja dá essa virtude da morte dos cães de família cujo fim pode ser antevisto, preparado, cuidado. Na nossa vida de pessoas esse tipo de luxo é uma raridade e, nem sempre bem vinda porque, do alto da nossa pretensa lucidez, gostamos de achar que somos por demais importantes e apegados à vida. O cão não presume seu destino, não questiona a finitude da sua existência e quando se dá uma semana de regalos e folgas, como no caso dessa família, apenas aproveita. Deve ser feliz a vida dos cachorros.

Não conheço o garoto, e me compadeço enormemente da sua dor e do seu sofrimento. Depois que chegou a vez da mulher, e não tive mais como ouvir a conversa, desejei intimamente que essa criança colha dessa experiência apenas boas lições. Que decaia esse sofrimento com o remédio do tempo e que, no futuro, fique a recordação de bons momentos compartilhados com o cão, dessa semana de despedida e festa em que tudo foi possível. Nunca fui diretamente afetado por morte de cães, embora já tenha perdido muita gente, mas mesmo assim, hoje, eu finalmente entendo o que li uma vez sobre a crueldade que é essa coisa de morrerem os cães tão cedo.

Criança nenhuma no mundo merece perder um amigo desse jeito. Cachorros de crianças deviam ser imortais.

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Trechos

"... eu queria começar com uma conversa, uma desarmada conversa, esse encontro tão adiado de dois inteiros, eu queria um pacto, eu queria um laço para atar as nossas pontas soltas. Eu queria dizer como me sinto, como encarei esse processo, o que eu fiz. Eu queria ouvir o que tens para dizer, eu queria processar o seu lado, eu queria entender, eu queria ter mais subsídios para me colocar no seu lugar. Eu queria te ouvir falar, livre e sem receios, eu queria que você confiasse em mim, que me dissesse dos teus medos, que me deixasse te entregar meu coração como devoção última de que, de uma vez por todas você entenda, eu me comprometo, eu não fujo, não vai embora quem chegou onde sempre quis na vida. Eu queria firmar esse laço a partir dessa convicção já tão antiga de que não nos abrimos como deveríamos, de que nós precisamos de diálogo, de que eu quero você na minha intimidade, e eu quero navegar deslumbrado pela sua. Eu queria uma conspiração, um projeto, uma união que determinasse nossos protocolos, nossas formas de aparar arestas, eu queria o projeto e esboços para os jogos, para as descobertas, para os exercícios que eu imaginei e que deveríamos praticar para corrigir essas coisas, para nos encontrarmos mais um no outro, eu queria inaugurar a nossa vida juntos com essa convicção íntima de que, venham da vida as pedradas que vierem, recaiam sobre nós os problemas que recaírem, dê eu a você, e vice-versa, as respostas atravessadas que forem, no final de tudo, de indissolúvel está esse laço, esse pacto, essa firme certeza de que há uma constante, e essa constante é nós, o nosso bem estar. Eu queria, escrito a ferro e fogo nesse pacto, as nossas verdades: eu amo você, você me ama, eu quero você e só você, você quer a mim e só mim, juntos vamos para sempre. O que mais for da vida, nós encaixamos nessas verdades, a nossa guia é o bem-estar nosso em torno desse compromisso e dessa entrega. Eu queria um pacto que nos põe em ordem, que nos endireita o rumo, que nos dá metas, que nos faz trabalhar como time em busca de resultados, da conquista dos nossos sonhos, tão nossos e bonitos. Eu queria preparar o palco desse encontro de gigantes com o calmo e necessário processo de depuração, de cura, de calma e ponderada abertura, em que lhe digo as minhas verdades, lhe confesso os meus segredos, me penitencio dos meus erros, na convicção tão inocente e minha de que você faria o mesmo. Eu queria te reencontrar, do outro lado desse vórtice de erros, de distância, de bobagem e de fraquezas da forma que eu sou agora, de braços abertos e sem os ressentimentos que nunca consigo manter contra você, grande e pronto, generoso e calmo, desperto e apressado.

Queria lembrar você de que a vida que nós queremos é sempre luta, que todo mundo briga, que esperar não é saber. Que me recordo de uma vez em que você me escreveu, ou escreveu no seu blog, já não tenho certeza, quando você estava desse jeitinho, completamente apaixonada e eu perdido, toda doce e encantada, planejando e suspirando plena dessa paixão que hoje me assola a alma, que tinha conversado com seu pai sobre estar feliz porque tinha resolvido a vida, tinha resolvido a vida porque tinha me achado e por isso tudo, de agora em diante, seria fácil. Seu pai te respondeu que era engano seu, que era agora que começava o trabalho duro.

O que eu não prometo é que as coisas sejam fáceis, porque nada que vale na vida é fácil, que a ilusão de que as coisas devem ser fáceis é o que explica nossos descompassos. O que eu não posso prometer é que não vamos encarar dificuldades, que a vida não vá ser bandida, que as armadilhas não estejam à nossa espreita. Mas o que eu posso prometer, entretanto, é que de mãos dadas somos um, mais forte e resistente, e que eu te protejo do que vier de ruim, que sou esteio, deságue em mim suas angústias, confesse-me esses seus medos que eu nunca conheci, que eu nunca perguntei, me diga onde estão esses fantasmas que eu vou lá com a luz que me ilumina e pacifica espantar essas suas assombrações e reinstaurar essa calma. O que eu posso te prometer é que, mesmo em face das durezas que eu quero da vida, e eu quero da vida as durezas porque elas são inevitáveis e não há proveito nenhum em se esconder delas, sempre estarei do seu lado, como companheiro inarredável dessa vida que eu quero nos dar porque ainda antes de amar a você, eu amo a nós.

O que eu quero não é recomeço, não é volta, não é emenda e conserto, o que eu quero é futuro, é vida, é sentimentos e convicções. O que eu quero é início, é firmeza, é sinceridade e clara honestidade com o compromisso, eterno, do que sentíamos, das promessas e sonhos a que nos demos direito. O que eu proponho é leveza, eu quero batalhar do seu lado, eu quero proteger você. O que eu quero é calar essa voz que me canta no ouvido esse soneto da saudade, essa canção da falta, da urgência de todas as coisas que envolvem esse meu jeito de amar que não cansa, que me sufoca, que me abraça..."

domingo, 21 de maio de 2017

Quando eu tinha 85 anos

Faltava um mês para que eu completasse 86 anos e, assim, superasse em um ano completo a minha meta, a minha estimativa, o número de anos que, um dia, ainda muito jovem, eu tinha decidido arbitrariamente que seria a quantidade ideal para viver. Para ver o mundo, para amar, para chorar, para vencer, para perder, para construir essa coisa nossa, essa coisa de história, de vida, essa estranha sensação de precisar seguir em frente, de precisar experimentar a vida e o mundo, essa sensação tão estranha de, diante de um universo indiferente, de um universo frio, de um universo que nos faz insignificantes, precisar amar, crescer, sorrir, chorar e ser.

Aos 85 anos, como sempre fiz na vida, não era novidade, portanto, dei-me à tarefa de olhar para trás, de fazer os meus balanços porque, a partir de agora, eu recebo o fim e a morte de braços abertos, porque de agora em diante, o que vier me abraçar é lucro, é sobra.

E nesses balanços encontro tanto para sorrir e me orgulhar que me confunde essa sensação agridoce de quem se vê apresentado ao ocaso e ao fim; me deparo com a alegria que me trazem, hoje, os netos e que senti tão esmagadora nos beijos das minhas crianças. Me deparo liberto de tristezas porque dos meus remorsos fiz escada para procurar novas paragens e construir as minhas moradas em fundações mais sólidas.

Olho para o passado e sorrio, com satisfação, diante dos meus processos, tenho orgulho dessas minhas cicatrizes, do que me cortou profundo, mas me fez mais firme, mais inteiro, mais pronto. Hoje, velho, sem muito que esperar da vida, não me sinto sozinho, não me sinto desamparado, tampouco sou fraco que ainda mora em mim o rapaz que não sabia amar, o rapaz que tinha medo, o sujeito que se deprimiu, aquele que soube desistir, levantar, e começar tudo outra vez. Há uma força enorme que ainda sobrevive na fragilidade estranha desses meus ossos, há uma grandeza e vontade de vida que palpita no coração a cada sístole cansada dessas décadas.

Resta um mês para terminar o primeiro ano, o primeiro ano do resto da minha vida.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Ninguém segura

Se eu soubesse que simplificar e adicionar leveza, bater no peito, pensar positivo, meditar e ser mais otimista traziam tantas coisas boas, eu teria começado isso há muito, muito, muito tempo.

A vida, assim, em equilíbrio, reforça essa sensação gostosa de saber o que faz, onde vai, por que vai, como vai. Desdobram-se, aos meus pés, todos os caminhos da vida e eu vou, solto, por eles. Essa convicção das coisas que são necessárias, do que precisa vir, de onde ir, do que fazer, de como construir, tudo nasce dessa clareza de propósitos, do foco, da calma, da capacidade de respirar fundo, sorrir e batalhar o mundo.

Mas essa lucidez conquistada a duras penas também vale, e vale muito, porque as lições ficam firmes, impressas no meu couro, no meu surrado couro.

E eu pensava nisso hoje, quando finalmente terminei minha mais ambiciosa empreitada, no que diz respeito a desenvolvimento de software: o meu próprio emulador de Space Invaders escrito em C, que batizei de 8080 Monitor, nome que faz referência ao processador, o 8080 do arcade dos anos 1970, e ao Woz Monitor, de Steve Wozniak no Apple 1. Terminei de corrigir os erros no código, compilei o programa pela primeira vez sem nenhum acidente e fui capaz de testar todos os recursos do 8080 Monitor e de jogar Space Invaders por uns três minutos, quando inevitavelmente atingi o limite do tédio porque, embora as pessoas gostem dessa coisa de nostalgia, a verdade é que games da infância da indústria são, em geral, lamentavelmente ruins. Space Invaders é um clássico e todos os etc, mas é bem chatinho também.

Eu sofri estoicamente para terminar o 8080 Monitor, aprendi conteúdos avançados distantes do escopo da faculdade, e me submeti a um processo árduo de aprendizado por conta do aspecto bem mais avançado do código: foi difícil começar, foi difícil continuar, foi difícil não desistir, foi, realmente, uma tentativa de abraçar o mundo. Mas, no fim, deu tudo certo, fui do começo ao fim e realizei. Fiquei satisfeito com a minha disciplina, esforço, com o foco, com a decisão bem firme de não desistir, de não arredar pé e vini, vidi, vinci. E por que se submeter a tanto sofrimento e dificuldade? Bueno, a dureza do desafio que parece insolúvel contribui para aumentar a temperatura desse caldeirão, desse crisol, onde se forja o homem do amanhã.

E para falar a verdade, difícil mesmo tem sido aprender mandarim (rumos da indústria da tecnologia apontam para a China).

Além disso, a vida sem o seu próprio emulador do Intel 8080 não é tão excitante quanto ela poderia ser. A qualquer interessado na empreitada, me guiei basicamente pelo Emulator101.com e o foco, agora, é converter o código para C#, quem sabe compilar uma versão para Android. Por quê, você pergunta? Razão nenhuma. Só sei que pode ser divertido.

E, para falar a verdade, essa sequer é a grande boa notícia do dia porque terminar o 8080 Monitor, embora seja um exercício sintomático dessa nova maneira de encarar a vida, é algo bem menor na grandeza das coisas boas que eu, hoje, recebo na minha vida de braços bem abertos.

"It's a new dawn, it's a new day"...


quarta-feira, 17 de maio de 2017

Manual de Desesperança

E eu digo que o que mais me assusta nessa história, nessa loucura, é que são já seis meses. E seis meses é tempo demais para que sentimentos fracos e sem propósito esmoreçam, para que o ânimo acabe, para que as verdades frias e duras cortem fundo na carne, tempo mais que suficiente para que a distância, a indiferença, o desinteresse, enfim, se assentem na alma, nessa essência nossa que diz o que somos e como somos perante a vida, e passem a martelar, sem trégua, que acabou. Que não era nada disso, que era tudo um engano, que foi melhor assim, que, veja só, eu sobrevivi e, agora, já fico aqui do meu canto sem sentir nada por você. Até logo e muito obrigado.

Mas não tem sido assim, ao menos na minha metade do muro, e eu não sei explicar o porquê. Porque esforços não faltaram no sentido de dar ao juízo essa folga, o conforto dessa certeza, de instruir o coração dessa acidez corrosiva da velha máxima do “quem não te procura, não sente a sua falta e quem não sente a sua falta, no fim das contas, não te ama”. Houve lutas, houve conflagração, houve esforço, houve cinismo, houve dúvida, houve razão, reflexão, muito amor próprio e, sobretudo, houve tempo e distância e, ainda assim, tenaz, segue no meu coração essa qualquer coisa que chamamos de amor e saudade, temperada com os contornos da esperança, do carinho e da felicidade leve, leve de entender o que sente e aceitar os fatos.

Me esconjuro, mas não tenho mais recurso, e tento conviver com a verdade do que eu sinto e, de minha parte, venho sendo bem-sucedido porque há paz na admissão da beleza de um sentimento tão resiliente, ainda que, em última análise, inútil. Há uma alegria em ser capaz de reconhecer essas coisas, de entender como elas funcionam, de poder dizer que ama uma pessoa à essa intensidade. Eu, hoje, não luto mais contra o que eu sinto, eu aceito, eu vibro com a vida, eu me deixo em paz, sentindo só coisas boas, na esperança de que, eventualmente, me canse; mas na torcida de que não, de que esse amor todo não seja em vão. E nesse tênue equilíbrio, eu vivo feliz porque eu me recuso a sofrer. Se o preço para matar tanta coisa bonita são lágrimas, ódio, se é a depressão, prefiro viver iludido, cultivando apenas coisas boas porque sentimentos bons me deixam leve, calmo, me pacificam e eu gosto de sossego.

Mas são seis meses de escuro, seis meses em que brilha, sempre fugidio e distante, aquele farol que me ilumina o rumo, como que me conduzindo novamente a todas essas coisas, à ela, sempre. Mas toda vez que persigo aquela luz elusiva, acabo eu encontrando o mesmo ponto de saída dessa verdade inescapável do que eu sinto e de que eu não tenho mais nada para fazer. É tão frustrante, é tão triste essa mistura de vontade e de impossível, de querer dizer tantas coisas, mas não poder por instinto, por medo, por necessidade de sobrevivência. E nessa espera, antes de começar a vagar por esse escuro em busca de tropeçar com algum vestígio dela, me confronto com o fato de que, nesse universo sem luz que abandonamos, fico eu sozinho.

Não posso mais dar murro em ponta de faca, porque dói e corta a alma esse esforço que não é mais humanamente possível. Porque são seis meses. Seis meses de desencontro e de uma bobagem, seis meses lutando contra a maré vermelha do que eu sinto, seis meses me convencendo da inviabilidade de algo que o coração, que agora deu para arquiteto, planeja e edifica em sonhos e planos que muito me dão, ainda, o que pensar (dia desses, apagava uns arquivos, e achei o Grande Plano, The Tertuliano* and Maria da Paz* Conspiracy, que escrevi em fevereiro, 18 páginas, tinha até planilhas com previsão de quanto devíamos poupar em x meses para compra de um terreno de y alqueires, tinha o meu projeto de empresa, dependendo da cidade que escolhêssemos. Foi uma das coisas mais incríveis que eu escrevi na vida; contingências, soluções projetos, técnicas de diálogo e de desenvolvimento de intimidade, estava tudo lá. Eu imprimiria esse documento em papel nobre, guardaria num baú e o mostraria aos meus netos: "vê? Aqui, foi aqui, nessas páginas, que eu e sua avó começamos a construir essa casa"). É tempo demais e se fosse mesmo todo esse sentimento incidental, eu não teria mais amor nenhum para confessar, mas mesmo assim, está tudo aqui, estão todos aqui suspirando possível, suspirando vá, suspirando fale, suspirando, grite.

E se são seis meses de frieza, distância, de especulação e ausência, de incerteza e incompreensão, e mesmo assim se agarram em mim esses sentimentos, que força mais eu tenho para vencê-los? Quero mesmo vencê-los? Devo mesmo vencê-los? Não passei eu a vida toda em busca de exatamente esse tipo de lucidez sobre a vida e o que vai no meu coração para, justo agora, despejar tudo no ocaso das desistências? Quem sou eu, em resumo, para brigar contra um amor que, a despeito de tudo que eu tentei, vive forte no meu coração, generoso, capaz de perdoar e disposto a recomeçar, todo bem-dito dia, essa rotina?

Vivi sob a ilusão de que, uma vez sabido do fim, tudo passaria: mesmo o coração não teria mais argumentos para manter essa loucura, esse amor maluquinho, vivo e firme, essa saudade louca que cresce. Além disso, a certeza do fim, do ponto final dessa história, combinada com os esforços sinceros que fiz no sentido de prevenir esse desfecho pareciam ser as armas derradeiras para cortar a cabeça desse monstro, e é ou não é monstro?, que cresce dentro de mim. Afinal, enquanto eu usei o tempo que ela escolheu para melhorar, para crescer, para me construir, para me preparar para a vida ao lado dela, sempre a esperando; ela optou por me esquecer, pela frieza, indiferença, por me deixar.

Mas não. Não acaba. E não esmorece, e segue comigo.

Não há nada que pareça dar jeito. Há, ainda, uma força que mantem tudo vivo, como se houvesse esperança, como se os possíveis que meu coração arquiteto pensa estivessem ao alcance, como se eu fosse correspondido. Há uma força que me diz para ir, para buscar, para fazer algo, para dizer que não há remorsos e ressentimentos, que portas, coração e futuro estão abertos à nossa espera. Há uma força que tenta me convencer de que não há impossíveis, que o que não é possível nessa história é que eu tenha ficado com a metade que não morre nunca desse amor todo, que não há a menor possibilidade de justiça no universo se, do outro lado desse muro, não estiver aquele coração mais ou menos pulsando o mesmo tipo de paradoxo. São seis meses! E, que fique claro, eu não sofro por conta disso, eu fico é intrigado, maravilhado até, porque se deparar com um sentimento tão forte por outra criatura, tão verdadeiro e singelo, é raro, há quem passe a vida sem amar, e eu dei essa sorte absurda. O amor engrandece, e esse que eu carrego comigo, ainda que tristonho pelas suas impossibilidades, é do tipo que me põe em perspectiva diante da enormidade das coisas a que nós, humanos, pessoas comuns, estamos expostos, à grandeza de coisas que dignificam a existência e dão sentido a essa aventura, estranha e desesperada aventura, de átomos, moléculas, matéria, enfim, que se organiza assim e assim, dali a pouco começa a articular sons, quando vê está fazendo pensamentos complexos, mais um pouco sonha, e não passa nada, e está amando, sentindo um amor que, sem sombra de dúvida, é especial e, ainda que abstrato e sem substância física, maior e mais poderoso do que a criatura que o sente, que o mantem, que o tenta matar, que se esforça para compreendê-lo num esforço que, se não inútil, é completamente inviável: somos pequenos demais para a grandeza absoluta de certas coisas que nos envolvem. Tem uma majestade esmagadora todo esse oceano caudaloso de coisas boas que eu sinto por aquela pessoa e essa percepção, ainda que redentora, me intimida: eu nunca vou saber expressá-la em palavras de forma a explicar como me sinto, o idioma é tão limitado nas possibilidades, e nunca mais vou ter a chance de tentar fazê-la ver as coisas como eu as enxergo, sentir o amor que eu sinto num esforço, desesperado como tudo mais nessa quadra da vida, de fazê-la, se não sentir algo parecido, ao menos compreender que nós dois juntos, essa união que não houve, somos como um tempo, uma celebração da vida, uma celebração desse mistério que aniquila qualquer vã pretensão de frieza e distância de que nós dois somos uma forma do universo amar a si mesmo.

Eu sou, antes e acima de tudo, grato por esse amor todo.

Meu maior risco não é a perda do equilíbrio, que eu ando mais forte, não é a tristeza, eu me recuso a sofrer por quem não me quer, meu maior medo é sucumbir ao que eu sinto, é correr atrás, é perseguir essa ilusão, é não me conter, é ir em busca de uma pessoa que, infelizmente, já não me ama mais. Meu maior risco é por o coração na frente da mente, é não me comportar com razão, é me submeter, aí sim, a sofrimento por pura ingenuidade. Meu maior risco é não apaziguar essa paixão, esse amor maluquinho que me quer lá, que quer acreditar que eu tenha qualquer retórica sentimental para dizer a ela que tudo está a nosso favor, que sente-se aqui na minha frente e entenda, por favor, que há jeito para tudo, me permita explicar, você vai entender, que não é pressa que eu tenho, tempo se arranja, o que eu tenho é urgência. Entenda que eu não tenho mágoa, que eu te recebo na vida de braços abertos, que eu entendo, e o que eu não entendo, eu perdoo, porque amor é a generosidade que temos com as falhas do outro na certeza íntima de que é essa generosidade que nos torna análogos, solidários, unidos e compreensivos. Sente-se, me ouça, abra seu coração, e entenda. Diria que essa minha intensidade toda é trunfo, não é para assustar, que eu já morri de medo dessa mesma coisa, especialmente se viesse ela toda de você, mas que hoje eu entendo, sentir intensamente essas verdades dá força, dá clareza, energiza a mente, purifica a alma. Que eu derrubo a minha metade do muro, você derruba a sua, nós conversamos e começamos tudo juntos porque nossos erros todos não foram fruto de maldade, de falta de carinho, de falta de amor, de infidelidade, de todas as monstruosidades que se comete por aí. Que, se depois de seis meses, ainda é tudo isso, então toca a viver e dar a esses sentimentos a vida que eles buscam, porque nada assim é grande e intenso por acaso e que me angustia lutar contra coisas tão fortes, ser artífice da morte de tanta vida.

É essa tensão entre esperança e paixão que me faz pensar que não há justiça num universo que permite que uma criatura sinta essa dimensão de sentimentos por outra sem ser correspondida, que é preciso que, no meio da aleatoriedade caótica da existência num universo vasto, infinito e indiferente, uma coisa precisa ser sagrada e inviolável, uma coisa precisa ser exceção, uma porção da vida precisa funcionar, precisa ser justa, ser equilíbrio, e essa coisa só pode ser amor, e se assim é, então não fazer nada é o mesmo que fazer tudo para sepultar esses sentimentos: um tipo de crime, de sacrilégio, de atentado.

Mas, em socorro desse meu coração maluco e sempre disposto, vem a mente. Há um equilíbrio presumido no universo que diz que para cada positivo há um negativo. Então, se há esse amor todo comigo, por certo, em algum lugar, se esconde a mesma proporção de ódio. Tivesse eu sorte, esse ódio e indiferença estariam todos no peito de um alienígena a milhões de anos-luz daqui. Mas, que sorte desgraçada essa a minha, porque o oposto do que eu sinto foi crescer justamente na mulher que eu amo.

São seis meses. Fossem imaturos, fossem comuns, fossem fracos, esses sentimentos não tinham atravessado as primeiras semanas, não tinham resistido a nada.

domingo, 14 de maio de 2017

Rádio: Willard Grant Conspiracy - Color of the Sun

"... someday you'll remember"...

sábado, 13 de maio de 2017

Silver Linings Playbook

Em 2017, eu me prometi um ano diferente, custasse o que custasse, doesse o que doesse, fosse o que fosse, 2017 não seria ruim, 2017 seria começo, 2017 seria avanço, progresso, vida e batalha. No alvorecer do dia primeiro desse ano, eu jurei de amor que tudo seria diferente, novos caminhos seriam perseguidos e novas formas de pensar, de encarar a vida e de resolver os problemas seriam implementadas. Velhas qualidades resgatadas do fundo do baú e uma porção de vícios, erros e costumes ruins acabariam. Não tenho baixado a guarda nessa construção e persistência, meus caros, paga: as coisas se endireitam, você sorri mais, se preocupa menos e a vida, ah a vida, encontra formas curiosas de ajeitar as coisas.

Porque agora eu deixo. Antes, eu entrava em queda de braço com a realidade. E sempre saia perdendo. Não era uma questão de sabotar-se, mas sim de ser incapaz de reagir, de devotar a mesma paixão que eu tenho pelos meus sonhos, ideais e sentimentos às coisas, às durezas, aos sacrifícios, às incertezas. Hoje, eu não sou mais meu inimigo.

Talvez os três pilares desse novo momento na vida sejam: se conhecer bem e ser absolutamente honesto com o que sente, valorizar-se e reconhecer suas qualidades, colocando-as a serviço dos planos e, por fim, encarar as dificuldades com leveza, sem lamentação. Bater no peito, olhar as perspectivas, respirar fundo e fazer. Tentar e desistir somente quando esgotadas todas as suas possibilidades, ou quando no limiar do absurdo e da falta de dignidade, desses três, o que vier primeiro.

Abre parêntesis. É possível, vejam bem, eu disse possível, que estudar Lógica Matemática tenha qualquer coisa a ver com a situação. É incrível. Mas é possível que tenhamos, enfim, encontrado o assunto matemático, que transcende as operações básicas, e que se ensinado a um sujeito normal, pode realmente fazer a diferença na vida do indigitado. Ainda não tirei minhas conclusões. Mas matemática nunca é demais, atrapalhar é certo que não atrapalha. Fecha parêntesis.

Eu pensava nisso, sobretudo como essa perspectiva mais positiva perante a vida tem me ajudado a escapar ileso de problemas, e me feito mais forte, o que não mata acresce na minha casca, e eu sou cascudo; tudo indo de encontro ao que pode até mesmo explicar o sucesso das minhas novas empreitadas. Como oportunidade de emprego beliscando, bem do meu jeito, trabalho remoto via Internet. Perspectiva alvissareira que me deixou contente e me levou a fazer algo que eu vinha adiando há algum tempo: um balanço desse ano que ainda não está na metade.

- Perdi 14 quilos
- Resolvi colorir o cabelo
- Nova faculdade e a nota mais baixa do primeiro bimestre foi um B
- Emocional em dia e em compasso com a Razão
- Novos círculos de pessoas

- Acampei e fiz uma porção de novas trilhas
- Sentindo-se bem em aprender coisas novas
- Escrevendo MUITO mais do que em anos
- Duas ideias ótimas para livros e que me desobrigam das minhas obsessões com História
- Cicatriz vai sair em disco

- Metas claras e muito mais tranquilidade

E a lista de afazeres, de coisas para resolver e conquistar, só cresce. E isso não me assusta, isso me anima, isso me empurra, porque a minha pressa é boa, é uma pressa de urgência, não de temeridade: é a pressa de quem imprime ritmo à vida, mas caminha com calma ressabiada porque as armadilhas estão por todos os lados. Curso de marcenaria, que não vou eu, um reles curioso, roubar vaga de quem precisa de profissão, e encontrar uma arte marcial que substitua o boxe, que infelizmente todos só querem saber de MMA, são as minhas próximas urgências. E eu preciso de novas paixões, porque o meu coração é enorme, e eu que sou feito de exageros e idiossincrasias, sou movido a paixão, então eu preciso me exagerar um pouco.

E, claro, nem tudo dá certo só porque você decide que tem que dar certo. 2017 também já coleciona seus pequenos fracassos, mas aí entra a capacidade de, resiliente, ver o lado bom das coisas e de encontrar paz nas verdades que você precisa assumir em foro íntimo. Em geral, nesses casos, reflexão e honestidade consigo mesmo vão mostrar que você fez tudo que era possível dentro das suas possibilidades e dentro do que as circunstâncias impostas a você pelo contexto e pela vida. Não tem remorsos quem lutou pelo que quis com boa vontade e honestidade para com o que sente e isso liberta e abre o coração para o novo, que sempre vem.

Coração espartano

Eu acho muito curiosa essa minha mania de precisar falar tudo, mesmo quando não devo, essa minha tendência a achar que as pessoas, de alguma forma, vão valorizar o que eu digo de mais sincero simplesmente porque eu sempre presumo que todos têm uma empatia natural pelos sentimentos que eu exponho. Mas, verdade seja dita, nem sempre é o caso, quase nunca é o caso, porque, no geral, são as pessoas mesmas que nos instigam a esses grandes sentimentos que nos impedem de vive-los. Eu devia calar mais, devia falar muito menos, devia lutar pouco e ser mais racional. Mas eu não sou, eu nunca sou.

Se você estiver mesmo comprometido com os seus valores e com os seus grandes projetos para a vida, isso não chega a assustar porque chega uma altura em que, ou você aprende a contornar esses vícios, ou então resolve mudar dramaticamente de comportamento – o que é muito difícil. Eu consigo me encher de ótimos argumentos para mudar coisas ruins, porque, bom, elas são ruins, mas algo que eu vejo como inocência é difícil de desarmar.

E é difícil porque eu gosto de me entender. De processar, de falar como eu me sinto, de dizer, mesmo, o que vai lá no fundo, sejam nas páginas secretas de um outro blog, sejam nas desse, sejam nos rascunhos que eu guardo por aqui. Nos quilômetros e quilômetros de textos que eu escrevi, li e apaguei como forma de terapia, de paz, de aceitação e de reconstrução. É difícil mudar porque eu gosto do meu conflito interno, é difícil porque, no geral, eu tenho lado toda vez que as minhas metades pegam em armas: em geral, eu sempre torço para o coração.

Eu gosto de não me esconder do que eu sinto, de apaziguar as facções que, no meu interior, escaramuçam, travam batalhas históricas e tentam puxar o pêndulo de Foucault das minhas escolhas para o lado frio da razão, ou para o lado emocional, cheio de pureza, dos meus sentimentos de menino.

Eu poderia arbitrar todos esses conflitos, criar uma Otan para cada metade, poderia instituir uma ONU para ter um Conselho de Segurança que se esforçasse para criar mais consenso e menos conflagração. Eu poderia armar os dois lados com ogivas nucleares, tudo com o incerto intuito de impedir conflitos, sempre nessa obsessão pelo consenso, e viver dessa forma tão bobinha, que parece encantar toda as outras pessoas, de se impor perante seus próprios conflitos, não ouvir nada do que sente e reagir de forma embotada diante dos desafios da vida bandida.

Mas consenso, ao menos no que tange o eterno e terno rebuliço das minhas emoções, é algo ruim: me impede de observar, de sentir, de me conhecer, de me ver como eu realmente sou, como eu realmente funciono, o que é que faz o meu sangue correr quente pelas veias. No conflito, eu depuro tudo e, no meio dos escombros de cada uma das lutas, só sobram as verdades universais que bombardeios, peças de artilharia, demolição, explosões, metralhadoras e as inclemências gerais das batalhas não conseguem destruir. A cabeça sempre entra com vantagem nessa eterna guerra, mas sempre perde. A mente não quer reconhecer verdades, quer destruí-las e desmenti-las. O coração quer que as verdades sobrevivam e que os sentimentos governem tudo. E que bom que é assim, que esse coração guerreiro me lembre sempre, sempre do que eu sinto.

Eu morro de amor pelo meu coração, guerreiro espartano.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Epifania 2

... e tudo dá, tudo pode, porque nós temos tudo ao nosso favor: os sentimentos, a vontade, a clareza do que é a vida, os sonhos, os valores, os princípios, nós só precisamos um do outro nessa deliciosa aventura de se aprender, de por paz, de dar um ao outro o afeto e o sossego que nós precisamos. Eu queria te contar como eu tive essa epifania, o que fiz e onde fui, por onde estive e a que não me permiti, queria dizer que nesse verão que vai acabando morre no meu peito e me deixa acalorado, porque aqui fica, aqui sobrevive o amor que é feito de calor, esse amor apaixonado que eu tenho, que é tão você, que é só você, que é por você. Esse amor que me lembra das suas mãos, tão impossíveis, dos seus olhos, tão adocicados, dessa pele, que é delicada como a primeira pétala da primavera, o jeito que o teu cabelo cai quando você o prende, o teu acordar sensível, ah que medo, e dos seus gostos, dos seus jeitos, da sua voz, dessa verdade irremovível do que eu sinto, do que temos, do que podemos, do que devemos.

Eu queria criar uma nova forma de linguagem, inventar o nosso idioma, porque aí a barreira das ideias que se diluem na torrente de palavras vivas e mortas não estaria no meu caminho, aí eu poderia, enfim, te mostrar, te dizer, te fazer entender. Eu poderia versejar sem medo, compor sem receio, escrever e te falar sobre as coisas todas, sobre os dias, as noites, sobre as idas e vindas, sobre as vidas remidas, sobre as vidas abortadas, sobre as desistências e vitórias. Eu poderia, à força das nossas palavras, te explicar e mostrar do que é feito esse meu coração, esse meu jeito, essas minhas epifanias, essas minhas cismas. Você me leria, porque eu deixo, eu peço, eu quero, eu preciso da sua leitura do que eu tenho, do que eu te ofereço, do que eu te entrego. Eu poderia dar ao meu corpo e ao meu peito essa coragem, essa coragem que anda me faltando, essa de atravessar esse muro e cair, cair no lado de lá e te contar, do começo ao fim, sobre esse mistério da minha Epifania, desse meu jeito de te amar e me apaixonar por você o tempo todo, como se eu fosse um paradoxo do tempo, do eterno retorno, do amante que se apaixona, e que ama, se apaixona, ama, apaixona, amapaixona para sempre.

Eu te quero, te quero como quis naquela viagem, te espero como te esperei ansioso e impaciente por aqueles dias de agosto e setembro que me diziam que algo, algo grande, algo de importante estava para acontecer, te espero porque é hora, é hora de ir em frente, de sairmos os dois unidos desse mês de setembro, esse mês de setembro que durou quatro anos. É hora de correr a vida, é hora de fazer os planos, é hora de abrir as portas, de fechar as estradas e construir as nossas veredas porque nunca estivemos tão prontos, nunca foi melhor a hora, nunca foram mais fortes os meus sentimentos, nunca fui eu melhor pessoa que agora, essa hora preciosa. Esse tempo que, nosso, vira futuro.

O meu coração espartano, que se movia como corsa, que fugia a cada investida sua, desistiu, ele baixou as armas, esse meu coração espartano, enfim, reconheceu que não é derrota, que amor é a vitória. Vitória que você sempre teve, porque você chegou antes, você viu antes, você entendeu antes, você quis. Quando eu te vi sorrir ao meu gracejo, quando te disse que tinha me apaixonado novamente, que falei mesmo sem pensar, sem perceber, e vi no seu riso timidez, vi no riso graça. Lembro de encarar os seus olhos do outro lado da mesa, ah que demora essa comida, a que pouca coisa esse vinagrete, ah mas que delícia essa nossa companhia. Tudo me preparava, tudo ensaiava o palco, tudo colocava as peças no lugar porque dali a poucos dias, nós faríamos aquele passeio da cachoeira, e eu de lá nunca mais voltei, é como se tivesse por aquela trilha ficado a perambular, na busca desse momento fugidio, dessa minha atávica incapacidade de articular, de lhe pedir que espere, que ouça com atenção, olha que coisa maluca que me aconteceu, não dê risada, não, não é engraçado, que é bom, mas não é necessariamente engraçado. Ah, o que eu faço? O que que eu faço agora, logo agora, que descobri que eu amo, que eu amo nós dois?

Na vida simples dos seus amigos, eu arquitetei a nossa, nos vi sob o mesmo teto, dividindo contas, fazemos uma conta conjunta, eu viro o seu companheiro e tocamos a sua empresa, e nós pensando no cardápio, falando dos planos do feriado. Neles eu nos vi, caminhando os dois em compasso, um passo de cada vez, que a estrada vai ser longa, mas que bom que vai ser longa, porque se é longa, é mais tempo ao seu lado. Eu pensava, do meu jeito bobo, que as coisas estavam se encaixando: eu já tinha tempo de voo ao seu lado, eu estava melhor, mais atento, eu queria de 2017 o começo, o começo a que nos propomos. Eu sonhei em te fazer surpresas, ah essa vida que não tive, eu vivi de planejar nossos retiros, de descobrir e rir das nossas manias, eu te contava do curso de massagem que fui fazer para te agradar. Quis matricular a gente num curso de marcenaria, num de jardinagem, quis aprender da vida contigo. Eu quis ser cão de guarda dos seus cachorros quando você viajasse, eu queria te dizer que nesse ano, meu bem, nesse ano nós construímos a nossa vida e eu quero a sua mão, você toda, toda no meu futuro, nessa hipoteca nossa de planos, de sonhos, de tantos desejos e desse amor maluco. Diga a todos que eu caso. Que eu sonhei que nosso filho chamava Raul, há anos, mas morria de medo de te contar. Eu ia folhear as páginas surradas dos meus cadernos ao seu lado, eu me embrenharia nas durezas daquele seu projeto e faria aquele programa. Eu me vi naquela rotina, a doce rotina, de quem se arrisca, de quem procura, de quem divide, de quem quer mais da vida e de quem sabe com quem.

Lembro daqueles quilômetros que percorremos, das músicas, Tom Jobim, das conversas, que falta me fazem aquelas nossas conversas, que ninguém odeia o Serra com tanta paixão, das descobertas, das placas de vende-se se insinuando a cada curva, cada pedaço de chão com mato e isolamento e boas vistas se exibindo aos meus olhos, esses meus olhos que só tinham você, esses meus olhos que cantarolavam e que te procuravam, esses meus olhos que queriam falar com os seus, ontem, hoje e sempre. Que sufoco, que aperto de saudade, que aperto dessa minha loucura, mais uma, que vai comigo, eu sei que vai, como eu sempre soube que iria, como eu sempre tive medo que iria, até o fim, até para aquele para sempre em que você não vai estar porque, se hoje só te amo, aí eu me aflijo, porque logo eu me reapaixono, enquanto você me anexa e esquece. E o ciclo não acaba, porque meu coração espartano é difícil de dobrar, mas uma vez batido, ele é fiel.

Lembro daquelas estradas e da minha vontade, sempre que meus olhos encontravam você, de te abraçar porque eu não cabia em mim de alegria. Eu tinha, ali, com aquele volante nas mãos, 120 km/h, todas as respostas, porque eu venci, eu tinha achado você e você tinha me achado. Eu queria tanto ter podido baixar a poeira desse vendaval de sensações e de intensidade para chegar do seu lado e te dizer que tive uma epifania, que eu vi a gente no futuro, que eu quero e sei por onde começar e que, contigo, eu vou pra onde for, porque a minha casa, a minha morada, passa a ser onde quer que você estiver com o meu coração. E que não vou embora, mulher, deixa de coisas, deixa disso, não vai embora quem chegou onde queria, não vai embora quem se vê rodeado de caminhos que só levam ao mesmo destino, você.

E é quase carnaval, e nunca tive um carnaval contigo, que azar, que tristeza, que falta de coragem, que sem jeito. Tenho essa vontade vulcânica de andar e correr, de te encontrar, de te dizer, de te mostrar a novidade, de te falar do meu jeito, da minha vontade, de te explicar, de te instruir nesse novo idioma.

Não há palavras, e eu odeio essa expressão, mas é a que cabe, não há mesmo palavras que abracem o sentido amplo e desordenado desse caos em que estão as coisas nossas, os meus sentimentos em desordem, esperançosa desordem, como que se negando a ordenarem-se, a entrarem em arranjo disciplinado e controlado, a se abrigarem no catálogo ontológico da estante da alma, formassem todos eles uma lógica só nossa, em que só a nós cabe interpretá-los. Que meus sentimentos são todos teus, ficam todos eles pelo chão, te esperando chegar e escolher entre eles, o que vai ser seu, o que vai usar, qual deles você vai levar consigo.

Nessa bagunça íntima, tão minha, tão você, a desordem tenta ser estratégia, o meu silêncio e resiliência tentam me fazer de forte, a minha fé no que você sente vai escrevendo no caderninho desses fiados que a gente faz assim que diz que ama, que investe a paz e o que sente na outra pessoa. Na minha epifania, na mesma medida em que foi libertador entender que me apaixonei por você depois de ter te amado, a vitória maior foi perceber que esse ciclo de amores e paixões por você durariam uma vida toda, que tudo é descoberta, que tudo me encanta, que tudo me absorve nesse caleidoscópio de delícias que é a vida, que são as suas cores de aquarela nas minhas formas, que você me rouba os contornos, você me define no tempo presente, no tempo futuro, você me resgata do passado, que eu vivo agora pelo presente e quisera eu viver conjugado por você, feito verbo, em todos os tempos e em todos os espaços porque, ah, é fortuna demais essa minha de ter conhecido você nessa imensidão dessas duas metades do tecido de todas as coisas. A maior derrota dessa minha epifania foi ter sido tardia, foi não ter sido na nossa língua, foi não ter tido tempo de te arrastar para o vórtice ensandecido do amor que eu sinto.

Minha epifania me prende, também, ironia, porque na mesma medida que me liberta, ela me sequestra, ela me lembra sempre, ela faz com que eu sinta, com que eu ame, com que eu apaixone, com que eu lembre, com que eu espere, com que eu recorde, com que eu torça, com que eu busque, com que eu melhore, com que eu te perca, com que eu não me ache. Eu te amo a perder de vista.

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Opportunity successfully seized

"I used to believe, although I don't now, that growing and growing up are analogous, that both are inevitable and uncontrollable processes. Now it seems to me that growing up is governed by the will, that one can choose to become an adult, but only at given moments. These moments come along fairly infrequently - during crises in relationships, for example, or when one has been given the chance to start afresh somewhere - and one can ignore them or seize them.”

Nick Hornby, em "Fever Pitch".

Só prova que eu devia ter menos reservas quanto a reler alguns livros.

E dado o tipo de literatura de Hornby ("Uma Longa Queda", alguém?), não me espantaria se ele tivesse tirado suas conclusões sobre amadurecer a partir de experiências de vida similares as que eu tive, a partir de uma percepção dessa desgraça que são os ideais inatingíveis de masculinidade e seus efeitos no longo prazo que, em sujeitos como eu, podem espocar na depressão.

Esse tipo de percepção, associada com uma visão muito clara e precisa daquilo que você quer para a sua vida, é o que fortalece nos momentos de dificuldade e na hora de fazer escolhas e de enfrentar a vida. Você passa a honrar o compromisso com você mesmo de não se deixar abater, de não cair, de não permitir que a escuridão volte a assombrar.

Eu nunca esqueci de uma palestra, anos e anos atrás, com o Flavio Gikovate. Eramos todos adolescentes na plateia e ele gastou um tempo enorme dizendo, em especial para os meninos, não amadurecerem como seus pais: à base de paulada e usando referenciais externos. Para que, ao contrário, questionassem seus valores e princípios não como forma de rebeldia, mas para descobrir se eles eram mesmo nossos. Me pergunto, hoje, se algum de nós entendeu o recado e seguiu o conselho.

Eu sei que eu não.

Eu, bobo, pensava que um dos meus maiores compromissos na eventualidade de ser pai seria o de, sempre que ouvisse uma pergunta do tipo "pai, por que o céu é azul e a grama é verde?" eu responderia da melhor forma possível, se tivesse a resposta, ou diria "eu não sei, filho, mas a gente pode procurar juntos essa resposta, o que você acha?" ou "eu não sei e ninguém sabe. Mas você pode crescer e ser a pessoa que vai descobrir essa resposta", para usar como último recurso. A ideia aqui, vejam só a sutileza do meu artifício, é manter viva a curiosidade e ensinar os pequenos o poder emancipatório da aprendizagem.

Mas, hoje, especialmente na eventualidade de ter filhos meninos, incluo um compromisso muito firme de afastá-los desses padrões de comportamento insustentáveis, dessas expectativas monstruosas sobre o que eles devem ser na vida adulta.


sexta-feira, 5 de maio de 2017

Tempo é amor e amor é tempo

Agora eu advogo que a maior prova de amor que se pode dar a alguém é o tempo. É o compromisso inolvidável, abnegado, sério e aberto de que o tempo, a escassez do tempo, deve nortear nossas escolhas, nossas necessidades, nossa vida porque o tempo passa, o tempo voa. O tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, tempo, como dizia o Caetano, é o que mede as coisas e não se dar conta da sua ação, seja positiva, seja negativa, em todas as coisas é ingenuidade. A maior prova de amor que você pode dar a alguém é conhecer o tempo, dizer que, hey, olha só, eu pus o tempo no bolso, ele é nosso aliado, agora vamos em frente, porque o tempo não vai nos destruir e o resto, bom, o resto a gente resolve.

E, se você quiser, você coloca o tempo no bolso e faz dele aliado. É tudo uma questão de percepções, de aberturas, de entregas e compromissos. De clareza a respeito das nossas circunstâncias e possibilidades nessa aventura tão doce que é a vida.

Em algum lugar do código matemático que explica a realidade, eu tenho plena convicção disso, se esconde uma fórmula que relaciona diretamente tempo e amor.

O tempo é a maior prova de amor que você pode dar a alguém porque a vida se faz no agora. Eu descobri que passei anos remoendo, e sofrendo, no passado e isolei completamente meu futuro numa redoma de aço, em que nada real poderia penetrar para não denegrir os sonhos, os doces sonhos, que me acostumei a ter. Mas, agora, desperto, eu desmontei essa redoma e estou submetendo os sonhos todos aos duros testes da realidade: todos vem sobrevivendo porque são as coisas que eu quero, que eu preciso, que eu almejo.

De certa forma, eu sempre levei a vida numa constante queda de braço com o tempo. Eu queria, por vezes, viver no passado. Por outras, eu andava sonhando no futuro. Mas, como forma de proteção contra os meus fantasmas, como reflexo da depressão e das minhas fraquezas, vivia pouco no presente. A percepção clara desses problemas e erros, hoje, dá paz, ilumina. Liberta.

E essas percepções não são vagas. Você pode ver como o tempo é precioso facilmente: aos 32 anos, um ano de vida equivale a 3,13% da sua vida. Aos cinco anos de idade, o mesmo ano vale 20%. Essa matemática ajuda a explicar porque, nessa altura, o tempo parece voar, andar tão rápido. Há um incrível arrazoado na Internet sobre essa escassez interminável, que quando li, me deu um sentido de urgência sobre a minha vida que eu nunca tinha experimentado e que mostra, de forma absolutamente clara, como temos pouco tempo para fazer o que precisamos, o que queremos, para dividir com quem amamos.


E todas essas coisas ajudam a explicar porque eu ando tão apressado para correr atrás do que eu sinto, do que eu desejo, do que eu preciso. De certa forma, ao brigar tanto com o tempo passado, ao amar tanto o tempo futuro e evitar tanto o presente, aprendi que há uma diferença de escala entre essas três entidades: o passado é vasto, amplo e enorme e dá uma ilusão de felicidade palpável, mas é uma felicidade que não frutifica mais, como se fosse uma estátua, ou um animal empalhado. O presente é, só isso, ele existe, mas é adimensional. O futuro, por outro lado, é estreito, apertado e, de alguma forma aconchegante porque apresenta uma felicidade, mas que não é palpável, que não é real, que esfarela na mão se você tentar tocá-la, o que você vive no futuro, se furtando do presente, são ilusões e miragens. O único lugar dos três em que você pode encontrar alguma forma de felicidade verdadeira, real, é no presente, por fugaz, pequeno e árido que seja, é nele que as coisas, de fato, acontecem, é nele que nos apaixonamos, é nele que amamos, é nele que nos construímos é nele, sempre nele, que devemos nos refugiar, por dolorido que isso possa ser.

A realização dessas coisas não vem de agora, vem de antes, mas como tudo na vida, nessa guerra eterna contra a passagem inflexível do tempo, chegou tarde. Assim como o poder da meditação na minha vida e tantas outras coisas doces, agridoces, que esse 2017, estranho, novo, forte e grande vem me trazendo.

Se não tivesse aprendido nada, poderia encerrar esse texto com um chiste, dizendo que “que pena que meu 2017 não foi em 2013, ou antes”. Mas não brigo mais com o tempo, não brigo mais com nada, chega de queda de braço, que agora não moram mais no peito todos os sonhos do mundo: agora mora um relógio cósmico que, em paz, conta os pentelhésimos de segundos dessa existência para que eu viva em plena harmonia e sincronia com as minhas circunstâncias, com o que eu quero, sinto e preciso.


O tempo, enfim, é o meu grande aliado.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Coágulo

Dava
queria
e podia
eu te mostrava
que a vida
se faz paz
que o amor pulsa
e que não há loucura
na luta
que já é vencida.